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quinta-feira, 25 de março de 2021

Grazing Dreams, de Collin Walcott, um dos dez melhores da ECM


Minha amiga rica voltou de San Francisco com vários LPs: “Mysterious Traveller” (Weather Report), “Bundless” (Soft Machine), “Closeness” (Charlie Haden), “Shakti” (John McLaughlin),“In Concert” (Oregon), “Low Class Conspiracy” (David Murray) e o primeiro do World Saxophone Quartet. Não consigo lembrar nomes de pessoas, não guardo um número de telefone, mas para algumas coisa a minha memória é ótima, principalmente se são inúteis.

Esses discos representaram um guinada no meu gosto musical, ou melhor, ampliaram meu horizonte sonoro. Na década de 1970, os Rolling Stones estavam lançando “Exile on Main Street” e logo mais estavam flertando com o glam-rock, os Beatles estavam em fase terminal, resultado do cisma Lennon x McCartney, e vinham novas ondas como a do rock mais pesado, com Led Zeppelin, Black Sabbath, Grand Funk Railroad, Humble Pie e alguns outras bandas, e a do que passaram a chamar de rock progressivo. As formações mais conhecidas foram King Crimson, Yes, Genesis, Gente Giant, Jethro Tull e Emerson, Lake & Palmer, que surgiram entre o fim e o início da década. Muitos embarcaram nessa onda que, grosseiramente, poderia ser considerada rock com alguns traços de inteligência, ou uma abordagem menos visceral e mais cerebral, mais “inteligente” e culta, flertando até com a música erudita. Keith Emerson incorporava Aaron Copland e Mussorgsky, Jethro Tull, Bach, Beethoven e Schubert. 

Lembro de que os primeiros LPs que comprei foram “Led Zeppelin III”, “Pictures at an Exhibition” (Emerson, Lake & Palmer), “In the Court of the Crimson King” (King Crimson) e “The Yes Album” (Yes). A balança pendeu para o chamado rock progressivo. Mais ambiciosos – ou pretensiosos, dependendo da ótica –, as composições eram mais elaboradas, menos 4 x 4. 

Dos LPs citados no primeiro parágrafo, os que me impressionaram foram “Mysterious Traveller”, o do World Saxophone Quartet, surpreendente, apenas com sopros (saxofones, clarinetas e flauta), sem bateria e contrabaixo, e “Closeness”, o primeiro de Charlie Haden como líder, em duos, com Keith Jarrett, Alice Coltrane, Ornette Coleman e Paul Motian. Outro foi “In Concert”, da banda Oregon: transformou-se em paixão. Posteriormente, comprei todos os que foram lançados, até a morte de um de seus membros: Collin Walcott.

“Low Class Conspiracy” foi o primeiro como líder de David Murray, saxofonista que formou o World Saxophone Quartet, com Oliver Lake, Hamiet Bluiett e Julius Hemphill. Sou fã de Murray até hoje. Estava naquela fase em que estava comprando livros sobre arte e estética da turma da Escola de Frankfurt – Walter Benjamin principalmente –, Georg Lukács e “Literatura e Revolução”, de Leon Trotsky. O título do LP de Murray era, por isso, um chamariz.

Achei “Bundless” meio chato. Mas despertou-me a curiosidade de conhecer melhor o Soft Machine. Ouvindo os anteriores, quando Robert Wyatt era ainda um dos membros da banda, virei fã de carteirinha, como se dizia antigamente. Ouço até hoje os “III”, “IV” e, até mesmo, o “V”.

Nem rock, nem jazz
Paul Winter é considerado um dos pais da world music. Influenciado por Villa-Lobos – morou um ano no Brasil na década de 1960 – e amante da música inglesa do século 17, criou a Paul Winter Consort. Ralph Towner, Paul McCandless, Glen Moore e Collin Walcott, que participaram da banda, formaram o Oregon em 1970. Pela Vanguard lançaram em 1972, “Music of Anther Present Era”. Rapidamente ficaram conhecidos e o álbum que tinham saído por uma pequena gravadora, a Increase Records, em 1970, foi relançado.

Dos quatro, o que mais se destacou foi Ralph Towner, violonista de formação erudita, talentosíssimo e autor um dos melhores discos da ECM, o ao vivo “Solo Concert”, registrado na Alemanha e Suiça, em 1979. 

Tempos depois, já conhecendo outros álbuns do Oregon, acho que, em razão de uma crítica positiva na revista Downbeat de “Grazing Dreams” (ECM), acabei comprando o LP, importado, no Rio de Janeiro. Já estava gastando todo o meu dinheiro em discos. Aconteceu um festival de jazz na ex-capital do Brasil com várias atrações imperdíveis: Weather Report, Pat Metheny, Mccoy Tyner e o Art Ensemble of Chicago. Fomos eu e mais dois amigos. Ficamos no apartamento da tia de um deles. O imóvel ficava a dois quarteirões das duas melhores lojas de LPs importados: a Modern Sound e a Billboard.

“Grazing Dreams” e “Sophisticated Giant” (CBS, 1977), de Dexter Gordon, outro que comprei na mesma ocasião, estão entre os meus discos preferidos por duas razões. Uma é a de que são ótimos e a outra é porque foram os dois primeiros importados de jazz que comprei. É pouco? A vida da gente é marcada por simbolismos.

Como era – e é ainda – costume de Manfred Eicher, dono e produtor da maioria dos discos da ECM, unir os músicos do seu plantel –, nesse que é o segundo solo de Walcott pela gravadora, tocam Don Cherry, John Abercrombie, Palle Danielsson e o brasileiro Dom Um Romão, que participara de “I Sing the Body Electric”, “Sweetnighter” e “Mysterious Traveller”, do Weather Report.

Acho que “Grazing Dreams” é para quem tem uma abertura para o que é chamado de world music, a começar do fato de que os instrumentos principais de Walcott são a cítara e a tabla. Soma-se a isso a ligação de Don Cherry com instrumentos africanos como o doussn' gouni. A cuíca e o berimbau, tocados por Dom Um Romão, são “exóticos” para os não-brasileiros e, portanto, “world”. 

