Esses discos representaram um guinada no meu gosto musical, ou melhor, ampliaram meu horizonte sonoro. Na década de 1970, os Rolling Stones estavam lançando “Exile on Main Street” e logo mais estavam flertando com o glam-rock, os Beatles estavam em fase terminal, resultado do cisma Lennon x McCartney, e vinham novas ondas como a do rock mais pesado, com Led Zeppelin, Black Sabbath, Grand Funk Railroad, Humble Pie e alguns outras bandas, e a do que passaram a chamar de rock progressivo. As formações mais conhecidas foram King Crimson, Yes, Genesis, Gente Giant, Jethro Tull e Emerson, Lake & Palmer, que surgiram entre o fim e o início da década. Muitos embarcaram nessa onda que, grosseiramente, poderia ser considerada rock com alguns traços de inteligência, ou uma abordagem menos visceral e mais cerebral, mais “inteligente” e culta, flertando até com a música erudita. Keith Emerson incorporava Aaron Copland e Mussorgsky, Jethro Tull, Bach, Beethoven e Schubert.
Lembro de que os primeiros LPs que comprei foram “Led Zeppelin III”, “Pictures at an Exhibition” (Emerson, Lake & Palmer), “In the Court of the Crimson King” (King Crimson) e “The Yes Album” (Yes). A balança pendeu para o chamado rock progressivo. Mais ambiciosos – ou pretensiosos, dependendo da ótica –, as composições eram mais elaboradas, menos 4 x 4.
Dos LPs citados no primeiro parágrafo, os que me impressionaram foram “Mysterious Traveller”, o do World Saxophone Quartet, surpreendente, apenas com sopros (saxofones, clarinetas e flauta), sem bateria e contrabaixo, e “Closeness”, o primeiro de Charlie Haden como líder, em duos, com Keith Jarrett, Alice Coltrane, Ornette Coleman e Paul Motian. Outro foi “In Concert”, da banda Oregon: transformou-se em paixão. Posteriormente, comprei todos os que foram lançados, até a morte de um de seus membros: Collin Walcott.
“Low Class Conspiracy” foi o primeiro como líder de David Murray, saxofonista que formou o World Saxophone Quartet, com Oliver Lake, Hamiet Bluiett e Julius Hemphill. Sou fã de Murray até hoje. Estava naquela fase em que estava comprando livros sobre arte e estética da turma da Escola de Frankfurt – Walter Benjamin principalmente –, Georg Lukács e “Literatura e Revolução”, de Leon Trotsky. O título do LP de Murray era, por isso, um chamariz.
Achei “Bundless” meio chato. Mas despertou-me a curiosidade de conhecer melhor o Soft Machine. Ouvindo os anteriores, quando Robert Wyatt era ainda um dos membros da banda, virei fã de carteirinha, como se dizia antigamente. Ouço até hoje os “III”, “IV” e, até mesmo, o “V”.
Nem rock, nem jazz
Dos quatro, o que mais se destacou foi Ralph Towner, violonista de formação erudita, talentosíssimo e autor um dos melhores discos da ECM, o ao vivo “Solo Concert”, registrado na Alemanha e Suiça, em 1979.
“Grazing Dreams” e “Sophisticated Giant” (CBS, 1977), de Dexter Gordon, outro que comprei na mesma ocasião, estão entre os meus discos preferidos por duas razões. Uma é a de que são ótimos e a outra é porque foram os dois primeiros importados de jazz que comprei. É pouco? A vida da gente é marcada por simbolismos.
Como era – e é ainda – costume de Manfred Eicher, dono e produtor da maioria dos discos da ECM, unir os músicos do seu plantel –, nesse que é o segundo solo de Walcott pela gravadora, tocam Don Cherry, John Abercrombie, Palle Danielsson e o brasileiro Dom Um Romão, que participara de “I Sing the Body Electric”, “Sweetnighter” e “Mysterious Traveller”, do Weather Report.
Acho que “Grazing Dreams” é para quem tem uma abertura para o que é chamado de world music, a começar do fato de que os instrumentos principais de Walcott são a cítara e a tabla. Soma-se a isso a ligação de Don Cherry com instrumentos africanos como o doussn' gouni. A cuíca e o berimbau, tocados por Dom Um Romão, são “exóticos” para os não-brasileiros e, portanto, “world”.











