Laura Theodore é um dessas pessoas que o saudoso Cláudio Coutinho, capitão do Exército brasileiro, técnico da seleção brasileira, classificaria como polivalente. Laura tem um programa de TV na PBS americana chamado Jazzy Vegetarian. Ela é chef vegan, a vertente mais radical. Tem um programa de rádio chamado Jazzy Vegetarian Radio e é autora de livros relacionados à culinária vegan. Foi atriz de musicais e num deles, em que ganhou até prêmio, fazia o papel de Janis Joplin. E mais: canta. Só não planta bananeira.
Costuma-se dizer que quem faz muitas coisas diferentes não faz nada direito. Não parece o caso dessa loira que antes de optar pelo jazz foi até cantora de uma banda de rock. Com tantas atividades, seu lado cantora é bem menos popular do que sua faceta chef vegan. É só pesquisar no mr. Google. Assim mesmo, tem cinco ou seis álbuns gravados, um deles com o (muito bom) guitarrista Joe Beck. É o álbum Golden Earrings, lançado em 2009. Sem conhecer direito Laura, meu impulso de ouvir partiu da curiosidade de ouvir Joe Beck em duo com uma cantora.
Para início de conversa, Joe estava afiado. Sempre foi um grande guitarrista, sem ter ficado conhecido como Pat Metheny ou Pat Martino. Golden Earrings é especial por uma razão triste: foi o último álbum que conta com sua participação; pouco tempo depois, morreu em conseqüência de um câncer na garganta, dias antes da data em que faria 63 anos. É menos especial por Laura, o que não quer dizer que seja má cantora. Pelo contrário: canta muito bem, mas não é nenhuma Sarah Vaughan.
A voz de Laura lembra vagamente a de Marianne Faithfull com menos drogas e cigarros, produtos que devem ser evitados pelos adeptos da alimentação vegana. O que, já na primeira audição, fica evidente que se sente muito à vontade em soltar a voz. Possui uma certa dramaticidade, como na faixa Johnny Guitar, de colorações expressionistas. Não faz feio também em Why Don’t You Do Right, a faixa seguinte, acompanhada por um belo violão de Beck.
Ouça Johnny Guitar.
Não acerta tanto a mão em Take a Little to Smile. Já em Fever, manda bem. Aliás, esta é uma música importante, pois o álbum fora concebido pensando-se nos duos da grande Peggy Lee com o marido guitarrista Dave Barbour. As próximas são My Small Señor, I Get Along Without You Very Well e a linda Don’t Smoke in Bed, eternizada por Nina Simone e que possui um interpretação especial de kd lang. A de Theodore não é melhor do que as duas, mas merece ser conhecida.
As canções que completam o álbum são I Can’t Believe That You’re in Love with Me, Solitude, Everything Is Moving Too Fast, When You Speak with Your Eyes, Golden Earrings, I Don’t Know Enough About You, What More Can a Woman Do? e Mañana. Dessas, o destaque é a música título.
Por esse álbum, Laura Theodore recebeu boas críticas da JazzTimes, Jazz Review e Los Angeles JazzScene. Resumo da história: Joe Beck era bem melhor que Dave Barbour e Laura Theodore, pior que Peggy Lee.
Para se ter uma ideia do quanto 1959 foi bom, listo algumas músicas compostas neste ano: Chiclete com Banana (Gordurinha, Almira Castilho), Desafinado (A.C. Jobim, Newton Mendonça), Dindi (A.C. Jobim, Aloísio de Oliveira), Eu Sei Que Vou Te Amar (A.C. Jobim, Vinícius de Moraes), A Felicidade (A.C. Jobim, Vinícius de Moraes), Brigas Nunca Mais (A.C. Jobim, Vinícius de Moraes), Este Seu Olhar (A.C. Jobim), Ho-Ba-La-Lá (João Gilberto), Minha Saudade (João Donato, João Gilberto), Ela Disse-Me Assim (Lupicínio Rodrigues), Maria Ninguém (Carlos Lyra), Lobo Bobo (Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli), A Noite do Meu Bem (Dolores Duran), Recado (Luis Antônio, Djalma Ferreira), O Samba é Bom Assim (Norival Reis, Hélio Nascimento), Baiano Burro Nasce Morto (Gordurinha), Samba de Orfeu (Luiz Bonfá, Antônio Maria), e Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá, Antônio Maria). Para quem tem a memória lesada a ponto de mal conseguir guardar o próprio número do telefone, seria impossível ter uma lista dessas. Recorro ao mestre Jairo Severiano, autor, com Zuza Homem de Melo do livro A Canção no Tempo – 85 anos de músicas brasileiras (Editora 34).