O disco é único por vários fatores. O que se ouve é diferente de qualquer coisa. Um bom exemplo é "The Swarm". Seu início é de sons desconexos de trompete, flauta, cítara e guitarra. Repentinamente todos os sons se conectam e, guiados pelo trompete e a cítara, vai ficando dramática e, pronto. Termina. Começa então “Mountain Morning”. Curtíssima. É um prelúdio para a ondulante e hipnótica “Jewel Ornament”. Com a tabla servindo de base rítmica, Cherry sola na flauta, mas o que se sobressai é a guitarra discreta de Abercrombie. Depois da música título, tem “Samba Tala”, um duo ótimo com Dom Um Romão e Walcott. E termina com a belíssima “Moon Lake”. O início dela, com ele na cítara, é sublime. 

Confira.




A parceria de Walcott com Cherry frutificou. Com Naná Vasconcelos, formaram a Codona – cada sílaba são as duas primeiras letras de seus nomes. Sobre eles, leia “O mundo ‘world’ de Naná Vasconcelos”. 

Muitos nem devem conhecer Collin Walcott por uma razão simples. O ônibus que transportava o Oregon em uma excursão na antiga Alemanha Oriental colidiu. Estava no primeiro banco e cochilava. Bateu a cabeça e morreu. Tinha 38 anos. Foi em 1984. Fazem mais de 36 anos que aconteceu.

quinta-feira, 14 de março de 2019

O pequeno grande mundo de Anoushka Shankar

Os olhos de Anoushka Shankar
Foi em meados da década de 1960 que Ravi Shankar ficou conhecido no mundo ocidental. Era um músico respeitado na Índia. Com 10 anos foi à Paris com um grupo de dança. Aos 13 tornou-se membro do conjunto, aprendendo a dançar e a tocar vários instrumentos. Depois de sair do grupo, passou a estudar seriamente a música clássica indiana.

Nos anos 1960, houve um crescente interesse pela cultura oriental. Mas antes ainda, em 1952, o violinista clássico Yehudi Menuhim foi apresentado a Shankar. Encantado com sua música, convidou-o a apresentar-se com ele na antiga União Soviética. Em 1954, sob patrocínio da Fundação Ford, tocaram em Nova York. Em 1967, finalmente, saiu um registro fonográfico do trabalho deles, pelo selo Angel: “West Meets East”.

Veja os dois no documentário “Raga: A Journey into the Soul of India”




Ainda na década de 1950, a cultura hindu e oriental passou a receber a atenção de alguns intelectuais. Um dos pioneiros foi o inglês Alan Watts, introdutor do Zen nos Estados Unidos. Maharishi Mahesh Yogi divulgou a meditação transcendental na América no fim da mesma década e tornou-se queridinho da burguesia americana. Os Beatles não foram então os pioneiros quando foram à Índia praticar a tal meditação, em 1967, com Maharishi. O interesse deles, no entanto, serviu para que um número maior de pessoas se interessasse pelas culturas ocidentais, inclusive, pela música, como foi o caso de George Harrison, considerado o grande responsável para que o mundo conhecesse Ravi Shankar.

Sua primeira participação em um ambiente “pop” foi no Festival de Monterey. A consagração foi no Festival de Woodstock, em 1969, apesar do discurso chato que antecedeu a sua apresentação. Conquistou uma legião de fãs, admiradores e fez novas amizades. Conheceu a produtora Sue Jones e desse relacionamento, em 1979, nasceu Geethali Norah Jones Shankar. Conviveu pouco com o pai. Mas a música estava no sangue. Poderia ter optado pelo sobrenome do pai, que facilitaria para tornar-se conhecida. Mas não: preferiu o sobrenome da mãe.

De seu outro relacionamento, com Sukanya Rajan, em 1981, nasceu, em Londres, Anoushka Shankar. Com Sukanya acabou casando, em 1990. Assim, Anoushka cresceu perto do pai, que foi seu primeiro professor de cítara, aos sete anos.

Aprendeu bem das lições: tocou em público pela primeira vez quando tinha 13 anos, em Nova Délhi, no show comemorativo dos 75 anos do pai. Em 1998, com apenas 16, assinou um contrato com a prestigiada Angel Records e lançou seu primeiro álbum como líder“Anoushka”. Fez mais três por essa gravadora antes de tornar-se artista exclusiva da Deutshe Grammophon, em 2011. O primeiro foi “Traveller”. É uma brilhante fusão da música indiana com a espanhola. No fundo, é um encontro das sonoridades orientais. O domínio dos muçulmanos sobre a Península Ibérica moldou bastante a cultura espanhola em geral, inclusive a música. Tem participações de músicos de ponta: Javier Limón, Pepe Habichuela, Pedro Ricardo Miño e Concha Buika, dentre outros.

No seguinte – “Traces of You” –, de 2013, pela primeira vez em disco, tem-se o registro das duas irmãs juntas. Norah Jones canta em três faixas. Arrasa em “The Sun Won’t Set”, composição de Anoushka e Nitin Sawhney. “Home” (2015), como o próprio título sugere, é um retorno às origens. “Land of Gold” (2016) é um tanto diferente, quase minimalista. Pode-se até considerar um álbum de Anoushka e Manu Delago em razão de a maioria das faixas serem composições dos dois. Há uma faixa com participação de M.I.A., filha de pais hindus do Sri Lanka, meio chatinha, e outra, “fofinha”, com Alev Lenz, na música título: bela, mas meio bobinha.

“Reflections”, lançado em fevereiro, é uma compilação dos álbuns de Anoushka. É uma boa oportunidade de conferir a qualidade e energia de sua música. É claro que não poderiam faltar as que teve a meia-irmã participando. São “The Sun Won’t Say” e “Traces of You”. A primeira, como foi dito no parágrafo anterior, é um dos destaques. Outra muito boa é “Bulería con Ricardo”, brilhante exemplo da fusão Espanha/Índia, com a presença de seu coautor Pedro Ricardo Miño, Juan Ruiz, Bobote e El Electrico. Outra boa, também de seu álbum de estreia, é “Si No Puedo Verla”, um flamenco típico, cantado por Duquende. O som do cajón combina muito com o da cítara. “Voice of the Moon”, de “Rise”, de sua gravadora anterior, é poética e realmente bela. “Reflections” é uma boa síntese da carreira de Anoushka Shankar. Confira.



quinta-feira, 9 de agosto de 2018

John Surman, Nelson Ayres, Marlui Miranda

John Surman, Marlui e Caíto Marcondes

Na noite de 1º de agosto, a melhor opção seria ficar em casa. Chuva, frio e a perspectiva de muito trânsito eram os melhores argumentos. Mas iria acontecer a única apresentação de John Surman, Nelson Ayres e Rob Waring em São Paulo, no teatro Sesi.

