O álbum Sticky Fingers antecede outro clássico dos Rolling Stones: Exile on Main St. A capa, assinada por Andy Warhol, é um close de uma calça jeans (naquele tempo, jeans era Lee ou Levi’s 501) na região da cintura. No disco importado, o original, vinha com um zíper de verdade. “Por trás” da calça, via-se a cueca, assinada pelo artista pop. O título era bem sugestivo: “dedos pegajosos”. O disco foi lançado na Espanha, e como os tempos eram outros, sob severa ditadura franquista, modificaram a capa. A imagem da calça jeans com sugestivo volume fora substituída por uma lata aberta (com um abridor ao lado) de onde emergiam três dedos sujos com uma substância pegajosa e negra. Antigamente, em alguns países de origem latina, costumavam traduzir os títulos, até de discos e, salvo engano, na Argentina, chamou-se “Dedos pagajosos”.
Em 1971, os Rolling Stones estavam no auge. Haviam lançado Their Satanic Majesties Request, Beggars Banquet e Let It Bleed nos tumultuados anos finais dos 1960. A banda também protaganizou acontecimentos traumáticos. Um foi a morte de Brian Jones e o outro foi o show realizado em Altamont, em dezembro de 1969. Nessa ocasião, um espectador negro foi assassinado pelos Hell’s Angels, recrutados para fazer a segurança do show. A morte de Jones, encontrado morto na piscina, foi um episódio que “sobrou” para os dois principais componentes da banda, Mick Jagger e Keith Richards. Surgiram até acusações de que ambos haviam sido os responsáveis pelo triste fim do multinstrumentista.
Em vez de os acontecimentos arrefeceram a criatividade da banda, mantiveram o mesmo gás. Sticky Fingers era o primeiro álbum com a participação de Mick Taylor, substituto de Brian Jones. No anterior – Lei It Bleed – Taylor participara de duas músicas, e Jones pode ainda ser ouvido em Midnight Rambler e You Got the Silver, mas não na guitarra.
Brown Sugar e Bitch (abrem o lado A e o B do LP), instrumentalmente, são as mais pesadas. Pesada mesmo, pelo tema, é Sister Morphine. A Espanha, que tinha vetado a capa, “cortou-a” do LP. Ironia: esses LPs lançados lá, hoje, são considerados item de colecionador.
Pensando bem, nada é leve em Sticky Fingers. Até Wild Horses, a balada triste do LP, tem uma letra que nada tem a ver com um mundinho cor de rosa.
Brian Jones representava o lado experimental da banda, tocando outros instrumentos além da guitarra. Após a sua morte os RS iriam realizar um disco mais básico, mais rock’n’roll. Com o acréscimo do órgão de Billy Preston, da guitarra lisérgica de Ry Cooder e dois caras matadores nos sopros: Jim Price, no trompete, e Bobby Keys no saxofone. Eles “arregaçam” em Bitch e I Got the Blues. Alguns uníssonos em I Got the Blues são o diferencial desse grande tema stoniano. Um parêntesis: quem já ouviu Ry Cooder conhece bem o seu som. Participa de Sister Morphine e, tempos depois, Richards polemizou com Cooder dizendo que o som “viajante” era invenção dele e não do americano. O tempo mostrou que aquela guitarra distorcida era bem de Cooder mesmo.
Como Exile on Main St., não é possível dizer que há uma música ruim. Todas, muito boas, são demonstrativos da versatilidade da dupla de compositores. You Gotta Move – malemolente – e Moonlight Mile são completamente diferentes e se complementam como climas de “coclusão” dos lados 1 e 2 do LP. Can You Hear Me Knocking é completamente jazzística, com belos e simples solos do trompete e do sax do “brasileiro” (casou com uma brazuca e foi morar no Rio de Janeiro; não sei se continuam juntos) Bobby Keys, somados ao órgão de Preston e a percussão de Rocky Duon, que, vagamente, lembra o “demonismo” de Sympathy for the Devil.
