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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O som único do contrabaixo de Eberhard Weber

Weber e seu contrabaixo diferente
Filho de professor de música, Eberhard Weber entrou cedo no Conservatório. Teve sólida formação teórica. Tocando contrabaixo, percebeu que seria mais um em alguma orquestra alemã. Disse em certa feita que “queria ser um virtuose, mas talvez eu não fosse bom o suficiente.”

Weber, como um baixista de formação clássica, nunca pensou-se como alguém na tradição de Ray Brown, Scott LaFaro ou Niels-Henning Ørsted Pedersen. Procurava por uma sonoridade diferente. Não lhe apetecia tocar baixo Fender, como foi o que fez Steve Swallow, depois de ter começado no acústico.

O alemão procurou um luthier que fazia violinos e desenvolveu um contrabaixo elétrico, meio nos moldes do tradicional. O que deveria ser o corpo do contrabaixo, tomou forma de um losango alongado, manteve o espigão e a voluta, e adicionou uma corda. Enfim, criou um híbrido entre o acústico e o elétrico, e assim, uma nova sonoridade, inconfundível, que tornou-se sua marca. Alguns que não o conhecem devem tê-lo ouvido em discos da inglesa Kate Bush.

Ouça o contrabaixo de Weber em Mother Stands for Comfort, de Bush.




O primeiro álbum
Levando em paralelo à música, por alguns anos trabalhou em teatro e televisão. Em 1973, lançou The Colours of Chloë, seu primeiro, e celebrado pela crítica. O crítico Paul Olson classifica-o como “a near-perfect album.”

Montou uma banda com Rainer Brüninghaus nos teclados, Charlie Mariano no sax alto, soprano e flauta shenai, e Jon Christensen na bateria. Com essa formação, gravou o que considero o seu melhor álbum: Yellow Fields. Mariano, que começou lá atrás, em meados dos 1950, estava em uma fase em que se aproximara de sons orientais, e aqui, estava na ponta dos cascos.

Em Touch, música que abre Yellow Fields (1975), serve bem como amostra do som do contrabaixo diferente. Ouça. Tudo é perfeito, o soundscape de Brüninghaus, o soprano de Mariano e a bateria discreta de Christensen.




Ouça também Sand Glass.




Lançou mais de uma dezena de álbuns, todos muito bons pela ECM e participou de vários com outras estrelas da gravadora. O som de seu contrabaixo elétrico deixou a sua marca em discos de Gary Burton, Jan Garbarek, Pat Metheny e Ralph Towner.

Ouça Oceanus, de Ralph Towner. Essa canção está em Solstice (ECM, 1975).




Ouça Unfinished Sympathy, do álbum Ring (ECM, 1977). É um dos melhores de Gary Burton, com uma formação de sonhos: Pat Metheny e Mick Goodrick nas guitarras, Gary no vibrafone, Weber e Steve Swallow, este, no baixo elétrico, e Bob Moses na bateria.




Veja Jan Garbarek e Weber em Trollsyn, em apresentação de 2006.




Acidentes acontecem
Em comemoração aos 65 anos, em 2005, Weber fez uma apresentação com a Sttutgard Radio Symphony Orchestra, acompanhado de alguns músicos que sempre tocaram com ele, como Rainer Brüninghaus, Gary Burton e Jan Garbarek. Dela foi lançado o CD Stages of a Long Journey (ECM, 2007). O melhor de Weber está aqui, em versões orquestrais.

O título, com a supressão de um pedaço, é o nome de uma das composições do show: The Last Stages of a Long Journey. O “last” era premonitório. O contrabaixista teve um derrame sério o suficiente para impossibilitá-lo de tocar para sempre, mas não o de continuar a produzir música.

Nas inúmeras vezes em que tocou com a banda de Jan Garbarek, Weber costumava fazer um interlúdio, solos que serviam de início aos temas. Vários deles foram retrabalhados em estúdio com o acréscimo de teclados eletrônicos, da bateria e percussão de Michael DiPasqua e do saxofone e flauta de Jan Garbarek, e o resultado foi Resumé (ECM, 2012).

Veja Weber e Rainer Brüninghaus executando Heidenheim. Não é a versão que está em Resumé.




