quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Um Paul de cada lado

Com poucos dias de diferença, foram lançados “In the Blue Light”, de Paul Simon, e “Egypt Station”, de Paul McCartney. Do primeiro, pelo que vi, não se falou nada; do segundo, páginas e páginas. É justo? Depende, não?

Em breve comparação, pode-se dizer que o Paul americano nos apresenta, como é possível uma associação com o título, um álbum, basicamente, de tom melancólico. O Paul inglês, pelo contrário.

A imagem de McCartney, inclusive no seu período “melhor idade”, é a de um sujeito bem humorado, divertido, como se vê no vídeo com o comediante Jimmy Fallon (https://youtu.be/Z9q3e5wIrDw), ou no programa de James Corden (https://youtu.be/QjvzCTqkBDQ). Com 76 anos, transmite uma jovialidade surpreendente.

O Paul da América
Uma forte onda, nomeada “soft rock”, inundou o mundo musical em fins dos anos 1960 e início do próximo. Destacaram-se Carole King, America, Jim Croce, James Taylor e Simon & Garfunkel. Com exceção de Carole, era uma turma meio tímida. Mesmo assim, fizeram um tremendo barulho com seus violões de inspiração folk, caindo no gosto popular. Dentre eles, Paul Simon destacou-se não só pela riqueza melódica e harmônica de suas canções, mas pela rica poética descritiva. Com Art Garfunkel, cantou os mais belos temas da música americana da época. Eram dois rapazes que se conheceram na escola e formaram uma daquelas duplas perfeitas. Perto de Art, Paul poderia ser considerado um sujeito extrovertido. Não é tudo questão de referencial? Com exceção de “Cecilia” e alguma outra, talvez, o tom melancólico prevalece.

Em “In the Blue Light”, Simon traz novas leituras para antigas composições que, segundo ele, “estavam quase corretas ou eram estranhas o suficiente para serem ignoradas na primeira vez.” “One Man’s Ceiling Is Another Man’s Floor”, a primeira, original lançada em 1973, serve como parâmetro do que ouvimos a seguir. Com o novo arranjo, tem um andamento mais lento e mais jazzístico. “How the Heart Approaches What It Yearns”, de “One Trick Pony” – o título foi tirado do primeiro verso da canção – acontece algo semelhante, com arranjos de Bryce Dressner, da banda The National, participação de Wynton Marsalis e o sexteto novaiorquino yMusic, composto por violino, viola, cello, trompete, flauta e clarineta, que conferem ao álbum um clima de beleza e sofisticação.

Um bom exemplo é “René and Georgette Magritte with Their Dog After the War” (“Hearts and Bones”, 1983). Ouça.





O Paul do outro lado do Atlântico
Assim como o Simon de hoje não é mais aquele dos tempos em que formou dupla com Art Garfunkel, e dos primeiros álbuns sob seu nome, as novas composições de Paul McCartney, apesar de boas, não são geniais como tantos clássicos da era Beatle. Colocam-no porém em um nível acima da média do que se faz atualmente.

O álbum começa com sons de trens, o primeiro sinal do por que do nome “Egyptian Station”, anunciando uma viagem com paradas em estações – ou momentos – diferentes. A primeira é “I Don’t Know”, por sinal uma das melhores do álbum. Se as restantes tivessem a qualidade dessa, teríamos um grande disco. Entre momentos mais vigorosos, como “Come on to Me” ou “Caesar Rock”, confessionais, “Hand in Hand” e “Happy with You”, as duas com o violão acústico destacado, como na bela “Dominoes”, duas faixas mais longas em que mescla momentos diversos, meio no estilo “Golden Slumbers/Carry That Weight” (“Despite Repeated Warnings” e “Hunt You Down/Naked/C-Link”), Paul exercita sua versatilidade como compositor. Ah, e tem o momento Brasil, ou melhor, “Brazil”, bem pra turista ver, em “Back to Brazil”. Mas, em vez de nos deixar orgulhosos por lembrar de nós, só faz pensar que McCartney pode ser muito chato também. Veja o clipe de “Back in Brazil” em https://www.facebook.com/PaulMcCartney/videos/538319739930496/

Bom, mas o melhor é ouvir e aí cada um faz o seu juízo.




Ouça também o novo álbum de Paul Simon.