Joe Farrell no saxofone soprano. Foto: Jan Perssons
Alguns músicos nunca foram considerados os melhores do planeta, geniais como Miles Davis e John Coltrane e, mesmo assim, em algum momento, deixaram suas marcas. Até o mais comum dos humanos, em algum lugar, na perfeição em que pintou uma parede, nas palavras que podem ter significado muito para alguém, em uma atitude de bondade que nunca imaginou ter, pode tê-la deixado. Qualquer um é capaz de um ato de grandeza, mesmo sendo o mais mesquinho e miserável ser da Terra, sem perceber. Sim, podemos ser geniais, sem, de fato, sermos.
Joe Farrell, sem ser genial, foi um saxofonista e tanto; e bom flautista. Morreu jovem: 49 anos. É, por isso, pouco conhecido e um estranho para aquele com menos de 50. Brasileiros que ouviram Airto Moreira e Flora Purim sabem de quem escrevo, ou, quem ouviu o álbum “Return to Forever”, de Chick Corea, lançado em 1972, com o casal brasileiro, Farrell e o baixista Stanley Clarke.
No mesmo ano, em outubro, gravaram o LP “Light As a Feather”, que acabou saindo em 1973. Os álbuns seguintes, a partir de “The Hymn of the Seventh Galaxy”, Chick Corea consolidou o que ficou conhecido como “jazz progressivo”, usando outros teclados além do piano elétrico Fender Rhodes, na esteira da eletrificação do jazz, cujo pioneiro foi Miles Davis, e intitulou o grupo com o nome do disco citado no parágrafo anterior.
Mas o assunto aqui é Joe Farrell e de sua brilhante interpretação de “Crystal Silence”, de “Return to Forever”. Ouça.
Veja Joe Farrell em uma apresentação ao vivo, na flauta transversal, com Chick Corea.
Chick Corea, além da banda elétrica, seguiu gravando sob o seu nome. Um dos álbuns é “The Leprechaum” (Polydor, 1976), e o outro foi o duplo “My Spanish Heart”. Foi, num certo sentido, uma forma de abrir espaço para a cantora Gayle Moran, com quem acabou casando. Em “The Leprechaum”, Joe Farrell participou. Apresentaram-se na época, no Free Jazz Festival, no Brasil. Eu estava lá. Foi a única vez em que vi Joe Farrell.
Um dos grandes álbuns no formato trio (piano, baixo, bateria) é Now He Sings, Now He Sobs, de Chick Corea com Miroslav Vitous e Roy Haynes. Dois anos antes deste, Chick estreava como líder com Tones for Joan’s Bone. De lá para cá são 49 anos, tempo bastante para o pianista ter gravado mais de 100 álbuns nas formações mais diferentes.
Logo no início da carreira já foi chamando a atenção de veteranos como Stan Getz e Miles Davis. Aliás, foi com o trompetista, tocando piano elétrico, que acontece a virada na carreira de Corea. Ele e alguns outros músicos que tocaram com Miles montam as principais bandas do que foi rotulado como jazz-rock ou jazz fusion. Corea montou o Return to Forever, Joe Zawinul e Wayne Shorter o Weather Report, e Herbie Hancock lança o revolucionário Head Hunters.
O meu primeiro contato com Chick foi com No Mystery (Polydor, 1975). Lançado no Brasil, não custava tanto quanto os importados. Nessa época, a gravadora Polygram soltava um bom número de títulos de jazz e de música erudita, além de ter sob contrato os maiores nomes da música brasileira.
E não foi o único de Corea a ser lançado aqui. Where Have I Known You Before, anterior ao No Mystery, saiu logo depois – ou foi o contrário? – não me lembro. Na mesma época, sairam alguns títulos da gravadora alemã ECM. Por este selo, outros LPs do americano foram disponibilizados: Piano Improvisations vol.1, Return to Forever (o título é de 1972 e passa ser o nome de sua banda composta por Stanley
Clarke, Lenny White e Bill Connors, substituído por Al DiMeola,
posteriormente), Circle (com Anthony Braxton, Dave Holland e Barry Altschull), e Crystal Silence, duo com o fabuloso vibrafonista Gary Burton. Os da ECM e os dois de sua banda elétrica eram uma boa amostra da sua versatilidade: free jazz no álbum com Anthony Braxton, virtuoso ao piano solo, lírico, tocando com Burton e “roqueiro” com a banda Return to Forever.
