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terça-feira, 11 de março de 2025

Algo sobre “Um completo desconhecido” e sobre Bob Dylan

1. O primeiro álbum que tive de Bob Dylan foi The Freewheelin’. Era um dos LPs que encomendei para os meus pais. Minha geração é um pouco posterior à dos que já o conheciam. O primeiro LP que comprei na vida foi “Led Zeppelin III”. Acho que os seguintes foram (Pictures at an Exhibition, de Emerson, Lake & Palmer, e Fragile da banda Yes, possivelmente em 1972 ou 1973. Com o passar do tempo, fui atrás de artistas de outras gerações de que falavam, como Beatles, Rolling Stones etc. Foi assim que cheguei em Bob Dylan.

2. Antes de entrar em Arquitetura na USP, fiz seis meses na FAU-Santos. Tinha 18 anos e era a primeira vez que saía da casa dos meus pais. Dividi um pequeno apartamento na Ponta da Praia com um amigo que, por meio de outros, fiquei conhecendo na época do vestibular. Gastava todo o dinheiro da mesada comprando LPs, tinha uma quantidade considerável com 17 anos. Levei alguns e o meu equipamento, que era constituído de um Sansui, um toca-discos Elac e um par de caixas Polivox. Como morávamos em um apartamento que hoje seria chamado de estúdio (naquele tempo chamava-se kitnet), nossos vizinhos deviam ouvir o que escutávamos. O nosso de parede, um cara alto, meio calvo, uns dez anos mais velho, um doidão, descobrimos já de cara, consumidor de algumas drogas ilícitas, bateu na porta bem quando ouvíamos Bob Dylan. Entrou dizendo que era seu ídolo, sem cerimônias foi aumentando o som. O que eu quero dizer é que a diferença de idade era a razão de seu entusiasmo. Era um cara que viveu o surgimento de Dylan na música. Nós, mais jovens, tivemos a iniciação ouvindo o rock progressivo de Emerson, Lake & Palmer, Genesis, Yes e King Crimson.

3. Ao assistir ao filme Um completo desconhecido (2024), direção de James Mangold, fiquei com vontade de fazer um registro. Nunca li alguma biografia ou autobiografia de Dylan, portanto, o que escrevo está baseado no que vi e pode não corresponder exatamente com a a realidade.

4. Minha maior curiosidade, quando vi a capa de The Freewheelin’ pela primeira vez era pela mulher que  caminhava sorrindo abraçada a ele. Chamava-se Suze Rotolo. Digamos que me senti uma paixão platônica e um pouco de inveja. Estranhei que no filme se chamasse Sylvie Russo. Pesquisei e descobri que o próprio Dylan pediu ao diretor que trocasse seu nome. Pelo filme conclui-se que era uma moça culta, mais do que ele, politicamente engajada, ao contrário do “caipira” nascido em Duluth, Minesota. Porém era atormentada pela relação dele com Joan Baez. Teria sido mesmo?

5. O título da crítica de Inácio Araújo” na “Folha de S.Paulo” é: “Filme de Bob Dylan começa bem, mas se perde em burocracia”. Fiquei até receoso de assistí-lo. Ainda bem que não foi o suficiente para aplacar a minha curiosidade e posso dizer que adorei. Talvez soe um pouco esquemática e imagino que o diretor tenha dado mais ênfase no início de sua carreira, sua idolatria por Woodie Guthrie, seu maior ídolo e referência. Ao optar por passar a usar a guitarra elétrica, chocou um universo de amantes do folk, gênero com que ficara famoso. Foi um choque ele entrar com uma formação diferente no Newport Folk Festival. Era uma época de grandes mudanças estruturais, com o movimento civil, o flower power na Califórnia, drogas, amor livre, invasão britânica com os Rolling Stones e os Beatles e Jimi Hendrix fazendo uma revolução com sua guitarra elétrica em Londres e depois em sua terra natal. Dylan era um cara desses caras do “the times they are a-changin’”. Um marco dessa transformação é a apresentação de Bob Dylan, em 1966, no Royal Albert Hall, Londres, em que a primeira parte é acústica seguida pela elétrica.

