quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Mais jazz que Jazzmeia Horn não há



Como dizia meu amigo: “É uma bela ‘tipa’!” Sempre com turbantes — ou lenços!, não sou um connoisseur de indumentárias femininas — coloridos e vistosos a realçar a beleza que Deus lhe deu, Jazzmeia Horn chama a atenção de qualquer ser normal. Além de ser uma “tipa”, é uma intérprete do jazz em sua expressão mais genuína. Não bastasse, tem esse nome. Não consegui saber se é de batismo ou apenas artístico. Se for de nascimento, seu pai tem o dom da premonição. Se “Horn” for seu sobrenome real, até nesse ponto, o foi sem querer ter sido. Afinal os instrumentos de sopro estão na alma do jazz. Sem o saxofone, raramente utilizado na música erudita, até por ter sido criado apenas no século XIX, por Adolphe Sax, o jazz não teria existido como o conhecemos.

Nascida em Dallas, Texas, desenvolveu interesse pelo jazz desde pequena e teve como ídolo e referência Sarah Vaughan. Estudou na Manhattan's New School for Jazz and Contemporary Music. Nesse período, foi agraciada com premiações da Downbeat Student Music Award. O prêmio maior, entretanto, que abriu-lhe as portas foi vencer o Thelonious Monk International Vocal Jazz Competition de 2015.

Horn é uma intérprete tipicamente do jazz, como Cécile McLorin Salvant, considerada a melhor vocalista da atualidade. Esta ficou em primeiro lugar em todas as categorias que podia concorrer, agora em 2019. Foi a “Jazz Artist” do ano, a melhor cantora do ano, desbancando as veteranas Diane Reeves, Dee Dee Bridgewater, Cassandra Wilson e Diana Krall, no “67th Annual Critics Poll”, da Downbeat. “The Window”, seu mais recente álbum, ficou como segundo melhor do ano, atrás apenas de “Emanon”, de Wayne Shorter.

Jazzmeia Horn foi considerada a sexta melhor cantora do ano. Nem aparece na lista das melhores “rising stars”. Na do ano passado, ficou em primeiro lugar nessa categoria. Sinal de que a crítica nem mais a considera um talento emergente, apesar de ter apenas dois discos lançados.

E é verdade. Horn mostrou personalidade desde a estreia, o que deve ter impressionado os críticos. Como era o primeiro, é provável que o produtor tenha sido preponderante na seleção das que iriam no disco.

Em “Social Call”, evidencia-se a influência de Betty Carter, a começar pelo título, que é um dos seus primeiros sucessos, além de “Tight”, a que abre o disco, ser de sua autoria. O resto consiste de clássicos, como a obra-prima de Jimmy Rowles — “The Peacocks” —, belamente terna na sua voz, “I Remember Ypu”, de Victor Schertzinger e Johnny Mercer, bem uptempo, em que Horn faz scats de gente grande, um medley (“Afro Blue- Eye See You - Wade in the Water”), e outras que servem bem como um showcase de suas capacidades.

Depois de ter ficado evidente seu talento como intérprete, Jazzmeia resolveu mostrar uma outra faceta, a de compositora, algo raro entre os cantores. Das doze, oito são de sua lavra, no segundo disco.Percebe-se que o ritmo do jazz está em seu DNA, não apenas no cantar, mas na construção de suas composições.“Love and Liberation” abre com “Free Your Mind”, puramente jazz. A próxima, nem tanto, mas “Out of the Wind”, outra dela, vai na mesma toada, assim como “When I Say”, a quinta, e a sétima, “Searchin’”. Lembra muito Betty Carter mesmo, sem demérito nenhum. É melhor ser comparada com uma gigante do que com uma qualquer. Jazzmeia intercala canções uptempo com outras lentas. Dentre elas, incluiu “Green Eyes”, de Erykah Baduh que, aliás, de vez em quando, usa uns turbantes vistosos, como Horn. Mesmo em um número pop como esse, predomina a improvisação tipicamente jazz, com um belo solo do pianista Victor Gould. A mistura que Horn imprime, mesclando um jazz fortemente calcado no hard bop, com pitadas de soul, blues e rhythm’n’blues, é poderosa. É o que Cécile McLorin Salvant vem fazendo também.

Só para terminar, um pouco fora desse espectro mais jazz, há um duo com Jamison Ross, romântico e belo. Ouça.





O número final é o clássico “I Thought Abot You”, de Jimmy van Heusen e Johnny Mercer. É bem jazz, com um belo contrabaixo e direito a floreios bem no estilo de Betty Carter. 





Horn é muito boa nos temas uptempo mesmo. Não é fácil alguém com sua agilidade de articular as palavras. Ouça “Searchin’”.