quinta-feira, 19 de junho de 2014

Harpa no samba com Cristina Braga

Cristina Braga e sua harpa
Harpas e liras são instrumentos tão antigos que aparecem em desenhos, pinturas e baixos relevos desde a era pré-cristã. Variando de formato e tamanho, estão presentes em todos os continentes. Os primeiros registros da existência da harpa encontrados datam de aproximadamente 3.000 anos antes de Cristo.

Presença constante em orquestras sinfônicas, não existem muitos concertos para a harpa. Assim, de memória, lembro apenas de um de Mozart para harpa e flauta. Por conta dessa escassez, são raros os nomes que ficaram conhecidos por tocá-los. Um dos poucos nomes a se destacar é Nicanor Zabaleta. Gravou dezenas de discos para a Deutsche Grammophon. Por seu talento, vários compositores no século passado criaram peças especialmente para ele. Joaquín Rodrigo transcreveu seu Concerto de Aranjuez para Zabaleta, Villa-Lobos e Alberto Ginastera compuseram também.

Se é assim na música erudita, imagine-se em outros gêneros. É como alguém a tocar blues com uma gaita de fole. O incomum, no entanto, acontece. Dorothy Ashby é o melhor exemplo. Destacou-se no jazz tocando harpa. Mais inusitado ainda porque era negra. Exceção total. E não foi mera figurante. Lançou vários discos como líder, foi considerada a melhor performer em 1962 pela revista Downbeat. Outro nome é Alice Coltrane. Menos jazz, seu som é meio etéreo, música para místicos e viajandões.

Mas quem imaginaria uma harpista brasileira lançando um disco pelo prestigiado selo alemão Enja? É o que aconteceu em 2013. E nem é o seu primeiro por essa gravadora. Cristina Braga toca na Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Qualquer som de harpa que você deve ter ouvido em alguma música dos Titãs, Zeca Baleiro ou Marisa Monte, pode apostar, a possibilidade de ser de Cristina é de 99%. Isso é para dizer que ela está totalmente enfronhada na música dita popular.

Em seu Samba, Jazz and Love, Cristina está rodeado de músicos de peso como Jessé Sadoc no flugel e no trompete, Artur Dutra no vibrafone, o marido Ricardo Medeiros no baixo e Joca Moraes na bateria e percussão. Além da harpa, canta em todas as faixas, com propriedade. Lembra um pouco a de Eliane Elias, mas é melhor que ela (ôps, espero que não venham críticas, pois sempre levo paulada quando falo alguma coisa da sexy-loura-lânguida).

Tudo bem. O título é meio marqueteiro para gringo se interessar, mas o álbum recém lançado tem samba, jazz, amor e qualidade, o que é mais importante. Não é bom apenas pelo ineditismo. É bom porque o conjunto funciona. A harpa combina lindamente com o vibrafone, o flugel e o trompete se Jessé é cool, econômico e preciso, assim como a seção rítmica de Medeiros e Moraes. E é um disco muito brasileiro; não é jazz samba como em Stan Getz, atenção, é samba jazz feito com muito amor, amor hipnótico devido ao som etéreo da harpa e do vibrafone e da voz calma.

Love Parfait, numero que abre, é intimista, cantada em francês e em inglês, pura bossa, ou melhor, pós-bossa nova. A composição é brasileiríssima: são de Ricardo Medeiros, baixista e marido, com versos de Bernardo Vilhena. O Barquinho, de Roberto Menescal, é a perfeita continuação para a construção do clima. A instrumentação é econômica. Ouvimos delicadas intervenções do vibrafone de Artur Dutra e, como na primeira, o belo trumpete de Jessé Sadoc. O clima não se interrompe com Samba e Amor. Basicamente bossa nova, não poderiam faltar Desafinado e Chovendo na Roseira.

Veja Cristina o clipe de Love Parfait.




Assista ao vídeo oficial de O Barquinho.




Um dos destaques é Preciso Me Encontrar. Seria mais se Marisa Monte não tivesse gravado antes esse belo tema de Candeia.

Veja Cristina Braga e Ricardo Medeiros em Preciso Me Encontrar, de Candeia, em versão instrumental.




Mas, bom mesmo é Triste de Quem, composição do grande Moacir Santos. Ouça.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Os 150 anos de Richard Strauss e os músicos nazistas

Richard Strauss velho
Se vivo, o alemão Richard Strauss estaria completando 150 anos em 11 de junho passado. Bom, não se sabe de alguém que tenha vivido tanto. Se não fisicamente, ele está bem vivo com sua música executada e cantada em salas de concerto e nas residências dos amantes da música erudita.

