quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A verdadeira origem de Black Is the Color of My True Love’s Hair

A deusa Nina
Ficamos tão acostumados com certas versões a ponto de não conseguirmos mais dissociá-las de seus intérpretes. É o caso de Black Is MyTrue Love’s Hair. A performance de Nina Simone é tão marcante que nos faz imaginar que é dela. No álbum Wild Is the Wind (1967) em que gravou a música, é erroneamente creditada a ela. Em Nina at Town Hall consta como “traditional”, que é a forma como se registra canções populares ou folclóricas que caem em domínio público e desconhece-se sua autoria. Mas tudo tem um autor e pesquisadores que vão atrás de suas origens.

Black Is the Colour (of My True Love’s Hair) ficou conhecida em 1915 e tem origem do folclore escocês. É o que o pesquisador Alan Lomax. O primeiro registro é de Lizzie Roberts, em 1916.

A Nina mais conhecida, é de Ne me quite pas, Lilac Wine, Little Girl Blue, Don’t Let Me Be Misunderstood, porém, nenhuma das citadas é de sua autoria, nem de Strange Fruit, que é creditada a Lewis Allan, pseudônimo de Abel Meropool. Mas Nina tem aquele poder de transformar suas versões em interpretações definitivas.

Nos anos em que esteve ligada à Colpix, ela tendia mais à linguagem do jazz e em anos posteriores, gravando pela Philips e RCA, ficou, digamos, mais pop. E são esses os registros que a maioria do público conhece. Foi também o período de seu amadurecimento como a intérprete intensa e dramática que encanta a todos.

O primeiro registro de Black Is the Colour – pelo menos, é a que tenho notícia – é a da apresentação no Town Hall em Nova York, em 1959. A consagrada está no LP Wild Is the Wind (1964).

Ouça a versão de 1959.




Ouça a de 1964.



Veja Nina em performance, em 1969.




Muito bom esse vídeo de apresentação na Itália.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Al Green, o mestre das releituras

Al Green antes da conversão
Aproveitando o momento em que discute-se sobre religiões em tudo quanto é lugar – parece que, mais que etnias, países, a religião é motivo de guerras e barbárie – e no Brasil temos uma candidata a presidente evangélica, aproveitei para ouvir um pouco de Al Green. Começou participando da banda Soul Mates e partiu para a carreira solo depois de conhecer Willie Mitchell. Estourou nas paradas com Let’s Stay Together, em 1972.

No auge do sucesso, Green tinha uma namorada um tanto amalucada, pelo jeito. Mary Woodson propôs-lhe casamento e este recusou. Ela não gostou nem um pouco. Com raiva, jogou mingau quente sobre ele, enquanto tomava banho. Sofreu queimaduras de segundo grau. Ela foi para o outro quarto e se matou com o revólver de Al. Não é coisa de gente normal. Mas dá para deixar a vítima traumatizada. Aconteceu no fim de 1974.

Al Green, como muitos negros americanos, vinha de família religiosa. Talvez a tragédia o tenha chamado de volta às mãos de Deus. Em 1976, comprou uma igreja em Memphis e ordenou-se pastor da Full Gospel Tabernacle, sem interromper a carreira. Lançou The Belle Album (leia e ouça em http://bit.ly/XYYIrY), que teve receptividade pífia pelo público e pela crítica, apesar de ser muito bom. Em 1979, levou um tombo no palco. Era mais um aviso de Deus. Deixou de trabalhar com Willie, seu produtor, montou estúdio próprio e abraçou a religião de vez.

Al Green nem precisava compor. Com a voz, essa sim, abençoada por Deus, poderia ser, simplesmente, cantor e iria arrasar. Um dos mais conhecidos covers de Green é How Can You Mend a Broken Heart, dos irmãos Barry e Robin Gibb, dos Bee Gees. Sem desmerecer os australianos, a versão do americano é infinitamente melhor.

Veja Green em How Can You Mend a Broken Heart.




O texto de hoje é sobre as releituras que andei ouvindo nos últimos dias. Vamos começar com Pretty Woman, do grande Roy Orbison.




People Get Ready, de outro mestre do soul, Curtis Mayfield, foi considerada a 24ª melhor música de todos os tempos em votação da revista Rolling Stone. Encontrei no Facebook.





Outra que encontrei no YouTube é a emocionante A Change Is Gonna Come, de Sam Cooke. Essa canção virou hino do movimento pelos direitos civis dos negros. (sobre Sam Cooke, leia http://bit.ly/YI8qiM)




Outro clássico, do The Doors, é Light My Fire.




O que fez dar uma pesquisada foi quando ouvi Summertime na caixa The Immortal Soul of Al Green, com quatro CDs.