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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A força de Strange Fruit

A melhor Strange Fruit é a de Billie Holiday. Pelo menos, essa é a opinião geral. Impossível dissociar essa música da cantora. Ela fala de estranhas “frutas” dependuradas em árvores. A letra se compõe de “contrastes”: perfumes de magnólia misturam-se ao cheiro de carne humana carbonizada, de paisagens pastoris de um “galante sul” que se contrapõem à vista de olhos esbugalhados e bocas retorcidas, e o verde das folhas é manchado pelo rubro do sangue.

Foto de Lawrence Breitler que inspirou Strange Fruit
A história de Strange Fruit, no entanto, é anterior à cantora. Um judeu nova-iorquino, morador de Bronx e professor do ensino médio, a partir de uma foto de Lawrence Breitler em que aparecem Thomas Shipp e Abram Smith pendurados numa árvore, linchados, e no primeiro plano, um aglomerado de pessoas brancas indiferentes àqueles corpos, fez um poema assinando como Lewis Allan e o publicou no The New Masses. O nome sugestivo não é mero acaso: o jornal era comunista, como era também Abel Meeropol, verdadeiro nome de seu autor. Lewis e Allan eram os nomes de seus dois filhos que morreram crianças. Juntou-os para forma seu pseudônimo. Meeropol é constantemente lembrado por ter ficado com a guarda dos filhos de Julius e Ethel Rosenberg após a execução de ambos, acusados de espionagem em favor da antiga União Soviética.

Num local chamado Café Society, frequentado por “líderes sindicais, intelectuais, escritores, amantes do jazz, celebridades, estudantes e outras tipos de pessoas de esquerda” – segundo o historiador David W. Stowe – Holiday cantou a música composta por Meeropol. O modelo desse Café era o das casas musicais de Berlim e Paris. Nesse lugar esbarrava-se com simpatizantes ou militantes do comunismo como a escritora Lilian Hellman, o poeta negro Langston Hughes, o cantor Paul Robeson, o músico e teatrólogo Marc Blitzstein, Charles Chaplin ou até Nelson Rockefeller e Lauren Bacall. Mais tarde, a perseguição implacável de Edgar G. Hoover acabou sufocando a existência desses lugares que reuniam esses “subversivos”.

Billie não tinha exatamente o perfil de uma pessoa engajada. “Para ser franco, não acho que ela tenha se sentido à vontade com a canção, porque muito diferente das canções que estava acostumada a cantar.” Meeropol complementa dizendo que Billie perguntou: “O que a palavra ‘pastoral’ significa?” Mesmo sem entender direito o significado das palavras do que cantava, até por certa falta de “sofisticação” intelectual, soube transmitir magnificamente a força contida na letra de Strange Fruit. Essa é a força do grande artista.

Holiday, nessa época, era contratada da Columbia. Seus dirigentes recusaram gravá-la. Acabou sendo registrada por uma pequena gravadora, a Commodore em 1939. Atingiu o 16º lugar nas paradas. Num disco de 10 polegadas gravou quatro músicas e recebeu, no começo, 500 dólares e depois, mais mil. Era um bom dinheiro. Milt Gabler, dono da gravadora, afirmou que, ocasionalmente lhe dava algum dinheiro, pois Billie vivia tendo alguns “probleminhas” financeiros. Além desse registro, existem outros que Billie fez pela Verve Records. Um fato interessante é John Hammond, seu descobridor e produtor na Columbia, não apenas ter recusado a gravar Strange Fruit, como ter afirmado que ela significava ser “o começo do fim para Billie”. Deve-se reconhecer, diante dessa afirmação que seu auge como cantora foi registrado na década de 1930 por essa gravadora. É claro que milhões irão discordar. Muitos acham que a voz judiada pelo abuso do álcool e pelas drogas ficou mais densa, dramática, e por isso, melhor. Alguns estudiosos de sua obra afirmam que Strange Fruit é uma música estranha ao seu repertório.

O crítico Leonard Feather afirmou que Strange Fruit foi a primeira música significativa de protesto e a primeira que se manifesta tão diretamente contra o racismo. Alguns discordam e dizem que Black and Blue, de Louis Armstrong, é a pioneira. Contextualizada ou não, foi gravada por muitos cantores, na maioria, negros. A mais conhecida é a de Nina Simone. Era a perfeita combinação com seu estilo dramático e grave de cantar. Soma-se o fato de que Nina foi uma cantora mais identificada com a luta pelos direitos dos negros; e Strange Fruit não foi a única que Nina cantava e que convergia para a causa racial.

Outro registro que pode nos levar a imaginar algum “engajamento” seria o de Abbey Lincoln, mais por ser conhecida, com seu ex-marido Max Roach, por seu alinhamento com a luta dos negros contra a discriminação. Sua versão em Abbey Sings Billie, porém deve ser considerada como mais uma das canções que gravou do repertório de Lady Day, já que é “alguém cantando alguém”, como tantos outros que existem no mercado fonográfico. Comparando, é como um “Sarah Vaughan Sings Gershwin” ou um “Ella Sings Brecht”. Os discos que Carmen McRae e de Dee Dee Bridgewater gravaram seguem também esse mesmo contexto. Não se pode dizer que a Strange Fruit contida em Lover Man and Other Holiday Classics e To Billie with Love, respectivamente, estejam nesses discos como um alinhamento de ambas pelas causas dos negros.