Não tenho a certeza se foi na época em que ganhou uma bolsa de estudos pela “The John Simon Guggenheim Memorial Foundation”, em 1986, que Marlui Miranda conheceu Jack DeJohnette. Acho, pelo que soube na única vez em que conversei com ela.

DeJohnette ficara encantado com o álbum “Txai”, de Milton Nascimento, e lembrava-se de seus vocais na faixa “Nozani”. O contato serviu para que, depois, fosse convidada para participar da formação que se chamou The Ripple Effect. Um pouco fora do universo do jazz, o projeto era o de unir a música eletrônica, a improvisação com o universo da world music. Ao baterista, a banda contou com Foday Musa Suso tocando kora, instrumento africano de 21 cordas, os produtores Ben Surman e Big Al e Marlui. Surgiu assim o álbum “Hybrids” (2005). Título perfeito: eletrônica, dubs que nos remetem ao reggae, sons tribais, por meio dos vocalises de Marlui, e ritmos africanos. John Surman, pai de Ben, participa de algumas faixas. Tanto ele como Jack tinham tocado juntos inúmeras vezes. “The Amazing Adventures of Simon Simonn” (1981), em que ambos se dividem em vários instrumentos, é um dos grandes discos lançados pela ECM. Foi quando Marlui e John devem ter se conhecido. Tinham algo em comum: a pesquisa e exploração da música de suas origens, ela pela indígena, e ele, pela celta.

O Brasil desconhece o Brasil. As pesquisas com a música dos índios, desenvolvida desde a década de 1970, mereceu reconhecimento internacional. Além da bolsa de estudos de The John Simon Gugenheim Memorial Foundation, foi professora visitante na Chicago University e na Darmouth College, artista residente na Indiana University, além de ter sido agraciada com o prêmio da Academia Alemã de Crítica (SchallplattenKritik) em 1996 pelo CD “IHU, Todos os Sons”. Atualmente, faz doutorado na ECA-USP.

Em 2013, Marlui gravou “Fala de Bicho, Fala de Gente” (Selo Sesc), acompanhada por Nelson Ayres ao piano, Rodolfo Stroeter no contrabaixo, Caíto Marcondes na percussão e John Surman no saxofone e clarineta. A distância física entre Oslo e São Paulo não foi empecilho para que Surman e Marlui trabalharem em parceria os arranjos.

Ouça o CD na íntegra.


 

Não foi a primeira vez de Surman no Brasil. Em 1991, por ocasião de um seminário organizado pela UnB contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, apresentou-se com Marlui e, acho que deve ter sido quando conheceu Fortaleza, que o inspirou a compor “Pitanga Pitomba”, incluída em “Invisible Threads”, seu álbum mais recente, lançado no início pela ECM, em janeiro deste ano.

Uma coisa leva à outra. Marlui conheceu Jack DeJohnette, e assim conheceu John Surman, que ao vir gravar com Marlui, conheceu Nelson Ayres. Tempos depois, o inglês ligou de Oslo convidando o brasileiro a participar das gravações de um novo disco. Com o vibrafononista americano Rob Waring, há anos morando em Oslo, formou-se o trio de “Invisible Threads”. Como explicou Ayres no show em São Paulo, o conceito do álbum difere do padrão do jazz, em que os músicos vão alternando os solos. O título – “costuras invisíveis” – explica a estrutura do álbum. O diálogo entre os músicos são tecidos a três mãos.

Fiz um playlist em que estão incluídas as faixas de “Invisible Threads”.


 

Na noite fria de 1º de agosto, porque Marlui conheceu Jack, e assim, conheceu John, que conheceu Nelson, pude ver o meu ídolo pela primeira vez.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

A pescaria de John Zorn nas águas da música sefardita, com Dora Juárez Kiczkovsky

Quando aquele rapaz magérrimo entrou no palco, no Free Jazz Festival, em 1989, parte da plateia sabia o que podia acontecer. Alguns dos que lá estavam, conheciam John Zorn, por meio de seus discos “The Big Gundown” e “Spillane”, lançados em edições nacionais. 

O som nervoso do sax alto do americano, eram mais frenéticos e ruidosos, ao vivo, quase insuportáveis. Não era para qualquer ouvido. Na mesma noite, estava programada a apresentação de outro representante do free jazz: Cecil Taylor. A debandada foi geral. Afinal, o nome do evento não era Free Jazz Festival? Eram a expressão do “free” Tinha esse nome em razão da marca de cigarros que o patrocinava. Nem tão free, o festival foi a oportunidade de conhecermos ao vivo músicos do quilate de Joe Pass, Chick Corea, Stan Getz, Dexter Gordon, John McLaughlin e muitos outros.

Nem tão fã de Zorn, por sua importância, nunca deixei de acompanhá-lo, mesmo que pouco ouvindo-o. Seus álbuns da série Masada tinham capas incrivelmente belas: douradas, com imagens que remetiam à cultura judaica. Os primeiros saíram, se não me engano pelo selo japonês DIW. Os músicos que tocavam com ele nos primeiros eram do primeiro time: Dave Douglas, Greg Cohen e Joey Baron ou Kenny Wollesen, na bateria.

Tempos depois, criaria a própria gravadora. No mesmo ritmo frenético com que soprava o saxofone, montava bandas, cada qual com direções musicais diferentes, dentre elas a Naked City, surgida com o disco do mesmo nome, a John Zorn’s Cobra, Hemophiliacs, além da Masada, citada em cima, Electric Masada, e gravou e produziu séries como a “Filmworks” e a “Book of Angels”. Lançou várias centenas de álbuns, com formações que tocam suas composições e de outros, nem sempre com sua participação como músico. Reuniu uma verdadeira constelação de artistas de todos os continentes, explorando ritmos e formas musicais, quebrando com os conceitos do que é erudito ou popular.

