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| Miles Davis amava o boxe |
Tal costume não é só brasileiro. Amigos, familiares e admiradores reuniram-se na “Miles Davis Way”. Um trecho da 77, entre as avenidas West End e Riverside, passou a ter esse nome no dia em que o trumpetista completaria 88 anos. Não sou contra esse tipo de homenagem, mas não deixa de ser uma bobagem. Mas, ele merece.
Miles, à mercê do talento indiscutível, não era um sujeito dos mais fáceis. Em sua autobiografia, relata que bateu na mulher Francis e não se desculpou. Disse que ela mereceu. Andou dando bola para Quincy Jones, segundo ele. É conhecido também por ter usurpado a autoria de várias composições. Assinou como suas temas de Joe Zawinul, Bill Evans e até de Hermeto Paschoal na maior cara de pau.
O boxe. Miles, apesar de franzino, praticava o boxe. De hoje em dia, assim como as touradas, é um esporte em desprestígio. É considerado desumano e se você confessar-se admirador, será defenestrado de seu rol de amigos. Antigamente, não era assim.
O título de um dos livros de Julio Cortázar é Último Round. Lançado em 1969 pela editora Siglo XXI mexicana, é composto de duas partes, sendo que a de cima ocupa dois terços, e a parte inferior, o terço restante, formando uma “tripa”. Nem sempre a parte de cima (ambas são numeradas) tem a ver com a de baixo. Como em Rayuela (Jogo da Amarelinha), Cortázar propõe um jogo: ambos podem ser lidos fora de sequência. Do mesmo modo, as duas partes de Último Round nos propõem fazermos as “nossas histórias”. À “desordem” física corresponde o conceito do livro: são imagens, colagens, desenhos, fotos, relatos e pequenos ensaios reunidos. Dois anos antes de Último Round havia lançado La vuelta ao día en ochenta mundos, em duas partes também. Tirando partido de sua criatividade incontrolável, “desconstruía”, à maneira dos dadaístas e surrealistas, a começar pela brincadeira sobre o título A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Jules Verne.
Hoje, na Argentina, há um movimento forte de desconstrução (a repetição aqui é voluntária) da importância de Cortázar na literatura. Resumindo: acham que é superestimado. Se é ou não, a verdade é que esse argentino nascido na Bélgica marcou algumas gerações com suas narrativas inusitadas. É bem estranho isso, ou pode ser a velha história de as novas gerações desejarem “matar” as anteriores.
Logo na página 13, Cortázar descreve o retorno do boxeador Juan Yepes aos ringues, em “Descripción de un combate ou a buen entendedor”. A parte inferior correspondente às páginas 13 e 14 são com imagens do pugilista nocauteado.
No tomo I de La vuelta al día en ochenta mundos, na página 109 (Siglo Veinteuno Editores, 13ª edição, 5ª de bolso, México, 1977), o autor apresenta o texto Clifford, sobre o trompetista Clifford Brown. Era o instrumento que Cortázar tocava. Na página 13 do tomo II, “Louis enormíssimo cronopio” trata de Louis Armstrong, outro trompetista. Logo a seguir (pág. 23) temos “La vuelta al piano de Thelonious Monk”. É sobre a apresentação do instrumentista ocorrida em 1966 em Genebra. Ele adorava jazz e boxe.
Em “Take it or leave it”, trocadilho sobre o famoso standard Love Me or Leave Me, de Walter Donaldson e letras de Gus Khan, em um dia chuvoso se põe a ouvir discos de jazz e reflete sobre os chamados “alternate takes”, mas sente-se um tanto intimidado de escrever sobre esse gênero depois de ter lido uma matéria do semanário uruguaio Marcha, em que um crítico se põe a enumerar as imprecisões de dados discográficos em Rayuela. São gravados vários “takes” e um deles é escolhido para constar nos discos. “¿Cuántos takes habrá del mundo? El editado, éste, no tiene por qué ser el mejor: en su escala, la bomba atómica podria equivaler un día al ’Hold on!’ del Bird [apelido de Charlie Parker], al gran silencio. ¿Pero quedarán otros ‘takes’ aprovechables, después?”
Em “El noble arte” (pág. 124) lembra da luta de Jack Dempsey e o desafiante, o argentino Luis Angel Firpo. Em 1923, Cortázar tinha nove anos, e sua família era a única que possuía rádio nas redondezas do povoado de Banfield. Foi uma noite triste. O menino chorou a derrota de Firpo abraçado ao tio. Logo no início, conta que uma pessoa perguntou-lhe quais foram os grandes momentos do século XX. Sem pensar muito, respondeu: “‘Señora, a mí me tocó asistir al nacimiento de la radio y la muerte del boxe.’ La señora, que usaba sombrero, pasó inmediatamente a hablar de Hölderlin.”
Como Cortázar, quando criança e quase adolescente assisti às lutas de Muhammad Ali contra Joe Frazier, George Foreman. Ali era um fenômeno como lutador e foi figura importante na questão pelos direitos civis dos negros. Campeão dos pesos pesados em 1964, convocado para servir na guerra do Vietnam, recusou-se a ir. Perdeu o cinturão. Era um sujeito polêmico e fez com que milhões de pessoas se interessassem pelo boxe. A luta de Ali e Foreman no Zaire, em 1974, foi um acontecimento midiático. O mundo viu essa luta. Fui apenas um a mais e naquele tempo nibguém era censurado por gostar de boxe.
