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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Natalie Cole e seu pai

A pequena Natalie com o pai Nat
A tragédia rondou os próximos de Picasso depois de sua morte. Considerado o maior pintor do século 20, foi um gênio também na arte de conquistar as mulheres. Era um touro misógino e ególatra. Os filhos foram meros detalhes – ou acidentes – e pouco receberam atenção. O que importava era o seu trabalho e mulheres para aplacar os desejos do priápico artista.

Quando morreu, Jaqueline Roque, sua última mulher proibiu a presença de dois dos filhos no funeral. O neto Pablito, filho de Paulo, um dos proibidos de despedir-se, dias depois, bebeu água sanitária e após três meses morreu. Paulo, seu pai, dependente da ajuda financeira do pai e rejeitado, morreu dois anos depois, vítima do alcoolismo. Marie-Thérèse Walter, uma de suas amantes suicidou-se em 1977. Jaqueline também suicidou-se, em 1985. Paloma Picasso, filha dele com Françoise Gillot, conseguiu dar a volta por cima: escandalizou posando nua e depois ficou conhecida pelo trabalho como designer de joias e por ter um perfume com seu nome.

Na época em que Picasso morreu, o artista plástico Luis Paulo Baravelli, costumeiro autor de belas tiradas, dizia que a pior coisa do mundo era ser filho de gênio. O filho de Frank Sinatra resolveu ser cantor, assim como Nancy. Ela, pelo menos, fez algum sucesso, por um tempo. Como Paloma, posou nua, aproveitando-se de um de seus bons atributos. Com o pai que teve, assim mesmo Natalie Cole resolveu ser cantora.

Nat, nascido Nathaniel, foi um dos gênios musicais do século 20, assim como foi Picasso em sua especialidade. Não foi à toa que o “King” foi agregado ao seu nome. Os mais puristas gostam de dizer que Nat King Cole foi um gênio ao piano e, cantando, curvou-se ao comercialismo. Mas é isso mesmo: sua enorme popularidade veio pela bela voz de barítono, cálida, capaz de emocionar o mais bronco da humanidade, cantando Blue Gardenia, When I Fall in Love, Unforgettable, Nature Boy e tantas outras canções.

King Cole foi revolucionário ao piano com seu trio constituído apenas de uma guitarra e um contrabaixo. Fez escola. Influenciou Oscar Peterson, Ahmad Jamal, Monty Alexander e muitos outros nascidos depois. Tocando com seu trio, vez por outra, cantava. Perceberam a bela voz que tinha. O tremendo sucesso resultou em dinheiro. Foi morar em uma bela mansão em Los Angeles, cercada exclusivamente por brancos. Pior de que agora, sofreu com a discriminação, muito mais presente e até natural para a maior parte da sociedade americana da década de 1950.

O sucesso foi tanto que ele foi um dos primeiros negros a ter um programa de televisão. Em novembro de 1956, estreou o seu Nat King Cole Show, na NBC. Durou pouco. Visto por negros e brancos, fez sucesso e trouxe grandes atrações, mas não conseguiu anunciantes e patrocinadores. Durou pouco. Perguntado sobre o fim do programa, Cole disse: “A Madison Avenue tem medo do escuro.” A avenida Madison é onde até hoje estão concentradas as maiores agências de publicidade.

Sucesso e dinheiro não correspondem garantia de longevidade. O cigarro o matou com 45 anos. Natalie Cole era uma adolescente na época. 

Natalie teve um início auspicioso como cantora. Sabia muito bem do peso do nome do pai e preferiu evitar possíveis comparações. Por isso, seguiu por outra seara. Filha de outros tempos, seu gosto era mais pop. Seus produtores imaginaram que teria bom potencial seguindo pelas sendas do rhythm’ blues e da soul music, que estava dando muito certo com Aretha Franklin. E foi assim. Emplacou várias canções entre os primeiros

Orfã aos 15, dando-se bem mal com a mãe, alguma coisa fez com que a carreira desandasse. Entrou pesado pelas carreiras da cocaína, heroína, e ainda o álcool. Teve de ser internada. Acabou, ou melhor, acabou-se.

Recuperada, com Everlasting, em 1987, voltou às paradas. Atingiu a marca de um milhão de discos vendidos. Cole estava de volta. Mas a consagração veio com Unforgettable… with Love, de 1991. O grande hit foi Unforgettable, em que Natalie Cole faz um “duo” com o pai. “Ressuscitaram” Nat e colocaram a voz da filha.  O duo tem um valor simbólico forte, pois assim, liberta-se da pesada herança que é ter um pai gênio.  Deixou as drogas, aparentemente, e ficou em paz com o pai e com o sucesso. Ao contrário de antes, Natalie passou a incluir temas mais ligados ao jazz.

Por um pouco de preconceito, alguns puristas, simplesmente, ignoram Natalie ou a chamam de medíocre. A comparação com o talento do pai é injusta. Não considerada, deve-se reconhecer que tinha boa voz e não fez feio cantando standards.