 Na série da banda Masada, Zorn explora suas raízes com cerca de duzentas composições que representam uma música judaica do século 21. As formações musicais para o projeto, que envolve também os “Book of Angels” – até agora, são cerca de 30 álbuns –, vão desde formações clássicas como trios e quartetos de cordas, performances em que participa como músico, e também intérpretes como Cyro Batista, Greg Cohen, Jamie Saft, o trio Medeski, Martin and Wood, Bill Frisell, Mark Feldman e Joe Lovano. Outro projeto interessante, é uma série de discos em que toca órgão solo.

Zorn criou um verdadeiro acervo da música judaica, indo muito além do klezmer, tocado por músicos amadores, sem aprendizado formal, nos shtetls – aldeias ou guetos que se espalharam pela Europa Oriental. A sua exploração se expande pelas vertentes resultantes da diáspora dos judeus pelo mundo. É relevante a presença deles no lado ocidental da Europa, principalmente nos Países Baixos e na Península Ibérica. Os judeus sefarditas que habitavam a Península foram expulsos pela Inquisição. Muitos se converteram ao cristianismo e muitos foram para outros lugares, como o norte da África e a América do Sul. Um dos destinos foi o México e muitos continuaram, apesar de convertidos, a seguir os ritos tradicionais, clandestinamente.


Dora
Em primeiro lugar, tiveram de sair da Polônia, perseguidos, para não terem o mesmo destino de seus parentes e de milhões de judeus, os campos de concentração. A família de Dora Juárez Kiczkovsky, novamente, em virtude do recrudescimento da ditadura militar na Argentina, em 1976, resolveu mudar de país.

No México, Dora estudou cinema e na Escola Superior de Ensino de Música do Instituto de Belas Artes. Montou um trio com Leika Mochán e Sandra Cuevas. Gravaram ““Muna Zul”, nome que escolheram para a formação, que foi lançado pelo selo Tzadik, de Zorn, em 2006. Em relação ao cinema, colaborou com Werner Herzog, compondo para um de seus filmes.

Em 2013, foi a vez de “Notas Para Una Diáspora”. O título é ótimo, pois sintetiza o percurso dos judeus ao longo da história e, por conseguinte, a sua e de sua família. Com cantos sefarditas de “amor, morte, guerra e migração”, a artista mexicana de origem judia mergulha em suas raízes para enlaçar o ancestral com o contemporâneo”, assim a gravadora Tzadik a define. Dora interpreta canções sefarditas que remontam a Idade Média espanhola antes da diáspora, quando os reis católicos expulsam os judeus da Península Ibérica.

Nada melhor do que o próprio John Zorn explicar por que lançou esse álbum por sua gravadora: “Dora Juárez cria uma fascinante travessia musical, explorando sua própria identidade, rastreando as raízes judaicas de sua linhagem familiar do leste europeu, Espanha, Argentina, Israel e México. Esta é a história judaica apaixonada e intensamente pessoal contada por meio de canções sefarditas.” Quer melhor crédito?

Não é para todos os gostos, certamente. Mas basta deixar os ouvidos livres de quaisquer preconceitos para sentir a beleza e singeleza dessas canções ancestrais na doce voz de Dora.

Ouça “Las tres morillas”, a nona faixa do disco.




A minha preferida é “Por qué yorash?”




Dora canta “Morenica”. Beleza em estado puro.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Surpresa dupla com Avi Avital

Um bom programa para amanhã, 10 de junho, é a apresentação de Avi Avital, na Sala São Paulo. É parte da programação da Série TUCCA de Concertos Internacionais. Esta entidade existe há 15 anos e dedica-se à pesquisa e à assistência de crianças e adolescentes carentes com câncer.

Fora o belo trabalho que desenvolvem, essa associação é responsável por um dos melhores programas de concerto do Brasil, mais interessantes até do que o da Osesp, por ter um foco também em outros gêneros, além da música erudita. Para se ter uma ideia, depois de Avi Avital, estão programadas apresentações de Miloš Karadaglić (9 de setembro), um dos melhores violonistas da atualidade, Alice Sarah Ott e Francesco Tristano (14 de outubro), pianistas que acabam de lançar o belo Scandale (Deutsche Grammophon, 2014), e, em 11 de novembro, a do quarteto de Gerald Clayton, com Cyrille Aimée e Sachal Vasandani, dois cantores “rising stars”.

É evidente que o foco dos programadores da série da TUCCA é outro, pois o da Osesp é mais específico. Essa liberdade propicia ao público conhecer novos nomes. Avital, Karadaglić, Ott e Tristano não são estranhos àqueles que acompanham a música clássica, pois são contratados de Deutsche Grammophon, que há muito vem apostando em repertórios mais ecléticos, misturando o popular com o erudito.


Avi Avital  O mandolin – ou bandolim, como é conhecido no Brasil – surgiu por volta de 1750 e, apesar de razoavelmente popular, nunca foi muito utilizado na música erudita. Do pouco que se conhece, a obra mais conhecida que o utiliza, é o Concerto de Mandolin, RV 425, de Antonio Vivaldi. Conforme publicações especializadas, foi usado também, nunca como solista, por Beethoven, Mahler, Schoenberg e Mozart. Na conhecida Canção da Terra (Das lied von der Erde), de Mahler, o bandolim é utilizado brevemente.

Na esfera do popular, ele e suas variantes, como o banjo e o mandolim elétrico, são populares nas músicas country e folk americanas e acredito que também na Europa Central. No Brasil é o instrumento muito usado no choro. Cooperaram para a sua popularidade Jacob do Bandolim, Joel Nascimento e Déo Rian. Dentre os atuais, o grande nome é Hamilton de Holanda. É um dos músicos brasileiros com maior prestígio internacional atualmente. O Que Será?, com o italiano Stefano Bollani, lançado pela ECM, mereceu elogios empolgados tanto dos críticos como do público apreciador da música instrumental. (leia e ouça em http://bit.ly/1MgoefE)

O israelense Avi Avital, nascido em Beersheba, cidade do sul do país, começou a tocar o bandolim com sete anos e logo foi estudar em Jerusalém e depois, em Pádua, escolha lógica, pois a Itália é o berço desse instrumento. Em razão de poucas peças compostas para ele, seus estudos voltaram-se às transcrições, principalmente de obras para o violino.

