quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Toots e o Brasil

Rildo Hora, tido como o maior gaitista brasileiro, em certa ocasião, foi procurado por um astro roqueiro da música, nos anos 1960 ou 70, não lembro agora, porque queria aprender a tocar esse instrumento. Disse que queria tocar como Bob Dylan. Rildo falou então que se fosse por isso, nem precisava de professor. É essa a imagem mais comum que se tem da gaita.

No Brasil, chamado de gaita, fora é mais conhecido como harmônica. Os tipos mais comuns são a gaita diatônica e a cromática. A primeira é a consagrada pelos músicos de blues e em consequência, pelos intérpretes do rock – ou folk rock – como Bob Dylan e Neil Young. No jazz, o grande nome foi Toots Thielemans, falecido nesta segunda-feira, 22, aos 94 anos. Dentre os atuais, o mais conhecido é Gregoire Maret. Toots é o responsável por esse instrumento, que parece tão banal, atingir esse status. Como é possível um objeto tão pequeno e aparentemente limitado produzir sons tão belos? Esse é o legado de Thielemans. Mostrou sim, que era possível.

Jean Thielemans nasceu em Bruxelas em 1922. Começou tocando acordeão e depois passou para a guitarra. Foi com esse instrumento que iniciou sua carreira no sexteto de Benny Goodman. Em 1952, foi para os EUA e tocou na Charlie Parker’s All Stars e ficou com o pianista inglês George Shearing por seis anos.

Thielemans não foi apenas o mestre da harmonica. Elevou a outro status algo mais banal ainda: o assobio. Em 1961, quando gravou “Bluesette”, tocando guitarra e assobiando ao mesmo tempo, o sucesso foi estrondoso. Mas foi com a gaita que tornou-se o músico que mais ganhou prêmios na categoria “miscellanious instruments”. Foi o jeito de incluí-lo entre os grandes do jazz.

Veja Thielemans assobiando e tocando guitarra em sua “Bluesette”.




Brasil
A primeira vez de várias outras de Thielemans no Brasil foi em 1980, no Festival Internacional de Jazz. Veio várias vezes depois. Antes, havia gravado um disco com Elis Regina, em 1969, chamado “Aquarela do Brasil” e depois reintitulado “Elis & Toots”, com Antonio Adolfo ao piano, Roberto Menescal no violão e Wilson das Neves na bateria e percussão.

Veja Elis e Toots em “Wave”.




Como havia dito, Toots era um mestre no assobio. Veja-o na guitarra, com Elis. No fundo, é Menescal.




Outra aproximação de Toots com a música brasileira foram os dois álbuns de “The Brasil Project” produzidos por Miles Goodman e Oscar Castro-Neves, lançados em 1992 e 1993. Nas liner notes, o belga diz “sentiu-se como a cereja de um bolo brasileiro feito com os melhores ingredientes.” As canções são tocadas em parceria com os nomes bem conhecidos como Djavan, Caetano Veloso, Ivan Lins, Luiz Bonfá, Eliane Elias, Ricardo Silveira, Milton Nascimento, Edu Lobo, João Bosco, Gilberto Gil e Oscar Castro-Neves, dentre outros. São álbuns bem apropriados para a valorização da auto-estima do brasileiro.

Ouça “Fruta Boa”, com Milton Nascimento.




“Ouça “Joana Francesa”, com Chico Buarque.




Ouça “Manhã de Carnaval”, com Luiz Bonfá ao violão.




O melhor de Toots
Impossível conhecer toda a discografia do belga. Gravou bastante. Os citados abaixo são os meus preferidos.

• “For My Lady” (Gitanes, 1991). Toots toca guitarra, gaita e assobia com o trio de Shirley Horn, composto por ela ao piano e voz, Charles Ables no baixo elétrico e Steve Williams na bateria. Quer companhia melhor?

Ouça Shirley Horn e Toots em um excepcional “Someone to Watch Over Me”.



Ouça a clássica “Willow Weep for Me”.




• “Only Trust Your Heart” (Concord, 1998). Mais uma vez, a companhia ajuda. É Fred Hersch ao piano, Harvie Swartz e Marc Johnson no baixo, e Joey Baron na bateria.

Ouça “Estate”, clássico italiano descoberto por João Gilberto.



• “Affinity” (WB, 1979). O álbum é de Bill Evans “featuring” Toots Thielemans. Não é unanimidade dentre os fãs do pianista, talvez porque ele ainda estivesse na fase (passageira) de tocar também o piano elétrico, mas é bom, inclusive pela presença de Toots na harmônica.

Ouça “Body and Soul”.




• “Toots Thielemans & Kenny Werner” (Verve, 2001). Grande álbum. Andei ouvindo esse disco por esses dias e pensava em postar alguma coisa sobre ele. Aí leio que Toots morreu.


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