quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Energia pura com Carlos Santana e John McLaughlin

Santana e McLaughlin na fase mística
Um fato que poucos devem saber ou lembrar-se é que o grupo de Carlos Santana apresentou-se no Festival Internacional da Canção de 1971, no Maracanãzinho, RJ. Diferentemente dos dias de hoje, era raríssimo a presença de artistas de renome em terras brasileiras. Esse festival foi criado pela Rede Globo, quando a emissora não era a potência que é hoje. Maiores que ela, eram a TV Record, a TV Excelsior e a extinta Tupi. O evento surgiu na esteira dos festivais da Record, que revelaram Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e outros.

Alavancados pelo sucesso estrondoso da apresentação no Festival de Woodstock, a banda de Santana fez uma excursão pela América Latina. Depois do Brasil, iam se apresentar no Peru. Foram deportados (ou expulsos, não sei) porque encontraram alguns quilos de maconha mocozados (era a expressão comum que significava “esconder”) nas caixas de som.

Nos tempos “flower power”, em que a juventude se revoltava contra a guerra do Vietnan e vivia a liberação dos costumes, a filosofia e religiões orientais encontraram seu espaço no mundo ocidental. O inglês Alan Watts foi um dos maiores divulgadores do zen budismo na América. Membros dos Beatles contribuíram para a propagação de seitas indianas e popularização dos chamados “gurus”. O deles chamava-se Maharishi Mahesh Yogi.

Não ficou esclarecido se Carlos Santana parou a consumir a “maldita” ao se converter a uma dessas seitas, ou continuou a usá-la para “elevar-se espiritualmente”, mas por um tempo arrumou também o seu guru. Ligou-se a Sri Chimmoy, passou a chamar-se Devadip Carlos Santana. Outro que abraçou a mesma seita foi John McLaughlin. O inglês tinha se mudado para os EUA em 1969 para participar da banda de Tony Williams. Daí, tocar com Miles Davis foi um passo, levado por Williams, há muito, baterista de sua banda.

Em 1970, lançou Devotion, pelo selo Douglas. Já usando o prenome Mahavishnu e vestindo uma bata clara e com a imagem do guru Sri Chimmoy no porta retrato, na capa, John McLaughlin lançou My Goals Beyond no ano seguinte. Grande disco. Criou a Mahavishnu Orchestra. Na sua formação inicial – a melhor – lançou The Inner Mounting Flame, Birds of Fire e o ao vivo Between Nothingness & Eternity. Os três são parte da melhor discografia básica do jazz elétrico, ou jazz-rock, seja lá do que é chamado.

Unidos pela “fé”, John McLaughlin e Carlos Santana lançaram Love Devotion Surrender, em 1973. Ambos estão de brancos e tentam transmitir certa sensação de paz interior. Emblematicamente, a primeira faixa é Love Supreme, de John Coltrane. A outra do saxofonista é Naima. The Life Divine e Meditation são de McLaughlin, e Let Us Go Into the House of Lord, um “traditional” completam a o disco.

Da fase “oriental” de Santana, um grande disco é o que fez com – note a parcial coincidência – Alice Coltrane, última mulher do compositor de Love Supreme. Ela foi a responsável por sua “virada mística”. Era discípula do guru Sathya Sai Baba e adotara o nome Turiyasangitananda, simplificada para fins artísticos, Turiya. O título do disco não poderia ser mais revelador: Illuminations (1974).

Em 2011, McLaughlin e Santana reeditaram a parceria em Montreux. O nome do álbum? Invitation to Illumination. Depois de 40 anos de Love Devotion Surrender, em outro contexto, Invitation é um convite à iluminação pelo espírito da música, sem gurus no meio. A energia da apresentação dos dois é pura energia. A banda é composta de três guitarristas, dois baixistas, dois bateristas, um percussionista e um tecladista. Agora, imagine o som. O repertório é uma mistura só e funciona bem. Tem até Stairway to Heaven de Jimmy Page e Robert Plant no primeiro meddley, com um trecho de A Hard Rain’s a Gonna Fall, de Bob Dylan. Incluíram temas de Coltrane como A Love Supreme e Naima, que já tinham gravado em Love Devotion Surrender, e partes de temas de Miles Davis como Right Off e Black Satin.

