quinta-feira, 22 de março de 2012

A mais bela mulher solitária





Um dos belos momentos que presenciei foi quando Ornette Coleman começou a tocar Lonely Woman às escuras, sem amplificação, em um teatro com quase mil pessoas. Houve uma súbita interrupção de luz no Teatro Sesc-Pinheiros. Foi coisa de uns quinze minutos, creio. (sobre a apresentação, leia “A luz de Ornette Coleman”)

Lonely Woman é O clássico de Ornette Coleman, com “o” maiúsculo, como se dizia antigamente. É a mais conhecida desse saxofonista alto, célebre por ser considerado um dos inventores do que é conhecido como “free jazz”. Teve um início de carreira atribulado, com vários críticos musicais detratando sua capacidade como instrumentista.

O que é novo assusta, e Ornette era uma novidade, considerado por alguns, um iconoclasta. E, ousando mais, de vez em quando, “empunhava” um saxofone de plástico branco. Bem, Charlie Parker também andou tocando em saxes de plástico, portanto, não era por aí que a coisa estava “pegando”. Mas o som de Ornette era meio áspero, nervoso e anguloso, bem diferente do bebop e hardbop, estilos em voga. Mesmo assim, não se pode dizer que os caminhos para a propagação de sua música tenham sido dificultados. Nunca gravou por selos obscuros e, apesar de alguns companheiros o acharem um tanto desafinado, o maestro e compositor Leonard Bernstein o considerava um gênio. Em 1958, lançou Something Else!!! The Music of Ornette Coleman pelo selo Contemporary. Tem um primeiro clássico lá: The Sphinx.

Logo mais assinou com a Atlantic Records, a mesma que havia acabado de contratar John Coltrane. Este, em pouco mais de dois anos gravou Giant Steps, Coltrane Jazz, My Favorite Things, Coltrane’s Sound, Plays the Blues e Olé Coltrane, além de The Avant-Garde, com o trumpetista de Coleman, Don Cherry.

Os títulos dos álbuns de Coleman eram bombásticos; tinham apelo e, de algum modo, anunciavam ao que vinham: Tomorrow Is the Question, The Shape of Jazz to Come, Change of the Century, os três lançados em 1959, e Free Jazz, em 1960. Nesse, “arregaçou”: juntou dois quartetos, um em cada canal do estéreo tocando temas diferentes. Coleman foi radicalizando; passou a tocar trumpete e violino também. Juntou-se a “tribos estranhas” (músicos de rock – do Grateful Dead – e do funk) e com os marroquinos da Master Musicians of Jajouka. Na faixa que abre Dancing in Your Head – Theme from a Symphony –, repete indefinidamente o mesmo motivo por uns vinte minutos, com duas guitarras, um baixo e uma bateria, e é claro, o som de seu saxofone alto. A faixa com os marroquinos é uma coisa muito estranha: um “mexido” de instrumentos de sopro e percussão, com Ornette improvisando em cima. É uma coisa frenética, quase tanto quanto a primeira faixa.

Em 2006, ganhou o prêmio Pulitzer de Música. Sinal de que seus detratores erraram em suas avaliações. Leonard Bernstein estava certo.

Lonely Woman está no álbum The Shape of Jazz to Come (Atlantic, 1959). É um dos standards do jazz. Quem mais gravou foi, justamente, Charlie Haden, baixista por muito tempo de Coleman: Etudes (Soul Note, 1988), com Paul Motian e a pianista Geri Allen, The Montreal Tapes (Verve, 1989), com Paul Motian e Gonzalo Rubalcaba, e também, com o quarteto Old & New Dreams (Haden, Dewey Redman, Don Cherry e Ed Blackwell). Esta é uma das mais belas “mulheres solitárias”, na minha opinião. É a que você ouve a seguir.