Depois de Resumé, em 2015, seguindo o mesmo procedimento, foi lançado Encore. Mas o que é de primeira, é a reunião de vários músicos da ECM e alguns não em Hommage a Eberhard Weber, que saiu no mesmo ano. Com Pat Metheny, Jan Garbarek, Gary Burton, Scott Colley, Danny Gottlieb, Paul McCandless, Michael Gibbs e Helge Sund com a SWR Big Band. Eberhard Weber, em sua modéstia, disse uma vez que “talvez ele fosse bom em esconder as suas falhas.” Se for isso, escondeu bem. É um contrabaixista no nível dos melhores da história do jazz.

Veja a apresentação de Tübingen.




Veja o EPK do álbum.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Uma relação de amor e ódio com o sax soprano

Joe Farrell no sax soprano
Qual é o seu tipo de saxofone preferido? O seu não sei, mas o meu é o tenor. Por ordem de preferência, vem o barítono, o soprano, e, por último, o alto, apesar de Charlie Parker. Acho que poucos instrumentos expressam o sentimento de quem o toca. O som de Coleman Hawkins é diferente do de Ben Webster, assim como o de Lester Young é do de Dexter Gordon. Com as exceções de Parker, Lee Konitz, Phil Woods, e mais alguns poucos, tendo a achar o som do alto um tanto chato, quem sabe, por culpa da minha aversão por músicos como Dave Sanborn e seus imitadores.

Meu gosto pelo barítono está quase pareado com o tenor. Acho fenomenal o som de John Surman (meu primeiro na lista), Gerry Mulligan, Pepper Adams, James Carter e Ronnie Cuber. Quanto ao soprano, que gostava tanto, com o passar do tempo, deixou de estar entre os preferidos. O Carlos Conde odiava e eu não via a razão. Mas, quem sabe, com a idade, é isso o que acontece. Uma certa estridência do soprano passa a incomodar mais. E hoje, nem tão fã de Wayne Shorter sou mais. Mas, para relembrar do tempo em que gostava muito, disponibilizo alguns números que me deram muito prazer.

Devo ter passado a gostar do saxofone soprano quando ouvi Wayne Shorter tocando no Weather Report. Como filho de uma geração que cresceu no período em que King Crimson, Yes, Van der Graaf Generator, Jethro Tull e Emerson, Lake & Palmer eram as bandas da moda, meu gosto tendia a uma música pretensamente menos “burra” que o rock’n’roll. Não que não gostasse da música dos Beatles ou dos Rolling Stones, mas na típica arrogância de adolescente, o tal do rock progressivo era mais “intelectualizado”, mais elaborado e incorporava alguma coisa da música erudita. Vendo-se hoje, fica claro que era uma ideia tremendamente idiota. As letras das canções de Keith Emerson e Greg Lake estavam no mesmo nível dos “I love you”, “I miss my babe” de tantas bandas de rock ou dos lamentos dos cantores de blues.

Dentro desse processo “evolutivo”, fui “melhorando”, um pouco graças a nova amiga, que conheci no cursinho. A Lu, melhor de grana do que eu, podia viajar para fora e trazer LPs importados, algo impensável para um rapaz da classe média bem média, talvez um pouco melhor do que a tal classe média que o Partido dos Trabalhadores tanto apregoa ter criado. Não sei se ela foi com a minha cara, mas o certo é que ela passou a emprestar-me discos do Soft Machine, uma banda inglesa que tinha dentre seus membros um sujeito chamado Robert Wyatt, cara intelectualizado, cuja família era amiga do poeta Robert Graves, e de uma banda chamada Weather Report. Esses LPs, realmente, fizeram coisas na minha cabeça. Por meio destes, passei a interessar-me pela música instrumental, rotulada então como jazz rock ou jazz progressivo.

O primeiro do Weather Report que ouvi foi Mysterious Traveller. Perdi a conta do número de vezes que ouvi esse LP, mas posso assegurar que passou de uma centena. A canção que mais me chamou a atenção foi Blackthorne Rose. Não que fosse a melhor, mas pelo saxofone soprano de Shorter.

Ouça Blackthorn Rose.




As coisas se encadeiam de um modo natural. De Wayne Shorter e Joe Zawinul a Miles Davis, de Miles a Chick Corea, de Chick a Herbie Hancock, de Miles a John Coltrane, de Coltrane a Duke Ellington – por meio do belíssimo Duke Ellington & John Coltrane (Impulse, 1963) – meu gosto pela música foi andando “para trás”, e sem que me desse conta, tinha virado fã de Ben Webster, Coleman Hawkins, Charlie Parker, Duke Ellington e Charles Mingus.

