Mais ou menos na mesma época, surgiram duas cantoras de vozes pequenas e afinadíssimas: Jane Monheit e Tierney Sutton. Eram o oposto das duas últimas grandes damas vivas do jazz: Carmen McRae e Sarah Vaughan, que tinham morrido uns dez anos antes delas gravarem seus primeiros álbuns, com vozes poderosas e marcantes.
Jane estreou em 2000 com “Never Never Land”. Tierney, dois anos antes, lançara “Introducing Tierney Sutton”. Esta última tinha 35 anos, 14 a mais que a primeira. Acostumado com a potência e expressividade de Vaughan e McRae, e do talento incontestável de Shirley Horn, outra veterana, “redescoberta” pela gravadora Verve, fiquei bem crítico com as duas novatas. Minha impressão era a de que eram afinadas e não muito mais que isso.
Vi por duas vezes Jane Monheit no Bourbon Street, em São Paulo. Minha maior lembrança é a de que, na primeira vez, estava bem magra, recém casada com o baterista da banda. Lembro também que a pianista era muito boa. Não guardei seu nome. Era japonesa, isso sei. Na segunda vez, Jane continuava linda. A diferença é que estava, no mínimo, uns dez quilos mais pesada, desculpe a frivolidade. Tierney, não sei, acho que nunca veio ao Brasil.
Para mim, o que mudou com o passar do tempo, foi a de que não tenho vontade de ouvir Jane, enquanto Tierney ainda me provoca curiosidade. A banda, que está com ela faz uns 20 anos, é um primor. Ela, inclusive incorporou-a ao seu nome. Não se apresenta com o seu nome, simplesmente, é The Tierney Sutton Band. Fazem parte dela Christian Jacob, bom pianista que se revelou tocando com Maynard Ferguson, os baixistas Trey Henry e Kevin Axt e o baterista Ray Brinker. Dois baixistas, isso mesmo. Seus últimos álbuns são muito bons, sempre concebidos a partir de um conceito, ou melhor, uma proposta.
“After Blue” (2013), adivinhe a referência? Joni Mitchell? Acertou. É uma pós-leitura, digamos. Não é com a banda. Tem participações do Turtle Island Quartet, Larry Goldings (belíssimo em “Court and Spark”), Serge Merlaud na guitarra, Hubert Laws, Kevin Axt (este, da banda), Peter Erskine, Ralph Humphrey e Al Jarreau.
Ouça “Court and Spark”.
Ouça também ‘Blue”, com participação do Turtle Island Quartet.
Joni Mitchell não é a única homenageada. Outro foi Sting, com “The Sting Variations” (2016), este com o quarteto. É interessante porque faz um mélange com temas do jazz nas composições de Gordon Summers, ou melhor, você sabem o nome verdadeiro do rapaz. Como uma cantora genuína do jazz, Sutton transforma temas conhecidos, como “Every Little Thing Is Magic”, “Sincronicity”, “Fragile” e outras.
Veja ela e o quarteto em “Driven to Tears”. “So What”, de Miles Davis serve de introitus para o tema do ex-Police.
Em 2016, Sutton e sua banda participaram da trilha sonora de “Sully”, filme de Clint Eastwood. Foi a ideia de fazerem um álbum com temas de cinema. O subtítulo, que não está na capa e sim no site é “19 songs in five acts”. O grande homenageado é a Alan, que com Marilyn Bergman, foram letristas de temas do cinema, como “What Are You Doing the Rest of Your Life?”, de Michel Legrand. Aliás, aos 93 anos, Alan faz um belíssimo dueto com Tierney em “How Do You Keep the Music Playing”.
Ouça.
Um dos bons destaques é “The Sound of Silence”, de Paul Simon, com uma introdução bombástica e bela. E é belo o acompanhamento com o som de contrabaixo e tabla, com a voz de Sutton. Depois tem um solo de piano de Christian Jacob, muito bom, que lembra McCoy Tyner.
Outro que gosto muito, com um belo trabalho de baixo elétrico o acústico é “If I Only Had a Brain”, bem jazzy.