Além de Haden, há várias gravações no piano: Oliver Jones e Hank Jones (Pleased to Meet You), Denny Zeitlin (Live at The Trident), Stephen Scott (The Beautiful Thing); com saxofone (Gary Bartz e Sonny Fortune, em Alto Memories), e guitarristas (Andy Summers, em The Last Dance of Mr. X, e com James Blood Ulmer, em Music Speaks Louder Than Words). Existe uma interpretação excepcional do Modern Jazz Quartet, disponibilizado adiante para audição. Das mais recentes, destaca-se o duo no piano de Brad Mehldau e Kevin Hays, em Modern Music (ouça e leia sobre, em “Brad Mehldau e Kevin Hays ao piano”)

Uma bela música como essa, naturalmente, entraria no repertório dos cantores. A letra, de Margo Guryan, é de 1960. Foi cantada por Helen Merrill (Shade of Difference, 1968) e há uma interpretação bem interessante dos brasileiros do Nouvelle Cuisine. Apesar de certos maneirismos vocais, Carlos Fernando é um grande intérprete.




Um detalhe importante: o Lonely Woman de Ornette Coleman não é a única com esse nome. Um dos homônimos é a de Horace Silver  – existe uma boa gravação com Dee Dee Bridgewater em Love and Peace (1995), e outra, com Pat Metheny, em Rejoicing (1984). O segundo com o mesmo nome é de Benny Carter e Ray Sonin. Conheço apenas na interpretação de June Christy e Stan Kenton ao piano.


O Lonely Woman original.




Ouça Lonely Woman na bela interpretação do Modern Jazz Quartet.


terça-feira, 20 de março de 2012

Benny Golson. Grande compositor

Benny Golson
De uma imagem que ficou célebre, publicada na revista Esquire, ficou faltando apenas o autógrafo de um dentre todos os que foram até o Harlem naquela manhã de 12 de agosto de 1958 para serem fotografados por Art Kane. Viktor Navorski pegou um avião com destino a Nova York com o intuito de consegui-lo e assim “completar” a coleção de seu pai.

Enquanto está voando, acontece um golpe de estado no país onde nasceu. As relações entre a Krakhozhia e os EUA estão rompidas e Viktor fica impedido de entrar no país. Resultado: fica morando por nove meses numa ala em construção do Aeroporto Internacional John F. Kennedy, de Nova York.

Nesse período, torna-se amigo dos funcionários do aeroporto, namora uma comissária de bordo, com quem se encontra nas suas idas e vindas e é “perseguido” inclementemente pelo chefe da segurança, um narigudo careca pentelho, para usarmos o termo mais correto. Monoglota, só falando “krakhozhiano”, aos poucos, vai assimilando a língua inglesa, por meio das conversas com os “amigos do aeroporto” e vendo televisão.

Bom, você já viu esse filme, não? Até no Brasil acontece disso. Não vou me lembrar do lugar em que ocorreu, mas já li nos jornais sobre um africano que passou uns tempos morando no aeroporto, porque não tinha bilhete de volta ou dinheiro para comprá-lo. O mesmo, me parece, aconteceu com um português. Aconteceram em aeroportos nordestinos, do Ceará ou de Pernambuco, onde há um grande fluxo de turistas europeus. E parece que existe a história de alguém de origem árabe que, na década de 1980 ou 90, teve seus documentos furtados e vive até hoje no Aeroporto Charles DeGaulle. Histórias como essa dariam um filme mesmo.

Certamente Steven Spielberg não deve ter tido notícias de passageiros impedidos de embarcarem ou desembarcarem em terras brasileiras, mas, inspirado em algumas dessas histórias, floreseceu o argumento para O Terminal (2004). Acertou quem pensou nesse filme durante a leitura dos parágrafos iniciais.

Sobre a célebre foto foi feito até um documentário: A Great Day in Harlem. Art Kane conseguiu reunir 57 músicos (veja as foto com a lista de todos) num dia de verão em Nova York. Quem viu o filme sabe que estou falando do saxofonista e compositor Benny Golson.

Golson estava na Europa quando ficou sabendo que Steven Spielberg tinha deixado uma mensagem no aparelho de seu agente: “Será que Benny Golson gostaria de participar do meu novo filme fazendo uma ponta com Tom Hanks?” É claro que aceitou. Pensou, de início, que era uma brincadeira, mas viu que o convite era a sério.

A propósito de estar na foto, Golson comentou que era muito jovem quando foi convidado. “Até tinha cabelo naquele tempo”, ralhou. Quando chegou lá, olhou em volta e não acreditou: “O que é que estou fazendo aqui? Monk, Basie, Art Blakey, Chubby Jackson! Por que estou aqui? Mas lá estava eu.”