6. No Brasil, logo depois, aconteceria algo parecido. Em 1967, no Festival de Música Popular da TV Record, Caetano Veloso resolve apresentar sua música Alegria, Alegria com a banda de rock argentina The Beat Boys. Foi acompanhada por vaias, mas uma parcela do público adorou a novidade. Aconteceram até passeatas em favor da pureza da música brasileira e contra a influência americana, com participantes conhecidos como Elvis Regina e até Gilberto Gil, que logo depois se renderia às guitarras elétricas e influências alienígenas. 

4. Desde sempre tive curiosidade de saber quem era a mulher que caminha com Bob na capa de The Freewheelin’. Estranhei de que no filme chama-se Sylvie Russo, quando na vida real chamava-se Suze Rotolo. No filme Sylvie é uma namorada atormentada pelo ciúme que tinha de Joan Baez. Pelo que sei, Dylan e Baez tiveram uma relação tumultuada que durou um tempo, cheia de idas e vindas. Uma primeira sincronia: dias depois que vi o filme, assisti ao documentário que Jorge Bodansky fez sobre a artista plástica Eleonore Koch (As cores e amores de Lore), e ela cita Joan Baez como sua cantora preferida.

5. Masters of War. A crise dos mísseis em Cuba, em outubro de1962, quando foi descoberto que os soviéticos estavam construindo bases de lançamentos de artefatos nucleares em Cuba, foi a “maior guerra atômica que não aconteceu”. Para mim que era uma criança e nascido no Brasil tal crise passou em branco, mas lembro que meus pais estavam acompanhando por meio da revista americana “Life”, que minha mãe comprava direto. A 40 quilômetros de Passos, estava sendo construída a usina hidrelétrica de Furnas. Era uma legião estrangeira trabalhando lá, indianos, americanos, filipinos, japoneses, daí a razão da facilidade de se encontrar revistas americanas. Minha mãe não sabia nada da língua inglesa, mas não perdia um número da “Life” e nem das brasileiras “Cruzeiro”, “Manchete” e a “Fatos & Fotos”, a versão “Life” nacional, com pouco texto e profusão de imagens. 

Foi um fato marcante na história do mundo ocidental. O discurso de John Kennedy, presidente dos Estados Unidos, deflagrou pânico total no povo americano, com prateleiras de supermercado esvaziadas pelo medo do confronto, caos e gente improvisando ou construindo abrigos. No filme são reproduzidas registros da época. Parece que serviu de inspiração para Bob compor Masters of Wars (é uma das faixas em The Freewheelin”). 

Coincidentemente, a crise dos mísseis é narrada em Lições (Companhia das Letras, 2022), de Ian McEwan, que estou lendo por esses dias. Adoro essas sincronias. Roland um pré-adolescente apaixonado por sua professora de piano, está pouco ligando para a crise, ao contrário dele, razoavelmente mais velha que ele. Roland vai à casa de Myriam, a professora, e transam. Depois, liga o rádio enquanto limpa a casa. A notícia era de que a crise tinha acabado. Krushev ordenara a retirada dos mísseis em Cuba. Na cabeça de todos Kennedy tinha salvado o mundo. 

