Um dos belos momentos que presenciei foi quando Ornette Coleman começou a tocar Lonely Woman às escuras, sem amplificação, em um teatro com quase mil pessoas. Houve uma súbita interrupção de luz no Teatro Sesc-Pinheiros. Foi coisa de uns quinze minutos, creio. (sobre a apresentação, leia “A luz de Ornette Coleman”)
Lonely Woman é O clássico de Ornette Coleman, com “o” maiúsculo, como se dizia antigamente. É a mais conhecida desse saxofonista alto, célebre por ser considerado um dos inventores do que é conhecido como “free jazz”. Teve um início de carreira atribulado, com vários críticos musicais detratando sua capacidade como instrumentista.
O que é novo assusta, e Ornette era uma novidade, considerado por alguns, um iconoclasta. E, ousando mais, de vez em quando, “empunhava” um saxofone de plástico branco. Bem, Charlie Parker também andou tocando em saxes de plástico, portanto, não era por aí que a coisa estava “pegando”. Mas o som de Ornette era meio áspero, nervoso e anguloso, bem diferente do bebop e hardbop, estilos em voga. Mesmo assim, não se pode dizer que os caminhos para a propagação de sua música tenham sido dificultados. Nunca gravou por selos obscuros e, apesar de alguns companheiros o acharem um tanto desafinado, o maestro e compositor Leonard Bernstein o considerava um gênio. Em 1958, lançou Something Else!!! The Music of Ornette Coleman pelo selo Contemporary. Tem um primeiro clássico lá: The Sphinx.
Logo mais assinou com a Atlantic Records, a mesma que havia acabado de contratar John Coltrane. Este, em pouco mais de dois anos gravou Giant Steps, Coltrane Jazz, My Favorite Things, Coltrane’s Sound, Plays the Blues e Olé Coltrane, além de The Avant-Garde, com o trumpetista de Coleman, Don Cherry.
Os títulos dos álbuns de Coleman eram bombásticos; tinham apelo e, de algum modo, anunciavam ao que vinham: Tomorrow Is the Question, The Shape of Jazz to Come, Change of the Century, os três lançados em 1959, e Free Jazz, em 1960. Nesse, “arregaçou”: juntou dois quartetos, um em cada canal do estéreo tocando temas diferentes. Coleman foi radicalizando; passou a tocar trumpete e violino também. Juntou-se a “tribos estranhas” (músicos de rock – do Grateful Dead – e do funk) e com os marroquinos da Master Musicians of Jajouka. Na faixa que abre Dancing in Your Head – Theme from a Symphony –, repete indefinidamente o mesmo motivo por uns vinte minutos, com duas guitarras, um baixo e uma bateria, e é claro, o som de seu saxofone alto. A faixa com os marroquinos é uma coisa muito estranha: um “mexido” de instrumentos de sopro e percussão, com Ornette improvisando em cima. É uma coisa frenética, quase tanto quanto a primeira faixa.
Em 2006, ganhou o prêmio Pulitzer de Música. Sinal de que seus detratores erraram em suas avaliações. Leonard Bernstein estava certo.
Lonely Woman está no álbum The Shape of Jazz to Come (Atlantic, 1959). É um dos standards do jazz. Quem mais gravou foi, justamente, Charlie Haden, baixista por muito tempo de Coleman: Etudes (Soul Note, 1988), com Paul Motian e a pianista Geri Allen, The Montreal Tapes (Verve, 1989), com Paul Motian e Gonzalo Rubalcaba, e também, com o quarteto Old & New Dreams (Haden, Dewey Redman, Don Cherry e Ed Blackwell). Esta é uma das mais belas “mulheres solitárias”, na minha opinião. É a que você ouve a seguir.
Além de Haden, há várias gravações no piano: Oliver Jones e Hank Jones (Pleased to Meet You), Denny Zeitlin (Live at The Trident), Stephen Scott (The Beautiful Thing); com saxofone (Gary Bartz e Sonny Fortune, em Alto Memories), e guitarristas (Andy Summers, em The Last Dance of Mr. X, e com James Blood Ulmer, em Music Speaks Louder Than Words). Existe uma interpretação excepcional do Modern Jazz Quartet, disponibilizado adiante para audição. Das mais recentes, destaca-se o duo no piano de Brad Mehldau e Kevin Hays, em Modern Music (ouça e leia sobre, em “Brad Mehldau e Kevin Hays ao piano”)
Uma bela música como essa, naturalmente, entraria no repertório dos cantores. A letra, de Margo Guryan, é de 1960. Foi cantada por Helen Merrill (Shade of Difference, 1968) e há uma interpretação bem interessante dos brasileiros do Nouvelle Cuisine. Apesar de certos maneirismos vocais, Carlos Fernando é um grande intérprete.
Um detalhe importante: o Lonely Woman de Ornette Coleman não é a única com esse nome. Um dos homônimos é a de Horace Silver – existe uma boa gravação com Dee Dee Bridgewater em Love and Peace (1995), e outra, com Pat Metheny, em Rejoicing (1984). O segundo com o mesmo nome é de Benny Carter e Ray Sonin. Conheço apenas na interpretação de June Christy e Stan Kenton ao piano.
O Lonely Woman original.
Ouça Lonely Woman na bela interpretação do Modern Jazz Quartet.



