Ao ouvir a edição expandida de Afro Blue Impressions, lançada em 2013, comemorando os 40 anos da gravadora Pablo, de Norman Granz, e 50 desses registros feitos ao vivo, impossível não dizer: nunca houve alguém como John Coltrane.
Granz, criador da gravadora Clef, em 1946, da Norgram e a Verve, em 1973 fundou o selo Pablo. Nasceu careta. Em plena década que sucedia os anos explosivos da guerra do Vietnã, dos movimentos de maio na Europa, criava um selo que tinha Ella Fitzgerald, Oscar Peterson, Dizzy Gillespie, Duke Ellington, Count Basie e outros considerados peças de museu pela juventude da época. Que peças! Os velhinhos mainstream ainda tinham muito a mostrar. Não fariam mais revoluções, no entanto, eram gênios que tinham muito a ensinar.
Fora isso, Norman foi buscar relíquias do passado como a série de álbuns com registros de Art Tatum, como pianista solo e em combos formados por craques como Milt Jackson, Ben Webster, Harry “Sweets” Edison e Roy Eldridge. Os álbuns que lançou de Zoot Sims, Joe Pass, Sarah Vaughan e Joe Turner são preciosos. Mas um deles é especial: o duplo Afro Blue Impressions, com registros do melhor quarteto de Coltrane com McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones em excursão pela Europa.
Quando se pergunta quem é o maior saxofonista tenor, na maioria das vezes, o voto vai para Coleman Hawkins, Ben Webster ou Lester Young, ou até para Sonny Rollins ou Dexter Gordon e, por que não Coltrane? A resposta é: ele é único, não apenas como instrumentista, mas autor de uma obra sempre inquietante que continua a nos revelar novas faces a cada audição. Em 1963, enquanto Coltrane excursionava pela Europa, os Beatles começavam a fazer sucesso na Inglaterra e no ano seguinte iriam tocar pela primeira vez nos EUA.
Dentre os registros de Afro Blue Impressions estão Lonnie’s Lament, Naima, Chasin’ the Trane, Spiritual, Impressions, Cousin Mary, Afro Blue e I Want to Talk About You. Alguns números são absolutamente geniais, como a sequência My Favorite Things, Afro Blue, Cousin Mary e I Want to Talk About You, que é a minha preferida devido ao solo final de saxofone.
Veja John em I Want to Talk About You, grande jazz standard de Billy Eckstine.
Coltrane foi o único que sintetizou fúria, lirismo, melancolia e espiritualidade em um compasso. Tantas décadas depois, continua a ser a maior expressão no sax tenor.
Veja Coltrane em Afro Blue, de Mongo Santamaria.
quinta-feira, 21 de julho de 2016
terça-feira, 19 de julho de 2016
O soulman Michael Kiwanuka
Meus critérios do que acho que devo conhecer quando se trata de música pop, é peculiar e discutível: nomes estranhos atraem a minha curiosidade; e tenho interesse maior quando são negros, não pela cor, mas pelo registro da voz. Espero não ser visto como preconceituoso ao revelar os meus métodos de escolha. Desse modo, acabei por conhecer Monoswezi, Laura Mvula, Rokia Traoré, Sufjan Stevens, Lianne La Havas e Michael Kiwanuka. Dos citados, um apenas é branco.
Ouvi Michael Kiwanuka pela primeira vez na coletânea The Songs of Leonard Cohen Covered, encartada em um número da revista Mojo, em 2011. Era em Hey, That’s No Way to Say Goodbye. Era uma voz diferente. Tempos depois, ao ler críticas sobre Is Your Love Big Enough (2012), da inglesa Lianne La Havas, li uma referência a um outro talento em ascensão cujo nome era Michael Kiwanuka.
Há poucos dias foi lançado Love & Hate, seu segundo álbum. É mais sofisticado e burilado que o primeiro, com produção do músico e Dangermouse. Tem um início instrumental com um vocalzinho, uma guitarra que lembra David Gilmour (é de Kiwanuka mesmo) e uma orquestra. São cinco minutos até a entrada da voz de Michael. Ainda não tenho uma opinião mais afirmativa se acho o início bom ou chato, mas que impressiona na primeira audição, impressiona.
