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quinta-feira, 30 de março de 2017

A música dramática e bela de Benjamin Clementine

Lembra a história de alguém a do menino que nasceu no subúrbio, com muitos irmãos, e que seus pais se separaram quando ainda entrava na adolescência? É a história de muitos. Uns viram marginais, jogadores, esportistas enfim, ou músicos.

E não lembra também a de alguns a do menino que cresce solitário, quase sem diálogo com seus irmãos, que não gostava de jogar futebol na rua, como os outros de sua idade, e em vez das aulas, preferia ficar enfurnado na biblioteca?

Benjamin Clementine, filho de pais que emigraram de Gana, e cresceu em um subúrbio londrino é um deles. Em vez de aulas e futebol, preferia explorar a literatura de William Blake e a filosofia de Kant. A salvação, ou uma saída para a adolescência difícil, foi a música. A primeira vez em que se sentiu parte desse mundo foi quando ouviu as “Gymnopédies”, de Erik Satie. E a saída para expressar-se. No piano da casa, tentava reproduzir as notas do compositor francês. Ao mesmo tempo, descobria a música de Antony Heggart, do Antony * The Johnsons.

Se se sentia solitário em Londres, poderia ser um solitário em qualquer lugar do mundo. Talvez Satie o tenha inspirado para ir morar em Paris. Hospedou-se em hotéis de quinta categoria, dormiu na rua, trabalhou em restaurantes e arriscava-se em cantar em estações de metrô. Morando na França, descobriu a música de Jacques Brel, Edith Piaf, Leo Ferré e Barbara. A fusão da música deles e seu gosto pela de Antony Haggart resultou, de certa forma, na que Clementine gestava. Ondas favoráveis do destino possibilitaram a gravação de “Cornerstone”, em um EP. Foi o suficiente.

A força de versos confessionais, seu modo dramático de cantar versos confessionais, autobiográficos, de um lirismo dilacerante, envolto em ostinatos de grande efeito ao piano, a figura negra, cantando de olhos fechados, era de um efeito catártico sobre seus ouvintes.

Ao apresentar-se no programa de Jools Holland, pela BBC2, cantando “Estou só, só numa caixa de pedra/ Dizem que me amam mas estão todos mentindo/ Sou solitário sozinho na minha própria caixa/ E esse é o lugar ao qual pertenço agora.”, e completava: “It”s my home, home, home, home.” Nos bastidores, ouviu palavras encorajadoras de Paul McCartney.

Veja a apresentação.




Lançou “At Least for Now”, em 2015. Tem uma grande carreira pela frente. Ao ouvi-lo , lembramo-nos automaticamente de músicos díspares como Nina Simone, Scott Walker, Nick Drake, Tom Waits, Nick Cave e Jacques Brel. É uma comparação, antes de mais nada, positiva.

Ainda de “At Least for Now”, veja-o a cantar “Nemesis”.



Além de “Cornerstone”, outro destaque é “Quiver a Little”.



“Winston Chrchill’s Boy”, a música de abertura, abre a curiosidade para se conhecer melhor Benjamin Clementine. Ouça.




Uma última observação: a Inglaterra é pródiga em revelar grandes intérpretes de origem africana. Comecemos pela mais conhecida: a nigeriana Sade Adu. Nos dias de hoje, além de Benjamin Clementine, outro destaque é Michael Kiwanuka, filho de ugandenses. Outra muito boa, negra, mas de pai jamaicano e mãe grega, é Lianne La Havas, nascida em Londres.

terça-feira, 19 de julho de 2016

O soulman Michael Kiwanuka

Meus critérios do que acho que devo conhecer quando se trata de música pop, é peculiar e discutível: nomes estranhos atraem a minha curiosidade; e tenho interesse maior quando são negros, não pela cor, mas pelo registro da voz. Espero não ser visto como preconceituoso ao revelar os meus métodos de escolha. Desse modo, acabei por conhecer Monoswezi, Laura Mvula, Rokia Traoré, Sufjan Stevens, Lianne La Havas e Michael Kiwanuka. Dos citados, um apenas é branco.

Ouvi Michael Kiwanuka pela primeira vez na coletânea The Songs of Leonard Cohen Covered, encartada em um número da revista Mojo, em 2011. Era em Hey, That’s No Way to Say Goodbye. Era uma voz diferente. Tempos depois, ao ler críticas sobre Is Your Love Big Enough (2012), da inglesa Lianne La Havas, li uma referência a um outro talento em ascensão cujo nome era Michael Kiwanuka.

Há poucos dias foi lançado Love & Hate, seu segundo álbum. É mais sofisticado e burilado que o primeiro, com produção do músico e Dangermouse. Tem um início instrumental com um vocalzinho, uma guitarra que lembra David Gilmour (é de Kiwanuka mesmo) e uma orquestra. São cinco minutos até a entrada da voz de Michael. Ainda não tenho uma opinião mais afirmativa se acho o início bom ou chato, mas que impressiona na primeira audição, impressiona.

Depois desse início um tanto grandioso, é a vez de Called Black Man in a White World. O título é de impacto. Começa com Michael na voz e nas palmas – parece uma “work song” dos escravos americanos. Vai em um crescendo, entram uma guitarra, uma percussão e um pouco de cordas e ela vai se transformando, mas o realce vai para o refrão “Im a black man in a white world” repetido por um coro de fundo. Parece que foi a canção de trabalho do disco. Foi o primeiro single. Mas não parece com a maioria de suas canções, confessionais, meio lamurientas, queixosas.

E são nas lamurientas que sua voz funciona bem e atraem pelo registro caracteristicamente negra. Não fosse a instrumentação às vezes servindo mais como recheio, Michael poderia ser um intérprete voz e violão, algo como a atualmente sumida Tracy Chapman, que funcionaria tão bem quanto.

Ouça Falling.




Lamurienta? Um pouco. Alguns acharão um pouco chato, meio “oh, céus, oh, vida!”, mas que bela voz, que lembra vagamente a de Gary Brooker, do Procol Harum, menos metálica.

No show de lamúrias de Michael, estão lampejos de beleza. Confira I’ll Never Love.




Veja também uma apresentação de Kiwanuka cantando I’ll Never Love, One More Night e Cold Little Heart.




Ouça uma das melhores. É uma das minhas preferidas: One More Night.




Ouça a música de abertura Cold Little Heart.




Veja Kiwanuka em apresentação em Amsterdam cantando Cold Little Heart. Aqui, o registro é mais despojado do que a do álbum, talvez até mais interessante por isso.




Veja-o cantando Black Man in a White World, no programa de Jools Holand.