quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Uma relação de amor e ódio com o sax soprano

Joe Farrell no sax soprano
Qual é o seu tipo de saxofone preferido? O seu não sei, mas o meu é o tenor. Por ordem de preferência, vem o barítono, o soprano, e, por último, o alto, apesar de Charlie Parker. Acho que poucos instrumentos expressam o sentimento de quem o toca. O som de Coleman Hawkins é diferente do de Ben Webster, assim como o de Lester Young é do de Dexter Gordon. Com as exceções de Parker, Lee Konitz, Phil Woods, e mais alguns poucos, tendo a achar o som do alto um tanto chato, quem sabe, por culpa da minha aversão por músicos como Dave Sanborn e seus imitadores.

Meu gosto pelo barítono está quase pareado com o tenor. Acho fenomenal o som de John Surman (meu primeiro na lista), Gerry Mulligan, Pepper Adams, James Carter e Ronnie Cuber. Quanto ao soprano, que gostava tanto, com o passar do tempo, deixou de estar entre os preferidos. O Carlos Conde odiava e eu não via a razão. Mas, quem sabe, com a idade, é isso o que acontece. Uma certa estridência do soprano passa a incomodar mais. E hoje, nem tão fã de Wayne Shorter sou mais. Mas, para relembrar do tempo em que gostava muito, disponibilizo alguns números que me deram muito prazer.

Devo ter passado a gostar do saxofone soprano quando ouvi Wayne Shorter tocando no Weather Report. Como filho de uma geração que cresceu no período em que King Crimson, Yes, Van der Graaf Generator, Jethro Tull e Emerson, Lake & Palmer eram as bandas da moda, meu gosto tendia a uma música pretensamente menos “burra” que o rock’n’roll. Não que não gostasse da música dos Beatles ou dos Rolling Stones, mas na típica arrogância de adolescente, o tal do rock progressivo era mais “intelectualizado”, mais elaborado e incorporava alguma coisa da música erudita. Vendo-se hoje, fica claro que era uma ideia tremendamente idiota. As letras das canções de Keith Emerson e Greg Lake estavam no mesmo nível dos “I love you”, “I miss my babe” de tantas bandas de rock ou dos lamentos dos cantores de blues.

Dentro desse processo “evolutivo”, fui “melhorando”, um pouco graças a nova amiga, que conheci no cursinho. A Lu, melhor de grana do que eu, podia viajar para fora e trazer LPs importados, algo impensável para um rapaz da classe média bem média, talvez um pouco melhor do que a tal classe média que o Partido dos Trabalhadores tanto apregoa ter criado. Não sei se ela foi com a minha cara, mas o certo é que ela passou a emprestar-me discos do Soft Machine, uma banda inglesa que tinha dentre seus membros um sujeito chamado Robert Wyatt, cara intelectualizado, cuja família era amiga do poeta Robert Graves, e de uma banda chamada Weather Report. Esses LPs, realmente, fizeram coisas na minha cabeça. Por meio destes, passei a interessar-me pela música instrumental, rotulada então como jazz rock ou jazz progressivo.

O primeiro do Weather Report que ouvi foi Mysterious Traveller. Perdi a conta do número de vezes que ouvi esse LP, mas posso assegurar que passou de uma centena. A canção que mais me chamou a atenção foi Blackthorne Rose. Não que fosse a melhor, mas pelo saxofone soprano de Shorter.

Ouça Blackthorn Rose.




As coisas se encadeiam de um modo natural. De Wayne Shorter e Joe Zawinul a Miles Davis, de Miles a Chick Corea, de Chick a Herbie Hancock, de Miles a John Coltrane, de Coltrane a Duke Ellington – por meio do belíssimo Duke Ellington & John Coltrane (Impulse, 1963) – meu gosto pela música foi andando “para trás”, e sem que me desse conta, tinha virado fã de Ben Webster, Coleman Hawkins, Charlie Parker, Duke Ellington e Charles Mingus.

Depois de conhecer o álbum de Ellington e Coltrane, a mais bela canção do mundo, na minha opinião, passou a ser In a Sentimental Mood. Passei, obsessivamente, a comprar LPs dos dois. Em Live at the Village Vanguard (Impulse, 1963), a única faixa do lado B é Chasin’ the Trane. Coltrane toca os 16 minutos e pouco, sem interrupção, seu saxofone tenor. Fiquei fã de carteirinha. Fui comprando tudo o que encontrava de Coltrane. Descobri o sax soprano de Coltrane em My Favorite Things (Atlantic, 1961).