Bom, acho que é isso. Estou ouvindo The Freewheelin’ agora. Seu primeiro disco autoral é uma série de obras-primas. Começa com Blowin’ the Wind, um clássico que até o nosso Eduardo Suplicy cantou, se bem que desconfio que em razão de ser tão de carteirinha de Joan Baez. A segunda é uma das minhas preferidas de todos os tempos: Girl from the North Country. Devido à minha dificuldade de prestar atenção em letras de música, não faço a mínima ideia do que se trata e até hoje não sei quem é a tal “girl from the north country”. E aí vem Masters of War, que potência de música! Em vez de mais comentários, ouça o LP.


terça-feira, 22 de maio de 2012

A solidão de Jack White

Jack White e suas olheiras
Ao ouvir Missing Pieces, a primeira faixa de Blunderbuss, primeiro disco solo da parte masculina da dupla White Stripes, fica-se com a sensação de que aquele velho Jack se perdeu em algum lugar. Quando o White Stripes lançou o primeiro disco, pouco antes do fim do século XX, foi um choque. Aquilo era para fechar o século mesmo. Como era possível apenas duas pessoas – ele, Jack, e Meg White – fazerem tanto barulho? Fiquei pensando em truques de gravação, fitas pré-gravadas, overdubs, mas quando os vi no Credicard Hall, percebi que era possível. Meg, furiosa, de carinha entre o angelical e aquela menina que protagonizou O Exorcista… Linda Blair… esse era o nome, golpeava a bateria com raiva. A técnica estava em algum plano desnecessário. Meg personificava a fúria assassina e, no caso, a vítima era a bateria.

Não que Missing Pieces seja ruim. Mas, começar com umas notas no Fender Rhodes que se replicam na batida da bateria e no baixo? Muito calmo para o que se espera de Jack. Na faixa seguinte – Sixteen Saltines –, aí sim, lá está o velho Jack. De vez em quando penso que ele é uma mistura de Robert Plant e Jimmy Page numa só pessoa. White explora todos os sons da guitarra; não é à toa que o colocam no patamar de Hendrix. É o que se conclui ouvindo-se Freedom at 21, a seguinte. Que bom gosto nas distorções e overdubs!

As seguintes – Love Interruption, Blunderbuss, Hypocritical Kiss, Weep Themselves to Sleep, I’m Shakin’, Trash Tongue Talker, Hip (Eponymous) Poor Boy, I Guess I Should Go to Sleep, On and On and On e Take Me With You When You Go – são bem diversas entre si. A diferença entre o tempo do White Stripes e o do solo é o uso mais intensivo do piano e “puxadas” de slide guitar. Jack é country (com direito a cordas), é rock britânico, americano, folk e blues. O disco solo corresponde ao fim do White Stripes – nesse ínterim, montou o The Racounteurs, com Brendan Benson, Jack Lawrence e Patrick Keeler, e o Dead Weather, com Alison Mosshart (The Kills), Jack Lawrence e Dean Fertita (Queens of The Stone Age) – e de seu casamento. Mas o disco não pode ser rotulado de triste. Segundo Jack, rompimentos não precisam ser, necessariamente, trágicos ou tristes, conforme disse à Folha de S. Paulo.

Apesar do estranhamento, para quem se acostumou com Jack no White Stripes, aos poucos, acostuma-se com o Jack líder solitário. Em Blunderbuss, algumas músicas são muito boas: Hypocritical Kiss, Weep Themselves to Sleep, On and On and On. Fazem valer os reais que se gastam.

White faz os diabos com a guitarra, e canta, ao mesmo tempo. É fenomenal mesmo e a crítica já o coloca entre os melhores de todos os tempos. Thales Menezes, na Folha de S. Paulo (9/5/2012), diz que “uma revista o deixou atrás apenas de Jimi Hendrix, outra indicou que só Eric Clapton foi melhor”. O fato é que White ouviu todos esses grandes guitarristas e assimilou a técnica, tanto de Hendrix como a de Jimmy Page (na minha opinião, quem mais o influenciou) e de Buddy Guy. É um instrumentista versátil, tira tudo da guitarra e é ótimo compositor. Jack White caminha em várias direções. É a expressão de seu talento.

Fique com Sixteen Saltines. É poderosa.



E, com Hypocritical Kiss, só com as meninas.



Ouça Weep Themselves to Sleep.