Pelo que se percebe, o “campeão” do ano foi Tom Jobim. Antes, já havia composto Teresa da Praia, em 1954, com Billy Blanco, famosa nas vozes de Lúcio Alves e Dick Farney, Foi a Noite, com Newton Mendonça, lançada por Sílvia Telles, Se Todos Fossem Iguais a Você, primeira parceria com Vinícius, para a peça Orfeu da Conceição, em 1957, e Chega de Saudade (1958), de novo com o poetinha. Entre uma músiquinha e outra , como diria o poeta embaixador, em 1959, Jobim era autor de seis temas que tornaram-se clássicos.
Jobim compõe e arranja, Bonfá toca
A peça Orfeu da Conceição, escrita por Vinícius, foi musicada pelo então novato Jobim, estreou em 1956, e gerou um disco de 10 polegadas lançado pela Odeon. O francês Marcel Camus, em 1959, resolveu adaptá-la para o cinema. Fez tremendo sucesso, com o título modificado para Orfeu Negro, de maior apelo internacional. Ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e foi premiado com a Palma de Ouro, em Cannes. O produtor Sacha Gordine, querendo ganhar alguns trocados a mais, resolveu fazer uma nova trilha sonora. Fazem parte dela A Felicidade, Samba de Orfeu e Manhã de Carnaval. Luiz Bonfá, autor dos dois últimos temas, com letras de Antônio Maria, tinha participado do disco da peça como violonista. Manhã de Carnaval abriu as portas internacionais para ele.
Ao contrário do que alguns imaginam, Bonfá foi para os EUA antes de Jobim. Viajou para Nova York como acompanhante da cantora Mary Martin, em 1957. Esse movimento se inicia com Carmen Miranda e o Bando da Lua e teve continuidade com a ida de Laurindo de Almeida, que se fixou em Los Angeles no início da década de 1950 e também dos menos conhecidos Los Índios Tabajaras, que conseguiram sucesso relativo na América do Norte. Eram dois exímios violonistas que construíram uma carreira internacional, mas não se vinculam à onda da bossa nova. (sobre eles, leia http://bit.ly/1Fj1iwl)
O sucesso de Manhã de Carnaval levou Bonfá a resolver tentar a sorte nos EUA. Grande violonista e compositor, gravou álbuns pelo selo Verve, um dos principais do jazz, Capitol, Atlantic e Epic. Um dado interessante é de que teve uma de suas composições – Almost in Love – gravada por Elvis Presley. A outra curiosidade é a de que Manhã de Carnaval foi “traduzida” para o inglês com o ridículo título de A Day in the Life of a Fool. Ainda bem que o título original foi preservado posteriormente. A única excentricidade, mas aí devemos responsabilizar as características da língua inglesa, é a de que normalmente “manhã” é grafada como “manha”, o que em português significa outra coisa. Outra aberração nesses casos de equívocos de grafia é Você Abusou, escrita “Voceabuso” e, em vez de ter sido creditada a Antonio Carlos e Jocafi, ter ficado como uma composição de Tom Jobim, em um disco do pianista Tommy Flanagan. É uma coisa que nem a dupla deve ter tomado conhecimento.
Algumas Manhãs de Carnaval
Sem dúvida, a mais bela interpretação desta canção é a de Agostinho dos Santos. Ouça.
Uma curiosidade: Agostinho canta com Johnny Mathis, em programa da antiga TV Excelsior (1964).
Bela é também na voz de João Gilberto.
Ouça com Nara Leão.
Ouça a curiosa versão do grupo cubano Los Zafiros. Essa banda é muito interessante. Segue a onda dos conjuntos vocais que, aqui no Brasil teve como um dos principais o Golden Boys. Leia mais sobre eles em http://bit.ly/1DgSHcH)
O depoimento de Luiz Bonfá contando de como nasceu Manhã de Carnaval (está cortado, mas vale como documento). De quebra, Elizete Cardoso canta a música com acompanhamento de Bonfá.
Até Frank Sinatra cantou Manhã de Carnaval, aliás, com aquele título imbecil: A Day in the Life of a Fool.
Ouça Mañana de … em espanhol, com Natalie Cole.
Susannah McCorkle canta em português.
Manhãs instrumentais
Bela interpretação do brasileiro Antonio Carlos Barbosa Lima, um de nossos maiores violonistas, que há muito mora fora. Sobre ele, leia http://bit.ly/1EENs3q
Veja Baden Powell interpretando Manhã de Carnaval.
Composta por um violonista, Manhã de Carnaval é perfeita na guitarra. Uma boa interpretação é a de John McLaughlin, com Al DiMeola. Ele começa com um trecho de Insensatez antes de entrar no tema.
Outra muito boa é a do guitarrista Jack Wilkins. É uma das minhas preferidas.
Ouça ao saxofone tenor, com Jim Tomlinson, marido de Stacey Kent.