Em uma das primeiras edições do São Paulo-Montreux Jazz Festival – ou na primeira mesmo – Corea era uma das atrações. A sua apresentação foi calcada no repertório do disco The Leprechaum, o mais recente. O título era uma pista do que era o disco. Na sua nova fase, entrava no mundo das fadas, duendes e assemelhados. E, pelo jeito, a “fada” era Gayle Moran, a cantora de voz doce e etérea. Não por acaso, tornou-se sua mulher. Apesar de Gayle, não poderia perder a chance de ver o ídolo. Por sorte, um dos membros da banda era o flautista e saxofonista Joe Farrell. O momento maravilha do show foi justamente a dele no saxofone soprano e Corea no piano elétrico tocando Crystal Silence. Valeu por tudo.
Depois de The Leprechaum, lançou My Spanish Heart, um álbum duplo. Estava com um pé atrás. Comprei assim mesmo. Passei muito tempo sem saber se tinha gostado ou não. Mas essa história fica para a próxima.
Uma seleção pessoal dos discos de Chick Corea dessa época
• Todos os álbuns do Return to Forever são bons, ou quase. O primeiro, ainda com o nome de Chick, é Return to Forever (ECM 1972), excepcional, com uma de suas melhores composições: Crystal Silence. Conta com Airto Moreira, Flora Purim, Stanley Clarke e Joe Farrell. A curiosidade é que o primeiro álbum oficial do Return to Forever, nos EUA é Light as a Feather. O primeiro, lançado em 1972 na Europa, só saiu em 1975 no mercado americano.
Ouça o LP na íntegra. Crystal Silence é a segunda faixa (12:00)
• Light as a Feather. Segundo do RTF. Tem muito a ver com o anterior. Conta ainda com a mesma formação do anterior. É deste álbum uma das grandes composições de Corea: Spain.
Ouça. Os vocais são de Flora Purim.
• Hymn of the Seventh Galaxy (1973) é o primeiro com a pegada mais RTF. A banda é formada por Corea, Stanley Clarke, Lenny White e Bill Connors na guitarra.
Ouça na íntegra.
• Where Have I Known You Before (1974). Com a saída de Connors, que desejava seguir carreira solo, entra Al DiMeola. É uma mudança importante no RTF. Este é o melhor disco da banda, junto com o seguinte No Mystery. Excepcional.
Ouça Vulcan Words, a primeira faixa.
Ouça Song to the Pharoah Kings.
• No Mystery (1975). Obra prima do jazz fusion.
Dayride, faixa de abertura, composição de Stanley Clarke.
Jungle Waterfall tem uma batida irresistível.
Harmonia total entre Corea e Clarke em Interplay.
Puro balanço em Flight of the Newborn.
• Romantic Warrior (1976). É o primeiro na nova gravadora, Columbia. A guitarra de Al DiMeola é dominante. Apesar dele, é bom, menos que os anteriores, mas com grandes momentos. Algo em Romantic Warrior me fez ignorar Musicmagic, o posterior.
Medieval Overture é a faixa de abertura. É música para ouvir bem alta. Ouça.
A guitarra de DiMeola predomina em Majestic Dance.
O grande Corea acústico está presente em Now He Sings, Now He Sobs, como disse no começo. Steps-What Was abre o disco.
Matrix é a segunda faixa.
Ouça Windows.
Os títulos da ECM
Em sua maioria, são muito bons.
• Os solos ao piano. Todos ótimos: Piano Improvisations vol. I (1971), Piano Improvisations vol. 2 (1972), Delphi (1975)
• Tem quem não goste dos discos avant garde de Corea com Anthony Braxton, mas o pianista toca com músicos de primeira: A.R.C. (1971), Circle - Paris Concert (1971)
• Crystal Silence (1973), duo com Gary Burton, é extraordinário.
Qual é o seu tipo de saxofone preferido? O seu não sei, mas o meu é o tenor. Por ordem de preferência, vem o barítono, o soprano, e, por último, o alto, apesar de Charlie Parker. Acho que poucos instrumentos expressam o sentimento de quem o toca. O som de Coleman Hawkins é diferente do de Ben Webster, assim como o de Lester Young é do de Dexter Gordon. Com as exceções de Parker, Lee Konitz, Phil Woods, e mais alguns poucos, tendo a achar o som do alto um tanto chato, quem sabe, por culpa da minha aversão por músicos como Dave Sanborn e seus imitadores.
