quinta-feira, 17 de julho de 2014

Miles Davis, Julio Cortázar e boxe

Miles Davis amava o boxe
No Brasil, ditadores, políticos corruptos com ficha suja na Justiça dão nomes a ruas e viadutos. Na falta de legislar pelas suas cidades ficam a colocar em votação bobagens desse tipo de gente como forma de homenageá-los.

Tal costume não é só brasileiro. Amigos, familiares e admiradores reuniram-se na “Miles Davis Way”. Um trecho da 77, entre as avenidas West End e Riverside, passou a ter esse nome no dia em que o trumpetista completaria 88 anos. Não sou contra esse tipo de homenagem, mas não deixa de ser uma bobagem. Mas, ele merece.

Miles, à mercê do talento indiscutível, não era um sujeito dos mais fáceis. Em sua autobiografia, relata que bateu na mulher Francis e não se desculpou. Disse que ela mereceu. Andou dando bola para Quincy Jones, segundo ele. É conhecido também por ter usurpado a autoria de várias composições. Assinou como suas temas de Joe Zawinul, Bill Evans e até de Hermeto Paschoal na maior cara de pau.

O boxe. Miles, apesar de franzino, praticava o boxe. De hoje em dia, assim como as touradas, é um esporte em desprestígio. É considerado desumano e se você confessar-se admirador, será defenestrado de seu rol de amigos. Antigamente, não era assim.

O título de um dos livros de Julio Cortázar é Último Round. Lançado em 1969 pela editora Siglo XXI mexicana, é composto de duas partes, sendo que a de cima ocupa dois terços, e a parte inferior, o terço restante, formando uma “tripa”. Nem sempre a parte de cima (ambas são numeradas) tem a ver com a de baixo. Como em Rayuela (Jogo da Amarelinha), Cortázar propõe um jogo: ambos podem ser lidos fora de sequência. Do mesmo modo, as duas partes de Último Round nos propõem fazermos as “nossas histórias”. À “desordem” física corresponde o conceito do livro: são imagens, colagens, desenhos, fotos, relatos e pequenos ensaios reunidos. Dois anos antes de Último Round havia lançado La vuelta ao día en ochenta mundos, em duas partes também. Tirando partido de sua criatividade incontrolável, “desconstruía”, à maneira dos dadaístas e surrealistas, a começar pela brincadeira sobre o título A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne.

Hoje, na Argentina, há um movimento forte de desconstrução (a repetição aqui é voluntária) da importância de Cortázar na literatura. Resumindo: acham que é superestimado. Se é ou não, a verdade é que esse argentino nascido na Bélgica marcou algumas gerações com suas narrativas inusitadas. É bem estranho isso, ou pode ser a velha história de as novas gerações desejarem “matar” as anteriores.

Logo na página 13, Cortázar descreve o retorno do boxeador Juan Yepes aos ringues, em “Descripción de un combate ou a buen entendedor”. A parte inferior correspondente às páginas 13 e 14 são com imagens do pugilista nocauteado.

No tomo I de La vuelta al día en ochenta mundos, na página 109 (Siglo Veinteuno Editores, 13ª edição, 5ª de bolso, México, 1977), o autor apresenta o texto Clifford, sobre o trompetista Clifford Brown. Era o instrumento que Cortázar tocava. Na página 13 do tomo II, “Louis enormíssimo cronopio” trata de Louis Armstrong, outro trompetista. Logo a seguir (pág. 23) temos “La vuelta al piano de Thelonious Monk”. É sobre a apresentação do instrumentista ocorrida em 1966 em Genebra. Ele adorava jazz e boxe.

Em “Take it or leave it”, trocadilho sobre o famoso standard Love Me or Leave Me, de Walter Donaldson e letras de Gus Khan, em um dia chuvoso se põe a ouvir discos de jazz e reflete sobre os chamados “alternate takes”, mas sente-se um tanto intimidado de escrever sobre esse gênero depois de ter lido uma matéria do semanário uruguaio Marcha, em que um crítico se põe a enumerar as imprecisões de dados discográficos em Rayuela. São gravados vários “takes” e um deles é escolhido para constar nos discos. “¿Cuántos takes habrá del mundo? El editado, éste, no tiene por qué ser el mejor: en su escala, la bomba atómica podria equivaler un día al ’Hold on!’ del Bird [apelido de Charlie Parker], al gran silencio. ¿Pero quedarán otros ‘takes’ aprovechables, después?”

Em “El noble arte” (pág. 124) lembra da luta de Jack Dempsey e o desafiante, o argentino Luis Angel Firpo. Em 1923, Cortázar tinha nove anos, e sua família era a única que possuía rádio nas redondezas do povoado de Banfield. Foi uma noite triste. O menino chorou a derrota de Firpo abraçado ao tio. Logo no início, conta que uma pessoa perguntou-lhe quais foram os grandes momentos do século XX. Sem pensar muito, respondeu: “‘Señora, a mí me tocó asistir al nacimiento de la radio y la muerte del boxe.’ La señora, que usaba sombrero, pasó inmediatamente a hablar de Hölderlin.”