Não existia tanto esse estigma de ser um esporte violento. Apesar de Argentina e Brasil terem o futebol como esporte preferido, entre os “hermanos” é muito popular, muito em razão de terem tido grandes lutadores como Luis Angel Firpo, derrotado por Dempsey, Oscar Bonavena, peso pesado que lutou contra Joe Frazier e Ali. Era valente. Perdeu dos dois. O maior estilista, porém, foi o ex-campeão dos médios Carlos Monzón. A luta contra Emile Griffith é antológica. Foi considerado o 11º melhor boxeador de todos os tempos, em 2002, pela revista Ring. Mede-se a popularidade de um esporte pelo número de campeões. O Brasil teve como maior expressão pugilística Éder Jofre. E só. Maguila foi apenas um fenômeno midiático.
Os anos foram passando e Mike Tyson era um peso pesado com carreira ascendente. Há muito o boxe não me interessava mais. Despertou-me aquela curiosidade, como tinha ficado por Ali. Os jornais decreviam-no como um novo fenômeno.
A Vania N. tinha convidado alguns amigos para um jantar em sua casa. Naquela noite uma luta de Tyson seria transmitida pela rede Globo. Era madrugada, talvez 1 ou 2 horas da manhã. A TV não ficava na sala. Enquanto todos se divertiam e conversavam, resolvi dar uma escapadinha até o seu quarto, que era onde se encontrava o aparelho de TV. Um amigo botou a cara na porta e perguntou-me o que fazia. “Vou ver a luta do Mike Tyson.” Não lembro bem o que ele disse, mas foi algo como uma censura dizendo-me que “não conseguia entender como alguém poderia gostar de um esporte em que um quer acabar com o outro, batendo-lhe, querendo vê-lo morto.” Senti a maior culpa por estar vendo um “animal”, como Tyson, destruindo o adversário.
Jack Johnson. Em 1970, Bill Cayton estava começando a fazer um documentário sobre a vida de Jack Johnson. Consultou Miles Davis sobre a possibilidade dele compor a trilha sonora. Não apenas aceitou, como escreveu as liner notes do disco.
Jack Johnson foi o primeiro campeão afro-americano dos pesos pesados, em 1908. Miles entusiasmou-se pelo projeto, pois como ele, era negro, gostava de carros velozes, mulheres e era apaixonado pelo boxe. A diferença era a de que Johnson gostava de mulheres brancas, ao contrário de Miles, que, fora aventuras amorosas como a com Juliette Gréco, na hora de casar, preferiu negras. Como Miles, gostava de de se vestir de forma extravagante. Jack também e apreciava a vida como celebridade. Essa vida de Johnson não era unanimidade entre seus pares negros, mormente pela preferência por mulheres brancas.
Quando Miles gravou Jack Johnson, passava por mais uma transformação musical. Depois de memoráveis discos com o quinteto que incluía Herbie Hancock, Wayne Shorter, Ron Carter e Tony Williams, buscava por uma nova sonoridade, influenciado pela música de Jimi Hendrix e pela “invasão britânica” dos Beatles, Rolling Stones e outras bandas. Os primeiros instrumentos a entrar em suas formações foram o piano elétrico e a guitarra. Herbie Hancock, que mais tarde se tornaria uma das pontas de lança do jazz eletrônico, quando Miles pediu que tocasse piano elétrico, recusou-se. Acabou por sucumbir aos desejos do chefe.
Miles in the Sky (CBS, 1968) é o primeiro álbum em que usa o piano elétrico. Timidamente, a guitarra elétrica entra em uma faixa com George Benson. Filles de Kilimanjaro é outro que faz parte da transição, contando com as colaborações de Chick Corea e Hancock nos teclados eletrônicos e Ron Carter tocando baixo elétrico. O duplo Bitches Brew representa a ruptura. Jack Johnson, conceitualmente, não é tão revolucionário quanto Bitches Brew, mas é o mais rock’n’roll do trumpetista. Apresentado por Tony Williams, agora contava com um excepcional guitarrista: John McLaughlin. É dele a contribuição mais rock em Jack. Em certo ponto há um solo belíssimo em tributo a Jimi Hendrix. Jack Johnson, até hoje, é um dos meus preferidos. Já o boxe, não me interesso mais, e não é pelo que outros possam achar de se gostar de um esporte violento como esse. É porque, desinteressei-me, assim como desinteressei-me por um monte de coisas ao longo da vida.
Ouça o álbum na íntegra.

Embora as histórias de lutadores sejam muito parecidas entre si, nunca me aborreço vê-las. Descobri o filme Punhos de Aço Legendado e adorei. Sou fã deste tipo de personagens. Tem uma história que pode fazer você rir e chorar. Além disso, o elenco e a direção são excelentes! Este tema é um clássico do cinema.
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