É fácil falar mal dele assim como de muitos que viveram as grandes guerras do século XX, ainda mais de alemães, japoneses e italianos, no caso, os derrotados. É uma boa discussão se a arte deles deve ser menosprezada por alguns deles terem sido notórios fascistas ou nazistas. O genocídio dos judeus, não apenas pelos nazistas, e também pelos antissemitas de todos os matizes pode justificar o banimento de um compositor como Richard Wagner? Ou de um escritor como Céline? Não é fácil ser indulgente usando-se o argumento de que a arte está acima da politica. É a situação de Richard Strauss.

O grande pecado de Strauss foi ter permanecido na Alemanha no período em que Hitler estava no poder. Nunca filiou-se ao partido nazista. Joseph Goebbels, o “homem da cultura” do governo nazista, admirava a obra de Strauss, naturalmente. Apoiar o regime poderia implicar em algumas facilidades. Aceitou o posto de presidente da Kammermusikkamer. Segundo Alex Ross (O Resto É Ruído, Cia. das Letras, 2009), Strauss vivia um momento de insegurança na época da República de Weimar. Suas obras não encontravam a mesma repercussão de público. “Coincidência ou não, suas tendências políticas guinaram para a direita.” (pág. 351) Ainda segundo o autor, o jovem jornalista Samuel Wilder, que, no futuro ficaria conhecido como Billy Wilder, um dos maiores cineastas de todos os tempos, Strauss expressou sua admiração por Mussolini. Disse tê-lo encontrado mais de uma vez e compartilhavam a aversão pela arte moderna.

A convivência com os líderes nazistas, no entanto, não foi tão tranquila. Strauss não concordava com a perseguição aos judeus, a começar por um motivo caseiro: tinha nora e dois netos judeus. Estar próximo da cúpula do poder poderia ser uma forma de protegê-los. Não foi bem assim.

Strauss não compactuava com o banimento dos músicos e das obras compostas por judeus das salas de concerto. Não se conformava que a música de Mendelssohn, por quem nutria admiração, fosse proibida de ser executada, assim como a proibição sobre a obra de Gustav Mahler. Compôs uma ópera com libreto de Stefan Zweig. Teimou em fazer constar seu nome nos créditos de Die schweigsame Frau, atitude que provocou a ira de Goebbels e de Hitler. Como costuma acontecer em regimes autoritários, todo mundo fica sob supeita e a paranoia começa a guiar seus líderes. Chegou aos ouvidos das autoridades que ele e o maestro Wilhelm Fürtwangler não haviam feito a saudação tradicional em um evento público. Por esse e outros motivos fariam dele alguém não muito confiável.

Strauss vendera a alma ao diabo, algo parecido com o enredo de Mephisto, romance que Klaus Mann, escrito em 1936, e parecia que o negócio não valia tanto a pena. Aliás, os ataques virulentos ao pai de Klaus, Thomas Mann, que a essa altura, estava longe da Alemanha, serviram para fomentar ainda mais ainda a ira contra ele.

Sair ou ficar? Os maestros Arturo Toscanini, Otto Klemperer, Bruno Walter, os compositores Arnold Schoenberg, Kurt Weill, o arquiteto Walter Gropius, o artista plástico Josef Albers, Marlene Dietrich, os diretores de cinema Fritz Lang e Billy Wilder, os escritores Stefan Zweig e Thomas Mann, preferiram sair do país. Como Strauss, alguns ficaram: Wilhelm Fürtwangler, Alban Berg, Wilhelm Kempff, Karl Böhm, Elisabeth Schwarzkopf e o então jovem Herbert von Karajan. Destes, sabe-se que Berg, apesar de recusar a se encaixar na estética nazista, era ferrenho partidário de Hitler, assim como Böhm. Schwarzkopf foi outra que teve ligações mais que suspeitas, inclusive, diz-se que chegou ter um caso com Goebbels. Finda a guerra, permaneceu pouco tempo no limbo. Mudou-se para Londres, casou com o todo poderoso Walter Legge, chefão do setor de música da EMI, e sempre fugiu de comentar sobre seu envolvimento. Quem via aquela bela loura de voz sublime, muito educada, na televisão em programas musicais, jamais poderia imaginar que tivesse sido nazista de carteirinha. Aparentemente, os elos que ligavam esses músicos ao nazismo foram rapidamente esquecidos ou minimizados. Quem poderia imaginar que depois de tudo o que aconteceu na guerra um intérprete com essa mácula como Wilhelm Kempff fosse, anos depois, gravar com o judeu Yehudi Menuhim? Não é o único caso. Imagine-se Karajan ou Karl Böhm: a música é um mundo com uma presença judaica considerável.