Depois de conhecer o álbum de Ellington e Coltrane, a mais bela canção do mundo, na minha opinião, passou a ser In a Sentimental Mood. Passei, obsessivamente, a comprar LPs dos dois. Em Live at the Village Vanguard (Impulse, 1963), a única faixa do lado B é Chasin’ the Trane. Coltrane toca os 16 minutos e pouco, sem interrupção, seu saxofone tenor. Fiquei fã de carteirinha. Fui comprando tudo o que encontrava de Coltrane. Descobri o sax soprano de Coltrane em My Favorite Things (Atlantic, 1961).

Ouça a música em apresentação do quarteto, na Bélgica, em 1965.




Nesse meio tempo, em minhas expedições musicais, conheci Jan Garbarek, inicialmente, por algum disco com Keith Jarrett, provavelmente, Belonging (ECM 1974). Fiquei fã do norueguês. Tocava um sax soprano curvo. Depois, enjoei. Peguei bronca. Passei a achar seu sopro um tanto estridente.

Ouça The Wind Up, do álbum Belonging.





Mas quando eu penso no solo mais bonito de sax soprano que eu conheço, acho que é o de Joe Farrell, em Crystal Silence. O mesmo acho para o piano elétrico. É um dos mais belos, com Chick Corea. Confira. Farrell sumiu, mas era bom n soprano, tenor e na flauta.



terça-feira, 7 de outubro de 2014

Dois momentos do guitarrista Terje Rypdal

Terje Rypdal, hoje
Com o surgimento da gravadora ECM passamos a conhecer melhor a música instrumental europeia feita em países mais conhecidos por outros produtos como pescados e laticínios. Além da França e da Inglaterra, com maior tradição no jazz, clubes e pequenas gravadoras se espalhavam em países como Holanda, Espanha, Alemanha e Dinamarca. Uma das melhores casas de jazz ficava exatamente na capital desse país. No Cafe Montmartre, que alguns desavidos acham (ou achavam) que ficava em Paris, passou a nata do jazz. Dexter Gordon, Mal Waldron, Ben Webster, Bud Powell, Cecil Taylor, Stan Getz e Kenny Drew passaram longas temporadas ou moraram na Europa e sentiam-se em casa nessa casa. Essa “debandada” americana, em parte, aconteceu porque muitos deles haviam perdido suas licenças para tocarem em bares e teatros por terem sido presos por porte ou consumo de drogas ilícitas. Na Europa foram recebidos de braços abertos e o fato da maioria ser negra não fazia diferença.

Em alguma hora Stan Getz, Don Cherry e Bebo Valdés estavam morando na Escandinávia. Parecia incomum. Mulheres podem ser um bom motivo, não? Getz casou-se com uma sueca. Don Cherry também amarrou o burro em Estocolmo, casando-se com Mona Karlsson. Sua enteada Neneh adotou seu nome e não o do pai Ahmadu Jah como nome artístico. Bebo era um pianista consagrado e preferiu sair de Cuba após a queda de Fulgencio Batista. Passou pelos EUA, Alemanha e fixou-se também em Estocolmo.

Ao norte da Dinamarca e a oeste da Suécia, fica a Noruega, país de nascimento de Terje Rypdal, Jan Garbarek e Arild Andersen. A ECM é responsável por apresentar esses fabulosos músicos ao mundo. Abriram caminho para uma nova geração composta por Nils Peter Molvær, Tord Gustavsen, Mathias Eick e Bugge Wesseltoft. Dos três, Garbarek é o mais conhecido por ter feito parte do quarteto europeu de Keith Jarrett. Terje já havia tocado com Jan e Arild. O guitarrista e o baixista lançam seus discos até hoje, pela ECM.

O primeiro álbum de Terje Rypdal que ouvi foi Whenever I Seem to Be Far Away (ECM, 1974). Passara a conhecer os discos da ECM graças ao Robert, colega de FAU, duas turmas acima. Sua mãe morava no Japão, empregada da extinta Varig, e ele a visitava uma vez por ano. Era quando trazia dezenas de novidades impensáveis e impossíveis a nós brasileiros. Sua generosidade em emprestar-me todos eles para que eu pudesse gravar, apesar dos ciúmes por seus “filhotes”, sabendo que cuidava muito bem deles. Foi assim que conheci os melhores discos dessa gravadora antes que alguns fossem lançados aqui.