No dia 31 de dezembro do ano passado, Natalie foi fazer companhia ao pai. Tinha hepatite C e a causa mortis foi uma insuficiência cardíaca, provocada por uma hipertensão arterial pulmonar idiopática.

O duo Unforgettable. 




Veja Natalie com Diana Krall.




Ouça What a Difference a Day Made, que ficou clássica com Dinah Washington.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Agora, Natalie Cole também canta em espanhol

A “espanhola” Natalie Cole
Quem é espírita ou acredita em coisas como reencarnação, deve ter jurado que Nat King Cole tinha ressucitado em 1991. Nesse ano fora lançado um dueto de Natalie Cole e seu pai cantando Unforgettable. Era tão perfeito que poderia jurar-se que Nat estava entre nós, novamente. Não sei se Natalie foi pioneira nesse tipo de “truque”. O certo é que ficou banal, tal o número de gente que veio do além e sem direito de levar seus royalties para o céu ou para o inferno.

Infelizmente, Nat está morto desde 1959, em consequência dos três maços de cigarro que fumava diariamente. Era um cara especial. Grande pianista, influenciou muitos, como Oscar Peterson, com seu trio pioneiro composto de piano, guitarra e contrabaixo. Revolucionário, em sua maestria ao piano, tornou-se popular – e bote popular nisso – como cantor com sua voz de barítono cantando baladas como Mona Lisa e Nature Boy. Tão popular que foi o primeiro negro a ter um programa só seu na NBC. Mesmo fazendo sucesso, durou apenas uma ano por falta de patrocinadores. Na América racista, ninguém tinha coragem de anunciar seus produtos no The Nat King Cole Show. Era um boa praça carismático, sempre a sorrir, mas sofreu na pele o fato de ser preto. Campeão de vendas, ganhando muito dinheiro, comprou uma casa em Los Angeles. A vizinhança não gostou nenhum pouco e a Ku Klu Klan, muito menos: fincaram uma cruz em chamas na frente dela.

É sempre difícil ser filho de gênios. Ou você é um perfeito idiota que não vai importar-se com isso, ou é aquela velha questão do desejo de ser melhor que a geração anterior. Não deve ter sido fácil para Natalie Cole. Nove dias depois de completar 15 anos, o pai morreu. Abusou no consumo de cocaína, heroína e alcool. A consequência, descobriu em 2008: tem hepatite C.

De hoje em dia há uma profusão de atores que são filhos de atores, cantores filhos de cantores, jogadores filhos de jogadores, mas experimente contar quantos conseguem ser melhor que seus progenitores. Mercer herdou a orquestra do pai Duke Ellington e não conseguiu nem ao menos ser uma sombra. E Frank Sinatra Jr? E Nancy? Bom, Nancy até conseguiu certa projeção. E o filho de Pelé? O vício de Natalie Cole bem que pode ter sido pelo peso imenso de ter o pai que teve o “King” acrescentado ao nome, tal a sua genialidade. Mas ela tinha voz e capacidade e perseverou. Sem o peso do nome, porventura tivesse sido mais fácil.

A bela negra de olhos cor de mel, aos trancos e barrancos, erigiu uma carreira respeitável e hoje é contratada da Verve Records, uma das majors especializadas em jazz. Está na estrada desde 1975 e tem mais de vinte discos lançados. O último chama-se Natalie en Español. Um disco em “espanhol”, com certeza. Fãs de King Cole devem conhecer Cole Español (1956), A Mis Amigos (1959) e More Cole Español (1962). No primeiro tem até música brasileira: Suas Mãos, de Antonio Maria, Caboclo do Rio (a única interpretação que eu conheço é a de Inesita Barroso) e Não Tenho Lágrimas, cantadas em nossa língua. E mais: Nadie Me Ama. Advinhe de quem é? É aquela mesma, o Ninguém Me Ama, de Antonio Maria, “en español”. Ouça.




As músicas hispânicas mais conhecidas são as do gênero que, antigamente, chamavam de “mela cueca”, o bolero. O nome vem do tempo em que se dançava coladinho, corpos se tocando, sussurros nos ouvidos. Era a chance dos casais ficarem se roçando longe das vistas dos pais. Nos três álbuns de King Cole, temos clássicos desse tipo, como Perfídia, Noche de Ronda, A Media Luz e Solamente Una Vez.

Natalie Cole se acerca de alguns convidados, como Andrea Bocelli (esse não podia faltar; deve ser campeão de parcerias) e Juan Luis Guerra, e instrumentistas como os trumpetistas Arturo Sandoval e Chris Botti, e claro, seu pai. Ouça Acércate Más, com os dois.




A parte boa do álbum de Natalie são algumas músicas mais recentes, como Oye Como Va e Yo Lo Amo. Esta é a conhecida And I Love Her, de Lennon e McCartney. Uma curiosidade é uma versão de Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá, em espanhol.

Confira.

Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Ouça Besame Mucho, com Andrea Bocelli.




Ouça o medley de Voy Apagar la Luz e Contigo Aprendi.




Ouça a bela El Dia en Que Me Quieras.