Veja Jack cantando Freedom at 21, só com as meninas, de novo. Ele montou uma banda só de mulheres; alterna com uma com os homens.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Uma nega chamada Lizz Wright

Primeiro, perdoe-me pelo “nega”: é carinhoso (a referência é Jorge Benjor). E, que nega bonita! Minha primeira vez com Lizz Wright aconteceu por causa da amiga Ellen Leite. Sempre generosa, toda vez que viajava para a Europa (duas vezes por ano, no mínimo), trazia uma lembrança, um presente. Dois deles estão na galeria da minha vida: são duas litofanias Bernardaud em porcelanas de Limoges. Explico melhor. Litofanias são desenhos em porcelanas translúcidas “em que os claros e as sombras se obtêm por gradual espessamento da massa.” (a definição está em Novo Dicionário da Língua Portuguesa Universal, Texto Editores, 2007). As peças são em formato circular (veja a imagem ilustrativa; mais fácil assim para entender) e abrigam uma vela que, acesa, realça o desenho e exala deliciosa fragrância).

A litofania Bernardaud, de Limoges
Mas, sabendo do meu gosto pela música, presenteou-me com dezenas de CDs. Pelo fato de ter muitos – muitíssimos, na verdade –, dar discos ou DVDs para mim, é tarefa difícil; se não são lançamentos recentíssimos, a probabilidade de que eu já o tenha é de 99%. Nos últimos tempos, tenho comprado bem menos – música popular, raro; jazz, pouco; música erudita, mais. Apesar de ter cerca de 800 CDs de clássicos, sempre existem lacunas. No meu caso, são os russos, um pouco, por preconceito, que está sendo quebrado – culpa do Armênio Guedes. Têm sido gratas as “descobertas”: Shostakovich, Prokofiev e Rachmaninov. A obra pianística deste último, então, tem tornado minha vida mais prazerosa. Seus Moments Musicaux, na interpretação de Vladimir Ashkenazy, têm sido a coisa que mais ouvi nos últimos seis meses. Paulatinamente, descubro que existem mais russos que apenas Stravinsky e Mussorgsky.

Com tantos discos que tenho, nesses anos todos, a Ellen me surpreendeu com discos que desconhecia. Foi assim com, por exemplo, o grupo português Madredeus. Em uma de suas viagens, em Paris, ouviu a voz de Teresa Salgueiro na loja de Issey Miyake – ou foi na Comme des Garçons? Quase ninguém os conhecia em 1990, quando foi lançado o disco que me trouxe: Existir. Era o segundo lançamento. Se Madredeus não era ainda internacionalmente conhecido, efetivamente, passou a ser depois que Lisbon Story, dirigido pelo alemão Wim Wenders foi lançado. Aparecem em várias ocasiões cantando ou ensaiando. Não é apenas uma participação especial: com Rütiger Vogler, que faz o papel de um engenheiro de som de um filme sobre Lisboa, o Madredeus é coprotagonista.

Além de Existir (me emociona até hoje ouvir No Pomar das Laranjeiras), lembro do primeiro do Gotan Project, desconhecido aqui naquele tempo, e também de Salt, primeiro CD de Lizz Wright. É dela, depois de alguns parágrafos de rodeios e volteios, que quero falar alguma coisa, por sugestão da amiga Marisa Marcondes Leal.
Lizz Wright
Lizz é contratada da Verve Forecast, a mesma que abrigou durante um tempo Toninho Horta. É meio que uma segunda linha (sem que signifique ser inferior) da gravadora Verve, mais direcionada ao jazz. A Forecast abriga um elenco mais crossover, algo com “cheiro” de jazz, porém com fortes pitadas de outros gêneros. No caso de Lizz, percebe-se a força da influência da gospel music (não essa – desculpe – coisa horrorosa dos “crentes” brasileiros) e alguns toques de folk e country americano. Aos primeiros sons de Lizz, nota-se que estamos diante de uma rainha – não da linhagem da britânica Elisabeth ou de alguma herdeira dos Bourbons –, tal a majestade quase impositiva de seu canto. Visualmente, é majestática. Tem presença e lembra, por seu aspecto cool, outra cantora negra: Cassandra Wilson.

