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terça-feira, 10 de março de 2015

A beleza calma de Henry Purcell

Givanna Pessi (esq.) e Susanna Wallumrød

Uma característica da música de Henry Purcell – e aqui não é uma crítica – é a de ser um tanto soporífera. Purcell e John Dowland são dois dos maiores compositores dos séculos XVI e XVII da Inglaterra, além, é claro, de Handel. Numa contagem elástica, são da época de Johann Sebastian Bach, Antonio Vivaldi e Claudio Monteverdi.

Há uma enormidade de gravações dos compositores citados a partir da invenção do gramofone. Antes de comentar If Grief Could Wait, de Giovanna Pessi e Susanna Wallumrød, vou listar alguns bons CDs com a música de Purcell.

1. Dawn Upshaw: White Moon | Songs to Morpheus (Nonesuch, 1996). O subtítulo é sugestivo em relação a obra do inglês. Mas a única de sua autoria neste belo CD é “See, even night”, da ópera The Fairy Queen. Fazem parte dele peças de Monteverdi, Handel, Peter Warlock, John Dowland e de compositores mais atuais como Peter Warlock, Ruth Crawford Seeger, Joseph Schwanther, George Crumb e Heitor Villa-Lobos.

2. Andreas Scholl: O Solitude (Decca, 2010). Scholl é um dos grandes contratenores da atualidade. Para quem não sabe, esses contraltos masculinos têm a origem nos cantores “castrati”. Antigamente, os meninos que tinham boa voz para o canto, tinham seus testículos retirados para que mantivessem a voz infantil. Foi uma prática comum e existiu desde a época anterior ao nascimento de Cristo. Eram os eunucos. Surpreendentemente, apenas no início do século XIX, o Papa Leão XIII proibiu que os castrati cantassem em cerimônias religiosas. (Mais detalhes sobre os contratenores, clique aqui)

O Solitude é excepcional, pela qualidade da voz de Scholl e pelo repertório. Veja-o interpretando a bela Cold Song, da ópera King Arthur.




3. Alfred Deller: Music for a while & other songs (Harmonia Mundi, 1979). Antes da avalanche de bons contratenores como Scholl, Philippe Jaroussky, Bejun Mehta, Gerard Lesne, Franco Fagioli, David Daniels, um dos pioneiros na popularização dessa modalidade foi Alfred Deller. Além da influência – ou exemplo – do inglês, a onda de bons contratenores se deu em razão de surgirem formações tocando peças antigas com instrumentação original, ou seja, semelhantes ao que eram tocadas na época em que foram compostas.

4. Sylvia McNair: The Echoing Air: The Music of Henry Purcell (Philips, 1995). Com a participação de Christopher Hogwood na regência e tocando cravo, com a The Academy of Ancient Music, é um bom disco na voz de uma mulher.

5. Nancy Argenta: O solitude – Songs and Airs (Virgin Classics, 1994). Outra opção feminina. Prefiro Nancy a Sylvia, mas isso é questão pessoal. Muito recomendável.

Ouça “Ah, How Sweet Is to Love”



 

6. Giovanna Pessi e Susanna Wallumrød: If Grief Could Wait (ECM, 2011). Sob um ponto de vista, este álbum é pior que os citados. Visto de outro, é o mais interessante. Interessante por misturar Purcell com Leonard Cohen, Nick Drake e duas composições de Wallumrød. É música do século XVII, XX e XXI com clima de XVII.

Susanna faz os vocais e Pessi toca harpa barroca. São acompanhadas por Jane Achtman na viola da gamba e Marco Ambrosini na nickelharpa, um instrumento sueco. O álbum é bem interessante porque, como disse, tudo tem oclima do século XVII. Cohen e Drake se caracterizam pelo tom melancólico em suas composições, que por isso lembra Purcell. Susanna, em suas composições, vai na mesma toada.

Susanna não é Nancy Argenta e nem Sylvia McNair, mas a afinação e o registro da voz encaixam-se perfeitamente ao projeto. Seu canto tem aquele tom de abandono e melancolia que caracterizam muitas canções e árias de Purcell e também de Cohen e Nick Drake.

Ouça Who By Fire, composição lançada em New Skin for the Old Ceremony (1974).



 
Ouça outra de Leonard Cohen: You Know Who I Am, de Songs from a Room (1969).


 
Finalmente, Music for a While, de Purcell.


 
 
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quarta-feira, 2 de março de 2011

O morto Nick Drake


A primeira vez que ouvi Nick Drake não sabia nada dele. Senti uma atração imediata por sua música. Tinha um quê de desamparo naquelas palavras entoadas, meio soltas no ar à cata de alguma outra dor. Nem lembro como acabei comprando um disco dele. Na capa, um rosto infantil com uma blusa de listras cobrindo seu corpo no meio de uma paisagem verde um tanto fantasmagórica.

Nick lançou três discos: Five Leaves Left (1969), Bryter Layter (1972) e Pink Moon (1972). Em 1974 morreu, aparentemente, por ingestão excessiva de antidepressivos. Era usuário de marijuana e tinha tomado LSD também. Desde o começo de sua carreira ficou evidente sua fragilidade psicológica, passando por constantes episódios de depressão e de insônia.

Filho de um engenheiro de estradas, nasceu na Birmânia e, de uma família endinheirada, frequentou escolas de elite e estudou literatura inglesa na Fitzwilliam College. De personalidade retraída, tinha poucos amigos. Descoberto por Joe Boyd, que se tornou seu produtor, assinou contrato com a gravadora Island, de Chris Blackwell. Vendeu pouco em vida, Vendeu muito mais depois de morto. Deixou clássicos como River Man, Way to Blue, Day Is Done e Things Behing the Sun. Intérpretes da área jazzística como Brad Mehldau, Tessa Souter e Norah Jones gravaram composições de Drake. O brasileiro Renato Russo gravou Clothes of Sand em The Stonewall Celebration Concert (1994).


Ouça River Man.



 

Ouça Way to Blue.