O álbum de Rypdal fugia de qualquer possível classificação. Não era jazz, não era rock, não era música erudita. Era uma mistura dos três gêneros. Tinha a energia do rock e a música título – Whenever I Seem to Be Far Away – era uma peça longa que ocupava o lado B inteiro do LP, que poderia ser melhor classificada como um concerto para guitarra e orquestra. A atmosfera, às vezes, aterradora e tensa, na minha fantasia, relacionava-se com alguma paisagem norueguesa.

Esse LP nunca foi lançado no Brasil, mas o dele com o baixista Miroslav Vitous e o baterista Jack DeJohnette, sim. Para a maioria dos ouvintes, esse álbum servia de um belo cartão de apresentação da arte de Rypdal, por conter peças mais breves. Até hoje, ouço com prazer. Está entre as melhores coisas dele.

Ouça If Mountains Could Sing, deste álbum.




Ouça outra faixa: Sunrise.



Mais uma: Seasons. Grande música. A guitarra de Rypdal é fenomenal.




Rypdal descoberto. Há pouco tempo “descobri” um disco de Terje Rypdal. Bleak House é de 1968. Seu primeiro no selo em que grava até hoje é de 1971. Mais de 30 anos depois, surpreendentemente, soa moderno. A primeira surpresa surge já na primeira faixa. O início de Dead Man’s Tale nos transporta a uma outra época, a de quando fora gravada. Com guitarra e órgão, apresenta-nos algo raro: vocais, e dele. Não faz feio. Wes, é a próxima. Aqui, é a linguagem do jazz. Inspirado em um dos grandes guitarristas – Wes Montgomery –, é uma peça mais longa e elaborada. A formação guitarra-baixo-bateria se faz acompanhar por uma seção de sopros, que acompanham a evolução do tema capitaneado por Rypdal. É um destaque.

Ouça a jazzística Wes.



Os antigos LPs comportavam 45 minutos de música, no máximo, os CDs, até 75 minutos, uma diferença relevante. Até hoje acho 45 a 50 minutos a duração para um álbum. É um tempo “confortável” para se ouvir um mesmo autor. Bleak House é desse tempo ainda e tem menos de 40. Sendo seu segundo como líder, surpreende pela qualidade dos arranjos.

Como prova, ouça a música título, Bleak House. Para a gravação desse LP, contou com dois trombones, dois trumpetes, tuba, saxofones e cornes. Confira.



Ouça o LP inteiro aqui. A primeira e a última conta com vocais de Rypdal.






quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A “Carta de amor” de Gismonti

Gismonti, Haden e Garbarek (Ralph Quinke/ECM)
Quem é fã de Egberto Gismonti vai comprar o álbum duplo Carta de Amor, lançado pela gravadora internacional do brasileiro, a ECM. São registros de uma apresentação no Americanhaus, em Munique, acontecidas em abril de 1981. A Borandá tem distribuído alguns bons CDs da ECM, poucos, é certo. Os CDs físicos são importados e o encarte e o box são produzidos aqui mesmo. Sai um pouco mais barato. Por este álbum duplo paguei 69 reais. Com a facilidade de se baixar de graça, sai caro. Tenho minhas dúvidas se deveria ter esperado um pouco e deixar de gastar meu precioso dinheirinho. Vi, em pelo menos dois sites, disponível para ser baixado em mp3 “de grátis”, como dizem por aí.

A ECM deve ter montes de registros guardados como esse, e agora, resolveu lançá-los. Tem cheiro de estratégia “caça-níquel”. Pouco tempo atrás, lançou Sleeper, com o quarteto europeu de Keith Jarrett. Um músico que está nos dois discos é Jan Garbarek, saxofonista norueguês. (sobre Sleeper, leia http://bit.ly/RV0JOn)

Quem conhece razoavelmente os discos da ECM, sabe que Manfred Eicher gosta de unir seu cast em formações eventuais. Em uma delas, juntou Gismonti, Charlie Haden e Jan Garbarek. O brasileiro tem cartaz com o alemão. Além de continuar a gravar com total liberdade, conseguiu lançar por lá vários títulos que haviam saído pela EMI-Odeon brasileira e outros de seu selo Carmo.