Depois desse início um tanto grandioso, é a vez de Called Black Man in a White World. O título é de impacto. Começa com Michael na voz e nas palmas – parece uma “work song” dos escravos americanos. Vai em um crescendo, entram uma guitarra, uma percussão e um pouco de cordas e ela vai se transformando, mas o realce vai para o refrão “Im a black man in a white world” repetido por um coro de fundo. Parece que foi a canção de trabalho do disco. Foi o primeiro single. Mas não parece com a maioria de suas canções, confessionais, meio lamurientas, queixosas.
E são nas lamurientas que sua voz funciona bem e atraem pelo registro caracteristicamente negra. Não fosse a instrumentação às vezes servindo mais como recheio, Michael poderia ser um intérprete voz e violão, algo como a atualmente sumida Tracy Chapman, que funcionaria tão bem quanto.
Ouça Falling.
Lamurienta? Um pouco. Alguns acharão um pouco chato, meio “oh, céus, oh, vida!”, mas que bela voz, que lembra vagamente a de Gary Brooker, do Procol Harum, menos metálica.
No show de lamúrias de Michael, estão lampejos de beleza. Confira I’ll Never Love.
Veja também uma apresentação de Kiwanuka cantando I’ll Never Love, One More Night e Cold Little Heart.
Ouça uma das melhores. É uma das minhas preferidas: One More Night.
Ouça a música de abertura Cold Little Heart.
Veja Kiwanuka em apresentação em Amsterdam cantando Cold Little Heart. Aqui, o registro é mais despojado do que a do álbum, talvez até mais interessante por isso.
Veja-o cantando Black Man in a White World, no programa de Jools Holand.
Ouvi Michael Kiwanuka pela primeira vez na coletânea The Songs of Leonard Cohen Covered, encartada em um número da revista Mojo, em 2011. Era em Hey, That’s No Way to Say Goodbye. Era uma voz diferente. Tempos depois, ao ler críticas sobre Is Your Love Big Enough (2012), da inglesa Lianne La Havas, li uma referência a um outro talento em ascensão cujo nome era Michael Kiwanuka.
Há poucos dias foi lançado Love & Hate, seu segundo álbum. É mais sofisticado e burilado que o primeiro, com produção do músico e Dangermouse. Tem um início instrumental com um vocalzinho, uma guitarra que lembra David Gilmour (é de Kiwanuka mesmo) e uma orquestra. São cinco minutos até a entrada da voz de Michael. Ainda não tenho uma opinião mais afirmativa se acho o início bom ou chato, mas que impressiona na primeira audição, impressiona.
Depois desse início um tanto grandioso, é a vez de Called Black Man in a White World. O título é de impacto. Começa com Michael na voz e nas palmas – parece uma “work song” dos escravos americanos. Vai em um crescendo, entram uma guitarra, uma percussão e um pouco de cordas e ela vai se transformando, mas o realce vai para o refrão “Im a black man in a white world” repetido por um coro de fundo. Parece que foi a canção de trabalho do disco. Foi o primeiro single. Mas não parece com a maioria de suas canções, confessionais, meio lamurientas, queixosas.
E são nas lamurientas que sua voz funciona bem e atraem pelo registro caracteristicamente negra. Não fosse a instrumentação às vezes servindo mais como recheio, Michael poderia ser um intérprete voz e violão, algo como a atualmente sumida Tracy Chapman, que funcionaria tão bem quanto.
Ouça Falling.
Lamurienta? Um pouco. Alguns acharão um pouco chato, meio “oh, céus, oh, vida!”, mas que bela voz, que lembra vagamente a de Gary Brooker, do Procol Harum, menos metálica.
No show de lamúrias de Michael, estão lampejos de beleza. Confira I’ll Never Love.
Veja também uma apresentação de Kiwanuka cantando I’ll Never Love, One More Night e Cold Little Heart.
Ouça uma das melhores. É uma das minhas preferidas: One More Night.
Ouça a música de abertura Cold Little Heart.
Veja Kiwanuka em apresentação em Amsterdam cantando Cold Little Heart. Aqui, o registro é mais despojado do que a do álbum, talvez até mais interessante por isso.
Veja-o cantando Black Man in a White World, no programa de Jools Holand.
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