Meu gosto pelo barítono está quase pareado com o tenor. Acho fenomenal o som de John Surman (meu primeiro na lista), Gerry Mulligan, Pepper Adams, James Carter e Ronnie Cuber. Quanto ao soprano, que gostava tanto, com o passar do tempo, deixou de estar entre os preferidos. O Carlos Conde odiava e eu não via a razão. Mas, quem sabe, com a idade, é isso o que acontece. Uma certa estridência do soprano passa a incomodar mais. E hoje, nem tão fã de Wayne Shorter sou mais. Mas, para relembrar do tempo em que gostava muito, disponibilizo alguns números que me deram muito prazer.
Devo ter passado a gostar do saxofone soprano quando ouvi Wayne Shorter tocando no Weather Report. Como filho de uma geração que cresceu no período em que King Crimson, Yes, Van der Graaf Generator, Jethro Tull e Emerson, Lake & Palmer eram as bandas da moda, meu gosto tendia a uma música pretensamente menos “burra” que o rock’n’roll. Não que não gostasse da música dos Beatles ou dos Rolling Stones, mas na típica arrogância de adolescente, o tal do rock progressivo era mais “intelectualizado”, mais elaborado e incorporava alguma coisa da música erudita. Vendo-se hoje, fica claro que era uma ideia tremendamente idiota. As letras das canções de Keith Emerson e Greg Lake estavam no mesmo nível dos “I love you”, “I miss my babe” de tantas bandas de rock ou dos lamentos dos cantores de blues.
Dentro desse processo “evolutivo”, fui “melhorando”, um pouco graças a nova amiga, que conheci no cursinho. A Lu, melhor de grana do que eu, podia viajar para fora e trazer LPs importados, algo impensável para um rapaz da classe média bem média, talvez um pouco melhor do que a tal classe média que o Partido dos Trabalhadores tanto apregoa ter criado. Não sei se ela foi com a minha cara, mas o certo é que ela passou a emprestar-me discos do Soft Machine, uma banda inglesa que tinha dentre seus membros um sujeito chamado Robert Wyatt, cara intelectualizado, cuja família era amiga do poeta Robert Graves, e de uma banda chamada Weather Report. Esses LPs, realmente, fizeram coisas na minha cabeça. Por meio destes, passei a interessar-me pela música instrumental, rotulada então como jazz rock ou jazz progressivo.
O primeiro do Weather Report que ouvi foi Mysterious Traveller. Perdi a conta do número de vezes que ouvi esse LP, mas posso assegurar que passou de uma centena. A canção que mais me chamou a atenção foi Blackthorne Rose. Não que fosse a melhor, mas pelo saxofone soprano de Shorter.
Ouça Blackthorn Rose.
As coisas se encadeiam de um modo natural. De Wayne Shorter e Joe Zawinul a Miles Davis, de Miles a Chick Corea, de Chick a Herbie Hancock, de Miles a John Coltrane, de Coltrane a Duke Ellington – por meio do belíssimo Duke Ellington & John Coltrane (Impulse, 1963) – meu gosto pela música foi andando “para trás”, e sem que me desse conta, tinha virado fã de Ben Webster, Coleman Hawkins, Charlie Parker, Duke Ellington e Charles Mingus.
Depois de conhecer o álbum de Ellington e Coltrane, a mais bela canção do mundo, na minha opinião, passou a ser In a Sentimental Mood. Passei, obsessivamente, a comprar LPs dos dois. Em Live at the Village Vanguard (Impulse, 1963), a única faixa do lado B é Chasin’ the Trane. Coltrane toca os 16 minutos e pouco, sem interrupção, seu saxofone tenor. Fiquei fã de carteirinha. Fui comprando tudo o que encontrava de Coltrane. Descobri o sax soprano de Coltrane em My Favorite Things (Atlantic, 1961).
Ouça a música em apresentação do quarteto, na Bélgica, em 1965.
Nesse meio tempo, em minhas expedições musicais, conheci Jan Garbarek, inicialmente, por algum disco com Keith Jarrett, provavelmente, Belonging (ECM 1974). Fiquei fã do norueguês. Tocava um sax soprano curvo. Depois, enjoei. Peguei bronca. Passei a achar seu sopro um tanto estridente.
Ouça The Wind Up, do álbum Belonging.
Mas quando eu penso no solo mais bonito de sax soprano que eu conheço, acho que é o de Joe Farrell, em Crystal Silence. O mesmo acho para o piano elétrico. É um dos mais belos, com Chick Corea. Confira. Farrell sumiu, mas era bom n soprano, tenor e na flauta.