quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

As transformações de Marianne Faithfull

As duas Mariannes
A fama precoce nem sempre é bom negócio. A regra mais comum é aquela que se encaixa no que foi dito por Scott Fitzgerald: se você chega ao topo aos 30, o resto é anticlímax. Marianne Faithfull ficou conhecida com menos de 20. Era uma moça de boa família. Pelo menos, o sobrenome da mãe era chique: Sacher-Masoch. Eva era sobrinha-neta de Leopold von Sacher-Masoch, autor de Venus in Furs. Um dos personagens atinge o orgasmo depois de apanhar do amante de sua mulher. É daí a origem da expressão “masoquismo”.

A mocinha educada de sobrenome aristocrático queria ser cantora. Esse foi o começo de seu descaminho. Parou em uma festa em que alguns Rolling Stones estavam presentes. O amigo que a tinha levado conhecia Mick Jagger e Keith Richards. O resto, todo mundo deve conhecer: “ganhou” As Tears Go By e fez o maior sucesso. Numa etapa seguinte, larga o namorado para ficar com Jagger.

O glamour da fama é encantador, mas tem seu lado perverso. Fãs adoram seus ídolos, têm ciúmes deles, entram em suas vidas. Marianne devia ser a mulher mais invejada (e odiada) da Grã-Bretanha. Não à toa que nessa época, a cidade que habitavam ficou conhecida como “Swinging London”. Não teve jeito; a mocinha caiu na vida. Muito tempo depois, disse que, bobamente, sempre pensava que seus problemas começaram com aquela maldita canção. A referência era As Tears Go By.

Os anos dourados com aquela gente que borboleteava em torno dos Stones não foram duradouros. Quando Mick entregou-lhe o bilhete azul, tentou o suicidio. Nessa altura, as drogas faziam parte ativa de sua vida. Por mais de uma vez tentou largar, internando-se em clínicas de reabilitação, mas sua cabeça e seu corpo já estavam atavicamente ligadas ao vício. Começou com um simples baseado e progrediu para outras mais pesadas como a cocaína e a heroína, tudo isso misturado ao álcool e ao cigarro.

A Marianne dos anos 1960 era uma cantora de voz doce, nada excepcional, mas, prótegée dos Rolling Stones, isso lhe conferia certo status. Poderia ter acabado como Mary Hopkins, a versão dos “concorrentes” Beatles se continuasse com aquela voz. Mary foi a primeira a assinar contrato com a gravadora Apple. Explodiu com Those Were the Days. Como Marianne, era bonitinha e tinha boa voz. Hoje, ninguém mais fala dela, o oposto de Faithfull, considerada cult pelos moderninhos.

Ironicamente, os abusos fizeram bem. Fãs adoram ver seus ídolos enterrando o pé na jaca. Se conseguem manter-se em pé depois de tantas drogas, melhor. Alguns ficam no meio do caminho, como Amy Winehouse, e outros estão vivos da silva, ralhando dos deuses, caso de Keith Richards.

As luzes voltaram-se novamente para Marianne após o lançamento de Broken English, em 1979. Era uma outra Marianne. Aquela menina de voz doce que cantava sob melosos arranjos não existia mais. A voz era outra, diz-se que por causa de uma laringite, mas consequência da cocaína, do cigarro e do álcool. Como acontecera com a voz de Billie Holiday, ganhara uma expressividade interessante. Muitos preferem a Billie decadente. Há um lado perverso da natureza humana em gostar da decadência. O artista tem de ser um bêbado, um drogado, esquisito, excêntrico, enfim, diferente do homem comum. No caso de Holiday, apesar de muito interessante sua voz dos anos 1950, não há dúvida de que seu auge foi o de meados de 1930 até 40 e pouco. Seus discos da Columbia e Decca são melhores do que os lançados pela Verve. Quanto a Marianne, não há como comparar a sua primeira fase com a de Billie. O da inglesa ficou mais interessante, como o de uma cantora de cabaret decadente.


Ouça algumas interpretações da primeira Marianne.

As Tears Go By, em 1965.




Veja Marianne cantando a mesma música (muito tempo) depois.