Veja os dois em The Life Divine.





Naima.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

The Changing Lights, o disco mais brasileiro de Stacey Kent

A capa do novo CD de Stacey Kent
Tem tempo ainda. No dia 4 de dezembro, Stacey Kent se apresentará no clube novaiorquino Birdland, em comemoração ao lançamento de The Changing Lights. O ingresso custa 45 dólares e consumação mínima de 10, valor bem mais modesto que os 400 reais mais 85 de taxa de conveniência do show da cantora que aconteceu em novembro do ano passado no Teatro Reanault, antigo Paramount, em São Paulo (leia http://bit.ly/16eP2r4). Com a diferença que é no Birdland e, apesar do frio, é sempre bom caminhar pelas ruas de Nova York.

Ontem, 16 de setembro, foi o lançamento oficial do último CD de Stacey Kent. De tanto vir para cá, realiza seu álbum “mais brasileiro”, apesar de ter sido gravado em Sussex, Inglaterra, e contar com apenas um brasileiro no lineup. A língua portuguesa e as referências a nossa música têm sido uma constante em seus trabalhos mais recentes.

Stacey não possui a voz marcante de Sarah Vaughan, nem a potência de Carmen McRae, e talvez por isso, saiba usá-la como ninguém. Sua voz é pequena e complexa. Ao contrário de outras, conhece o que canta. Não basta ter uma bela voz para ser bom intérprete. Com impressionante humildade disse que ainda trabalha a voz: “Tento cantar o melhor que eu posso, simplesmente, porque é a minha profissão e minha razão de ser.”

Nada melhor do que alguém com Stacey para interpretar canções como This Happy Madness (Estrada Branca), One Note Samba (Samba de Uma Nota Só) e Insensatez (How Insensitive), de Antônio Carlos Jobim. Os outros brasileiros presentes no álbum são Dori Caymmi (Like a Lover), Marcos Valle (The Face I Love) e Roberto Menescal (O Barquinho). Toca violão na música de sua autoria e em A Tarde, de Jim Tomlinson e o poeta António Ladeira. O português é parceiro também em Mais Uma Vez. São duas canções belíssimas, melancólicas e poderiam passar por brasileiras facilmente, apesar de compostas por um inglês e um português.


Ouça A Tarde. As duas de Ladeira são cantadas em português.




Como Stacey formou-se em Letras nos EUA e foi fazer um curso de Literatura Comparada na Inglaterra (dê uma busca por “Stacey Kent” no blogue; como é uma das minhas preferidas, publiquei vários textos sobre ela), é natural seu cuidado com os “letristas”. Mais que letristas, os parceiros são escritores. Além de António Ladeira, Stacey e Jim são próximos a Kazuo Ishiguro. Nascido no Japão, escreve em inglês e é considerado um dos grandes da atualidade. A ligação vem de gostos em comum: o jazz e a literatura. A parceria foi iniciada em Breakfast in a Morning Tram. Das doze canções desse álbum, quatro são com letras de Ishiguro. No CD lançado ontem, é parceiro de The Summer We Crossed Europe In The Rain e Waiter, Oh Waiter. Aliás, “garçom, seo garçom!”, é bem brasileiro. E a música também. Ouça:




Se você é fã de Stacey e de MPB, não deixe de ter esse CD. Tudo é muito brasileiro, até Chanson Légère, de Bernie Beaupère, outro parceiro “reincidente” e Smile, de Charlie Chaplin, com introdução instrumental com o tema de O Bêbado e o Equilibrista. Confira.




Veja o teaser de The Changing Lights.




Ouça Samba de Uma Nota Só.



Ouça um trecho de Estrada Branca.