quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O velho e bom Nick Cave

Capa do mais novo Nick Cave
No release distribuído à imprensa para anunciar seu novo disco, o texto, para não deixar de ser um Nick Cave, teria de ser estranho e um tanto enigmático: “Se fosse usar aquela metáfora banal de discos gerados como crianças, Push the Sky Away é o bebê-fantasma na incubadora e os loops de Warren [Ellis] são as suas pequenas e trêmulas pulsações do coração.” Entendeu?

Desde 2008, o australiano não lançava nada. Dig, Lazarus, Dig!!! (título ótimo) é interessante, mas não o considero bom. Push the Sky Away, que tem seu lançamento oficial marcado para 18 de fevereiro, é. Apesar de abordar temas (muito) estranhos e lúgubres e, com suas “más sementes”, produzir sons “cavernosos” (a expressão caiu em desuso, mas servia muito bem à época em que ele ficou conhecido), antes de mais nada, suas canções são melódicas e palatáveis aos tímpanos. São densas e as letras também. Giram em torno de algumas de suas obsessões: morte, religião, violência e amor. Push the Sky Away não foge à regra. Segundo Cave, as músicas foram compostas a partir de “curiosidades tiradas a partir de buscas no Google e Wikipedia, “fossem verdadeiras ou não”.

A indústria fonográfica vive a reclamar do declínio das vendas e é real a mudança de modelo de como o público consome música. A Tower Records, a HMV deixaram de existir. As estratégias são diferentes. No caso do álbum mais recente de Cave, são oferecidos em vários formatos. Estão em “pre-order” uma versão de luxo contendo o CD, um LP de vinil de 180g, um DVD, dois vinis de 7” contendo faixas extras, uma réplica do caderno de Cave com as anotações com 120 páginas, encadernadas manualmente, e um certificado de autenticidade para os 300 primeiros pedidos. Nem quis ver quanto custa, mas se está à venda é porque tem quem compre. A outra opção é um DVD/CD em embalagem de capa dura forrada com linho, com um booklet de 32 páginas. A terceira opção, a mais barata, evidentemente, é o CD apenas. Mais barata ainda é ir atrás dos downloads disponíveis na rede e ter o privilégio de ouvir esse bom disco antes de todo mundo. Você escolhe.

Ouça We No Who U R, a primeira faixa.



Ouça Push the Sky Away, música título e última do CD.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Várias maneiras de cantar Caetano

A capa do tributo a Caetano Veloso
Ninguém está imune de ser “cantado” pelos outros. Não poderia faltar o disco “tributo” a Caetano Veloso. Virou septuagenário. O povo do marketing adora uma efeméride. Como é o melhor intérprete de si mesmo, a saída é a opção pela originalidade. Em A Tribute to Caetano Veloso, encontramos instrumentações diferentes e originais. Ouvindo-se algumas, a vontade maior é correr e ouvir no original mesmo… na voz do compositor.

A primeira do Tribute é uma das melhores. You Don’t Know Me possui trechos em inglês e em português. O inglês é cantado perfeitamente e o português, um pouco hilário em algumas partes. Isso, contudo não é ponto negativo porque é cantada por uma das melhores bandas da atualidade, o The Magic Numbers. Em tudo o que tocam, as tornam preciosas. Eles são muito bons mesmo. Mucama vira “mequema”, cama vira “quema” – pra rimar não podia ser de outro jeito –, “sabatana” vira “sabadana”, “ave maria” vira “êve mar ia”. You Don’t Know Me, a primeira de um dos melhores LPs do baiano cosmopolita – Transa – é um festival de colagens, com citações de Zé do Norte, Edu Lobo, Luiz Gonzaga. Bem antes dos samples, Veloso se “apropriava” de canções alheias. Ele já era um transcriador transgressor e transcendental há muito tempo.

O tributo é semi-estrangeiro. Não são tantos os ianques, que é como a esquerda latino-americana gostava de chamá-los. Tem o cientologista – “religião” de Tom Cruise, John Travolta e Chick Corea – Beck, o neo hippie “mezzo” americano, “mezzo” venezuelano Devendra Banhart e a quase paulistana (morou em SP, no edifício Copan, em 2004) Chryssie Hynde. No tempo em que ficou por aqui, fez uma turnê com Moreno, Domenico e Kassin. Aliás, é com eles que canta The Empty Boat. Começa com uma guitarra à la David Gilmour e Hynde é boa como sempre. É outro destaque. É um Caetano com sabor Pink Floyd.

São boas também as interpretações dos “hermanos”, aqui separados. Marcelo Camelo canta um interessante É de Manhã (nem tanto quanto a de Maria Bethânia e a de Leny Andrade: leia em http://bit.ly/VAMlwH), e Rodrigo Amarante, em dupla com Banhart, faz uma versão de Quem Me Dera, instrumentalmente sofisticada. Os “hermanos” possuem algo em comum no DNA: escolheram canções do início da carreira de Caetano.

O quase brasileiro, o uruguaio Jorge Drexler, entoa em quase perfeito português, Fora da Ordem. Os brasileiros Momo (Marcelo Frota), Qinho, Tulipa Ruiz, Céu, Luisa Maita, Mariana Aydar e Sergio Dias não fazem feio, mas são versões descartáveis. É aquilo que disse: você sai correndo para ouvir no original. Seu Jorge, em Peter Gast, é exceção, mais em razão de Toninho Horta e Arismar do Espírito Santo o acompanharem. Discretos e elegantes, valorizam a voz gutural e cool de Seu Jorge.

O lado “étnico” ou “world music” cabe à portuguesa Ana Moura e ao espanhol Miguel Poveda. Ela canta Janelas Abertas nº 2. Sua dramaticidade (“percorrer correndo corredores em silêncio/ Perder as paredes aparentes do edifício/ […] Na sala receber o beijo frio em minha boca”) combina bem com o cantar fadista. A Força Estranha com o cantor flamenco é interessante. Deveriam ter convidado Diego El Cigala. Ficaria muito melhor, mais dramática e a “força estranha” teria sido mais estranha ainda.

Ouça You Don’t Know Me, com The Magic Numbers.




Veja Chryssie Hynde cantando The Empty Boat, com Moreno, Domenico e Kassin em Buenos Aires. Essa interpretação é diferente da presente no Tributo.




Ouça É de Manhã, com Marcelo Camelo.




Eclipse Oculto, com CéU.




Fora da Ordem, com Jorge Drexler.