Bom, esses sete parágrafos são apenas a introdução para se ouvir Wild Horses, uma das mais belas baladas dos RS, como Ruby Tuesday e Angie. A primeira interpretação, naturalmente, é com seus autores. Estão disponibilizadas aqui a do Sundays, a da norueguesa Solveig Slettahjell e a de Rachel Z. Esta última é uma pianista do jazz que pinça temas do pop para seus improvisos (sobre a moça, acesse http://bit.ly/WQL6fy).
Pessoalmente, adoro a de The Sundays. Não é muito conhecida. Gravaram três álbuns apenas. A voz de Harriet Wheeler é especial. Wild Horses está no álbum Blind (tem uma capa com um meio corpo de uma boneca de plástico; meio tétrica). Não era uma banda excepcional, mas não era ruim, também; só a canção dos Stones faz valer o resto. A razão de possuir o CD deve ser porque, entre os anos 1980 e 2000, comprava de 20 a 30 CDs por mês e, no meio, tinha muita coisa desnecessária.
A de Solveig Slettahjell. A música combina com vozes femininas.
Como não pode faltar um pouco de jazz na vida da gente, vai Wild Horses na interpretação de Rachel Z.
Quem diria, o rock progressivo virou jazz! Pensando bem, muito natural. Naquelas atmosferas viajantes, com letras idem, a parte instrumental tinha um papel importante. O tal do rock progressivo surgiu como uma reação àquele rock de três acordes. Dizia-se que bastava aprender a tocar três acordes para ser guitarrista de rock. Existe até uma certa verdade nessa afirmação. Muitos “instrumentistas” (as aspas são intencionais), ao formarem suas bandas mal sabiam tocar um baixo ou uma guitarra. Bastava ter energia, principalmente na época do punk rock. O melhor exemplo é Sid Vicious, do Sex Pistols.
O rock progressivo era mais elaborado e ganhou muitos fãs por essa razão. Seus admiradores se achavam mais inteligentes por gostarem de algo mais sofisticado, mais cabeça. Dessa seara despontaram bandas como o Yes, Van Der Graaf Generator, Premiata Forneria Marconi, Iron Butterfly e outros menos votados. Destes, cabe lugar especial à banda liderada por Robert Fripp, o King Crimson.
Rachel Z, antes de ser “Z”, era Rachel Carmel Nicolazzo, nome “difícil” para ser artístico. A moça passou por caminhos que milhares fizeram. Passou pelas melhores escolas de música e participou da banda Steps Ahead e tocou em High Life, disco de Wayne Shorter, e com Stanley Clarke e Lenny White, parceiros de uma das formações de maior sucesso do jazz-fusion – ou jazz-rock, como também era chamado – , o Return to Forever, de Chick Corea.
Como muitas da sua geração, não ficou imune ao poder avassalador do rock e do pop. Esse interesse sempre esteve presente no histórico de Rachel. O fato de ter gravado um disco chamado Moon at the Window: Jazz Impressions of Joni Mitchell (Tone Centre, 2002) é amostra do que Rachel buscava: bons temas da música popular e desenvolvê-los na linguagem do jazz. A “queda pop” deve tê-la levado a participar do tour Growing Up, de Peter Gabriel. Leio na Wikipedia, de que participa de uma banda de rock chamada Peacebox como cantora (nesse quesito, não convence).
A música dita popular sempre alimentou a música de improviso. Não é nada surpreendente Rachel procurar temas no repertório contemporâneo em vez de, como muitos, ficarem no terreno seguro dos standards. Mesmo um músico, que podemos considerar como sendo um velho – cronologicamente, devo ressaltar –, Herbie Hancock, lançou um álbum chamado The New Standard (1995), contendo composições de Kurt Cobain (Alll Apologies), Peter Gabriel (Mercy Street), Prince (Thieves in the Temple), e outros como Sade Adu, Simon & Garfunkel e Steely Dan. Esse disco é uma demonstração de que Hancock é um músico inquieto; sempre investiu em novas linguagens. (sobre este disco, leia http://bit.ly/NZVoq5)
Além de Hancock, Rachel Z não está só na exploração do repertório pop. Nesse quesito, os grandes mestres são Ethan Iverson (piano), Anderson (baixo) e David King (bateria), de The Bad Plus.