Mágico e Folk Songs foram os discos lançados pelo trio. Ambos foram gravados em 1979, o primeiro em junho, e o outro, em novembro. Quem tem os dois não vai se decepcionar com o álbum ao vivo, pois algumas são inéditas. De Gismonti são Carta de Amor, Dom Quixote e Branquinho. A “inédita” de Haden é La Pasionaria, composição que saiu no genial The Ballad of the Fallen (1976), homenagem à Dolores Ibarruri, figura legendária da Guerra Civil Espanhola. Haden sempre esteve engajado politicamente com a esquerda e procurou levar isso à sua música. Não sei até onde funciona efetivamente como instrumento de luta, mas, pelo menos, musicalmente, deu certo com a sua banda em parceria com Carla Bley, a Liberation Music Orchestra. A outra de Haden é All That Is Beautiful.

Após Two Folk Songs, de Jan Garbarek, em meio aos aplausos, ouve-se um espectador dar um grito. Catarse… por estar vivendo aquele instante único. Fico a pensar acerca do grito. Depois de ouvir uma composição do “gélido” norueguês? Emoções são muito particulares e peculiares. Não vi algum motivo para esse “orgasmo musical”.

Juntando a “temperatura” de Jan com a de Gismonti (alta), o resultado final em Carta de Amor é morno. Garbarek tornou-se conhecido por um público maior quando se tornou membro da banda de Keith Jarrett, mas já era da ECM desde 1969, quando a gravadora tinha sido criada.

Na mesma época em que fez parte do quarteto de Jarrett, gravara dois discos superiores, na minha opinião, com o pianista Bobo Stenson, Palle Danielsson (baixo) e Jon Christensen (bateria): Witchi-Tai-To (1973) e Dansere (1975).

Se considerarmos a música de improviso como jazz, aí sim, Garbarek é do ramo. Mas não é assim. Por seus registros posteriores, percebe-se que seus interesses musicais são bem mais amplos. Enveredou pela música erudita com o Hilliard Ensemble, fez releituras do canto gregoriano e o que chamam por aí de world music. Seu disco Ragas and Sagas (1992) é dividido com Ustad Fateh Khan e outros músicos paquistaneses. Twelve Moons – a segunda faixa, Psalm, cantada por Agnes Buen Garnås, é maravilhosa – explora o folclore escandinavo. Por essas e outras gravações, muitos o classificam como um representante da world music e até, erroneamente, da música new age. Os dois citados e Dansere, com o trio de Bobo Stenson, são muito bons e demonstrativos da versatilidade do norueguês.

Depois de ter falado tão bem de Garbarek, vou falar mal. Enjoei do sopro estridente de seu sax, principalmente no soprano. Ouvindo Carta de Amor, percebo que seus discos gravados com ele e Charlie Haden não se incluem entre os melhores de sua discografia. Minha opinião, certo? Agora, os registros existentes de Gismonti com o baixista (In Montreal, ECM, 2001), em 1989, são pra lá de bons. É uma perfeita combinação. Haden é cool e, com Gismonti, atingem a temperatura ideal. Até que não seria má ideia comentar sobre esse disco posteriormente.

Bom, posso considerá-lo médio, mas não quer dizer que seja ruim, por favor. Ouça a música-título.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

“Sleeper”, a apresentação perdida de Keith Jarrett com seu quarteto europeu

Jarrett e seu quarteto europeu. Jan Garbarek é o da esquerda
Keith Jarrett tinha um quarteto “americano” com Dewey Redman no sax tenor, Charlie Haden no contrabaixo e Paul Motian na bateria, com o acréscimo eventual de um percussionista. Era um brasileiro chamado Guilherme Franco. Os percussionistas brasileiros passaram a se destacar depois que Airto Moreira, do Quarteto Novo, emigrou e se destacou tocando com Miles Davis, Chick Corea e o Weather Report. Franco foi muito requisitado pelos estúdios principalmente e, além de ter tocado com Jarrett, participou de alguns discos de McCoy Tyner e David Byrne. Não há nada na internet que explique o súbito “desaparecimento” de Guilherme Franco, mas, se não me engano, envolveu-se em um furto, e daí para frente, o mundo deixou de ser róseo para ele.

