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| Cristina Braga e sua harpa |
Presença constante em orquestras sinfônicas, não existem muitos concertos para a harpa. Assim, de memória, lembro apenas de um de Mozart para harpa e flauta. Por conta dessa escassez, são raros os nomes que ficaram conhecidos por tocá-los. Um dos poucos nomes a se destacar é Nicanor Zabaleta. Gravou dezenas de discos para a Deutsche Grammophon. Por seu talento, vários compositores no século passado criaram peças especialmente para ele. Joaquín Rodrigo transcreveu seu Concerto de Aranjuez para Zabaleta, Villa-Lobos e Alberto Ginastera compuseram também.
Se é assim na música erudita, imagine-se em outros gêneros. É como alguém a tocar blues com uma gaita de fole. O incomum, no entanto, acontece. Dorothy Ashby é o melhor exemplo. Destacou-se no jazz tocando harpa. Mais inusitado ainda porque era negra. Exceção total. E não foi mera figurante. Lançou vários discos como líder, foi considerada a melhor performer em 1962 pela revista Downbeat. Outro nome é Alice Coltrane. Menos jazz, seu som é meio etéreo, música para místicos e viajandões.
Mas quem imaginaria uma harpista brasileira lançando um disco pelo prestigiado selo alemão Enja? É o que aconteceu em 2013. E nem é o seu primeiro por essa gravadora. Cristina Braga toca na Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Qualquer som de harpa que você deve ter ouvido em alguma música dos Titãs, Zeca Baleiro ou Marisa Monte, pode apostar, a possibilidade de ser de Cristina é de 99%. Isso é para dizer que ela está totalmente enfronhada na música dita popular.
Em seu Samba, Jazz and Love, Cristina está rodeado de músicos de peso como Jessé Sadoc no flugel e no trompete, Artur Dutra no vibrafone, o marido Ricardo Medeiros no baixo e Joca Moraes na bateria e percussão. Além da harpa, canta em todas as faixas, com propriedade. Lembra um pouco a de Eliane Elias, mas é melhor que ela (ôps, espero que não venham críticas, pois sempre levo paulada quando falo alguma coisa da sexy-loura-lânguida).
Tudo bem. O título é meio marqueteiro para gringo se interessar, mas o álbum recém lançado tem samba, jazz, amor e qualidade, o que é mais importante. Não é bom apenas pelo ineditismo. É bom porque o conjunto funciona. A harpa combina lindamente com o vibrafone, o flugel e o trompete se Jessé é cool, econômico e preciso, assim como a seção rítmica de Medeiros e Moraes. E é um disco muito brasileiro; não é jazz samba como em Stan Getz, atenção, é samba jazz feito com muito amor, amor hipnótico devido ao som etéreo da harpa e do vibrafone e da voz calma.
Love Parfait, numero que abre, é intimista, cantada em francês e em inglês, pura bossa, ou melhor, pós-bossa nova. A composição é brasileiríssima: são de Ricardo Medeiros, baixista e marido, com versos de Bernardo Vilhena. O Barquinho, de Roberto Menescal, é a perfeita continuação para a construção do clima. A instrumentação é econômica. Ouvimos delicadas intervenções do vibrafone de Artur Dutra e, como na primeira, o belo trumpete de Jessé Sadoc. O clima não se interrompe com Samba e Amor. Basicamente bossa nova, não poderiam faltar Desafinado e Chovendo na Roseira.
Veja Cristina o clipe de Love Parfait.
Assista ao vídeo oficial de O Barquinho.
Um dos destaques é Preciso Me Encontrar. Seria mais se Marisa Monte não tivesse gravado antes esse belo tema de Candeia.
Veja Cristina Braga e Ricardo Medeiros em Preciso Me Encontrar, de Candeia, em versão instrumental.
Mas, bom mesmo é Triste de Quem, composição do grande Moacir Santos. Ouça.

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