Em relação aos primeiros lançamentos do ano da ECM, iniciei com comentários sobre álbuns em que bateristas aparecem como líderes. Era uma introdução para “Lucus”, de Thomas Strønen. Na segunda leva, um dos álbuns, novamente, é de um baterista, este, uma novidade para mim, a começar por ser de um japonês. Bom, para início de conversa, orientais têm a fama de serem péssimos ritmicamente. Não têm samba no pé, diriam os brasileiros. É um pouco injusto. Orientais podem ter dificuldades de captar a batida de um samba, mas é bem conhecida o taikô, do folclore japonês; é uma outra cultura da percussão.
Shinya Fukumori, que faz sua estreia na ECM, pode ser inserido mais até dentro da tradição ocidental. A maioria dos temas é de autoria de Fukumori e quatro de conterrâneos seus, mas é impossível associar-se à música tradicional japonesa. Mais ou menos na linha de Thomas Strønen e Paul Motian, é um baterista menos pirotécnico, que prefere explorar as sutilezas sonoras do instrumento. É um álbum surpreendente: 4 estrelas e meia, na minha opinião; a Downbeat deu 3 e meia.
A banda é composta por Matthieu Bordenave (belo sax tenor), Walter Lang (piano) e Fukumori na bateria.
Veja o teaser. A animação é muito boa também.
Norma Winstone
Existem alguns pontos em comum entre o pacote de janeiro e fevereiro. Uma é dos bateristas. A outra, que pode ser apenas uma coincidência, é quanto aos títulos. Se no anterior, o nome do álbum de Bobo Stenson é “Contra la Indecisión”, neste, o novo de Norma Winstone chama-se “Descansado: Songs for Films”. O trio Norma, Klaus Gesing e Glauco Venier lançou “Distances” (2008), “Stories to Tell” (2010), e “Dance Without Answer” (2014), todos sublimes. No mais recente entrou um percussionista (Helge Andreas Norbakken) e um violoncelista (Mario Brunello).
Composto por temas de filme, como “The Thomas Crown Affair”, “Vivre sa vie”, “Malena”, “Amarcord”, “Il Postino”, e outros, decepciona um pouco, se comparado aos anteriores. É um disco “descansado”, meio carente de contrastes. Mesmo um tema romântico e dramático como o de “Romeu e Julieta”, de Nino Rota, soa um tanto frio. Mas é uma boa introdução para quem não conhece o trabalho da cantora veterana inglesa.
Como a ECM não disponibilizou algum teaser, para você conhecer a música do trio, veja-os em “Dance Without Answer”, de 2014.
Nicolas Masson
As capas dos discos da ECM são quase sempre de paisagens invernais, que de certo modo, representam visualmente o som produzido pelo cast de Manfred Eicher. “Travelers”, de Nicolas Masson, não foge à regra. É a excelência da pureza do som, tendo ao lado de seu sax ou a clarineta, Colin Vallon como pianista, Patrice Moret no contrabaixo e Lionel Friedli na bateria. Para quem gosta até de bolero e tango, como eu, sente falta de um pouco daquela “emoção”, da surpresa de descer uma duna em curva e em velocidade. Masson nos proporciona a beleza vista pela janela em um dia de inverno severo.
Veja o clip de “Gagarine”, a que abre o disco.
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Andy Sheppard
Como sempre, deixo por último o melhor do pacote. O inglês é um veterano da cena europeia, mais conhecido por ter participado de várias bandas de Carla Bley. Gravou o primeiro para a ECM “Movements in Colour” (2008), “Trio Libero” (2010), com Michel Benita e Sebastian Rochford, “Surrounded by Sea” (2015), e “Romaria”, que acaba de ser lançado. Nos dois últimos, que são os melhores, o quarteto é complementado por Elvind Aarset, na guitarra e efeitos eletrônicos, e os mesmos Benita, no baixo e Rochford, na bateria. Em “Trio Libero”, a não participação de Aarset representa uma boa diferença no conceito do som.
Bom, o título “Romaria” remete a alguma lembrança? Pois é a clássica composição de Renato Teixeira. Todas as restantes são do inglês. Não poderia deixar de ser um dos destaques do álbum. Ouça aqui. É muito bela. No álbum, houve uma inversão dos títulos, e a terceira é a quarta, e esta é a terceira. Muitos ouvintes vão pensar que chama-se “Pop”, inclusive quem postou no YouTube.
Sua apresentação na Fnac de Lisboa, que fica no Chiado é razoavelmente longa, com Sheppard solando com ele mesmo. Mais ou menos no minuto 15, toca “Romaria”. Bem interessante.