Jarrett formou um quarteto na Europa e gravou um disco chamado Belonging (ECM 1974), com o saxofonista Jan Garbarek, o baixista Palle Danielsson e o baterista Jon Christensen. Antes do sucesso estrondoso do solo Köln Concert (leia em http://conteudodalata.blogspot.com.br/2010/09/dalva-herivelto-e-keith-jarrett.html), Quando começou a gravar pela alemã ECM já era bem conhecido. Participara das bandas de Charles Lloyd e de Miles Davis. Os discos lançados pela Columbia Records, Impulse e Atlantic, entre 1967 e 1976, sem exceções, são muito bons. O primeiro álbum de Jarrett pela ECM é um duo com o baterista e percussionista Jack DeJohnette, que, mais tarde, se tornaria membro efetivo de seu trio, junto com Gary Peacock. Ruta and Daitya (ECM, 1971), salvo engano, é seu último disco em que toca algum instrumento eletrônico. Antes de Wynton Marsalis ter se lançado como guardião do som acústico, o pianista já havia optado por isso. Não precisava ser eletrônico pois o som que tirava do piano era eletricidade pura.

Jan Garbarek não é Dewey Redman e Redman não é Jan. Apesar de o pianista ser o mesmo, os quartetos são bem diferentes entre si. Jarrett gravou Belonging em 1974 pela ECM Records. Lembro que os mais antenados logo “descobriram” o disco. Não era para qualquer antenado, pois discos importados eram bem caros e nem tudo vinha para cá. Às vezes, era preciso encomendar e esperar dois meses até chegar. Vida difícil; e revistas importadas vindas por via aérea eram caríssimas. A internet mudou tudo isso: democratizou a informação mas, surpreendentemente, não deixou as pessoas mais inteligentes.

Conheço ferrenhos inimigos do sax soprano, mas a juventude que gostava de jazz na década de 1970 era fã de Wayne Shorter no Weather Report; e Shorter era fã do Brasil: sua mulher era brasileira e adorava Milton Nascimento. E muitos tinham Shorter como referência para gostarem do som do sax soprano. Um tempo depois, fazendo caminho inverso, fui ouvir My Favorite Things, de John Coltrane. Por distorções naturais (fomos criados ouvindo Beatles, Rolling Stones e Led Zeppelin), a maioria dos da minha geração que passou a gostar de jazz começou ouvindo os sons eletrônicos de Chick Corea, Miles Davis e Herbie Hancock e depois descobriram Duke Ellington, Bill Evans e John Coltrane.

O gosto pelo som do soprano, naturalmente, me fez passar a prestar atenção em Jan Garbarek a partir de Belonging. Dois álbuns gravados nessa época, com Palle Danielsson, Jon Christensen e Bobo Stenson no lugar do americano – Dansere e Witchi-Tai-To –, são superiores aos de sua parceria com Jarrett.

O norueguês gravou dezenas de discos pela ECM. Explorou sons orientais e nórdicos, com Fateh Ali Khan, Anouar Brahem, Zakir Hussain, L. Shankar e com a cantora folclórica conterrânea Agnes Buen Garnås. Em discos mais vinculados à música erudita teve como parceiros a Hilliard Ensemble, Kim Kashkashian e David Darling. É um músico importante, goste-se ou não dele.

Mais de trinta anos depois do último lançamento do quarteto europeu de Jarrett, a ECM lança Sleeper, álbum duplo com uma apresentação em Tokyo’s Nakano Sun Plaza, de abril de 1979. Com a exceção de uma, a do bis, todas as faixas têm mais que dez minutos, sendo duas com mais de vinte. Na primeira vez, fiquei com a impressão de que “envelheceu”, quem sabe, por ter enjoado do sopro de Garbarek, um tanto estridente para o meu gosto (gostava, mas depois que conheci Ben Webster, Coleman Hawkins e Lester Young, meus parâmetros mudaram). Depois de ouvir cerca de cinco vezes, passei a gostar mais, mas não é um disco excepcional. Para aqueles que ainda gostam de Belonging, Sleeper é um prato cheio.

A faixa que abre o disco é Personal Mountains, com um drive excepcional da bateria de Christensen. Sendo um número bem longo, com 21:12 minutos, inicialmente enérgico, instrumentação vigorosa, a menos de sete minutos do fim, há uma mudança de andamento, tornando-se melancólica. Bem Jarrett: ele adora alternar climas em uma mesma música. É um dos destaques. Outra muito boa é Oasis. Inicia com uma percussão com som parecido ao da kalimba e logo depois, uma flauta executada por Keith. Meio africana, combina com o título. Então, entram a bateria, o piano e o sax soprano tenso de Garbarek. Prism, de andamento mais lento, é outra faixa que deve ser destacada.

Ouça “Personal Mountains”