Salt, o primeiro, lançado em 2003 tem como um dos produtores Tommy LiPuma, craque que tem em seu cartel Miles Davis, Diana Krall, Natalie Cole, Barbra Streisand e Anita Baker. O disco abre com um clássico de Chick Corea, que teve a brasileira Flora Purim como sua primeira intérprete: Open Your Eyes, You Can Fly. Não tem o calor da de Flora, ritmico e elétrico por conta do belo baixo elétrico de Alphonso Johnson, teclados de George Duke e percussão do marido Airto Moreira. Arranjada por John Cowherd, é ritmada também, com um sabor meio bossa-novista, um Hammond B3 colorindo em econômicas intervenções a voz morna de Wright. A primeira, do repertório do jazz, é o clássico Afro Blue, de Mongo Santamaria e Oscar Brown Jr. Aqui, mais uma vez, dá um tratamento mais cool, sem a extroversão latina do original, mas é bem interessante o arranjo de Brian Blade, com o piano de Danilo Perez.

O próximo standard é Goodbye, de Gordon Jenkins. Interessante: os arranjos e a concepção subvertem o original, e por isso, são originais, diferentes. Aqui, o clima de balada se dilui em ritmo mais acelerado; é menos dramático. A próxima – Vocalise/End of the Line – é reflexiva, com lindo solo de violoncelo. Fire, a nona faixa, é um original de Wright, boa canção em que sua chama passeia, preguiçosamente, em volta dos sons de um Hammond B3. Os originais restantes de Wright – Blue Rose e Silence – são bons também. Salt, quando lançado, alcançou a segunda posição no Billboard Top Contemporary Jazz, em 2004. Bom começo.

Lizz passou bem pelo teste da “segunda vez”. Muitos que fazem um grande disco de estreia passam por isso: é a expectativa de fazer algo melhor ou ser a decepção do “sorte de principiante”. Em Dreaming Wide Awake, cabe a Taste of Honey, de Rick Marlow e Bobby Scott, abri-lo; e que abertura! Hit the Ground, com o violão de Chris Bruce e guitarra de Bill Frisell (acho que é dele), é outra bela música. Seu Old Man, de Neil Young, é outro destaque. Começa simples, com violão e pouca instrumentação. Cresce no refrão com brilhante e elegante mistura de violões e guitarras distorcidas e sobreposições de vozes. É a minha preferida. A seguinte, Wake Up, Little Sparrow, de Ella Jenkins, é outro ponto alto. A instrumentação do álbum inteira é sempre sóbria e cada intervenção sonora é realizada na medida certa. Esse é um dos trunfos do disco: combina perfeitamente com a voz contida de Lizz.

Quem conhece Get Together, original de Chet Powers (é de 1964), cantada por uma banda chamada Youngbloods? Esses americanos não fizeram muito sucesso, mas essa música foi o ponto alto de suas carreiras, isso em fins dos anos 1960. Em seu segundo CD, esse clássico é a nona faixa. Compete com Old Man: é uma belíssima interpretação. O disco tem como “bonus track” a bela Narrow Daylight, parceria do casal Elvis Costello/Diana Krall.

The Orchard (2008) é menos jazz que os outros, se é que se pode dizer que há algo de jazz na música de Wright. Certo é que transita numa senda que divisa o pop do jazz, inventada pelo mercado, ou mais especificamente, pelas gravadoras especializadas em jazz e até em música erudita (principalmente a Deutsche Grammophon, que andou lançando discos “crossover” de Sting, Elvis Costello e Cia.). Lizz Wright é, de algum modo, a “opção” da Verve, assim como Norah Jones, Amos Lee, e até Marisa Monte são Blue Note, sua maior concorrente na área do jazz..

