quinta-feira, 4 de abril de 2013

Tudo é bossa nova com Cyrille Aimée e Diego Figueiredo

Cyrille e Diego, à vontade
Ela tem o mesmo sobrenome da protagonista de Um Homem, Uma Mulher, de Claude Lelouch. Cyrille é uma intérprete francesa cheia de charme e transforma tudo o que canta em bossa nova no álbum Smile, e não apenas com clássicos jobinianos como Chega de Saudade, A Felicidade, ou Dindi, mas com temas de Dizzy Gillespie e Charles Trénet.

Parte da responsabilidade do “tom” bossa nova se deve ao violonista Diego Figueiredo, com quem divide o disco. Como Diego passa metade do ano fora do país, imagino ser essa a raazão de ser pouco conhecido em terras brasileiras. Segundo lugar no Prêmio Visa de MPB em 2001 – o primeiro foi Yamandú Costa –, tocou com Belchior por quatro anos e acompanhou vários intérpretes. Lançou o solo Segundas Intenções, em 2004, pelo selo Atração Fonográfica; em 2009 saiu Vivência (nesse toca só guitarra), pelo Biscoito Fino. O último é um belo trabalho: vai na linha dos primeiros discos de Pat Metheny. Esses são os que sei que saíram por aqui. É possível que tenham sido lançados outros pois no site de Diego está dito que tem 15 álbuns lançados.

Cyrille é filha de pai francês e mãe nascida na Republica Dominicana. Foi finalista do prestigiado Thelonious Monk International Jazz Competition em 2010. As melhores cantoras da atualidade, como Roberta Gambarini (leia em http://bit.ly/L3ygSB), Jane Monheit, Gretchen Parlato (leia em http://bit.ly/RNT5Yg) e Tierney Sutton (leia em http://bit.ly/13mzgOD) foram finalistas nessa competição, para se ter uma ideia de sua relevância. E saíram com contratos assinados por gravadoras como a Concord Jazz (Jane), Telarc Jazz (Thierney) e Groovin’ High (Roberta). Desde que passou a morar nos EUA, tem se apresentado em clubes consagrados ao jazz como o Joe’s Pub, Birdland, The Iridium, Smalls e Dizzy’s Coca-Cola Club, do Lincoln Jazz Center.

Convidado por Diego, que a conhecera em uma das vezes em que foi premiado (duas vezes) como melhor guitarrista no Montreux Jazz Festival, gravaram Smile, em 2009. Quando se apresentaram, no ano seguinte, no Dizzy’s Coca-Cola Club, em Nova York, gravaram no Avatar Studios Just the Two of Us, lançado pela japonesa Venus Records em 2010.

Veja a apresentação de Aimée e Figueiredo no Dizzy’s Coca-Cola Club.




Os dois interpretam o standard Bye Bye Blackbird.



Conheço apenas o primeiro e, como diria nosso eterno campeão (Indy e Formula 1) Emerson Fittipaldi, “eu recomendo”. É um disco muito agradável. Cyrille tem bela voz e se vira bem em três idiomas – o natal, francês, o inglês e o português… só faltou cantar em espanhol – e Diego é craque. É um violonista preciso e sem os excessos “digitais” de Yamandú. Destacam-se A Night in Tunisia (boa mesmo, grande violão de Diego), Yardbird Suite, outro clássico bebop (Charlie Parker), as francesas, as manjadas Que reste-t-il de nos amours e La vie en rose, manjadas mas muito bem interpretadas por Aimée.

Os dois fizeram apresentações no Brasil e algumas delas estão disponíveis no YouTube. Veja e ouça Que reste-t-il de nos amours. Aqui, são acompanhados por Robertinho Silva e Eduardo Machado.


Veja e ouça Night in Tunisia.



terça-feira, 2 de abril de 2013

As mil faces de Dudley Moore

Dudley e o parceiro e amigo Peter Cook
Sendo um legítimo filho da “working class” britânica (mãe secretária e pai operário ferroviário), nascido com uma deformidade no pé que o levou a se submeter a várias cirurgias, Dudley Moore tinha tudo para dar errado na vida. Sofrendo de “bullyng” por conta do problema físico, baixa estatura – adulto, não tinha 1,60 m –, “refugiou”-se no coro da Igreja e lá teve suas primeiras lições de piano e violino. Aos 14, era o organista oficial.

Moore poderia ter seguido a carreira de músico de jazz ou ter sido um virtuose no piano (mostrou seus talentos na série Orchestra!, realizado para a BBC, em 1991, com o maestro Georg Solti), mas o destino o empurrou em outra direção.

Dividindo com o melhor amigo, Peter Cook, fizeram programas humorísticos de muito sucesso na TV inglesa e tornou-se conhecido mesmo em outras paragens. Foi parar em Hollywood e ficou marcado como protagonista de Arthur, o Milionário.

Paralelamente, nunca deixou de tocar em clubes de jazz. Exibia seus dotes musicais eventualmente em concertos de música erudita. Fez programas de “iniciação” musical – com o propósito de ampliar o conhecimento musical do público geral – com o maestro húngaro Solti, como foi dito no parágrafo anterior –, e, depois, mais ou menos nos mesmos moldes, realizou uma série chamada Concerto!, com o maestro americano Michael Tilson Thomas. Essas programas – desconheço se estão disponíveis no YouTube – eram interessantíssimos e, tanto Solti como Thomas eram (é, porque está vivo, no caso do último) personalidades carismáticas e exuberantes e, aliando talento e conhecimento sobre música de Moore, eram instrutivos e educativos sem serem como certos programas culturais.

Se o destino foi generoso com Dudley inicialmente, depois, deixou de ser. Foi diagnosticado que sofria de paralisia supranuclear progressiva (PRP), doença degenerativa sem cura conhecida. Chegaram a dizer que Dudley estava agindo de maneira estranha ou estava embriagado quando, na verdade, apresentava os primeiros sinais da enfermidade. Em 2001 viu seu trabalho em prol da cultura reconhecido ao receber a Ordem do Império Britânico das mãos da rainha Elisabeth. Foi recebê-lo no Palácio de Buckingham em uma cadeira de rodas.

Dudley Moore, como o amigo Alberico Cilento, adorava Erroll Garner. Era sua maior influência, junto com Oscar Peterson. Como músico tocou na banda de John Dankworth e acompanhou Cleo Laine. Ouça uma amostra do Moore músico em Yesterdays, com Peter Morgan no baixo e Chris Karan na bateria.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

Veja Moore, bem jovem, interpretando Just in Time.




Veja-o tocando um medley com canções de Gershwin.




Veja um trecho de Orchestra!, com Georg Solti e Dudley Moore. Ele toca um trecho de Música para Cordas, Percussão e celesta, de Béla Bartók.