Herbert von Karajan tornou-se o maestro mais conhecido de todos os tempos. Nunca se preocupou em desmentir os que o classificavam como nazista. Combinava bem com sua postura de todo poderoso da Berliner Philharmoniker. Quando a guerra terminou, Karl Böhm encontrava-se em Viena. Passou pelo processo de desnazificação, voltou a reger uma orquestra europeia em 1948 e tornou-se diretor musical da orquestra do Teatro de Colon, por dois anos, no país que melhor acolheu nazistas e criminosos de guerra e depois voltou para a Europa.

O fim da guerra e Strauss. Em 30 de abril, quando Hitler suicidou-se, Strauss estava morando em Garmisch-Partenkirchen, onde tinha uma casa de campo. Quando o destacamento foi à sua casa, ele se apresentou ao oficial encarregado, tenente Milton Weiss: “Sou Richard Strauss, o compositor de Der Rosenkavalier e Salomé.” Weiss, músico diletante, sabia quem ele era. Um outro destacamento, no mesmo dia, foi novamente até sua morada. Apresentou-se do mesmo modo. O major John Kramers era fã de sua música. Fincaram uma placa com os dizeres “Área Restrita”. Estava salvo. Teve melhor sorte que o dodecafônico Anton Weber, que se encontrava retirado em uma casa de campo em Salzburgo. Um soldado americano, comemorando a vitória, acertou acidentalmente Weber com um tiro.

Os anos finais. Durante o período da guerra, Strauss manteve uma espantosa produção. Viveu até setembro de 1949. Dentre essas obras, encontra-se uma maravilha chamada Vier Letzte Lieder (As Quatro Últimas Canções). Teve sua première depois de seu falecimento com a soprano norueguesa Kirsten Flagstad e Wilhelm Fürtwangler regendo a Philharmonia Orchestra, no Royal Albert Hall, Londres, em 22 de maio de 1950. Existe uma gravação de má qualidade dessa apresentação.

Nenhuma soprano que se preze não deve ter deixado de cantá-la. A gravação clássica, em minha opinião, é a da “nazista” Elisabeth Schwarzkopf, com orquestra regida por George Szell. Ouça.




Dentre as mais recentes, gosto das duas interpretações de Anja Harteros. Ouça o registro com o maestro Mariis Jansons e a Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks. Ouça o ciclo completo. O CD foi lançado em 2009. A outra gravação é de 2007, com a orquestra de Dresden e regência de Fabio Luisi.




Estrelas como Kiri Te Kanawa, Jessye Norman, Leontyne Price, Gundula Janowitz, Renée Fleming, e outras nem tanto mas intérpretes de primeira grandeza como Barbara Hendricks, Cheryl Studer, Lucia Popp, Felicity Lott, Karita Mattila, Montserrat Caballé, Deborah Voigt e Barbara Booney gravaram as Quatro Últimas Canções. Todas estão mais ou menos no mesmo patamar. Pessoalmente, gosto da suavidade da voz de Lucia Popp, a voz um pouco mais escura de Jessye Norman e a da americana Cheryl Studer com regência de Giuseppe Sinopoli. A de Booney é interessante porque é acompanhada apenas pelo piano. O problema é que a orquestração de Richard Strauss é fenomenal. É rica, colorida e crepuscular. Faz falta na versão de Booney. Frühling, September, Beim Schlafengehen e Im Abendrot tinham de ser das últimas composições de Strauss. É seu testamento..

Ouça a de Jessye Norman, com Kurt Masur regendo a Gevandhaus Orchester, Leipzig.




Veja Im Abendrot, a canção final, com Lucia Popp e regência de Georg Solti. A gravação de Popp que conheço em disco é com regência de Klaus Tennsted.




Veja a mesma canção com Renée Fleming. Como várias das citadas, há mais de um registro com a mesma intérprete com orquestras e regentes diferentes. Fleming possui uma de 1996, com Christoph Eschenbach, de 1996, e outra de 2008, com Christian Thielemann, pela Decca. Considero a primeira melhor.




Não poderia faltar a de Kiri Te Kanawa. As orquestras reagem muito bem com a energia do grande Solti. Esta gravação faz parte de um DVD maravilhoso em que, além da apresentação, tem os ensaios de Kiri vestindo agasalho de ginástica e Solti ao piano.