No terceiro álbum, não há nenhum standard jazzístico. Várias composições são da lavra de Lizz, em parceria, principalmente com o violonista/guitarrista Toshi Reagon, membro da banda. Exceções mesmo são I Idolize You, de Ike Turner, e Thank You, de Jimmy Page e Robert Plant, do Led Zeppelin. O CD vale por duas baladas matadoras: When I Fall, e Speak Your Heart.

Fellowship, de 2010, é parecido com The Orchard. Talvez seja mais “negro”. O meddley gospel (quinta faixa) é matador. A seguinte, a tradicional Sweeping Through the City é quase uma canção a capella, com Lizz e um backing vocals, não fosse uma discreta percussão. All the Seeds é um vocalise dobrado com participação de Angelique Kidjo. Dura exatos 1:18 minuto: perfeito para abrir Presence of the Lord, clássico de Eric Clapton. O Senhor está onipresente desde a quinta faixa. É uma sequência extraordinária. É quebrada com uma interpretação totalmente original e acústica (violões, percussão e palmas) de In from the Storm, de Jimi Hendrix. Em outra incursão – Oya –, Angelique Kidjo (em All the Seeds divide a autoria também) desvela suas raízes africanas (nasceu no Benin). Nesse disco em que o “Senhor se apresenta”, não poderia faltar Amazing Grace… de arrepiar.



Get Together, com Lizz Wright




Ouça Get Together, com os Youngbloods.




Lizz Wright canta Old Man, de Neil Young

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Maria Pia de Vito canta Joni Mitchell

Infelizmente, Bach, Mozart, Handel e todos os compositores que não viveram do século XX em diante puderam registrar suas composições em discos para que pudéssemos conhecê-los como intérpretes. Não estivemos na estreia da ópera Salomé, de Richard Strauss, em Dresden, nem pudemos presenciar o choque da apresentação da Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, em Paris. Como o russo era um jovem nessa época, pôde usufruir a revolução impetrada por Thomas Edison, gravando a maioria de sua obra pela gravadora americana Columbia. Assim, pudemos ter a experiência de conhecê-lo como intérprete de si mesmo. É uma experiência e tanto, ainda mais por ver que nem sempre um compositor é o melhor intérprete de si; ou talvez por ficar claro que “a criatura” pode suplantar o criador.

Num degrau abaixo, se considerarmos a música erudita como um produto da alta cultura e a popular, da média ou baixa cutura, o fenômeno é o mesmo. Os grandes criadores da música americana do século XX – Cole Porter, Richard Rodgers, Irving Berlin, George Gershwin, para citar alguns – eram compositores, antes de mais nada. Johnny Mercer, Hoagy Carmichael e até Cole Porter chegaram a gravar composições próprias, mas nada que pudessem ser comparadas aos registros de Frank Sinatra, Tony Bennett, Billie Holiday ou Sarah Vaughan. Compositores compunham e cantores cantavam. Essa foi a tônica desses clássicos.

Numa outra vertente temos os compositores/cantores, fenômeno mais evidente a partir dos anos 1960. Uma exceção são os cantores de blues, cujas composições são indissociáveis às suas próprias interpretações. Canções compostas pelas duplas Lennon & McCartney e Jagger & Richards poderiam ser assim consideradas também. As das estrelas solitárias Bob Dylan, Leonard Cohen, Jimi Hendrix e Joni Mitchell, idem. A citação desses nomes não é acidental. Todos eles têm sido gravados por outros cantores e cantoras com certa frequência.

Algumas composições de Joni Mitchell e Leonard Cohen, nos últimos anos, têm sido tão gravados que podem ser rotulados como standards da moderna música popular, decerto, nem tanto quanto um Summertime ou Night and Day, mas devemos observar que são bem mais antigas. Hallelujah, Take This Waltz e I’m Your Man foram cantadas tanto por intérpretes mais ligados ao jazz como à vertente pop. O mesmo acontece com A Case of You e River, de Mitchell.