Bom, para fechar, “What Are You Doing the Rest of Your Life?”, de Michel Legrand e Alan e Marilyn Bergman.
Uma última: “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”. Lembra-se de Marilyn Monroe cantando?
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quinta-feira, 23 de maio de 2019
terça-feira, 27 de setembro de 2016
Sting na ótica de Tierney Sutton
Em 1988, Sutton estreou com “Introducing Tierney Sutton”. Em 2000, lançou o primeiro em uma gravadora de porte maior, a Telarc: “Unsung Heroes”. Esse mesmo ano foi o da estreia de Jane Monheit, com “Never Never Land”. Comprei os dois, o de Jane porque quem a acompanhava era Kenny Barron e sempre avalio cantores desconhecidos por quem é o pianista . No line up de “Unsung Heroes”, aparecia o nome de outro bom tecladista: Christian Jacob. As duas eram afinadas, boas cantoras, belas, mas como diria uma amiga baiana, “não tinham borogodó”. Nas suas perfeições faltava aquela pegada selvagem de uma Dianne Reeves, de uma Dee Dee Bridgewater, um pouco mais velhas que elas. Fiquei com uma ponta de decepção, mas nunca deixei de ouvir cada CD lançado por elas posteriormente.
Meu juízo em relação à Sutton foi mudando, não a ponto de fazê-la uma das minhas preferidas, mas perceber que é uma das boas intérpretes da atualidade. Prestando um pouco mais de atenção, percebi que seus álbuns não eram uma repetição do repertório Tin Pan Alley. Em cada um deles percebia-se um conceito mais ou menos definido, ora centrado em Bill Evans, em Frank Sinatra, mas não de maneira óbvia. Outra qualidade perceptível foi a de que na maioria dos novos lançamentos, passava a assinar The Tierney Sutton Band. Era uma evidência de que os músicos não eram meros acompanhantes. A participação de Christian Jacob é capital, tanto quanto a voz e a peculiar formação, com dois baixistas (Kevin Axt e Trey Henry), e a bateria de Ray Brinker.
Com “American Road”, assinando The Tierney Sutton Band, e “After Blue”, como Tierney Sutton simplesmente, a cantora tem conseguido boa recepção pela crítica. É uma cantora ciente da sua qualidade, demonstrando a maturidade que só o tempo traz. No primeiro explora standards de Gershwin (“Summertime”, “My Man’s Gone Now” e “It Ain’t Necessarily So”), clássicos populares como “Tenderly”, assim como canções emblemáticas do cancioneiro americano como “Amazing Grace”, “Wayfaring Stranger”, “Shenandoah” e “The Water Is Wide”. [sobre “America Road”, leia “Preciso rever os meus conceitos sobre Tierney Sutton”]
“After Blue”, o leitor mais arguto deve estar desconfiado: é um álbum com a música de Joni Mitchell. Do extraordinário “Blue”, Sutton canta a música título e “All I Want”. Apesar de não contar com sua banda de costume, os arranjos são excepcionais e originais, com a participação do Turtle Island Quartet, de Larry Goldings no Hammond B-3, Hubert Laws na flauta e Al Jarreau fazendo o duo em “Be Cool”. É um álbum tão bom quanto “River: The Joni Letters”. Recebeu 4 estrelas e meia. Próximo da perfeição.
Ouça “Woodstock”.
Veja Sutton a cantar “Don’t Go to Strangers”, no Blue Note de Milão.
Entre o pop e o jazz
Outro compositor e intérprete que fica no crossover entre a música popular e o jazz é Sting, um dos três da extinta banda pop/rock Police. Logo depois de desfeita, gravou álbuns com a presença de alguns jazzistas como Kenny Kirkland e Branford Marsalis. Mais tarde, suas ambições musicais chegaram à música erudita, tendo inclusive lançado discos pela Deutsche Grammophon. Pretensões maiores não querem dizer muita coisa em termos de qualidade superior.
