Mostrando postagens com marcador Clifford Brown. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Clifford Brown. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de março de 2026

O fantasma de Clifford Brown

O “careta” Clifford Brown
Na mesma época em que tinha comprado os dois volumes que compõem A Volta ao Dia em Oitenta Mundos, referência de Julio Cortázar sobre um título de Jules Verne, estavam sendo lançados alguns álbuns duplos destacando alguns nomes do jazz pela PolyGram. De capa branca e ilustrações em tinta marrom, eram suficientemente caros para os bolsos dos universitários que tinham que se virar com mesadas “na conta”. Até essa data, meados da década de 1970, eram raros os lançamentos de jazz no Brasil.

Na página 109 do tomo I de A Volta…, da edição em espanhol da Editora Siglo Veinteuno – na FAU-USP, a Ciça, arquiteta formada pela UnB, montou uma “banquinha” de livros de literatura e de arquitetura em espanhol – Cortázar falava desse até então desconhecido, para mim, Clifford Brown: “Como Bird, como Bud, he didn’t stand the ghost of a chance”. O autor fazia um jogo de palavras com o título do standard composto por Victor Young, com letra de Bing Crosby e Ned Washington, de 1932, e os relacionava à morte de outras duas figuras do jazz: o pianista Bud Powell e o sax-alto Charlie Parker.

Ao contrário desses dois, o trumpetista Clifford era “careta”. Era um certinho, enfim, mas de um talento estupendo. Parker morreu antes dos 40, vítima dos excessos da droga e do alcool. Powell, apesar de “un poco loco”, decorrente – dizem – de uma surra que levara da polícia, e lhe acarretara transtornos de ordem mental – ficou internado por um ano sendo tratado com eletrochoques –, foi brilhante pianista e fez parte do lendário show no Massey Hall, Toronto, com Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Charles Mingus e Max Roach, em 1953. Morreu relativamente cedo – pouco mais de 40.

Nos anos 1950 reinavam o trumpete de Miles Davis e o do atrevido Dizzy Gillespie. Brown surgiu nesse cenário e logo se destacou como, se não o melhor, tão bom quanto os outros dois. Miles era o cara do sopro sem vibrato, dos registros médios, e se destacaria por estar no lugar certo e na hora certa. Estaria entre os gestores do bebop e dentre os que criariam o cool jazz. Clifford surgiu como um furacão. Se estivesse vivo, certamente, estaria liderando as listas dos melhores em seu instrumento. Além do poder de invenção harmônica era dono de um sopro que sabia ser doce e agressivo, atingindo as notas mais altas do trumpete sem “gritar”.

Não é possível se prever o que teriam sido os percursos de Jimi Hendrix, Janis Joplin, de Jim Morrison ou do trumpetista Fats Navarro, sua grande influência – morreu antes de completar 27 anos de idade, vítima da tuberculose e da heroína –, e também de Clifford. Mas Brown teve uma carreira fulgurante num tempo em que Miles e Dizzy Gillespie estavam na linha de frente.

A ascensão dele foi algo que lembra – desculpem se acharem a comparação um pouco fora de contexto – à do espetacular astro do soul Otis Redding, morto em um acidente no próprio avião, aos 26 anos. Clifford ia fazer 26 – coincidência ou não, Hendrix, Morrison e Joplin, com 27, um a mais – e ambos estavam no topo e, certamente, avançariam muito além. Redding morreu sem ter visto (Sittin’ on) The Dock of the Bay atingir o primeiro lugar das paradas. Brown gravava um disco melhor que o outro pela EmArcy. Numa noite chuvosa de junho de 1956, a caminho de Chicago, onde fariam uma apresentação, a mulher do pianista Richie Powell, que dirigia o carro, perdeu o controle e derraparam. Resultado: três mortos.