Foram gravados alguns álbuns com o repertório da canadense bem interessantes. Um muito bom é um em que k d lang homenageia seus conterrâneos Jane Siberry, Neil Young e como não podiam faltar, Cohen e Mitchell: Hymns of the 49th Parallel (Nonesuch, 2004). Tribute to Joni Mitchell (Nonesuch, 2007), do qual participam Caetano Veloso, Elvis Costello, Björk, Sufjan Stevens, Prince, Brad Mehdau, Emmylou Harris, k d lang,, Annie Lennox, Sarah MacLachlan, James Taylor e Cassandra Wilson – sem dúvida um elenco muito variado – é um tanto desigual. O destaque é a versão de Veloso para Dreamland, música não muito conhecida do LP duplo (é; é daquele tempo) Don Juan Reckless Daughter (Elektra, 1978), vibrante e uma visão personalíssima do brasileiro.

Mais recentemente, foi lançado o CD River: The Joni Letters (Verve, 2007), em que o pianista Herbie Hancock toca acompanhado de Luciana Souza, a própria Mitchell, Leonard Cohen, Norah Jones e Corinne Bayley Rae. Essa última “ataca” um River de arrepiar (leia sobre o disco e ouça Bailey Rae em http://bit.ly/jR7xrK).

Muita classe de De Vito cantando Joni Mitchell
Como todo curioso acha – até o que não deve achar – descobri, faz pouco tempo, um CD de Maria Pia de Vito, tributo à Joni Mitchell: So Right (CAMJazz 2005). A italiana é acompanhada pelos conterrâneos Danilo Rea (piano), Enzo Pietropaoli (baixo) e tem como convidado especial o baterista Aldo Romano. 

Num universo nem tão vasto como o americano, o italiano é pródigo em grandes instrumentistas. Enrico Rava, Stefano Bollani, Paolo Fresu e Stefano Di Battista são bem conhecidos fora da Itália. Alguns nem tanto, como os três que acompanham Maria Pia e a pianista Rita Marcotulli, estão na proa do cenário da música instrumental. Há também instrumentistas “diferentes” – pelo tipo de música que extrapola um pouco a linguagem jazzística – como o pianista Stefano Battaglia e o clarinetista/saxofonista Gianluigi Trovesi, ambos atualmente gravando pela alemã ECM, que são excepcionais.

Maria Pia tem carreira consolidada não apenas como cantora ligada ao jazz. Entre 1994 e 97, com a pianista Rita Marcotulli dividiu um projeto – Nauplia – calcado na música napolitana; faz algumas incursões cantando e se acompanhando com instrumentos eletrônicos. Gravou dois discos com o violonista americano, cocriador do excepcional Oregon, Ralph Towner, e o pianista inglês John Taylor (Verso e Nel Respiro). Colaborou também com o canadense Kenny Wheeler, Joe Zawinul, Michael Brecker e Steve Turre. Resumindo, é do meio.

So Right é um tributo a Joni Mitchell, mas tem quatro canções da lavra de Maria Pia e seus parceiros. A música-título, composta por Pietropaoli é maravilhosa. A outra é Miskin, bem experimental e climática, em que ela cria ambiência com instrumentos eletrônicos e os funde com a voz e com um som percussivo em motivos repetitivos e o piano em acordes ascendentes e descendentes em vaivém. Essa música, como The Sweetest Medicine, aparentemente, foi composta pensando-se na “forma de fazer” da canadense.

Das que são do repertório de Mitchell, várias são excepcionais; algumas nem tanto, pois se diluem em experimentalismos – caso de Big Yellow Taxi, God Must Be a Boogie Man e Woodstock – sem querer que não sejam boas. Quando canta sem “inventar”, demonstra domínio absoluto em seu mister e interpreta magnificamente Amelia, River e A Case of You.


Maria Pia De Vito perfeita em River, em A Case of You, e Amelia.








A bela So Right, música de Pietropaoli



Curiosidade: Maria Pia andou por terras baianas em 2007. Vi na internet.