No CD The First Time I Ever Saw Your Face (Venus Records 2003), além do clássico conhecido na voz de Roberta Flack, interpreta Heart Shaped Box, de Kurt Cobain, e Fragile, de Sting. Em Everlasting (2205), a lista é mais extensa: Here Comes the Sun (Geroge Harrison), Kiss from a Rose (Seal. Sobre esta música, leia e ouça em http://bit.ly/QFdIGD), Wild Horses (Jagger & Richards), Ring of Fire (Johnny Cash, M. Kilgore), Black Hole Sun (Chris Cornell / Soundgarten), Fields of Gold (Sting), Kid Charlemagne (Steely Dan), One Time (King Crimson), Tonite Tonite (W.P. Corgan / The Smashing Pumpkins), Kiss of Life (Sade), e Red Rain (Peter Gabriel). O bom gosto de Rachel Z apenas valoriza canções bem conhecidas, quando executadas ao piano, em linguagem instrumental.
Fripp, um gênio da guitarra
Robert Fripp é o gênio atrás do King Crimson. No primeiro álbum – In the Court of the Crimson King(1969) –, a primeira faixa é um choque chamado 20th Century Schizoid Man. É uma música esquizofrênica, com a voz distorcida, de modo a torná-la mais “rough”, de Greg Lake e uma guitarra enlouquecida de Fripp, diferente de tudo o quanto tinha sido ouvido até então. Quando esperamos uma continuidade desse clima, a faixa seguinte – I Talk to the Wind – é uma canção evocativa e melancólica, perfeitamente combinada com a voz doce e segura de Lake, que depois sairia para formar outra banda emblemática do rock progresivo, o Emerson, Lake & Palmer. In the Court, até hoje, é impactante.
In the Wake of Poseidon, o disco seguinte, é quase uma continuação do primeiro. Essa sensação é reforçada pelos vocais de Greg Lake. Lizard, o álbum posterior tem um line up bem variado com uma seção de metais de primeira: Robin Miller (oboé e cor anglais), Marc Charig (cornet), e Nick Evans (trombone). Uma participação importante é a do pianista Keith Tipett, um dos ícones do jazz britânico.
O quarto álbum representa outra mudança de rumo. Island, apesar de não ter sido muito bem recebido é um disco excepcional e contém faixas muito diferentes entre si. Temos uma estranhíssima música chamada Ladies of the Road, seguida de uma faixa instrumental (Prelude: Song of the Gulls), mais assemelhada a uma peça erudita de câmara, lindíssima, por sinal, e é o perfeito prelúdio para a música-título, muito conhecida dos ouvintes da Rádio FM Eldorado. Apesar de ser uma gravação de 1971, vinte ou mais anos depois, ainda entrava na programação dessa rádio paulistana.
Não menos estranha que Ladies of the Road é a primeira faixa do álbum. Formentera Lady inicia com notas de contrabaixo no arco e depois entra a flauta de Mel Collins; aí é a vez da voz fantasmagórica de Bozz (Burrell), muito apropriada para a atmosfera, idem. Sailor’s Tale é uma composição tipicamente “frippiana”, com levadas de notas em repetição, em ritmo acelerado. É uma peça que lembra a banda inglesa Soft Machine. The Letters é uma música muito estranha e uma letra de Pete Sinfield tão escabrosa quanto a música. No início, se assemelha a um acalanto que é interrompido por sopros, baixos e acordes agudos da guitarra de Robert Fripp. Deu para perceber que Island é um dos meus preferidos da discografia do King Crimson?