As músicas mais populares de Sting, no entanto, continuam sendo as da época do Police. Composições posteriores não são melhores que “Every Breath You Take”, “Every Little Thing She Does Is Magic”, “Walking in Your Footsteps”, “Driven to Tears”,“Synchronicity I” e “Message in the Bottle”, incluídas em “The Sting Variations”, recém lançado álbum de Sutton. “If You Love Somebody Set Them Free”, “Consider Me Gone”, “Fortress Around Your Heart” e “Shadows in the Rain”são de “The Dream of the Blue Turtle”, primeiro solo do inglês.
A escolha da maioria das canções, sendo da época do Police e o álbum solo imediatamente posterior, traem o gosto de Sutton, condizente com o que acha boa parte dos fãs de Sting. De suas composições, a mais popular entre os cantores de jazz é “Fragile”. Caiu no gosto deles, não sei por que. As restantes são “Fields of Gold” e “Language of Birds”.
Ouça“Fragile”. Aqui a banda faz um medley com “Gentle Rain”, um dos maiores clássicos da música brasileira, de autoria de Luiz Bonfá. Essa faixa é um dos destaques do álbum.
Ouça “Fields of Gold”.
Ouça “Synchronicity I”.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Preciso rever meus conceitos sobre Tierney Sutton
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| Tierney Sutton |
Desde tempos imemoriais, “beleza põe mesa”. Chato dizer isso: apesar da propalada evolução da humanidade, certas coisas não mudaram muito. Enquanto um “feião” como Humphrey Bogart ou Sean Penn dão certo, uma penca de “bonitões” enveredam pelo caminho do sucesso sem possuirem o mesmo talento. A “boniteza” funciona também na música, principalmente no gênero feminino.
Um dado curioso – pode estar até um pouco fora do contexto – é o de atrizes bonitas que encontraram um nicho como cantoras. Brigitte Bardot, Marilyn Monroe e Lena Horne são exemplos. No Brasil, tivemos Norma Benguell e Odette Lara. Particularmente, minha interpretação preferida de Samba em Prelúdio, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, continua sendo a de Odette. Pelo jeito, não se interessou em prosseguir na sua carreira de intérprete.
Em medidas e doses diferentes, Diana Krall, quando foi lançado Only Trust Your Heart, pela GRP Records, deve ter despertado alguma impressão extramusical: aquela loura da capa, com os os olhos enigmaticamente semicerrados, era um bom apelo à curiosidade. Quem comprou o disco por essa razão, exclusivamente, ganhou um prêmio extra: a moça era uma tremenda pianista e, cantava bem; possuía uma voz cálida e poderosa. Eram muitos predicados em uma só pessoa. Depois disso, “descobriram” seu primeiro disco – Steppin’ Out –, lançado pela canadense Justin Time, de dois anos antes. Diana estava pronta desde o primeiro disco.
Diana Krall era um bom produto para a indústria fonográfica. O mundo do jazz havia ficado órfão de Sarah Vaughan (falecida em 1990), Ella Fitzgerald (1996) e Carmen McRae (1994). A era das divas tinha terminado. Dianne Reeves, Dee Dee Bridgewate, e até as com mais quilômetros rodados, como Shirley Horn, Abbey Lincoln, Anita O’Day e Nancy Wilson eram ótimas, sem a aura, no entanto, do trio citado.
Próximo do fim do século passado, o mercado fonográfico tinha passado a investir pesado na imagem, mais até do que nas virtudes musicais. Entre Madonnas e Michaels Jacksons, em um nicho que nem precisava de tantos apelos comerciais, certas coisas se replicavam. Ampliou-se o investimento em qualidades extramusicais. Aí entra o apelo estético. Em tempos de culto a celebridades e “descerebrados”, a “boniteza” era um ás a mais na manga dos marqueteiros. Nessa senda aberta, Jane Monheit era a aposta da pequena N-Coded Music, Tierney Sutton, pela Telarc, Nenna Freelon, pela Columbia/Sony, e Norah Jones, pela Blue Note.
Sempre fiquei com os pés e as mãos para trás. Sempre tentei não cair nessa armadilha.