Seu primeiro álbum lançado pela Deutsche Grammophon, intitulado, simplesmente, Bach, é composto por três concertos e duas sonatas do alemão. São transcrições muito interessantes e perfeitamente adaptadas ao bandolim. Ouça o Concerto BWV 1052R.





Veja Avital executando o Primeiro Movimento da Cello Suite nº1. Acho que não há nenhum registro em disco dessa peça.




Ano passado, Avital lançou o álbum Vivaldi, dedicado ao veneziano, compositor das peças mais conhecidas da música clássica e também autor de uma das poucas para o bandolim, o Concerto em Dó maior, RV 425. E nada melhor do que ser acompanhado pela Venice Baroque Orchestra ao homenagear o “il prete rosso”.

Pode-se dizer que Avi é uma estrela, guardando-se as proporções e não se comparando aos ídolos do rock. É jovem, carismático e transita pelo crossover, algo entre o clássico e o pop. Ser indicado ao Grammy atesta o quanto é conhecido. Ser popular tocando música erudita significa que você está no nível de um André Rieu? Errado. Em muitos casos, o aumento da popularidade está relacionada a um empobrecimento musical. Mas não é esse o caso, nem de Avi, nem de outros como Daniel Hope. O perigo, no entanto, pode estar próximo.

Veja Avi com a Venice Baroque Orchestra no Concerto para Bandolim.




Um destaque, devido a sua popularidade, é Quatro Estações. Ouça um dos movimentos de Verão.




Pelo mundo  O álbum mais interessante, no entanto, considerando-se que a seara de Avital é o crossover, até por conta de o bandolim não ser um instrumento de concerto muito utilizado, é Between Worlds (DG, 2014). Ele explora o repertório erudito, tocando composições de Manuel De Falla, Vittorio Monti, Heitor Villa-Lobos e Béla Bartók. Mais interessante, no aspecto “world”, são as execuções de composições da Geórgia, Bulgária, não deixando de incluir uma composição de sua conterrânea Ora Bat Chaim. Dos “exemplares” étnicos, uma bem interessante é a búlgara Bučimiš.





Avital fala sobre Czárdás, de Vittorio Monti, que é executada com Richard Galliano.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O estranho mundo de Elina Duni

Elina Duni pelas lentes de Blerta Kambo
Em uma área de pouco mais de 28 mil metros quadrados encontra-se um país que possui um histórico de opressão e isolamento. A hoje República da Albânia, localizada na Penínsinula dos Balcãs, faz limites com antiga e hoje desmembrada Iugoslávia (Montenegro, Croácia, Macedônia e Sérvia) e a Grécia. O Kosovo, ainda parte da Sérvia, almeja sua independência e é povoado por maioria de albaneses.

A Albânia, como a Grécia, ficou por cerca de 400 anos sob o jugo do Império Otomano. Quando tudo poderia ficar melhor, ficou pior, se visto por um lado. Antes da Segunda Guerra, foi invadida pelas tropas de Mussolini. Um dos líderes da resistência, pouco antes do fim da Segunda Guerra, Enver Hoxha, comandou o país até morrer, em 1985. Nesse período, alinhou-se à União Soviética de Stálin, mas não se entendeu muito bem com seu sucessor Kruschev e em 1961 entrou na esfera do comunismo chinês. De novo, após a morte do Grande Timoneiro Mao Tsé-Tung, rompeu relações.

Se era um país pobre, a situação econômica ficou pior. Muitos abandonaram suas terras e fugiram para a Grécia, Itália e países vizinhos nos Balcãs. O regime de Hohxa fez da Albânia um dos países mais fechados do século XX. Mesmo assim, no meio dos comunistas brasileiros havia quem simpatizasse com esse peculiar regime. Tínhamos, além dos tradicionais comunistas, os militantes que preferiram a linha chinesa e alguns que abraçaram a albanesa.

Oprimidos por séculos de dominação e o isolacionismo no século passado, de certo modo, contribuíram para a manutenção de valores culturais locais.

Culturalmente, o nome mais conhecido é o de Ismail Kadaré, escritor sempre lembrado para ganhar o prêmio Nobel e autor de Abril Despedaçado (virou filme dirigido por Walter Moreira Salles). Pouco sabemos, no entanto, sobre a música da Albânia. Uma ponta que é o vislumbre do que é revela-se com Elina Duni.

Nasceu em Tirana em 1981 e, com 11 anos mudou, com a mãe, para a Suiça. Estudou canto e composição e formou um quarteto com o pianista suiço Colin Vallon, o baixista Bänz Oester e o baterista Norbert Pfammatter. Lançou o álbum Baresha em 2007 e logo ganhou reconhecimento. No primeiro disco, além de canções cantadas em albanês, gravou três músicas francesas conhecidas – La javanaise, Ces petits riens e Avec le temp – e Solitary Moon, Loch Ness e Spice Island em inglês.

Ouça Elina Duni cantando La javanaise, de Serge Gainsbourg.




Em Lume, Lume, pela mesma Meta Records, explorou um pouco mais a música tradicional de seu país, Romênia, Bulgária e Grécia. A exceção é River Man, do inglês Nick Drake, em emocionante interpretação.

Ouça River Man.


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Elina Duni canta Kaval Sviri, do folclore búlgaro. Esta é de Lume, Lume.




Tornou-se tão conhecida a ponto de chamar a atenção de Manfred Eicher. Agora, neste ano, estreou com Matame Malit (Beyond the Mountain), pela ECM. É a grande oportunidade para ampliar o número de ouvintes. Pouco antes, em 2011, Eicher produzira o primeio solo de Colin Vallon – Rruga –, em 2011. Sendo pianista de Elina, é possível que isso a tenha ajudado.

Capa de Matame Malit
Matame Malit tem uma linda capa, como é costumeiro na ECM, e a imagem com silhuetas de pessoas caminhando sugere um êxodo e lembra imagens de O Vale dos Lamentos (The Weeping Meadow), de Theo Angelopoulos. Apesar de o álbum não ter recebido boa crítica pela revista Downbeat – recebeu três estrelas –, pejorativamente comparada aos discos da malfadada gravadora Windham Hills, especizada em música “new age” e hoje extinta, é um disco bem interessante. A revista é especializada em jazz, apesar de acolher matérias e resenhas de música que não é do gênero. O que Duni faz é diferente de tudo o que estamos acostumados a ouvir.