Max Roach, um dos pioneiros do bebop e dos maiores bateristas da história, já era figura de proa no jazz quando surgiu Brown. Mesmo assim, ao formarem a banda, deixou que Brown tivesse seu nome em primeiro lugar. A bateria enérgica de batidas limpas combinaram perfeitamente com seu trumpete. E não seria despropósito algum dizer que Roach foi o par ideal de Brown. Juntos, com o belo sax tenor do underrated Harold Land, do pianista irmão menor de Bud e igualmente talentoso, Richie Powell, e George Morrow no baixo, formaram uma das mais integradas bandas do jazz. Eram excepcionais nas músicas uptempo, em que a bateria de Roach brilhava e que, nas baladas, Land – como em Darn That Dream –, Powell e Clifford despejavam emoção da mais pura qualidade.

Algumas músicas ficaram associadas às interpretações de Brown e Roach: Delilah, do mesmo Victor Young, que compôs I Don’t Stand a Ghost of a Chance With You – que tem um belo solo de Richie Powell e lembra seu irmão Bud –, Parisian Thoroughfare e Jordu, de Duke Jordan. Nem é preciso dizer a mesma coisa de The Blues Walk, Daahoud e Joy Spring: são composições do trumpetista.

Segundo Julio Cortázar, Brown “inventa uma ilha do absoluto na desordem, onde ele e tantos outros estamos mortos”. Talvez pensasse assim o argentino quando se arriscava a “ser” Clifford ao tocar amadoristicamente seu trumpete.

Ouça o clássico Clifford Brown and Max Roach, gravado entre 1954 e 1955, pelo selo EmArcy.





Esse texto foi publicado e escrito em 5 de abril de 2010

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Dois tributos a dois grandes músicos: “I Remember Clifford” e “Django”

Django, o cigarro e a guitarra
A tragédia real de Django Reinhardt foi o que ocorreu quando tinha 18 anos. Diz a história que esbarrou em uma vela ao chegar em casa. Bella, sua mulher, à época, fazia flores de celulóide para vender. Por ser (muito) inflamável, aconteceu um incêndio e Django teve metade de seu corpo queimado. A consequência mais grave foi ter dois dedos da mão esquerda paralisados. Problema sério, mas não foi impedimento para que, mais tarde, ficasse conhecido como o pai da guitarra no jazz. Com Stéphane Grappelli, que foi seu parceiro mais frequente, são os protagonistas seminais do jazz francês e, consequentemente, europeu.

Antes da Segunda Guerra Mundial, a França era o destino de músicos americanos como Coleman Hawkins e Josephine Baker, a deusa negra que balançou a febril Paris, cidade preferida de escritores (ou aspirantes a) como Ernest Hemingway, John dos Passos, Scott Fitzgerald e Gertrude Stein. Quem pensa que foi simples entertainer deve ouvir seu J’ai deux amours. Baker era tremenda cantora, também.

O acidente que aconteceu com Reinhardt moldou seu jeito tão original de tocar. Como nasceu no início do século XX, sofreu as consequências das duas guerras mundiais. Durante a segunda, Grappelli ficou na Grã-Bretanha e Reinhardt, na França. Voltaram a reunir-se após o fim da guerra. O violinista teve vida longa, mas Reinhardt morreu cedo, com 43 anos, em decorrência de uma hemorragia cerebral, numa estação de trem. Demorou o dia inteiro para ser socorrido. Depois da guerra excursinou pelos EUA e chegou a tocar com a banda de Duke Ellington. Segundo seus biógrafos, voltou para a França diferente. Como puro sangue cigano, não fixava residência e faltava às apresentações marcadas, e quando ia, às vezes, nem levava a guitarrra. Provavelmente, andava deprimido: passava dias sem se levantar da cama.

A tragédia de Clifford Brown foi bem diversa. Encontrava-se no auge como músico quando morreu em um acidente automobilístico. Richie Powell, pianista talentoso e membro de sua banda, irmão de Bud Powell, estava com ele no carro. Brown era genial e bom páreo para Miles Davis e Dizzy Gillespie.

Brownie, como era conhecido, morreu dias antes de completar 26 anos, no dia 26 do 6 de 1956. Leia mais sobre Clifford Brown em http://bit.ly/Wj3bxT para maiores detalhes, se você for um curioso.