Tierney Sutton e American Road
Sutton, Freelon, Monheit e Jones aparentavam ter qualidades além da beleza ou do charme. Bem, estou comentando sobre Sutton. Pois, sentia que faltava alguma coisa nela e em Jane Monheit. Afinadas, quase perfeitas, mas faltava aquele “a mais”, aquilo que nos impele a ouvir vezes e vezes e nos fascinar.
Em alguma hora, pode acontecer uma surpresa. Quando ouvi Desire (2009), nesse ano, percebi alguma diferença. American Road, o mais recente, lançado em 2011, então, é muito bom.
O que faz uma boa cantora, além de boa voz? Suingue? Ritmo? Inteligência? Bom, um dos grandes pecados é ter boa voz e não captar o sentido do que canta. Isso pode ser resolvido, parcialmente, com um bom produtor, alguém que saiba escolher um bom repertório, bom acompanhamento, bons instrumentistas. No caso de Sutton, o dado que sinaliza essa transformação é a de que seus álbuns, desde On the Other Side (2007), constam como sendo da Tierney Sutton Band. É uma grande diferença. Pode ser falsa a minha impressão, mas parece que a participação de Christian Jacob e dos restantes Kevin Axt e Trey Henry, nos baixos (sim, a banda tem dois baixistas), e Ray Brinker na bateria, mudaram o conceito do som; não são apenas acompanhantes; são partes de um todo.
Jacob é um francês emigrado e, no início, fez parte da banda do trumpetista Maynard Ferguson. De formação erudita, interessou-se em cursar uma escola mais voltada ao jazz para “aprender” a improvisar. Sem querer desmerecer a cozinha (baixos e bateria), seu piano faz muita diferença. É um estilista. Sutton encontrou o seu “Flanagan”, assim como Billie Holiday teve Teddy Wilson, e Ella Fitzgerald teve Tommy Flanagan (daí a referência acima), e Hank Jones.
A “Band” de Sutton deixou-a mais solta; não é apenas a voz afinada à frente de boa fachada. Somaram-se a esses dois atributos uma interpretação mais livre: a voz anasalada é parte do conjunto, ou seja, a voz é um instrumento, como são os baixos, o piano e a bateria. Como um elemento das partes que fazem o todo, por exemplo, faz um Amazing Grace maravilhoso; seu canto é acompanhado pela marcação do contrabaixo e o que é quase um hino vira uma peça, que sem perder a majestade, é uma outra “majestade”. Em três standards gershwinianos de Porgy and Bess “in a row” – It Ain’t Necessarily So, Summertime, e My Man’s Gone Now – revela sua verve jazzística, e muito bem. São três interpretações de tirar o chapéu.
Em mais um standard – Tenderly –, evidencia-se o casamento da vocalista com o pianista. Jacob ataca na notas mais graves, em andamento lento para a voz muito bem colocada, sem dramatismos gratuitos: belo duo. E quando, achamos que é suficiente, Sutton vem com outras surpresas. Entoa um belíssimo Somewhere, em que a tensão crescente desemboca em três palavras: “somehow, someday, somewhere”. Something’s Coming e Cool completam a trilogia Leonard Bernstein/Stephen Sondheim, de West Side Story.
O fecho é um duo maravilhoso de Sutton e Jacob, em America the Beautiful. Bem, comecei por Amazing Grace e quase esquecia de falar das primeiras. Sutton começa com um spiritual tradicional: Wayfarer Stranger. Serve para esquentar os motores. A temperatura aumenta com o medley Oh Shenandoah/The Water Is Wide, duas outras tradicionais, a primeira americana e a segunda, escocesa. A terceira é On Broadway, conhecidíssima na interpretação de George Benson, que é puro balanço com o baixo e a bateria “quebrando tudo”. Aí, chega Amazing Grace, que foi por onde comecei. E é o que você vai ouvir.
Esta versão de “Amazing Grace” é diferente da que consta no CD. É de uma apresentação ao vivo.
Ouça “Wayfaring Stranger”, a faixa de abertura.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Os melhores discos segundo a revista Downbeat (parte 2)
Estou repetindo a lista dos dez melhores do ano, pela revista Downbeat, para poder falar alguma coisa acerca dos que eu conheço.
1. Vijay Iyer Trio, Accelerando (ACT) - 115 votos
2. Sonny Rollins, Road Shows vol. 2 (Doxy/EmArcy) - 69
3. Keith Jarrett, Rio (ECM) - 68
4. Gregory Porter, Be Good (Motéma) - 56
5. Miguel Zenón, Alma Adentro: The Puerto Rican Songbook (Marsalis Music) - 54
6. Brad Mehldau, Live in Marciac (Nonesuch) - 52
7. Matt Wilson’s Arts & Crafts, An Attitude for Gratitude (Palmetto) - 40
8. Corea, Clarke White, Forever (Concord)
9. Terri Lyne Carrington, The Mosaic Project (Concord) - 38
10. Tim Berne, Snakeoil (ECM) - 33
O álbum que foi considerado o quarto melhor do ano é de Gregory Porter. Be Good é o seu segundo disco. É a revelação como cantor; foi o segundo classificado, atrás de Kurt Elling. Este é hors-concours: leva todas há muito tempo, com justiça (sobre ele e seu pianista Laurence Hobgood, leia http://bit.ly/MXCcHL). Porter é, se me faço entender, sem ironias, um Kevin Mahogany menos vitaminado. Há uma característica bem específica em relação aos cantores negros que os diferencia: o registro da voz, e como no caso de Mahogany, tende a uma forma de interpretar mais conectada ao blues e até ao rhythm’ blues. É um grande cantor. Comentarei, com maiores detalhes sobre Porter em outra ocasião, pois ele merece. Por enquanto, ouça Painted on Canvas.
O álbum Live in Marciac é mais um solo de Brad Mehldau. Para os que não possuem nenhum disco do pianista, é uma boa. É um combo com dois CDs e um DVD. Por conta de uma “overdose” de Mehldau durante todos esses anos, confesso, não ouvi com a atenção que ele merece. Mehldau, para mim, é como aquela velha Levi’s 501 que está guardada no armário. Sabemos que é um porto seguro, mas a deixamos guardada à procura de novidades.
Um comentário: o saudoso Carlos Conde não gostava de piano solo; gostava mesmo era do tradicional formato trio piano, baixo e bateria. Perguntei se tinha gostado de Live in Tokyo (Nonesuch), na ocasião de seu lançamento em 2004. Perguntei porque Brad tinha se tornado um dos meus pianistas preferidos. Respondeu: “O disco é muito triste. Coitado, esse rapaz deve ter algum problema.” Pensando bem, sua observação tinha alguma lógica. Em um longo texto em Elegiac Cycle (WB, 1999), Brad desvela seu amor pelo romantismo germânico; não é à toa que sua editora se chama Werther Music.
Na repetição de seu costumeiro repertório percebem-se as mudanças no desenvolvimento dos temas, desconstruindo-os cada vez mais. Parece mais uma viagem particular de Brad e, por isso, é um tanto difícil ocorrer uma maior empatia. Em Live in Marciac, a seleção é bem eclética, como é de seu feitio. São seis temas próprios e quatro standards (It’s All Right with Me, Lilac Wine, My Favorite Things e Dat Dere). Brad é responsável pela inclusão de certas canções contemporâneas do repertório popular. Algumas estão nesse disco: Lithium (Kurt Cobain), Exit Music (for a Film) (Radiohead), Martha My Dear (Lennon & McCartney), e Things Behind the Sun (Nick Drake). O destaque do disco é Dat Dere, de Bobby Timmons. Ouça.
Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Se você quiser tiver interesse, leia mais alguma coisa sobre Brad Mehldau em: http://bit.ly/MxnvIK e http://bit.ly/GD0MZ8.
