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terça-feira, 30 de agosto de 2016

A expressão do romântico com Kenny Werner e Toots Thielemans

Em um universo de grandes pianistas no jazz, alguns são unanimidades e muitos outros, nem tão reconhecidos e que são verdadeiramente talentosos.São o que os americanos designam como “underrated” ou, em bom português, “subestimado”. Kenny Werner é um deles.

Desde criança, estudou piano clássico. Mais tarde, cursou a Manhattan School of Music na intenção de tornar-se pianista clássico. Gostava de tudo o que ouvia no rádio, não apenas música erudita. Tinha facilidade para improvisar, o que o levou a ir estudar na Berklee School of Music, em Boston.

Nessa época, o Brasil entrou na órbita de Kenny por meio de João Carlos Assis Brasil, irmão gêmeo do saxofonista Victor Assis Brasil. Conheceram-se nos EUA e veio ao Brasil com ele. Como o americano, João Carlos tinha formação erudita, mas queria explorar outros gêneros.

No jazz, Werner participou de várias gravações com o saxofonista Joe Lovano e por muito tempo fez parte da Mel Lewis Orchestra (atual Village Vanguard Orchestra), big band atração fixa do tradicional clube fundado por Max Gordon. Tem seu trio, com vários álbuns gravados, formado há mais de uma década com Ari Hoenig e Johannes Weidenmueller. Com essa formação, apresentou há cerca de trêa anos no Savassi Festival, em Belo Horizonte, e também no Núcleo Contemporâneo, espaço coletivo que tem o pianista Benjamin Taubkin como um de seus organizadores, em São Paulo.

Em razão da formação acadêmica, é também ótimo arranjador e compositor. Foi agraciado com vários prêmios nos EUA devido ao seu trabalho, como o National Endowment for the Arts (NEA) e, em 2010, foi premiado pelo Guggenheim Fellowship. Como escritor e teórico, é autor de “Effortless Mastery Liberating the Master Musician Within, um livro referencial.

Ultra romântico

Um dos parceiros de Werner foi Toots Thielemans. Os dois lançaram em 2001 Toots Thielemans & Kenny Werner, pelo selo Verve. O álbum é composto por uma maioria de músicas bem conhecidas e uma única – “Inspiration” –, do pianista. São jazz standards mais contemporâneos como “Dolphin Dance” (Herbie Hancock), “The Dolphin” (Luiz Eça), “Windows” (Chick Corea), e clássicos mais antigos como “What a Wonderful World”, “Smile”, “All the Way”, “My Way”, Tender Is the Night”, “Autumn Leaves” e “The Windmills of Your Mind”, dentre outros.

Pelo repertório, está claro que é um álbum “feito para vender”. Mas não é pecado se a música é de qualidade. A popularidade de Thielemans sempre foi alta e, mesmo tendo sido o talento que foi, nunca se furtou a gravar discos de certo apelo comercial sem cair no popular mau gosto. O fundamental é a qualidade, como em “Chez Tout” (Private Music, 1988), dedicado à música francesa.

Werner, bom arranjador, nesse disco toca piano e, em alguns temas, usa o sintetizador para emular sons orquestrais. É um pianista ímpar, de belas harmonias e melodias finamente construídas. Em formato duo, além deste com Toots, tem outro muito bonito o saxofonista Jens Sondergaard (“Play Ballads: A Time for Love”, 2008). Excepcional tocando baladas, no álbum com Thielemans, algumas canções ficaram especiais, às vezes, intensamente românticas. A química entre os dois é uma grande recomendação para esse álbum lançado pela Verve Music.

Ouça “Autumn Leaves”, de Joseph Kozma e Jacques Prevert.




Ouça “Inspiration”, composição de Kenny Werner.




Ouça o medley de Michel Legrand, composto de “You Must Believe in Spring” e “The Windmills of Your Mind”.




E, finalmente, “The Dolphin”, de Luiz Eça.




Ah, e veja os dois em ação em “The Days of Wine and Roses”.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Toots e o Brasil

Rildo Hora, tido como o maior gaitista brasileiro, em certa ocasião, foi procurado por um astro roqueiro da música, nos anos 1960 ou 70, não lembro agora, porque queria aprender a tocar esse instrumento. Disse que queria tocar como Bob Dylan. Rildo falou então que se fosse por isso, nem precisava de professor. É essa a imagem mais comum que se tem da gaita.