Segundo Elina, o álbum vai além da música folclórica. Algumas são canções que foram proibidas de serem difundidas na Albânia. Erë Prnaverore (Spring Breeze) é uma delas. Mini Peza é outra. Conta o drama real de Mini: ela lamenta a prisão de seus filhos que lutavam contra a ocupaçao italiana, nos anos 1940.

É a que você ouve aqui.


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Decerto, Matame Malit não é um disco que faz o gosto mais comum, É cantado em uma língua estranha e são músicas de forte conteúdo regional. Mas, por que não conhecê-lo? O quarteto é de primeira. Vallon é um pianista brilhante, Patrice Moret (até o segundo era Bänz Oester) é um baixista muito bom e a bateria de Norbert Pfammatter é espetacular.

A música cantada por Elina é quase sempre melancólica. Quando perguntada se havia uma tristeza inerente no repertório de Matame Malit, respondeu: “É tristeza. Acho que é mais melancolia. Os Balcãs são um lugar onde a alegria é melancólica, e onde a melancolia pode ser alegre. Nos Balcãs temos um jeito de cantar nossos sofrimentos – é um tipo de terapia.”

A bela Elina canta U rrit vasha. É a décima primeira do CD mais recente. Preste atenção ao piano de Colin Vallon.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Anoushka, a filha menos conhecida de Ravi Shankar

Anoushka Shankar e a cítara
Numa prova de sincretismo, quando floresceu a onda orientalista, com o budismo, propagado nos EUA pelo inglês Alan Watts, e a onda das seitas hinduístas, muitas jovens em fervorosa fé, preferiram ter suas experiências religiosas no sentido bíblico.

Prudence Farrow resolveu fazer um curso de meditação transcendental com Maharishi Mahesh Yogi na Índia. Aceita, levou a irmã Mia. Como o mundo é pequeno, os quatro Beatles tinham ido fazer a mesma coisa. Consequência desse encontro, compuseram Dear Prudence, preocupados com sua obsessão pelos exercícios de meditação.

George Harrison foi quem mais foi fundo na cultura hindu. Aprendeu o básico da cítara com Ravi Shankar. Um dos pioneiros em montar eventos em prol de grandes causas, foi o responsável por unir vários grandes intérpretes (todos amigos) para o Concert for Bangladesh. Shankar era um deles.

Em 1972, quando aconteceu o Concerto, Ravi já era uma celebridade. Havia se apresentado nos festivais de Woodstock e de Monterrey. No entanto, não era mais “virgem” de Ocidente. Menino ainda, excursionara com um grupo de dança pela Europa. Havia conhecido Yehudi Menuhim, um dos violinistas mais conhecidos da música erudita, em 1952. Muito tempo depois, ambos gravaram o clássico West Meets East (1968), pela inglesa Angel Records. É um dos primeiros discos em que o erudito se mescla ao popular. Só muito tempo depois inventaram um termo para classificar esse gênero: “crossover”.

Na década do slogan “paz e amor”, aquele ar de espiritualidade transmitido por sua música e por sua fala mansa era atraente e apaixonante. E, como do espírito o próximo passo é a carne, enroscou-se com a produtora musical Sue Jones. Foi uma união abençoada: dela nasceu Norah Jones.

Espiritualidade elevada, Shankar não deixava de cuidar bem da sua vida aqui na Terra. Em 1979, quando Norah nasceu, ainda estava casado com a dançarina Kamala Shastri, com quem ficou até 1981. O romance com Kamala datava de meados dos anos 1940, quando ainda estava casado com Ammapuma Devi, que foi sua primeira mulher. Confuso, não? Para ficar um pouco mais, em 1981, tivera uma outra filha, mas com Sukanya Rajan: Anoushka Shankar. O caso com a mãe de Norah durou até 1986. Após o rompimento, reatou com Sukanya, e daí, sossegou..

Ravi Shankar gerou duas filhas talentosissimas. Não é coisa que acontece todos os dias. É raro. Norah cresceu convivendo pouco com o pai. Não existe nada da música dele na mistura de folk, country e jazz de Norah.

Anoushka conviveu mais com o pai, quando ele e sua mãe reataram. Teve lições de cítara com ele e passou a se apresentar aos treze anos, revelando enorme musicalidade. E conseguiu desenvolver uma carreira independente, mesmo tocando o mesmo instrumento.

Mas, de certo modo, Anoushka segue por uma linha evolutiva iniciada pelo pai, que é o tal do “crossover”. Nascida em Londres, passando a infância nos EUA, fazendo apresentações na Índia, o resultado é uma música que transcende rótulos.

Depois de gravar cinco álbuns, em 2011 lançou seu primeiro por uma das maiores gravadoras de música erudita, a Deutsche Grammophon. O declínio das vendagens de música erudita fez com que a Deutsche e outras majors do setor como a Decca e a Virgin Classics passassem a procurar outras opções que seduzissem ouvintes mais jovens. Elvis Costello lançou um disco com a mezzo-soprano Anne Sofie Mutter incluindo composições do roqueiro “crossover”, de Lennon e McCartney, Burt Bacharach e Tom Waits. Sting lançou pela Deutsche três álbuns explorando o folclore britânico e canções de compositores antigos. Em movimento inverso, o “erudito” Gidon Kremer registrou obras de Astor Piazzolla, com participações como a de Caetano Veloso. Outro que abordou o tango e Piazolla foi o judeu argentino Daniel Barenboim em Mi Buenos Aires Querido, pelo selo Telarc. Este é um item imperdível para o amante da música.

No primeiro álbum para a Deutsche Grammophon, em Traveller, Anoushka reuniu músicos como Pepe Habichuela e Concha Buika, apresentando temas que unem a música indiana e a espanhola.

Assista à apresentação de Anoushka com as músicas de Traveller.




Agora, em 4 de outubro, foi lançado o álbum Traces of You. Ela conta com a participação do músico e produtor britânico de origem indiana Nitin Sawhney. É um disco mais “light” – ou menos frenético – que o anterior e mais ocidental. Traveller é melhor, o que não quer dizer que Traces não seja. É bom, também. É apenas questão de gosto. Anoushka conta com a participação da irmã Norah Jones em The Sun Won’t Set, Traces of You e Unsaid.

