Mostrando postagens com marcador Sinéad O’Connor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sinéad O’Connor. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O triunfo e o trunfo de Sinéad O’Connor

Uma das imagens de O’Connor no encarte
Na época do lançamento de How about I Be Me (And You Be You)?, em 2012, as imagens de Sinéad O’Connor um tanto cheinha, vestindo roupas largas, usando uma franja ridícula, apresentando-se de óculos, às vezes, não era nem sombra daquela figura etérea, de feições delicadas, quase um anjo. A transformação era chocante para seus milhões de fãs. A voz doce e frágil continuava a mesma, mas não combinava mais com a figura física, tal como acostumamos a associar.

Em outra feita, vestindo jaqueta e calças pretas de couro, empunhando sua Gretsch, lembrava aquelas balzaquianas acompanhantes de motoqueiros gordos, barbados, sempre usando óculos vistosos e cafonas, apertados em suas calças justas e botas de cano longo, ao lado de possantes máquinas.

A estreia de Sinéad O’Connor no mercado musical foi explosivo. Mandinka, lançado como single primeiro e depois incluído em The Lion and the Cobra, era uma canção forte e surpreendente se associada à imagem de uma garota de cabeça raspada – um novidade então –, rosto e voz delicada. Nesse álbum, havia uma canção que mostrava seu lado doce e frágil, apesar da “ferocidade” que desejava mostrar: Troy.

Veja Sinéad em Mandinka e a seguir, Troy.






Em outubro do ano passado, Sinéad O’Connor entrou em outra controvérsia com a publicação de uma carta aberta em que alerta Miley Cyrus sobre possíveis consequências de um clipe de teor altamente apelativo para a música Wrecking Ball. Sinéad afirma: “Você tem talento suficiente e não necessita que o mercado da música faça de você uma prostituta.” Há uma relação direta com a pessoa de Sinéad. Miley havia dito que cortar o cabelo representou uma mudança em sua vida.”

Veja o clipe de Wrecking Ball, com Miley Cyrus.



Sinéad O’Connor, em 2011
A irlandesa, conhecida por provocações como a de ter rasgado a foto do Papa ou de se dizer lésbica, andava um tanto desaparecida da mídia. Pouco antes da carta aberta, virara notícia por conta do casamento com Barry Herridge, que durou apenas 18 dias. O’Connor botou a culpa na “danada” da maconha: “Três horas após o fim da cerimônia o casamento foi atrapalhado pelo comportamento de certas pessoas na vida do meu marido. E também para um dia mais selvagem eu fiz com que a gente procurasse um pouco de maconha para eu fumar no dia do casamento, já que não bebo.” Dias depois, reataram. Não sei a quantas anda o casamento.

Sinéad engordara um bocado e parecia mais uma devota, e ficara com aparência que lembrava uma celebridade instantânea: a caloura Susan Boyle. Essa transformação tinha cara de autodestruição.

Em 2012, lançara How about I Be Me (And You Be You)?, e era um belo álbum. Parecia ter emagrecido um pouco. Era o que se pode perceber quando apresentou-se no programa de Jools Holland para a divulgação do novo álbum. No festival de Glastonbury, em 2013, a camiseta justa de alças apenas destacava adiposidades depositadas na região abdominal.

Veja O’Connor no programa Later…, de Jools Holland, cantando Take Off Your Shoes, do penúltimo álbum, em 2012.



Há algo de autorreferente na crítica às atitudes provocadoras de Cyrus. Lembra um pouco, por suas ousadias, a Sinéad iconoclasta, se bem que a americana segue a via aberta por Madonna, que é a do exibicionismo físico. Pois a Sinéad modelo 2014 é a que surge esplendorosa na capa e no encarte de I’m Not Bossy, I’m the Boss, lançado oficialmente ontem. Abraçada a uma guitarra Gretsch, maquiadíssima, com uma peruca estilo Louise Brooks e uma bodysuit preto, brilhante, justíssimo, não fica nada a dever, em termos de sensualidade e beleza à cantora/atriz de Hannah Montana. A capa é o aviso de que está em uma nova fase. Com 47 anos, Sinéad ainda arrasa.

