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| John Surman, Marlui e Caíto Marcondes |
Na noite de 1º de agosto, a melhor opção seria ficar em casa. Chuva, frio e a perspectiva de muito trânsito eram os melhores argumentos. Mas iria acontecer a única apresentação de John Surman, Nelson Ayres e Rob Waring em São Paulo, no teatro Sesi.
Não tenho a certeza se foi na época em que ganhou uma bolsa de estudos pela “The John Simon Guggenheim Memorial Foundation”, em 1986, que Marlui Miranda conheceu Jack DeJohnette. Acho, pelo que soube na única vez em que conversei com ela.
DeJohnette ficara encantado com o álbum “Txai”, de Milton Nascimento, e lembrava-se de seus vocais na faixa “Nozani”. O contato serviu para que, depois, fosse convidada para participar da formação que se chamou The Ripple Effect. Um pouco fora do universo do jazz, o projeto era o de unir a música eletrônica, a improvisação com o universo da world music. Ao baterista, a banda contou com Foday Musa Suso tocando kora, instrumento africano de 21 cordas, os produtores Ben Surman e Big Al e Marlui. Surgiu assim o álbum “Hybrids” (2005). Título perfeito: eletrônica, dubs que nos remetem ao reggae, sons tribais, por meio dos vocalises de Marlui, e ritmos africanos. John Surman, pai de Ben, participa de algumas faixas. Tanto ele como Jack tinham tocado juntos inúmeras vezes. “The Amazing Adventures of Simon Simonn” (1981), em que ambos se dividem em vários instrumentos, é um dos grandes discos lançados pela ECM. Foi quando Marlui e John devem ter se conhecido. Tinham algo em comum: a pesquisa e exploração da música de suas origens, ela pela indígena, e ele, pela celta.
O Brasil desconhece o Brasil. As pesquisas com a música dos índios, desenvolvida desde a década de 1970, mereceu reconhecimento internacional. Além da bolsa de estudos de The John Simon Gugenheim Memorial Foundation, foi professora visitante na Chicago University e na Darmouth College, artista residente na Indiana University, além de ter sido agraciada com o prêmio da Academia Alemã de Crítica (SchallplattenKritik) em 1996 pelo CD “IHU, Todos os Sons”. Atualmente, faz doutorado na ECA-USP.
Em 2013, Marlui gravou “Fala de Bicho, Fala de Gente” (Selo Sesc), acompanhada por Nelson Ayres ao piano, Rodolfo Stroeter no contrabaixo, Caíto Marcondes na percussão e John Surman no saxofone e clarineta. A distância física entre Oslo e São Paulo não foi empecilho para que Surman e Marlui trabalharem em parceria os arranjos.
Ouça o CD na íntegra.
Não foi a primeira vez de Surman no Brasil. Em 1991, por ocasião de um seminário organizado pela UnB contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, apresentou-se com Marlui e, acho que deve ter sido quando conheceu Fortaleza, que o inspirou a compor “Pitanga Pitomba”, incluída em “Invisible Threads”, seu álbum mais recente, lançado no início pela ECM, em janeiro deste ano.
Uma coisa leva à outra. Marlui conheceu Jack DeJohnette, e assim conheceu John Surman, que ao vir gravar com Marlui, conheceu Nelson Ayres. Tempos depois, o inglês ligou de Oslo convidando o brasileiro a participar das gravações de um novo disco. Com o vibrafononista americano Rob Waring, há anos morando em Oslo, formou-se o trio de “Invisible Threads”. Como explicou Ayres no show em São Paulo, o conceito do álbum difere do padrão do jazz, em que os músicos vão alternando os solos. O título – “costuras invisíveis” – explica a estrutura do álbum. O diálogo entre os músicos são tecidos a três mãos.
Fiz um playlist em que estão incluídas as faixas de “Invisible Threads”.
Na noite fria de 1º de agosto, porque Marlui conheceu Jack, e assim, conheceu John, que conheceu Nelson, pude ver o meu ídolo pela primeira vez.

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