Como Cortázar, quando criança e quase adolescente assisti às lutas de Muhammad Ali contra Joe Frazier, George Foreman. Ali era um fenômeno como lutador e foi figura importante na questão pelos direitos civis dos negros. Campeão dos pesos pesados em 1964, convocado para servir na guerra do Vietnam, recusou-se a ir. Perdeu o cinturão. Era um sujeito polêmico e fez com que milhões de pessoas se interessassem pelo boxe. A luta de Ali e Foreman no Zaire, em 1974, foi um acontecimento midiático. O mundo viu essa luta. Fui apenas um a mais e naquele tempo nibguém era censurado por gostar de boxe.

Não existia tanto esse estigma de ser um esporte violento. Apesar de Argentina e Brasil terem o futebol como esporte preferido, entre os “hermanos” é muito popular, muito em razão de terem tido grandes lutadores como Luis Angel Firpo, derrotado por Dempsey, Oscar Bonavena, peso pesado que lutou contra Joe Frazier e Ali. Era valente. Perdeu dos dois. O maior estilista, porém, foi o ex-campeão dos médios Carlos Monzón. A luta contra Emile Griffith é antológica. Foi considerado o 11º melhor boxeador de todos os tempos, em 2002, pela revista Ring. Mede-se a popularidade de um esporte pelo número de campeões. O Brasil teve como maior expressão pugilística Éder Jofre. E só. Maguila foi apenas um fenômeno midiático.

Os anos foram passando e Mike Tyson era um peso pesado com carreira ascendente. Há muito o boxe não me interessava mais. Despertou-me aquela curiosidade, como tinha ficado por Ali. Os jornais decreviam-no como um novo fenômeno.

A Vania N. tinha convidado alguns amigos para um jantar em sua casa. Naquela noite uma luta de Tyson seria transmitida pela rede Globo. Era madrugada, talvez 1 ou 2 horas da manhã. A TV não ficava na sala. Enquanto todos se divertiam e conversavam, resolvi dar uma escapadinha até o seu quarto, que era onde se encontrava o aparelho de TV. Um amigo botou a cara na porta e perguntou-me o que fazia. “Vou ver a luta do Mike Tyson.” Não lembro bem o que ele disse, mas foi algo como uma censura dizendo-me que “não conseguia entender como alguém poderia gostar de um esporte em que um quer acabar com o outro, batendo-lhe, querendo vê-lo morto.” Senti a maior culpa por estar vendo um “animal”, como Tyson, destruindo o adversário.

Jack Johnson. Em 1970, Bill Cayton estava começando a fazer um documentário sobre a vida de Jack Johnson. Consultou Miles Davis sobre a possibilidade dele compor a trilha sonora. Não apenas aceitou, como escreveu as liner notes do disco.

Jack Johnson foi o primeiro campeão afro-americano dos pesos pesados, em 1908. Miles entusiasmou-se pelo projeto, pois como ele, era negro, gostava de carros velozes, mulheres e era apaixonado pelo boxe. A diferença era a de que Johnson gostava de mulheres brancas, ao contrário de Miles, que, fora aventuras amorosas como a com Juliette Gréco, na hora de casar, preferiu negras. Como Miles, gostava de de se vestir de forma extravagante. Jack também e apreciava a vida como celebridade. Essa vida de Johnson não era unanimidade entre seus pares negros, mormente pela preferência por mulheres brancas.

Quando Miles gravou Jack Johnson, passava por mais uma transformação musical. Depois de memoráveis discos com o quinteto que incluía Herbie Hancock, Wayne Shorter, Ron Carter e Tony Williams, buscava por uma nova sonoridade, influenciado pela música de Jimi Hendrix e pela “invasão britânica” dos Beatles, Rolling Stones e outras bandas. Os primeiros instrumentos a entrar em suas formações foram o piano elétrico e a guitarra. Herbie Hancock, que mais tarde se tornaria uma das pontas de lança do jazz eletrônico, quando Miles pediu que tocasse piano elétrico, recusou-se. Acabou por sucumbir aos desejos do chefe.

Miles in the Sky (CBS, 1968) é o primeiro álbum em que usa o piano elétrico. Timidamente, a guitarra elétrica entra em uma faixa com George Benson. Filles de Kilimanjaro é outro que faz parte da transição, contando com as colaborações de Chick Corea e Hancock nos teclados eletrônicos e Ron Carter tocando baixo elétrico. O duplo Bitches Brew representa a ruptura. Jack Johnson, conceitualmente, não é tão revolucionário quanto Bitches Brew, mas é o mais rock’n’roll do trumpetista. Apresentado por Tony Williams, agora contava com um excepcional guitarrista: John McLaughlin. É dele a contribuição mais rock em Jack. Em certo ponto há um solo belíssimo em tributo a Jimi Hendrix. Jack Johnson, até hoje, é um dos meus preferidos. Já o boxe, não me interesso mais, e não é pelo que outros possam achar de se gostar de um esporte violento como esse. É porque, desinteressei-me, assim como desinteressei-me por um monte de coisas ao longo da vida.

