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| Foto de Lawrence Breitler que inspirou Strange Fruit |
Num local chamado Café Society, frequentado por “líderes sindicais, intelectuais, escritores, amantes do jazz, celebridades, estudantes e outras tipos de pessoas de esquerda” – segundo o historiador David W. Stowe – Holiday cantou a música composta por Meeropol. O modelo desse Café era o das casas musicais de Berlim e Paris. Nesse lugar esbarrava-se com simpatizantes ou militantes do comunismo como a escritora Lilian Hellman, o poeta negro Langston Hughes, o cantor Paul Robeson, o músico e teatrólogo Marc Blitzstein, Charles Chaplin ou até Nelson Rockefeller e Lauren Bacall. Mais tarde, a perseguição implacável de Edgar G. Hoover acabou sufocando a existência desses lugares que reuniam esses “subversivos”.
Billie não tinha exatamente o perfil de uma pessoa engajada. “Para ser franco, não acho que ela tenha se sentido à vontade com a canção, porque muito diferente das canções que estava acostumada a cantar.” Meeropol complementa dizendo que Billie perguntou: “O que a palavra ‘pastoral’ significa?” Mesmo sem entender direito o significado das palavras do que cantava, até por certa falta de “sofisticação” intelectual, soube transmitir magnificamente a força contida na letra de Strange Fruit. Essa é a força do grande artista.
Holiday, nessa época, era contratada da Columbia. Seus dirigentes recusaram gravá-la. Acabou sendo registrada por uma pequena gravadora, a Commodore em 1939. Atingiu o 16º lugar nas paradas. Num disco de 10 polegadas gravou quatro músicas e recebeu, no começo, 500 dólares e depois, mais mil. Era um bom dinheiro. Milt Gabler, dono da gravadora, afirmou que, ocasionalmente lhe dava algum dinheiro, pois Billie vivia tendo alguns “probleminhas” financeiros. Além desse registro, existem outros que Billie fez pela Verve Records. Um fato interessante é John Hammond, seu descobridor e produtor na Columbia, não apenas ter recusado a gravar Strange Fruit, como ter afirmado que ela significava ser “o começo do fim para Billie”. Deve-se reconhecer, diante dessa afirmação que seu auge como cantora foi registrado na década de 1930 por essa gravadora. É claro que milhões irão discordar. Muitos acham que a voz judiada pelo abuso do álcool e pelas drogas ficou mais densa, dramática, e por isso, melhor. Alguns estudiosos de sua obra afirmam que Strange Fruit é uma música estranha ao seu repertório.
O crítico Leonard Feather afirmou que Strange Fruit foi a primeira música significativa de protesto e a primeira que se manifesta tão diretamente contra o racismo. Alguns discordam e dizem que Black and Blue, de Louis Armstrong, é a pioneira. Contextualizada ou não, foi gravada por muitos cantores, na maioria, negros. A mais conhecida é a de Nina Simone. Era a perfeita combinação com seu estilo dramático e grave de cantar. Soma-se o fato de que Nina foi uma cantora mais identificada com a luta pelos direitos dos negros; e Strange Fruit não foi a única que Nina cantava e que convergia para a causa racial.
Outro registro que pode nos levar a imaginar algum “engajamento” seria o de Abbey Lincoln, mais por ser conhecida, com seu ex-marido Max Roach, por seu alinhamento com a luta dos negros contra a discriminação. Sua versão em Abbey Sings Billie, porém deve ser considerada como mais uma das canções que gravou do repertório de Lady Day, já que é “alguém cantando alguém”, como tantos outros que existem no mercado fonográfico. Comparando, é como um “Sarah Vaughan Sings Gershwin” ou um “Ella Sings Brecht”. Os discos que Carmen McRae e de Dee Dee Bridgewater gravaram seguem também esse mesmo contexto. Não se pode dizer que a Strange Fruit contida em Lover Man and Other Holiday Classics e To Billie with Love, respectivamente, estejam nesses discos como um alinhamento de ambas pelas causas dos negros.
Ainda no contexto jazzístico, vale registrar o de algumas intérpretes mais contemporâneas. A de René Marie está em Vertigo, de 2001, e a da canadense Ranee Lee em Deep Song, de 1989. Na seara pop há o registro de Sting com a orquestra de Gil Evans, o de Robert Wyatt – belíssima – em Nothing Can Stop Us e outra de Antony & The Johnsons que conheço apenas por um vídeo postado no You Tube (vejam em http://www.youtube.com/watch?v=GUJj01Xhm6g), numa interpretação personalíssima e delicada. Wyatt, em sua carreira solo, depois de se desligar do Soft Machine, gravou várias músicas adequadas para esse contexto de engajamento e identificação com causas sociais e políticas ligadas à esquerda. Gravou Guantanamera, é autor de Timor (contra o domínio colonialista de Portugal) e Song for Che.
Nota: várias informações sobre o Café Society e a conjuntura americana à época em que Strange Fruit foi composta foram baseadas em artigo de David Margolick para a Vanity Fair, de setembro de 1988.
Assistam a um registro de Lady Day cantando Strange Fruit e outro de Robert Wyatt.
Com Robert Wyatt:

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