O terceiro disco comentado é Snakeoil (ECM, 2012), de Tim Berne. É mais avant garde do que os outros dois. O início de Simple City – a primeira faixa – lembra um pouco o clássico Nefertiti The Beautiful Has Come, de Cecil Taylor, gravação de uma apresentação de novembro de 1962 no Café Montmartre, em Copenhagen, Dinamarca, pelas primeiras notas de piano e a posterior entrada do sax alto de Berne. Em Nefertiti, o sax alto era de Jimmy Lyons, e a bateria, de Sunny Murray. É um disco bem interessante. Tocam com Tim, Oscar Noriega (clarinetas), Matt Mitchell (piano) e Chess Smith (bateria e percussão). O som é sempre tenso, dramático, às vezes, impressionista, climático, enfim, é um bom disco. Merece estar entre os dez melhores. A banda é afinadíssima. Um destaque é Noriega na clarineta e clarineta baixo.
Ouça Scanners. Decerto não é o gênero que cai melhor no gosto da maioria, mas para quem gosta é um prato cheio.
Do décimo primeiro ao trigésimo
A Dowbeat, desta vez (não me recordo se em 2011 foi assim, também), classificou até o trigésimo. Estão incluídos, For True (Trombone Shorty), Samdhi (Rudresh Mahanthappa), Charlie Haden e Hank Jones (Come Sunday), Matthew Shipp (The Art of the Improviser), Charles Lloyd (Athens Concert), Branford Marsalis e Joey Calderazzo (Songs of Mirth and Melancholy), Chick Corea, Eddie Gomez e Paul Motian (Further Explorations), 3 Cohens (Family), Christian McBride (Conversations with Christian McBride) e Tierney Sutton Band (American Road). Cito apenas os que ouvi, nem todos com a atenção devida.
Trombone Shorty tem pouco mais de 25 anos e já é considerado um dos melhores trombonistas (toca trumpete também) pela crítica. For True conta com participações de Jeff Beck e Lenny Kravitz. O som de Shorty é um jazz mesclado por tinturas de rap e funk e, naturalmente, com o som de New Orleans, sua cidade natal. É vibrante, jovem e esfuziante.
Veja Shorty em Buckjump, a primeira faixa de For True.
Nem tão vibrante é Songs of Mirth and Melancholy. Bem, canções de alegria e melancolia. Esta última palavra não é antônimo de alegria. Ao contrário do disco de Trombone Shorty, este não é para sair pulando pela sala. O álbum de Branford Marsalis com o pianista Joey Calderazzo, com exceção de One Way e Bri’s Dance (a primeira e a última), tende mesmo à melancolia. Branford Marsalis tinha gravado antes em duo com piano, Loved Ones (Columbia 1995), com seu pai Ellis, belíssimo. Songs of Mirth and Melancholy é quase tão bom quanto.
Ouça Hope, uma das melhores do CD.
Está ficando longo. Serei mais curto. Dois dos citados já foram objetos nesse blogue: Come Sunday, de Hank Jones e Charlie Haden (leia em http://bit.ly/OlS6MC), e Athens Concert, de Charles Lloyd e Maria Farantouri (leia em http://bit.ly/MxItap).
Samdhi, de Rudresh Mahanthappa, ficou em 13º lugar. Poderia estar entre os dez melhores. Foi o melhor saxofonista alto neste ano, pela Downbeat. Já tinha me impressionado quando se apresentou com Vijay Iyer em São Paulo, no Bridgestone Music Festival de 2008. O line up De Rudresh é excepcional, com o guitarrista David Gilmore (por favor, não confunda com David Gilmour, do Pink Floyd), Rich Brown no baixo elétrico, Damion Reid na bateria, e "Anand" Anantha Krishnan tocando mirdangam e kanjira.
Ouça Killer, do álbum Samdhi.
American Road, de Tierney Sutton Band, 26º, merecia melhor colocação. É uma das boas cantoras da atualidade e tem o pianista Christian Jacob como ótimo parceiro.
Conversations with Christian McBride ficou em 25º. É o melhor disparado em seu instrumento – contrabaixo – e arrasa também no baixo elétrico. É um álbum de duos com astros do pop como Angelique Kidjo e Sting, sendo a maioria intérpretes do jazz como Dee Dee Bridgewater, Hank Jones, Russell Malone, Dr. Billy Taylor, Roy Hargrove e Ron Blake. Bom disco.
Veja e ouça Sting e Christian McBride em Consider Me Gone, composição do britânico.