Ouça a música em apresentação do quarteto, na Bélgica, em 1965.




Nesse meio tempo, em minhas expedições musicais, conheci Jan Garbarek, inicialmente, por algum disco com Keith Jarrett, provavelmente, Belonging (ECM 1974). Fiquei fã do norueguês. Tocava um sax soprano curvo. Depois, enjoei. Peguei bronca. Passei a achar seu sopro um tanto estridente.

Ouça The Wind Up, do álbum Belonging.





Mas quando eu penso no solo mais bonito de sax soprano que eu conheço, acho que é o de Joe Farrell, em Crystal Silence. O mesmo acho para o piano elétrico. É um dos mais belos, com Chick Corea. Confira. Farrell sumiu, mas era bom n soprano, tenor e na flauta.



terça-feira, 28 de outubro de 2014

A filhinha de mamãe Lisa Simone

A capa do álbum All Is Well, de Lisa Simone
Ser filho não é fácil. Ser mãe também, presumo. Agora, ser filho de alguém famoso pode ser um problema maior. Ser filho de um gênio, então, deve ser pior. O artista plástico Baravelli gostava de dar como exemplo Pablo Picasso. Isso, há muito tempo. Seu comentário aconteceu em decorrência do que aconteceu após a sua morte com seus familiares. Complicado é um filho perseguir a carreira de um pai ou uma mãe genial. Aquele drama ancestral do filho que quer ser melhor que o pai fica mais complicado se ele é um gênio. Conclusão: se o seu pai é Picasso, não tente ser pintor. Melhor trabalhar na Bolsa ou virar engenheiro civil.

Na vida, entretanto, vemos muitos seguindo a carreira de seus pais. Decerto, nem todos são gênios como Picasso, então, fica mais fácil. Filhos de atores tornam-se atores, filhos de arquitetos, apesar do desestímulo paterno, resolvem estudar arquitetura, filhos de cantores viram cantores. A escrita de que filhos não conseguem ser melhores pais nem sempre se confirma. Um gênio como Dorival Caymmi deixou rebentos talentosos como Nana, Dori e Danilo. Podem não ser melhores, mas não fazem feio. É insofismável a maestria de Dori como compositor e arranjador e de Nana como cantora. Mas são exceções. Se existem Dori e Nana, existe um Frank Sinatra Jr. que tenta emular o pai, um Mercer Ellington que não conseguiu ser tão genial quanto o pai Duke; se bem que, talvez, nunca tenha sido o seu propósito.

Seria uma surpresa caso surgisse uma filha de Nina Simone cantora. Em uma conta rápida, em 2014, se Nina nasceu em 1933, que idade teria a sua filha? Pelo jeito, tudo aconteceu um pouco mais tarde para Lisa, ou melhor, Lisa Celeste Stroud. Nina tinha 29 anos quando ela nasceu. Ninguém se torna cantor de uma hora para outra, digo, bom cantor. Essa é a surpresa ao se ouvir All Is Well, lançado há pouco.
Lisa e a mãe Nina Simone

Sob o peso simbólico de ser filha de alguém tão genial como Nina, Lisa deve ter pensado bem no que queria ser. Estudou engenharia civil e foi trabalhar na Força Aérea Americana. Eventualmente, enquanto estava baseada na Alemanha, passou a cantar. De volta à América, passou a atuar em musicais. Trabalhou nas montagens de Jesus Christ Superstar e Rei Leão. Fez algumas participações com a mãe e em tributos a ela.

Agora, com 46 anos, lança All Is Well. Já na primeira audição, percebe-se que não é uma estreante inexperiente. Os anos cantando e atuando quase diariamente em musicais ajudaram-na a moldar um estilo, bem diferente do de sua mãe, para a sua e nossa sorte. A convivência com a mãe também deve ter ajudado. Desde que os pais se separaram, Lisa viajava com Nina em suas apresentações pelo mundo.

Uma das razões da boa qualidade desse álbum são os arranjos e a guitarra e o violão de Hervé Samb. Contribuem também as batidas seguras da bateria de Sonny Troupé e do baixo acústico de Reggie Washington. O violão de Hervé lembra um pouco a tocada relaxada de Dave Matthews e encaixa-se perfeitamente com o tom das canções.


Veja Hervé e Lisa em Al Is Well.




Um dos pontos altos é Revolution.




Lisa manda bem nos standards. Veja Lisa e banda em Autumn Leaves.