Sinéad havia anunciado que seu próximo disco se chamaria Vishnu Room. Sua imprevisibilidade é conhecida. Na última hora mudou para I’m Not Bossy, I’m the Boss. Mais que um trocadilho esperto, a ideia surgiu devido a Ban Bossy, campanha em favor do banimento da expressão “bossy” [mandona], por, na opinião de suas idealizadoras, ter efeito negativo em relação às mulheres jovens.

Quando teria sido natural que Sinéad tendesse a tornar-se aquela matrona que persistiria em usar roupas justas, apresentando-se nos palcos como aquelas velhas figuras decadentes do rock’n’roll, dá a volta por cima. Esse é o seu triunfo. Aquele ar de frescor juvenil deu lugar a uma beleza e sensualidade maduras. Seu trunfo é o que sempre teve na mão: o talento e a capacidade de ainda surpreender com boas composições. E ela tem muita segurança desse seu dom. É por isso que isso está registrado, indiretamente, no título. Afirma: “I’m the Boss.” E ainda mais: dedica o álbum a ela mesma (“This album is dedicated to me”). Está lá na quarta página do encarte.

O álbum mais recente tem tudo para colocar Sinéad nas paradas devido a qualidade das canções. As facetas doces e mais enérgicas estão distribuídas ao longo do disco. E, afinal, possui uma voz especial, é uma combinação de fragilidade emocional e melancolia. Entre as mais lentas, destacam-se a primeira (How About I Be Me), 8 Good Reasons e Streetcars, belíssima.

Veja o clipe oficial de 8 Good Reasons.




Outra boa faixa é Harbour, que começa lenta e progressivamente ganha instrumentação poderosa.




Veja o clipe oficial de Take Me to the Church.





Veja a performance de O’Connor de How Nice a Woman Can Be, faixa bonus track, do álbum, em Saturday Night Live.

terça-feira, 6 de março de 2012

Sinéad O’Connor. Viva e operante

Protesto de O’Connor contra a Igreja Católica
A vida de Sinéad O’Connor dá o que falar. É assim desde 1988, quando lançou The Lion and the Cobra. Na capa, a foto de uma moça de feições bem desenhadas e, careca. Surpreendeu a voz doce, muito de acordo com a expressão estampada: angelical. Em fundo infinito branco que se fundia ao contorno de seu corpo, seus ohos miram o indefinido, virados para baixo, e suas mãos, com os braços em X, seguram as alças do vestido azul. Se não me engano, a música que estourou nas rádios foi Mandinka. A batida forte se mesclava à voz doce e, ao mesmo tempo, raivosa. Just Like U Said It Would B, Jerusalem e Troy (essa, excepcional) eram canções belas e doloridas.

No CD seguinte – I Do Not Want What I Haven’t Got – Sinéad gravou Nothing Compares 2 U, de Prince. Esse é um clássico definitivo. (sobre essa música, leia http://bit.ly/wL6PhB).

A carreira musical de O’Connor não parou por aqui. Gravou dezenas de discos, fez um cover de Don’t Cry for Me Argentina. Mas parece que isso ficou menor frente ao que era publicado na imprensa e mostrada nas televisões. Os escândalos ficaram maiores do que a sua música. Revelou os maltratos infligidos na infância e na adolescência pela mãe. Eram brutalmente espancados e viviam sujos, revelou à revista Spin, em 1991. Nesse seu desvelamento a um público ávido por escândalos, foi revelado que estava se ordenando sacerdote em um grupo católico (1999), disse que era lésbica (2000), tentou o suicídio, e internou-se em uma clínica psiquiátrica. O escândalo maior foi quando, em protesto contra o abuso sexual de crianças pela Igreja Católica, rasgou a foto do Papa no programa Saturday Night Live, em 1992.