Ainda no contexto jazzístico, vale registrar o de algumas intérpretes mais contemporâneas. A de René Marie está em Vertigo, de 2001, e a da canadense Ranee Lee em Deep Song, de 1989. Na seara pop há o registro de Sting com a orquestra de Gil Evans, o de Robert Wyatt – belíssima – em Nothing Can Stop Us e outra de Antony & The Johnsons que conheço apenas por um vídeo postado no You Tube (vejam em http://www.youtube.com/watch?v=GUJj01Xhm6g), numa interpretação personalíssima e delicada. Wyatt, em sua carreira solo, depois de se desligar do Soft Machine, gravou várias músicas adequadas para esse contexto de engajamento e identificação com causas sociais e políticas ligadas à esquerda. Gravou Guantanamera, é autor de Timor (contra o domínio colonialista de Portugal) e Song for Che.

Nota: várias informações sobre o Café Society e a conjuntura americana à época em que Strange Fruit foi composta foram baseadas em artigo de David Margolick para a Vanity Fair, de setembro de 1988.

Assistam a um registro de Lady Day cantando Strange Fruit e outro de Robert Wyatt.




Com Robert Wyatt:

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A “ópera cômica” de Robert Wyatt

Dizem que “gosto não se discute, apenas se lamenta”. Tem mais: alguns artistas, bandas ou gêneros atraem opiniões extremadas, contrastantes. Ou se ama ou se odeia. Quem gosta de axé ama de paixão, e do mesmo modo, os que não gostam, odeiam. Mais ainda: Fla x Flu, Palmeiras x Corínthians. Quem gosta de um, odeia o outro. Conclusão provisória: melhor do que ser indiferente.

Quem gosta de Robert Wyatt o adora num nível de quase devoção. Aqueles que não o conhecem, quando apresentados, acham som dele “muiiito estranho”. E não são pessoas com pouca informação musical que acham isso. Se a referência for apenas a de cantor, tudo bem: tem a voz pequena e não é dos mais afinados. Uma voz parecida, na dificuldade de classificá-la, que lembra a dele é a de Elvis Costello.

Alguns lamentarão: sinto dizer que sou do time dos fãs de Wyatt, não tão fanático quanto alguns amigos. Acabo de ouvir seu último CD – Comicopera –, lançado em 2008, e estou perto e dizer que é genial: preciso de mais algumas audições para um melhor juízo. Dos discos solo de Wyatt, é um dos melhores, à altura de Old Rottenhat e Dondestan.

Para quem não o conhece, vai uma breve “biografia”. Ele é fundador – com o tecladista Mike Ratledge, Daevid Allen, e Kevin Ayers – do Soft Machine, talvez a melhor banda do que se convencionou chamar de “jazz fusion” ou “jazz-rock” europeu, bem diferente do som perpetrado pelos americanos Chick Corea (porto-riquenho), Joe Zawinul (austríaco) ou Miles Davis. O australiano Allen saiu logo e formou depois outra grande banda, o Gong. Com o saxofonista Elton Dean, Hugh Hooper no baixo, Ratledge nos teclados e ele na bateria, o Soft produziu os melhores sons do fim dos anos 1960 e início de 1970. Entrou em conflito com o resto da banda, saiu e formou outra, o Matching Mole, e, em 1973, caiu (dizem que ele pulou) do terceiro andar de um prédio onde acontecia uma festa… daquelas. Uma das pessoas que o socorreu foi a atriz Julie Christie (foi o que disse um amigo). Ficou paraplégico e se apresenta sentado em uma cadeira de rodas. Sem mais poder tocar bateria – seu instrumento original –, toca teclados e trumpete. Como alguns amigos que o consideram gênio, outros como o ex-baterista do Pink Floyd, Nick Mason, David Gilmour, Paul Weller – formou o The Jam e o The Style Council e depois seguiu carreira-solo – e Brian Eno, também acham. É um músico dos músicos, antes de mais nada. Um tanto diferente da época do Soft Machine e do Matching Mole, Wyatt está gordo e está de barba – enorme – branca: parece um guru, um profeta. 

Alguns gostam de misturar política com arte. Certos críticos e jornalistas – aproveito a ocasião – ressaltam que a obra de José Saramago será mais bem avaliada com o tempo passado de sua morte. Dizem que seu ateísmo e comunismo radicais se imiscuíram em sua obra (persona x obra), prejudicando-o num julgamento mais imparcial. Em tempos políticos e econômicos instáveis é até justificável, mas a qualidade de uma obra não está no engajamento ou não, se é de esquerda ou direita, Assim, fica quase cômico, canções libertárias, engajadas ou evocando Che Guevara, Stálin, Lênin ou Trotsky. Não sei se alguém se lembra de que o baixista americano Charlie Haden foi preso e deportado de Portugal pouco antes de se apresentar no Festival de Estoril, nos tempos finais da ditadura salazarista, por se opor ao colonialismo lusitano. Grande atitude! Mas o que tem a ver com sua música? A banda que Haden montou com a pianista e compositora Carla Bley se chama Liberation Orchestra Music. O baixista está em evidência até hoje graças ao seu talento e não ao seu “engajamento” político. Robert Wyatt também. Ligou-se ao Partido Comunista no início dos anos 1980 – por que não antes? –, engajou-se na questão das Ilhas Malvinas, compôs música em favor da libertação do Timor, cantou Guantanamera, louvou Che, e daí? Descontando alguma coisa, ele é genial.

Para quem não conhece o Soft Machine. Robert Wyatt é o baterista.



Robert Wyatt cantando Shipbuilding, composta por Elvis Costello: