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| Gismonti, Haden e Garbarek (Ralph Quinke/ECM) |
A ECM deve ter montes de registros guardados como esse, e agora, resolveu lançá-los. Tem cheiro de estratégia “caça-níquel”. Pouco tempo atrás, lançou Sleeper, com o quarteto europeu de Keith Jarrett. Um músico que está nos dois discos é Jan Garbarek, saxofonista norueguês. (sobre Sleeper, leia http://bit.ly/RV0JOn)
Quem conhece razoavelmente os discos da ECM, sabe que Manfred Eicher gosta de unir seu cast em formações eventuais. Em uma delas, juntou Gismonti, Charlie Haden e Jan Garbarek. O brasileiro tem cartaz com o alemão. Além de continuar a gravar com total liberdade, conseguiu lançar por lá vários títulos que haviam saído pela EMI-Odeon brasileira e outros de seu selo Carmo.
Mágico e Folk Songs foram os discos lançados pelo trio. Ambos foram gravados em 1979, o primeiro em junho, e o outro, em novembro. Quem tem os dois não vai se decepcionar com o álbum ao vivo, pois algumas são inéditas. De Gismonti são Carta de Amor, Dom Quixote e Branquinho. A “inédita” de Haden é La Pasionaria, composição que saiu no genial The Ballad of the Fallen (1976), homenagem à Dolores Ibarruri, figura legendária da Guerra Civil Espanhola. Haden sempre esteve engajado politicamente com a esquerda e procurou levar isso à sua música. Não sei até onde funciona efetivamente como instrumento de luta, mas, pelo menos, musicalmente, deu certo com a sua banda em parceria com Carla Bley, a Liberation Music Orchestra. A outra de Haden é All That Is Beautiful.
Após Two Folk Songs, de Jan Garbarek, em meio aos aplausos, ouve-se um espectador dar um grito. Catarse… por estar vivendo aquele instante único. Fico a pensar acerca do grito. Depois de ouvir uma composição do “gélido” norueguês? Emoções são muito particulares e peculiares. Não vi algum motivo para esse “orgasmo musical”.
Juntando a “temperatura” de Jan com a de Gismonti (alta), o resultado final em Carta de Amor é morno. Garbarek tornou-se conhecido por um público maior quando se tornou membro da banda de Keith Jarrett, mas já era da ECM desde 1969, quando a gravadora tinha sido criada.
Na mesma época em que fez parte do quarteto de Jarrett, gravara dois discos superiores, na minha opinião, com o pianista Bobo Stenson, Palle Danielsson (baixo) e Jon Christensen (bateria): Witchi-Tai-To (1973) e Dansere (1975).
Se considerarmos a música de improviso como jazz, aí sim, Garbarek é do ramo. Mas não é assim. Por seus registros posteriores, percebe-se que seus interesses musicais são bem mais amplos. Enveredou pela música erudita com o Hilliard Ensemble, fez releituras do canto gregoriano e o que chamam por aí de world music. Seu disco Ragas and Sagas (1992) é dividido com Ustad Fateh Khan e outros músicos paquistaneses. Twelve Moons – a segunda faixa, Psalm, cantada por Agnes Buen Garnås, é maravilhosa – explora o folclore escandinavo. Por essas e outras gravações, muitos o classificam como um representante da world music e até, erroneamente, da música new age. Os dois citados e Dansere, com o trio de Bobo Stenson, são muito bons e demonstrativos da versatilidade do norueguês.
Depois de ter falado tão bem de Garbarek, vou falar mal. Enjoei do sopro estridente de seu sax, principalmente no soprano. Ouvindo Carta de Amor, percebo que seus discos gravados com ele e Charlie Haden não se incluem entre os melhores de sua discografia. Minha opinião, certo? Agora, os registros existentes de Gismonti com o baixista (In Montreal, ECM, 2001), em 1989, são pra lá de bons. É uma perfeita combinação. Haden é cool e, com Gismonti, atingem a temperatura ideal. Até que não seria má ideia comentar sobre esse disco posteriormente.
Bom, posso considerá-lo médio, mas não quer dizer que seja ruim, por favor. Ouça a música-título.

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