Em matéria no New York Times (publicada em OESP, 18/2/2012), Ravi Somayia diz que “John Mayer, Courtney Love, entre outros, transmitiram ao vivo seus escândalos pessoais.” Diz também que o “colapso de Charlie Sheen, narrado minuto a minuto no Twitter, com frases incisivas, ficaria bem menos convincente por fax.” Escândalos parecem fazer parte do meio artístico desde sempre. É o preço da exposição ou, quem sabe, é um componente de exibicionismo do artista. É trágico e curioso esse prazer de Charlie Sheen em se expor tanto ao se vangloriar de que, apesar do consumo pesado de drogas, não se vicia. É a sensação de ser um super-homem. Sinéad, ao contrário, gosta de se mostrar desprotegida. E a culpa, como diz ela, até hoje, é da mãe carrasca. Na matéria de Somayia, ela imputa ao fato de ser mulher a exposição excessiva de seus atos: “Ela acredita que o julgamento que os outros fazem de seu comportamento tem a ver com o fato de ser mulher. ‘Se eu fosse um homem, ninguém acharia que precisaria pedir desculpas por alguma coisa. Ninguém pergunta a Mick Jagger se ele se aquietou.’” Resumo da ópera: ela é sempre a vítima.
A O’Connor cheinha

Depois de andar bem sumida, foi notícia novamente quando se apresentou no Manchester International Festival bem gordinha e com um penteado “pra lá de feinho”, no meio do ano passado. Sinéad estava de volta? Mais uma vez, foi comentada na mídia porque estava se casando mais uma vez. Postou em seu site que estava à procura de um homem. Barry Herridge, um conselheiro de dependentes de drogas, foi o felizardo (???). O casamento durou 18 dias. Segundo Sinéad a ruptura aconteceu por culpa da “danada” (a danada da maconha). “Três horas após o fim da cerimônia o casamento foi atrapalhado pelo comportamento de certas pessoas na vida do meu marido. E também para um dia mais selvagem eu fiz com que a gente procurasse um pouco de maconha para eu fumar no dia do casamento, já que não bebo.” São palavras de Sinéad, publicadas em jornais e na internet. Elogia, ainda, o novo marido (que tinha acabado de deixar de sê-lo): “Ele é um homem maraviloso. Eu o amo muito. Desculpe por não ser uma mulher mais normal. […] Ele tem estado terrivelmente infeliz e, portanto, acabei com o casamento.”

O inusitado se repete dias depois: reata o casamento. E tudo isso foi sendo noticiado e, mais estranho, graças às tuitadas da própria cantora. Para quem não quer se expor, é um tanto estranho, não? Ah, esses artistas! Não querem que se fale deles e eles próprios adoram expor suas vidas em redes sociais.

Quando a vida pessoal parece muito maior que seu trabalho na música, Sinéad O’Connor, mais uma vez surpreende. Discretamente, ao contrário do que faz com sua vida, lança um novo álbum. Mais surpreendente ainda: é bom. Sinéad andou dizendo que se aposentaria da música para cuidar do espírito e de seus filhos. A moça, pelo jeito, gosta de mudar de opinião, pelo jeito, ou gosta de ser notícia, para o bem e para o mal.

São outros tempos. Essa jovem de 45 anos que, outrora, foi bem mais moça, e “entrou de sola” no mercado fonográfico, linda, de olhar delicado, magérrima e careca (antes até da onda masculina de passar máquina zero) e canções vigorosas, ainda tem o que mostrar, e não são apenas braços adiposos e cara de dona de casa (sem querer desmerecer as “senhoras do lar”). Poderia muito bem estar cuidando de suas quatro crias, mas decidiu gravar mais um disco. Quem tem verve, não a perde. Em How About I Be Me (And You Be You)?, lançado agora, quando pouco entramos em 2012, vemos que Sinéad é capaz ainda de produzir canções belíssimas como Reason With Me, Old Lady e Back Where You Belong. E sua voz continua a mesma, emocionantemente bela. Podemos esperar que, adentrada na faixa dos “enta”, a irlandesa sossegue o facho? Bom, não sei se seria uma boa aposta.


Ouça Reason With Me com O’Connor ao violão. Não é linda?



A do CD.




Old Lady.