1. Vijay Iyer Trio, Accelerando (ACT) - 115 votos
2. Sonny Rollins, Road Shows vol. 2 (Doxy/EmArcy) - 69
3. Keith Jarrett, Rio (ECM) - 68
4. Gregory Porter, Be Good (Motéma) - 56
5. Miguel Zenón, Alma Adentro: The Puerto Rican Songbook (Marsalis Music) - 54
6. Brad Mehldau, Live in Marciac (Nonesuch) - 52
7. Matt Wilson’s Arts & Crafts, An Attitude for Gratitude (Palmetto) - 40
8. Corea, Clarke White, Forever (Concord)
9. Terri Lyne Carrington, The Mosaic Project (Concord) - 38
10. Tim Berne, Snakeoil (ECM) - 33
O álbum que foi considerado o quarto melhor do ano é de Gregory Porter. Be Good é o seu segundo disco. É a revelação como cantor; foi o segundo classificado, atrás de Kurt Elling. Este é hors-concours: leva todas há muito tempo, com justiça (sobre ele e seu pianista Laurence Hobgood, leia http://bit.ly/MXCcHL). Porter é, se me faço entender, sem ironias, um Kevin Mahogany menos vitaminado. Há uma característica bem específica em relação aos cantores negros que os diferencia: o registro da voz, e como no caso de Mahogany, tende a uma forma de interpretar mais conectada ao blues e até ao rhythm’ blues. É um grande cantor. Comentarei, com maiores detalhes sobre Porter em outra ocasião, pois ele merece. Por enquanto, ouça Painted on Canvas.
Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
O álbum Live in Marciac é mais um solo de Brad Mehldau. Para os que não possuem nenhum disco do pianista, é uma boa. É um combo com dois CDs e um DVD. Por conta de uma “overdose” de Mehldau durante todos esses anos, confesso, não ouvi com a atenção que ele merece. Mehldau, para mim, é como aquela velha Levi’s 501 que está guardada no armário. Sabemos que é um porto seguro, mas a deixamos guardada à procura de novidades.
Um comentário: o saudoso Carlos Conde não gostava de piano solo; gostava mesmo era do tradicional formato trio piano, baixo e bateria. Perguntei se tinha gostado de Live in Tokyo (Nonesuch), na ocasião de seu lançamento em 2004. Perguntei porque Brad tinha se tornado um dos meus pianistas preferidos. Respondeu: “O disco é muito triste. Coitado, esse rapaz deve ter algum problema.” Pensando bem, sua observação tinha alguma lógica. Em um longo texto em Elegiac Cycle (WB, 1999), Brad desvela seu amor pelo romantismo germânico; não é à toa que sua editora se chama Werther Music.
Na repetição de seu costumeiro repertório percebem-se as mudanças no desenvolvimento dos temas, desconstruindo-os cada vez mais. Parece mais uma viagem particular de Brad e, por isso, é um tanto difícil ocorrer uma maior empatia. Em Live in Marciac, a seleção é bem eclética, como é de seu feitio. São seis temas próprios e quatro standards (It’s All Right with Me, Lilac Wine, My Favorite Things e Dat Dere). Brad é responsável pela inclusão de certas canções contemporâneas do repertório popular. Algumas estão nesse disco: Lithium (Kurt Cobain), Exit Music (for a Film) (Radiohead), Martha My Dear (Lennon & McCartney), e Things Behind the Sun (Nick Drake). O destaque do disco é Dat Dere, de Bobby Timmons. Ouça.
Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Se você quiser tiver interesse, leia mais alguma coisa sobre Brad Mehldau em: http://bit.ly/MxnvIK e http://bit.ly/GD0MZ8.