Ouça o álbum na íntegra.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Charlie Haden morre

Natural de Shenandoah, Iowa, Charlie Haden cresceu no meio de uma família musical, em uma fazenda. A Haden Family Band participava de programas de rádio e apresentavam-se em teatros da região tocando música do gênero country e folk. O menino Charlie era um deles. Contraiu um tipo de poliomielite que lhe comprometeu as cordas vocais e os músculos da face. Não podia mais cantar, que era do que gostava. As vicissitudes da vida o obrigaram a mudar os seus anseios. Assim, tornou-se baixista; e não continuou pelos caminhos da folk music. Interessou-se pelo jazz. Em 2008, Haden lançou um disco que resgata essa fase em que participava da banda da família. Arregimentou a mulher Ruth, os filhos Jason e Petra e outros músicos como Bruce Hornsby, Elvis Costello, Rosanne Cash, Vince Gill, dentre outros, para gravar Rambling Boy, um álbum voltado ao folk e ao country.

Interessando-se me jazz, muda-se, em 1957, para Los Angeles e trava contato com o pianista Hampton Hawes. Foi seu início profissional no gênero. Tocou com Paul Bley e Art Pepper, mas tornou-se conhecido mesmo quando passou a tocar com Ornette Coleman. Junto com o texano nascido em Fort Worth, participou da revolução do free jazz.

Em 1967, passou a fazer parte do quarteto de Keith Jarrett. É dessa época o meu primeiro contato com o baixista. Era um quarteto excepcional em que os outros membros eram Dewey Redman e Paul Motian. O primeiro álbum solo dele foi Closeness (Horizon, 1976). Lembro-me até hoje do quanto ouvi esse disco de duos com Keith Jarrett, Ornette Coleman, Alice Coltrane e Paul Motian. Nesse mesmo ano, lançara também As Long As There’s Music, com o fabuloso pianista Hampton Hawes, o músico que procurara ao chegar em Los Angeles.

Ouça Irene, duo de Haden com Hampton Hawes.




Ouça a belíssima Ellen David, composição para a sua mulher à época, em duo com Keith Jarrett.




Ao mesmo tempo em que participava do quarteto de Jarrett, montou o Liberation Orchestra Music, com Carla Bley. Com essa formação, Haden revelava a sua faceta militante. É discutível usar a música como um meio político. Há um certo equívoco em se imaginar que é possível fazer uma revolução assim, a não ser que essa revolução aconteça no âmbito estritamente formal. Mas, antes de comunista militante, Haden era um tremendo músico. Em nome de seu ideal compôs belas canções como Chairman Mao, Sandino, Song for Che, La Pasionaria e For a Free Portugal. Aliás, por sua postura militante contra as tiranias e o colonialismo, foi expulso de Portugal na era salazarista, quando foi se apresentar no Festival de Jazz de Estoril. Teve a capacidade também de, junto com Carla Bley, de fazer arranjos sensacionais a partir de temas relacionados à Guerra Civil Espanhola (Els Segador), a El Salvador (The Ballad of the Fallen), ao Chile (The People United Will Never Be Defeated), a Portugal (Grandola Vila Morena) e com a música de Hans Eisler (Song of the United Front).

Haden tinha, à essa altura, um rol de admiradores e era reconhecido pela crítica como grande instrumentista. Foi por muitos anos o melhor contrabaixista na votação da revista Downbeat, e The Ballad of the Fallen (ECM) foi considerado o melhor disco do ano pelos críticos da Downbeat, em 1984.

Ouça La Pasionaria, de The Ballad of the Fallen.




Ouça Silence, uma das mais belas composições de Haden.




Outra formação importante dele é a série de álbuns gravados com o Quartet West. Nesses discos, deixa a militância política de lado e foca no ambiente noir. São interpretações que evocam os anos 1930/40/50. Os temas são melódicos fincados na grande tradição musical americana. Insere, inclusive, vozes de Jo Stafford, Jeri Southern, Billie Holiday, solos de Coleman Hawkins, Django Reinhardt, Duke Ellington, Stéphane Grappelli, em muitas delas, com arranjos luxuriantes para orquestra de Alan Broadbent, o pianista da banda.

Veja uma apresentação do Quartet West, em São Paulo, no Heineken Jazz Festival, tocando Retrato em Branco e Preto.




Veja o Quarteto em First Song (for Ruth), composta para a sua mulher, desta feita, a segunda. Haden tocava protegido por uma redoma de acrílico devido ao seu problema auditivo.




São importantes também, em sua discografia, a formação que ficou chamada de Old and New Dreams, com Don Cherry, Dewey Redman e Ed Blackwell. São discos vigorosos, de alta octanagem. O melhor deles é Playing (ECM, 1981).

O Old and New Dreams interpreta um dos clássicos de Ornette Coleman: Lonely Woman.




Com uma produção dessas, Charlie Haden fica na história não apenas como um dos grandes baixistas da história, junto com Charles Mingus, Ray Brown e Scott LaFaro, mas como um dos propulsores da música instrumental, partícipe de várias reviravoltas importantes. Haden faz parte daquela classe especial em que seus admiradores o amavam incondicionalmente. Desde já, deixa saudades.