Falha minha. Conheço pouco Golson como instrumentista, mas o admiro por duas composições que considero excepcionais: Killer Joe e I Remember Clifford. De cara, digo quais são as interpretações favoritas: a Killer Joe, com o Manhattan Transfer é matadora (veja abaixo a disponível no YouTube e em DVD); a melhor I Remember Clifford é a do disco A Tribute to Cannonball, de Don Byas e Bud Powell (Columbia, 1961). Desta última, tenho 28 interpretações diferentes em CD – a única com seu compositor é em Benny Golson and The Philadelphians (Blue Note 1958).

I Remember Clifford foi composta em homenagem ao genial trumpetista Clifford Brown (leia http://bit.ly/GzL290), morto precocemente pouco antes de fazer 26 anos. Golson e ele haviam tocado juntos na banda de Lionel Hampton por um tempo muito breve. Brown morreu em junho de 1956; I Remember Clifford é a oitava faixa de Benny Golson and The Philadelphians e foi gravada no dia 12 de dezembro de 1958. Foi um sucesso instantâneo: é uma daquelas baladas de dilacerar os corações. Até por isso, outra boa interpretação, além da citada, com o saxofonista Don Byas e o pianista Bud Powell, é a do Modern Jazz Quartet; sempre fez parte do setlist do MJQ; funciona muito bem com o piano de John Lewis e o vibrafone de Milt Jackson. Não posso deixar de citar também a de Stan Getz e Kenny Barron em People Time (Verve, 1992).

A composição de Golson recebeu letras de Jon Hendricks – o título ficou Oh Yes, I Remember Clifford. A primeira gravação, salvo engano, é de 1957, de Carmen McRae, com arranjo de Fred Katz. É muito boa, tanto quanto a de Helen Merrill, em Brownie (Gitanes, 1994). Das versões masculinas, a minha preferida é a de Mark Murphy, em The Artistry of Mark Murphy (Muse, 1982).

Ouça I Remember Clifford, com Byas e Powell.




Killer Joe, com Manhattan Transfer, que foi registrada em DVD.



Killer Joe em apresentação do Manhattan Transfer, em 2006.



Killer Joe com o próprio.



A famosa foto de Art Kane.




A lista: 01 - Hilton Jefferson, 02 - Benny Golson, 03 - Art Farmer, 04 - Wilbur Ware, 05 - Art Blakey, 06 - Chubby Jackson, 07 - Johnny Griffin, 08 - Dickie Wells, 09 - Buck Clayton, 10 - Taft Jordan, 11 - Zutty Singleton, 12 - Red Allen, 13 - Tyree Glenn, 14 - Miff Molo, 15 - Sonny Greer, 16 - Jay C. Higginbotham, 17 - Jimmy Jones, 18 - Charles Mingus, 19 - Jo Jones, 20 - Gene Krupa, 21 - Max Kaminsky, 22 - George Wettling, 23 - Bud Freeman, 24 - Pee Wee Russell, 25 - Ernie Wilkins, 26 - Buster Bailey, 27 - Osie Johnson, 28 - Gigi Gryce, 29 - Hank Jones, 30 - Eddie Locke, 31 - Horace Silver, 32 - Luckey Roberts, 33 - Maxine Sullivan, 34 - Jimmy Rushing, 35 - Joe Thomas, 36 - Scoville Browne, 37 - Stuff Smith, 38 - Bill Crump, 39 - Coleman Hawkins, 40 - Rudy Powell, 41 - Oscar Pettiford, 42 - Sahib Shihab, 43 - Marian McPartland, 44 - Sonny Rollins, 45 - Lawrence Brown, 46 - Mary Lou Williams, 47 - Emmett Berry, 48 - Thelonious Monk, 49 - Vic Dickenson, 50 - Milt Hinton, 51 - Lester Young, 52 - Rex Stewart, 53 - J.C. Heard, 54 - Gerry Mulligan, 55 - Roy Eldgridge, 56 - Dizzy Gillespie, 57 - Count Basie.
Obs.: não verifiquei direito se a lista está correta; puxei a lista da Wikipedia. De “prima”, corrigi o nome de Monk, sem o “o” em Thelonious.