Uma canção que seria perfeita para a Marianne de hoje seria Ne me quitte pas. Em 1967, em Love in a Mist, ela canta Jacques Brel. Perceba a diferença da voz com a dos dias atuais.




Depois de Broken English. Depois desse álbum foram lançados 14, o que significa que Marianne tem gravado regularmente. Óbvio que não conheço todos, mas dos que ouvi, um dos mais interessantes é Strange Weather (Island, 1987), o ao vivo Blazing Away (1990). Strange Weather tem uma bela coleção de standards. A melhor é uma típica torch song. Na interpretação de Marianne, Yesterdays é uma daquelas de cortar os pulsos. A guitarra de Bill Frisell é um diferencial.

Ouça Yesterdays.




Em Blazing Away, passa pelo repertório mais conhecido e inclui seu primeiro sucesso (As Tears Go By), uma bela Working Class Hero, de John Lennon, e Sister Morphine. Vagabond Ways, de 1999, é outro bom disco. Veja Faithfull cantando Working Class Hero.



Mais recentemente, em 2008, saiu o duplo Easy Come, Easy Go, com participações (tímidas) de figurões como Jarvis Cocker, Keith Richards, Rufus Wainwright, Cat Power, dentre outros. Mas é médio. Um destaque é O Oh Baby Baby, original de Smokey Robinson, com Antony Hegarty, do Antony and The Johnsons.




Marianne Faithfull ainda consegue surpreender. Give My Love to London, lançado neste ano, não decepciona. Mas, fica para uma outra vez.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Samba, amor e Lyambiko

Os dois primeiros álbuns de Lyambiko saíram pelo selo alemão Nagel Heyer. Mais voltado ao jazz, não é um selo com títulos marcantes, mesmo incluindo nomes relativamente conhecidos como Marc Copland, Greg Osby, Claudio Roditi e Ken Peplowski. Alguns dados biográficos não são exatamente favoráveis para ser mais conhecida. O primeiro é o de ser alemã, o que é diferente de ser americana. Mas olhos atentos e ouvidos espertos devem ter percebido o potencial da moça. Foi contratada por um selo maior, a Sony.

A mudança não representou em mudança de estilo e nem que tenha ficado melhor ou pior cantora. Deu-lhe apenas mais visibilidade. Filha de pai tanzaniano, ligado ao jazz, a prioridade dada aos standards do gênero foi um caminho natural. Se não é excepcional como uma Sarah Vaughan ou uma Billie Holiday, Lyambiko não faz feio em um meio em que a concorrência é forte, que é o das cantoras. Tem a favor uma beleza exótica que chama atenção. E é uma moça classuda, coisa que ajuda nesse tipo de repertório um tanto repassado e que nem traz tanta novidade.

Tentando fugir do lugar comum, os arranjos são diferenciados e sempre tenta trazer um elemento original. Nem sempre acerta na tentativa de não ser mais uma apenas. Em Saffronia (Sony BMG 2008), álbum tributo a Nina Simone, canta várias consagradas como Four Women, Black Is the Colour of My True Love’s Hair, I Put a Spell on You, Ne Me Quitte Pas, I Loves You Porgy e Don’t Smoke in Bed, dentre outras. Em uma chega a tentar emular a voz de Nina, e o resultado é até interessante – em Ne Me Quitte Pas –, em uma interpretação bem original para uma daquelas “torch songs” de cortar os pulsos.

Ouça.




Ouça também Don’t Let Me Be Misunderstood.




Lyambiko e o Brasil. A primeira canção brasileira que a alemã gravou foi Dindi, em Shades of Delight (2003). É uma interpretação não muito diferentes das centenas de registros existentes. É, porém, muito boa. No álbum de 2005, o primeiro pela Sony BMG, chamado simplesmente Lyambiko, há várias do repertório brasileiro, como Summer Samba (Samba de Verão), O Pato, Corcovado.Até aí, nada demais. O “demais” é que canta a bela Samba e Amor; em português. Ouça.



Outro destaque é O Pato, com um suingue de respeito.




Em 2012, Lyambyko lançou Sings Gershwin, naturalmente, privilegiando o songbook de um dos grandes do cancioneiro americano. É um álbum bom, sem ser excepcional. 

Assista ao vídeo promocional.