quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Afinal, 1968 foi um bom ano? Parte 1: The Beatles

Para nós brasileiros, a imagem que temos do ano de 1968 não é das melhores. Fui o autor do catálogo “68  - Utópicos e rebeldes”, por ocasião dos 40 anos dessa data, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. No texto de apresentação do então ministro da Cultura, Gilberto Gil – “1968: uma ferida ou uma flor” –, ele observa que “se nosso 68 teve a carga pesada de uma repressão brutal em que as liberdades individuais e institucionais que ainda restavam foram aviltadas e violentamente interrompidas com a decretação do AI-5, também vivemos a intensidade de um 68, além da política operada nas artimanhas da clandestinidade: o País encontrou formas de luta na cultura e na arte.”

Em outro texto, de Paulo Vanucchi, à época, Ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, observa que 1968 foi um ano emblemático. “Foram muitos os acontecimentos marcantes. No mundo, houve a revolta dos estudantes em Paris, a Primavera de Praga, o assassinato de Martin Luther King. No Brasil, a passeata dos Cem Mil, a morte de Edson Luís de Lima Souto, as prisões dos estudantes da UNE em Ibiúna até culminar no amordaçamento imposto pelo Ato Institucional nº 5.”

Para mim, inculto mortal, foi também o ano em que Jimi Hendrix lançou “The Electric Ladyland” e The Beatles gravou o chamado“ Álbum Branco”, para os gringos, “The White Album”.

Pois, em 2018, são lançados os dois álbuns comemorando 50 anos desses dois grandes momentos de 1968. Apenas confirmam para as gerações mais novas, que 1968 foi um “grande ano”, como diria Frank Sinatra em “It Was a Very Good Year”, se gostasse de rock.

Apenas o fim
Parte da crítica considera 1968 o início do fim dos Beatles. Depois da sofisticação sonora de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e a farra de “Magical Mystery Tour” havia uma expectativa do que poderia vir em seguida.

No tempo anterior à gravação do álbum, os quatro foram à Índia fazer meditação transcendental com o guru Maharishi Maheshi Yogi, Ringo Starr foi o primeiro a cair fora. Detestou a comida apimentada e não sentiu-se muito transcendental. John Lennon ficou bronqueado com o guru, que assediou sexualmente Prudence Farrow, que estava no mesmo grupo, com a irmã Mia, esta em fase free depois de ter se separado de Frank Sinatra. O episódio serviu de mote para duas canções que comporiam o futuro disco: “Dear Prudence” e “Sexie Sadie”.

Além da viagem à Índia, outros acontecimentos foram capitais para o início da desagregação da banda: a morte prematura de Brian Epstein, empresário deles, causada, provavelmente, por ingestão de drogas que tomava para ansiedade e insônia, e o início do relacionamento de Lennon com a artista plástica Yoko Ono. Ringo, descontente de ser o patinho feio, decidiu sair da banda, Harrison procurava mais espaço para suas composições.

Um amigo gostava de dizer que bandas tinham prazo de validade. Crianças crescem e, à certa altura, cada um quer tomar o seu rumo. Bom, a história o desmente por meio de formações longevas como os Rolling Stones e o U2. Mas vamos combinar: não andam para cima e para baixo juntos; encontram-se para as gravações e shows, se tanto. Não existia mais entre os quatro aquele sentido de patota, se me entendem.

Nesse sentido, Yoko Ono foi importante. Fez o papel do visitante protagonizado por Terence Stamp, em “Teorema”, de Pier Paolo Pasolini. “John apresentou as instalações de Abbey uma vez, e ela nunca mais foi embora… Aparecia todo santo dia.” Assim referiu-se à presença tóxica da japonesa, artista de vanguarda, George Harrison, na vida da banda, enquanto gravavam o novo disco.

Yoko apenas precipitou o que poderia demorar um pouco mais para acontecer. Na construção do novo álbum, apesar de continuarem a assinar juntos, ficam mais evidentes a autoria real de cada composição, mesmo assinando-as Lennon e McCartney. Essa individualidade se acentua na diversidade das canções presentes no disco. Eram tantas composições novas que um LP de 45 minutos seria insuficiente. O produtor George Martin queria um álbum simples. A banda discordou e bateu pé em lançar um duplo. São 30 canções no total. Várias viraram hits, como não poderia deixar de acontecer, entretanto, percebe-se que não fizeram a mínima questão de serem comerciais.

São vários os exemplos, a começar por “Revolution 9”, uma colagem de sons em loops, vozes, risadas desconexas, tendo como elemento de ligação George Martin a repetir “number nine” inúmeras vezes. Há também a country-western-folk “Rocky Racoon”, de Paul, brilhantemente descritiva, a provocativa “Piggies”, de George, “Why Don't We Do It in the Road? ”, sendo esse o único verso da canção, e “The Continuing Story of Bungalow Bill”, de John, dentre outras.

Outra que convém ser destacada é “Helter Skelter”, vigoroso pré hard rock, com vocais gritados de Paul. Foram muitos os takes até chegarem à versão presente no álbum. Na edição especial dos 50 anos, há um registro dela com 13 minutos e pouco. Alguns temas são demonstrativos do talento especial como hitmakers: “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, “Blackbird”, “Mother Nature’s Son”, “Dear Prudence”. Não posso esquecer de “While My Guitar Gently Weeps”, com a brilhante participação do amigo de Harrison, Eric Clapton, nos solos.

A edição especial dos 50 anos não é a primeira remixagem de “The White Album”. Nos 30 anos do lançamento, saiu uma bem legal, replicando o do LP, mas no tamanho dos CDs, Mas o que saiu agora é um item essencial não só para os beatlemaníacos. São seis CDs apresentando as gravações originais remixadas por Gilles Martin, filho do produtor George Martin, e mais quatro, com as chamadas Esher demos, com versões preparatórias feitas em quatro canais, basicamente, voz e violão, e takes alternativos, além de várias que sairiam nos próximos discos deles e nos solos depois da separação, como “Junk”, de Paul, e “Jealous Guy”, de John. Outra coisa a ser destacada é de como cada canção foi trabalhada até chegar-se à versão definitiva, Um exemplo é a tomada 102 de “Not Guilty”, de Harrison, que nem constou na versão final do álbum. É a demonstração de que a perfeição se dá depois de muito trabalho.

Em relação às novas mixagens, ouve-se melhor o contrabaixo e as vozes ficam mais ao centro da audição. São detalhes que na nova configuração apresentam-se mais equilibradas.


Ouça o álbum com as novas remasterizações.




Ouça a versão de “Helter Skelter”, com 13 minutos.