Assista ao vídeo oficial da música-título Traces of You, com Anoushka e Norah Jones. O clipe foi dirigido pelo marido de Anoushka, o cineasta Joe Wright, de Razão e Sensibilidade e Desejo e Reparação.




Ouça também Flight, composta e executada por Anoushka.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Quem assistiu ao Concert for George, ocorrido um ano após a morte de George Harrison, vai se lembrar dela. Veja aqui.



quinta-feira, 30 de maio de 2013

A viagem de Naná Vasconcelos

Da esquerda para a direita, Naná, Don Cherry e Colin Walcott
Na matéria publicada na “Ilustríssima”, da Folha de S.Paulo (12/5/2013), assinada por Carlos Bozzo Junior, Naná Vasconcelos conta sobre suas experiências com o LSD: “Foi bom tomar. Nunca tomei sozinho, mas em companhia de meus instrumentos. […] Quando a reação vinha, a primeira coisa que eu queria era tocar. Minha sensibilidade aflorava e eu ficava concentrado só na música.”

Antes dessas viagens fizera outras. No Recife ainda, conhecera um bailarino brasileiro radicado em Portugal. Com outros músicos montou o Quarteto Yansã e partiram, meio na louca, para Lisboa. Não encontraram o tal bailarino que prometera ajudá-los. Casualmente, encontrou Agostinho dos Santos, que também andava “perdido” por lá. Eles se conheciam por canta de ter participado de programas de televisão. Cantava em um navio. Com o pretexto de que precisava comprar alguns dólares, pediu ao comandante que lhe desse o passaporte e deu no pé. Andaram fazendo alguns shows. Agostinho, nessa época, já tinha participado da trilha sonora de Orfeu Negro, de Tom Jobim e Luiz Bonfá, cantando A Felicidade.

Voltou para o Recife, mas já tinha pegado o gosto pela estrada. Foi para o Rio de Janeiro. Fez um “arranjo” com mestre Capiba, convencendo-o a representar Pernambuco no Festival “O Brasil Canta no Rio”, que pagou-lhe uma passagem de ida e volta. Sem muito dinheiro, no Rio, marotamente misturou-se aos integrantes do grupo Titulares do Ritmo e conseguiu hospedagem. Detalhe: os Titulares era um conjunto vocal liderado por Chico Nepomuceno de Oliveira e eram todos cegos.

O maracatu de mestre Capiba não ganhou. Conheceu o também pernambucano Geraldo Azevedo e foi parar em uma festa na casa de Milton Nascimento. Depois disso, o resto é história. Participou de grupos como A Sagrada Família, de Luiz Eça, e do Som Imaginário. Conheceu o saxofonista Gato Barbieri, autor da trilha de O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, e lá foi Naná para outra viagem.

Ficou por cerca de um ano em Nova York. Em turnê com Gato na Europa, resoveu estabelecer-se em Paris. Gravou Africadeus, seu primeiro disco como líder. Dois anos depois, em 1973, lançou pela Philips, Amazonas. Esse é antológico. Naná nem pode ser classificado como percussionista. Naná inventa sons, não apenas com o berimbau, com seu modo único de executá-lo, mas com vozes e consegue até fazer uma música que é feita apenas de risadas, como é Um Minuto, a faixa que fecha o LP.

Ouça Cara com Cara, do álbum Amazonas.




Além dos álbuns como líder, participou de gravações antológicas com Milton Nascimento. Seu trabalho em Milagre dos Peixes é algo que foge de qualquer classificação. Um álbum que abriu-lhe efetivamente as portas para o mercado internacional foi Dança das Cabeças, com Egberto Gismonti, para a gravadora ECM. Caindo nas graças de Manfred Eicher, gravou Saudades (1979) e participou de inúmeros trabalhos com Jan Garbarek, Pierre Favre e Pat Metheny.

O melhor de Naná, na minha opinião, está contido em três álbuns lançados pela ECM, Da reunião de três grandes músicos, resultou um grupo chamado Codona. Correspondem às duas letras iniciais de cada um deles. “CO”, de Colin Walcott, excepcional percussionista e citarista, membro da melhor formação do Oregon (ele, Ralph Towner, Glenn Moore e Paul McCandless), morto precocemente em um acidente besta (estava dormindo no ônibus e na colisão bateu a cabeça); “DO”, de Don Cherry; e “NA”, de Naná.

Como o mundo é constituído por infinitos círculos e por isso, pequeno, Gato Barbieri havia participado de algumas formações com Cherry. Gato tinha levado Naná consigo para os EUA e Europa. É provável que tenham se conhecido assim; ou por outras vias. Dança das Cabeças, de Gismonti e ele, foi gravado em novembro de 1976; Don Cherry participou da formação do Old and New Dreams, com Charlie Haden, Dewey Redman e Ed Blackwell; os quatro se conheciam há muito tempo: todos tocaram com Ornette Coleman. O quarteto lançou o primeiro disco pela italiana Black Saint, o segundo, em 1979, na ECM. No mesmo ano, por esta gravadora saiu o primeiro Codona. Os outros dois sairam em 1981 e em 1983.

Dos milhões de rótulos que surgem, esteve em voga o termo “world music”. Mais genérico impossível: pode ser música japonesa, árabe, africana, paquistanesa, indiana? O cantor e compositor fundador da banda de rock progressivo Genesis criou um selo chamado Real World e gravou músicos africanos, latinos, árabes e até da Oceania. Muitas vezes, o tipo de música produzida pelo Codona ficou assim rotulado. Esqueça. Considere apenas que é música de primeira, tocada e composta por três artistas geniais. Quando se mescla o pocket trumpet, flautas, doussn’gouni (o som lembra o da kalimba) e melodica de Cherry, tablas e cítaras de Colin Walcott, berimbaus, cuícas e vozes de Nana, realmente, fica difícil de classificar o som resultante.


Veja os três em apresentação em Nova York.




Ouça Que Faser (foi grafado com “s” mesmo), de Naná Vasconcelos.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

As aventuras de Geoff Keezer

Geoff Keezer é do time de Bill Evans. Melódico e autor de harmonias sofisticadas, inexplicavelmente, não é tão conhecido. Uma razão possível é seu gosto de explorar linguagens distantes do jazz como a música japonesa – mais especificamente o “minyo”, que vem a ser a música tradicional da ilha de Okinawa –, a africana e a latina.