Larks’ Tongues in Aspic (1973) e Starless and Bible Black (1974) representam outra guinada no som do King Crimson. A inclusão do baixista e vocalista John Wetton é a diferença; por onde passou, como no Asia, percebem-se suas digitais. Com David Cross no violino, viola e teclados, e Bill Bruford na bateria, além, é claro do grande cérebro Robert Fripp, essa formação produziu grande música. O box set Great Deceiver, com quatro CDs contendo apresentações ao vivo, lançado anos depois, mostra o quanto eram bons.
Demorei, mas estou quase chegando à formação que importa para o fecho da conexão Rachel Z – King Crimson. Após um hiato de mais de seis anos (o último tinha sido Red, em 1974), a banda “renasceu” com Adrian Belew nos vocais e na guitarra, Tony Levin no baixo e stick bass (aqui no Brasil, o único que andou tocando esse instrumento foi Akira da banda Akira S e As Garotas Erraram, que tinha no vocal Alex Antunes; grande banda de uma composição definitiva: Sobre as Pernas), e Bill Bruford na bateria. Gravaram Discipline (1981), Beat (1982), e Three of a Perfect Pair (1984). Um par de três perfeito. Pura energia, grandes músicas, vocal meio histérico de Belew, e guitarras (a dele e de Fripp) mais histéricas ainda. Robert Fripp, apesar de liderar a banda, mais parece um sideman com sua presença low profile, sempre sentado e produzindo os sons mais surpreendentes. É um dos gênios da música contemporânea.
A banda continuou por mais algum tempo com a inclusão de Trey Gunn tocando stick bass e Pat Mastelotto na percussão acústica e eletrônica. One Time, a música que Rachel Z gravou, está no álbum THRAK (1994). Uma das razões que podem ter contribuído para que Rachel se atentasse a One Time pode ter sido o fato de que Tony Levin, o baixista dessa época, tenha também sido membro da banda de Peter Gabriel. Chute.
No fim dos anos 1980, falava-se muito de um cara chamado Adamski. Num cenário pleno de rótulos como dance/ acidhouse/ electropop/ technopop, esse bretão circulava pelos clubes ingleses com seus instrumentos eletrônicos debaixo dos braços, aparecia com frequência na MTV, enfim, era “o” falado. Em 1990, lançou um disco do qual uma das faixas dele se chamava Killer, cantada por um certo Seal. De hoje em dia, nem se fala mais de Adamski. Seal explodiu.
Quando Seal Henry Olusegun Olumide Adeola Samuel (esse é seu nome de batismo) ficou conhecido, passou-se a falar que era filho de um brasileiro com uma inglesa de origem africana. A verdade, dita por ele próprio, é que o avô por parte de pai era brasileiro. Bom, independentemente de que tenha sangue brasileiro, Seal impressiona; pelo tipo físico – é um homenzarrão, careca, de olhar profundo, um tanto triste e sério, tem o rosto marcado por um tipo raro de lúpus que deve ter contraído ainda jovem – e, principalmente, por uma voz (muito) especial, meio-rouca, que carrega certa melancolia.
Num primeiro olhar, seria improvável se imaginar que alguma música de Seal pudesse virar tema para intérpretes ligados ao jazz. Depois de saber que duas pianistas gravaram Kiss from a Rose – música que foi tema de um dos Batman –, constatamos que belas melodias sempre serão temas ricos à exploração e improvisação instrumental.
Rachel Z (esq.), e Julia Hülsmann (dir.)
Coincidentemente, os dois registros são de mulheres. Segundo, são de duas intérpretes que não estão ligadas ao mainstream do jazz. A gravação mais antiga que conheço é a de Rachel Z, de 2004. A marca dessa pianista tem sido a de procurar novos temas do universo pop e explorá-los jazzisticamente. Além de Seal, gravou Peter Gabriel, Sade, George Harrison, Johnny Cash e Sting.
A alemã Julia Hülsmann gravou alguns discos pela Act e, atualmente grava pela ECM. Como Rachel Z, tem procurado explorar temas no pop, como as de Nick Drake, Sting e Randy Newman. Enveredando por um viés mais intelectualizado, musicou poemas de Emily Dickinson e e.e. cummings. Julia é uma intérprete a quem devemos prestar atenção.