O terceiro disco comentado é Snakeoil (ECM, 2012), de Tim Berne. É mais avant garde do que os outros dois. O início de Simple City – a primeira faixa – lembra um pouco o clássico Nefertiti The Beautiful Has Come, de Cecil Taylor, gravação de uma apresentação de novembro de 1962 no Café Montmartre, em Copenhagen, Dinamarca, pelas primeiras notas de piano e a posterior entrada do sax alto de Berne. Em Nefertiti, o sax alto era de Jimmy Lyons, e a bateria, de Sunny Murray. É um disco bem interessante. Tocam com Tim, Oscar Noriega (clarinetas), Matt Mitchell (piano) e Chess Smith (bateria e percussão). O som é sempre tenso, dramático, às vezes, impressionista, climático, enfim, é um bom disco. Merece estar entre os dez melhores. A banda é afinadíssima. Um destaque é Noriega na clarineta e clarineta baixo.
Ouça Scanners. Decerto não é o gênero que cai melhor no gosto da maioria, mas para quem gosta é um prato cheio.
Do décimo primeiro ao trigésimo
A Dowbeat, desta vez (não me recordo se em 2011 foi assim, também), classificou até o trigésimo. Estão incluídos, For True (Trombone Shorty), Samdhi (Rudresh Mahanthappa), Charlie Haden e Hank Jones (Come Sunday), Matthew Shipp (The Art of the Improviser), Charles Lloyd (Athens Concert), Branford Marsalis e Joey Calderazzo (Songs of Mirth and Melancholy), Chick Corea, Eddie Gomez e Paul Motian (Further Explorations), 3 Cohens (Family), Christian McBride (Conversations with Christian McBride) e Tierney Sutton Band (American Road). Cito apenas os que ouvi, nem todos com a atenção devida.
Trombone Shorty tem pouco mais de 25 anos e já é considerado um dos melhores trombonistas (toca trumpete também) pela crítica. For True conta com participações de Jeff Beck e Lenny Kravitz. O som de Shorty é um jazz mesclado por tinturas de rap e funk e, naturalmente, com o som de New Orleans, sua cidade natal. É vibrante, jovem e esfuziante.
Veja Shorty em Buckjump, a primeira faixa de For True.
Nem tão vibrante é Songs of Mirth and Melancholy. Bem, canções de alegria e melancolia. Esta última palavra não é antônimo de alegria. Ao contrário do disco de Trombone Shorty, este não é para sair pulando pela sala. O álbum de Branford Marsalis com o pianista Joey Calderazzo, com exceção de One Way e Bri’s Dance (a primeira e a última), tende mesmo à melancolia. Branford Marsalis tinha gravado antes em duo com piano, Loved Ones (Columbia 1995), com seu pai Ellis, belíssimo. Songs of Mirth and Melancholy é quase tão bom quanto.
Ouça Hope, uma das melhores do CD.
Está ficando longo. Serei mais curto. Dois dos citados já foram objetos nesse blogue: Come Sunday, de Hank Jones e Charlie Haden (leia em http://bit.ly/OlS6MC), e Athens Concert, de Charles Lloyd e Maria Farantouri (leia em http://bit.ly/MxItap).
Samdhi, de Rudresh Mahanthappa, ficou em 13º lugar. Poderia estar entre os dez melhores. Foi o melhor saxofonista alto neste ano, pela Downbeat. Já tinha me impressionado quando se apresentou com Vijay Iyer em São Paulo, no Bridgestone Music Festival de 2008. O line up De Rudresh é excepcional, com o guitarrista David Gilmore (por favor, não confunda com David Gilmour, do Pink Floyd), Rich Brown no baixo elétrico, Damion Reid na bateria, e "Anand" Anantha Krishnan tocando mirdangam e kanjira.
Ouça Killer, do álbum Samdhi.
American Road, de Tierney Sutton Band, 26º, merecia melhor colocação. É uma das boas cantoras da atualidade e tem o pianista Christian Jacob como ótimo parceiro.
Conversations with Christian McBride ficou em 25º. É o melhor disparado em seu instrumento – contrabaixo – e arrasa também no baixo elétrico. É um álbum de duos com astros do pop como Angelique Kidjo e Sting, sendo a maioria intérpretes do jazz como Dee Dee Bridgewater, Hank Jones, Russell Malone, Dr. Billy Taylor, Roy Hargrove e Ron Blake. Bom disco.
Veja e ouça Sting e Christian McBride em Consider Me Gone, composição do britânico.
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