Geoff Keezer ao piano
Com 18 anos tornou-se pianista do Art Blakey’s Jazz Messengers. Grande responsabilidade. Estava herdando o banco no qual se sentaram Horace Siver, Cedar Walton, Bobby Timmons, James Williams e Benny Green. O velho baterista, um dos mentores do hardbop, com Silver, sabia muito bem o que estava fazendo.

Profissionalizou-se jovem e gravou muitos discos como líder. Em formações diferentes, dividiu o piano com Harald Malbern, tocou com Steve Nelson (vibrafone e marimba), Bill Pierce (sax), Donald Harrison (sax), Peter Bernstein (guitarra), Rufus Reid (baixo), Victor Lewis (bateria), dentre outros, e como sideman participou das bandas de Roy Hargrove e do grande baixista Ray Brown. Sem um contrato fixo, gravou em selos menores, mas bem prestigiados no universo jazzístico: Dreyfus Jazz, Sunnyside, Telarc, Sackville e MaxJazz. Dentre as majors, gravou pela Columbia (e sua subsidiária japonesa DIW) e a Blue Note.

Os álbuns em que é acompanhado pelo vibrafonista Steve Nelson são muito bons, especialmente, Trio (Sackville, gravado ao vivo em 1993) tendo como terceiro instrumentista o baixista Neil Swanson, sem bateria. Tanto nesses como em World Music (DIW, 1992), entre as várias compostas pelo próprio Keezer, mesclam-se com standards conhecidos como It’s Only a Papermoon, Black Tan and Fantasy, These Foolish Things, Darn That Dream, Epistrophy e Sophisticated Lady. São, portanto, álbuns essencialmente jazzísticos.

Turn Up The Quiet (Columbia, 1997)
Em Turn Up the Quiet (Columbia, 1997), seu disco mais conhecido, tem a companhia de figuras carimbadas como Diana Krall, Christian McBride e Joshua Redman. A primeira faixa, Stompin’ at The Savoy, é um dos destaques. As músicas cantadas por Diana Krall – The Nearness of You, Island Palace e Love Dance, de Ivan Lins – são especiais, pois a canadense é sempre uma presença marcante. Keezer toca sozinho Lush Life, Loose My Breath e My Shining Hour. Os “desvios” são Does a Rose Lose Its Color in the Rain?, de Ryuichi Sakamoto, e Bibo No Aozora. Essa, que fecha o disco é sublime, e foge um pouco da linguagem do jazz.

Em suas próximas incursões, Keezer continua em seu propósito de não ficar circunscrito nos códigos consagrados do jazz. No piano solo, Zero One (Dreyfus, 1999) constam composições próprias, standards [Footprints (Wayne Shorter), Black Tan and Fantasy (D. Ellington) e Blood Count (Billy Strayhorn)], e canções do repertório popular [Venus as a Boy (Björk), Life on Mars (David Bowie), These Three Words (S. Wonder) e Across the Univers (Lennon & McCartney)]. As peças formam um belo conjunto, rico nas explorações harmônicas e rítmicas, bem diferentes dos piano-solo costumeiros, desconstruindo-as e tornando-as quase irreconhecíveis. Uma dos temas próprios chama-se Asadoya Yunta, inspirado no folclore okinawano, assinalando seu interesse crescente pela música japonesa (a primeira gravação tinha sido a de Does a Rose Lose Its Color in the Rain?, citada acima).

No álbum gravado pela MaxJazz, Fallin’ Up (2003), além do piano, toca vibrafone, marimba e piano elétrico (Fender Rhodes). Variando bastante de formação, apresenta algumas composições havaianas (Püpü hinuhinu, Wahine hololio, e Kaulana na pua), evidenciando seu interesse em não ficar apenas no tradicional. Mantendo seu “desassossego musical”, gravou um disco com o cantor okinawano Yasukatsu Oshima, disponível em CD japonês e pode ser encontrado no site da Amazon por módicos 42 dólares mais frete.

Seus projetos mais recentes são Aurea e Montre Echo. No primeiro, aventura-se pela música peruana (ouça algums samples em http://bit.ly/fLmgyB). Montre Echo é a exploração de sua mais antiga paixão – a música eletrônica de trilhas de filmes de ficção científica). Há um depoimento de Keezer (www.geoffkeezer.com) falando alguma coisa sobre esses projetos que vale a pena ser visto , pelo menos, para os fãs do tecladista.

Veja um dos vídeos disponibilizados pelo site de Geoffrey de Montre Echo.



Veja-o tocando Summertime com o vibrafonista Joe Locke.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Hank Jones globalizado

Em maio deste ano faleceu o pianista Hank Jones pouco tempo antes de completar 92 anos. Longa vida e grande contribuição para a música. A família era talentosa. Um de seus irmãos, Elvin Jones – o “drum jazz machine” – era o baterista da fase de ouro de John Coltrane, e Thad Jones, trumpetista, foi líder de uma das grandes bigbands do jazz, o Thad Jones-Mel Lewis Orchestra. Hank tem centenas de discos em todas as formações possíveis. Mas seu piano foi supremo, como o de Tommy Flanagan, acompanhando cantoras e cantores. Nos últimos anos, gravou com a cantora Roberta Gambarini o belíssimo You Are There. Seus discos com o saxofonista Joe Lovano (Kids: Live at Dizzy’s Club, 2007) e com o saxofonista e flautista Frank Wess (Hank & Wess, Frank, 2006) são excepcionais.

Um registro, no entanto, sai bem da linguagem jazzística. É o disco Sarala, lançado em 1996 pelo selo Verve. Jones divide com o compositor, tecladista e vocalista malinês, Cheik Tidiane Seck. Não é tão conhecido quanto outros músicos africanos como Salif Keita, Youssou N’Dour ou Mori Kanté, mas pelo que apresentou nesse disco que divide com Hank Jones – ele é quase um coadjuvante – pode ser considerado um dos grandes da África. Ouçam Tounia Kanibala e digam o que acharam.


Vejam o vídeo do YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=vd0hgsZj-ZA