No Brasil, chamado de gaita, fora é mais conhecido como harmônica. Os tipos mais comuns são a gaita diatônica e a cromática. A primeira é a consagrada pelos músicos de blues e em consequência, pelos intérpretes do rock – ou folk rock – como Bob Dylan e Neil Young. No jazz, o grande nome foi Toots Thielemans, falecido nesta segunda-feira, 22, aos 94 anos. Dentre os atuais, o mais conhecido é Gregoire Maret. Toots é o responsável por esse instrumento, que parece tão banal, atingir esse status. Como é possível um objeto tão pequeno e aparentemente limitado produzir sons tão belos? Esse é o legado de Thielemans. Mostrou sim, que era possível.

Jean Thielemans nasceu em Bruxelas em 1922. Começou tocando acordeão e depois passou para a guitarra. Foi com esse instrumento que iniciou sua carreira no sexteto de Benny Goodman. Em 1952, foi para os EUA e tocou na Charlie Parker’s All Stars e ficou com o pianista inglês George Shearing por seis anos.

Thielemans não foi apenas o mestre da harmonica. Elevou a outro status algo mais banal ainda: o assobio. Em 1961, quando gravou “Bluesette”, tocando guitarra e assobiando ao mesmo tempo, o sucesso foi estrondoso. Mas foi com a gaita que tornou-se o músico que mais ganhou prêmios na categoria “miscellanious instruments”. Foi o jeito de incluí-lo entre os grandes do jazz.

Veja Thielemans assobiando e tocando guitarra em sua “Bluesette”.




Brasil
A primeira vez de várias outras de Thielemans no Brasil foi em 1980, no Festival Internacional de Jazz. Veio várias vezes depois. Antes, havia gravado um disco com Elis Regina, em 1969, chamado “Aquarela do Brasil” e depois reintitulado “Elis & Toots”, com Antonio Adolfo ao piano, Roberto Menescal no violão e Wilson das Neves na bateria e percussão.

Veja Elis e Toots em “Wave”.




Como havia dito, Toots era um mestre no assobio. Veja-o na guitarra, com Elis. No fundo, é Menescal.




Outra aproximação de Toots com a música brasileira foram os dois álbuns de “The Brasil Project” produzidos por Miles Goodman e Oscar Castro-Neves, lançados em 1992 e 1993. Nas liner notes, o belga diz “sentiu-se como a cereja de um bolo brasileiro feito com os melhores ingredientes.” As canções são tocadas em parceria com os nomes bem conhecidos como Djavan, Caetano Veloso, Ivan Lins, Luiz Bonfá, Eliane Elias, Ricardo Silveira, Milton Nascimento, Edu Lobo, João Bosco, Gilberto Gil e Oscar Castro-Neves, dentre outros. São álbuns bem apropriados para a valorização da auto-estima do brasileiro.

Ouça “Fruta Boa”, com Milton Nascimento.




“Ouça “Joana Francesa”, com Chico Buarque.




Ouça “Manhã de Carnaval”, com Luiz Bonfá ao violão.




O melhor de Toots
Impossível conhecer toda a discografia do belga. Gravou bastante. Os citados abaixo são os meus preferidos.

• “For My Lady” (Gitanes, 1991). Toots toca guitarra, gaita e assobia com o trio de Shirley Horn, composto por ela ao piano e voz, Charles Ables no baixo elétrico e Steve Williams na bateria. Quer companhia melhor?

Ouça Shirley Horn e Toots em um excepcional “Someone to Watch Over Me”.



Ouça a clássica “Willow Weep for Me”.




• “Only Trust Your Heart” (Concord, 1998). Mais uma vez, a companhia ajuda. É Fred Hersch ao piano, Harvie Swartz e Marc Johnson no baixo, e Joey Baron na bateria.

Ouça “Estate”, clássico italiano descoberto por João Gilberto.



• “Affinity” (WB, 1979). O álbum é de Bill Evans “featuring” Toots Thielemans. Não é unanimidade dentre os fãs do pianista, talvez porque ele ainda estivesse na fase (passageira) de tocar também o piano elétrico, mas é bom, inclusive pela presença de Toots na harmônica.

Ouça “Body and Soul”.




• “Toots Thielemans & Kenny Werner” (Verve, 2001). Grande álbum. Andei ouvindo esse disco por esses dias e pensava em postar alguma coisa sobre ele. Aí leio que Toots morreu.