Benny Golson (sobre ele, leia http://bit.ly/Umy71H), saxofonista e autor de poucas e boas canções, compôs I Remember Clifford, em homenagem ao trompetista. É um dos grandes standards do jazz. Diferentemente dos clássicos consagrados de George e Ira Gershwin, Cole Porter, Richard Rodgers, Oscar Hammerstein II, Lorenz Hart, Irving Berlin e outros, a música tributo a “Brownie” foi composta como tema instrumental, tal qual composições de Thelonious Monk, Bill Evans, John Coltrane e Jimmie Rowles. Posteriormente, alguns desses temas, como ’Round Midnight, Blue in Green, Naima e The Peacocks, receberam letras para serem interpretadas por cantores como Carmen McRae, Thierney Sutton, Mark Murphy e Mary Stallings.

Elegância do Modern Jazz Quartet
Tão boa quanto I Remember Clifford, ou até melhor, é Django, tema composto por John Lewis em homenagem ao guitarrista cigano. Lewis foi o criador do Modern Jazz Quartet, com Milt Jackson (vibrafone), Percy Heath (contrabaixo) e Kenny Clarke (bateria). Este último foi substituído por Connie Kay três anos depois da criação da banda, em 1955. Clarke seguiu carreira musical na Europa e teve uma big band com o pianista belga Francy Boland.

O MJQ trouxe a elegância ao jazz, sem desmerecer os impecáveis costumes que músicos como Artie Shaw, Miles Davis e Charlie Parker vestiam em suas apresentações. Incorporaram uma nova atitude nas salas de espetáculos. Eram algo como apresentações de música erudita em salas de concerto. Eram, por assim dizer, um conjunto de câmara, não apenas um quarteto. O som etéreo do vibrafone de Milt Jackson e o piano econômico de Lewis impunham silêncio à plateia; e as composições fugiam da voga do swing e do bebop. E Django representa a essência do Modern Jazz Quartet. John Lewis foi um dos primeiros representantes do que seria cunhado de “Third Stream”, expressão inventada por Gunter Schuller em 1955. Seus interesses pela música erudita e, principalmente, por Johann Sebastian Bach, moldaram seu estilo. Gravou com os Swingle Singers (formação vocal que ficou conhecida por vocalizações a partir de temas eruditos), compôs suites à maneira dos eruditos e adaptou temas clássicos, como em Blues on Bach, tocando, inclusive, cravo.

O melhor I Remember Clifford é, na minha opinião, a de Bud Powell com o saxofonista Don Byas. Ouça.




A interpretação de Django, pelo Modern Jazz Quartet, é excepcional. Existem muitas outras, mas essa é a original.



Ouça uma interpretação de Helen Merrill (sem letra; é só vocalizada) com John Lewis ao piano.



Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O “careta” Clifford Brown

O “careta” Clifford Brown
Na mesma época em que tinha comprado os dois volumes que compõem A Volta ao Dia em Oitenta Mundos, referência de Julio Cortázar sobre um título de Jules Verne, estavam sendo lançados alguns álbuns duplos destacando alguns nomes do jazz pela PolyGram. De capa branca e ilustrações em tinta marrom, eram suficientemente caros para os bolsos dos universitários que tinham que se virar com mesadas “na conta”. Até essa data, meados da década de 1970, eram raros os lançamentos de jazz no Brasil, situação parecida à de agora, com o diferencial de que a Internet e a importação direta trouxeram facilidades para a aquisição de títulos não lançados no País.

Na página 109 do tomo I de A Volta…, da edição em espanhol da Editora Siglo Veinteuno – na FAU-USP, a Ciça, arquiteta formada pela UnB, montou uma “banquinha” de livros de literatura e de arquitetura em espanhol – Cortázar falava desse até então desconhecido, para mim, Clifford Brown: “Como Bird, como Bud, he didn’t stand the ghost of a chance”. O autor fazia um jogo de palavras com o título do standard composto por Victor Young, com letra de Bing Crosby e Ned Washington, de 1932, e os relacionava à morte de outras duas figuras do jazz: o pianista Bud Powell e o sax-alto Charlie Parker.

Ao contrário desses dois, o trumpetista Clifford era “careta”. Era um certinho, enfim, mas de um talento estupendo. Parker morreu antes dos 40, vítima dos excessos da droga e do alcool. Powell, apesar de “un poco loco”, decorrente – dizem – de uma surra que levara da polícia, e lhe acarretara transtornos de ordem mental – ficou internado por um ano sendo tratado com eletrochoques –, foi brilhante pianista e fez parte do lendário show no Massey Hall, Toronto, com Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Charles Mingus e Max Roach, em 1953. Morreu relativamente cedo – pouco mais de 40.

Nos anos 1950 reinavam o trumpete de Miles Davis e o do atrevido Dizzy Gillespie. Brown surgiu nesse cenário e logo se destacou como, se não o melhor, tão bom quanto os outros dois. Miles era o cara do sopro sem vibrato, dos registros médios, e se destacaria por estar no lugar certo e na hora certa. Estaria entre os gestores do bebop e dentre os que criariam o cool jazz. Clifford surgiu como um furacão. Se estivesse vivo, certamente, estaria liderando as listas dos melhores em seu instrumento. Além do poder de invenção harmônica era dono de um sopro que sabia ser doce e agressivo, atingindo as notas mais altas do trumpete sem “gritar”.

Não é possível se prever o que teriam sido os percursos de Jimi Hendrix, Janis Joplin, de Jim Morrison ou do trumpetista Fats Navarro, sua grande influência – morreu antes de completar 27 anos de idade, vítima da tuberculose e da heroína –, e também de Clifford. Mas Brown teve uma carreira fulgurante num tempo em que Miles e Dizzy Gillespie estavam na linha de frente.

A ascensão de Clifford foi algo que lembra – desculpem se acharem a comparação um pouco fora de contexto – à do espetacular astro do soul Otis Redding, morto em um acidente no próprio avião, aos 26 anos. Clifford ia fazer 26 – coincidência ou não, Hendrix, Morrison e Joplin, com 27, um a mais – e ambos estavam no topo e, certamente, avançariam muito além. Redding morreu sem ter visto (Sittin’ on) The Dock of the Bay atingir o primeiro lugar das paradas. Brown gravava um disco melhor que o outro pela EmArcy. Numa noite chuvosa de junho de 1956, a caminho de Chicago, onde fariam uma apresentação, a mulher do pianista Richie Powell, que dirigia o carro, perdeu o controle e derraparam. Resultado: três mortos.

Max Roach, um dos pioneiros do bebop e dos maiores bateristas da história, já era figura de proa no jazz quando surgiu Brown. Mesmo assim, ao formarem a banda, deixou que Brown tivesse seu nome em primeiro lugar. A bateria enérgica e ritmicamente limpa combinaram perfeitamente com seu trumpete. E não seria despropósito algum dizer que Roach foi o par ideal de Brown. Juntos, com o belo sax tenor do underrated Harold Land, do pianista irmão menor de Bud e igualmente talentoso, Richie Powell, e George Morrow no baixo, formaram uma das mais integradas bandas do jazz. Eram excepcionais nas músicas uptempo, em que a bateria de Roach brilhava e que, nas baladas, Land – como em Darn That Dream –, Powell e Clifford despejavam emoção da mais pura qualidade.

Algumas músicas ficaram associadas às interpretações de Brown e Roach: Delilah, do mesmo Victor Young, que compôs I Don’t Stand a Ghost of a Chance With You – que tem um belo solo de Richie Powell e lembra seu irmão Bud –, Parisian Thoroughfare e Jordu, de Duke Jordan. Nem é preciso dizer a mesma coisa de The Blues Walk, Daahoud e Joy Spring: são composições do trumpetista.

Segundo Julio Cortázar, Brown “inventa uma ilha do absoluto na desordem, onde ele e tantos outros estamos mortos”. Talvez pensasse assim Cortázar quando se arriscava a “ser” Clifford ao tocar amadoristicamente seu trumpete.

Beleza pura de uma das formações clássicas: Brown e o baterista Max Roach.




Esse texto foi publicado e escrito em 5 de abril de 2010