quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Tom Jobim e as mulheres

Ao colecionador importa ter. Seu prazer reside na posse. O grupo Folha lançou uma série de CDs de Antônio Carlos Jobim. É um “complete” dele. São em formato de um livrinho, com capa dura. Saem do padrão dos “jewel box”, o que dificulta guardá-los com o restante de nossos CDs.

Marina Lima é o destaque de Tom no Feminino
Pelo fato de ter todos os álbuns originais lançados, não existiria razão de adquiri-los. Completando a coleção editada pela Folha, montaram duas coletâneas: Tom no Feminino e Tom no Masculino. Voltando à história do colecionador, basta haver alguma interpretação que ele não tenha e, lá vai ele aumentar a sua CDteca.

Em Tom no Feminino estão intérpretes ligados ao repertório bossanovista como Sylvia Telles, Dolores Duran, Joyce e Leila Pinheiro. Até aí, tudo bem: você as conhece. Outras, certamente, você não comprou aquele CD só porque tem uma música do Jobim. São essas as que interessam. Como, por exemplo, Elza Soares cantando Só Danço Samba, Teu Castigo, por Dalva de Oliveira. Alguém conhece? É uma gravação de 1955, com arranjo do próprio Jobim, antes da explosão da bossa nova. O compositor era contratado da gravadora EMI como arranjador.

Tenho Teu Castigo em uma caixa com quatro CDs com o melhor de Dalva, lançado especialmente como brinde que a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) distribuiu aos seus fornecedores. Brindes são uma coisa estranha, pois quem os recebe nem sempre se contenta. É pior do que presente. Por essa razão tenho a caixa. Quem ganhou não gostava nem um pouco de Dalva de Oliveira. O mesmo aconteceu com uma caixa especial com quatro discos essenciais de Clementina de Jesus, distribuída pela Petrobras, que o amigo e jornalista da Empresa, Carlos Grandin, na época em que fora distribuída, me arrumou.

Outra que poderia ser considerada “não bossa nova”, apesar de, ironicamente ser a intérprete de um dos primeiros álbuns “bossa nova”, o clássico Canção do Amor Demais, pelo pequeno selo Festa, com arranjos de Jobim e participação de João Gilberto, é Elizete Cardoso. No projeto inicial, o jornalista Irineu Garcia, que fundou a Festa para gravar poetas brasileiros, queria Dolores Duran, amiga de Vinícius de Moraes e de Tom. Ela não deu muita pelota porque não queria dividir parcerias alheias, já que era compositora também. Elizete era contratada do selo Copacabana, importante gravadora na época, mas depois de uma negociação, foi a escolhida. João Gilberto, que tocaria violão nas gravações, não gostou da escolha: detestava o vibrato da cantora. Terminou por topar. Canção do Amor Demais, com tiragem inicial de 2 mil exemplares, tinha tudo para virar encalhe. Aconteceu o contrário. Virou raridade disputada por colecionadores. O disco de Elizete precede ao lançamento de Chega de Saudade, em disco 78 rpm, de João Gilberto, que é considerado o marco inicial da bossa nova. Na coleção da Folha, a faixa escolhida foi Aula de Matemática, que não faz parte de Canção do Amor Demais.

Capa do LP de Norma Bengell, lançado em 1959
Além de Sylvia Telles, Elza Soares, Elizete Cardoso, Leila Pinheiro, Dolores Duran e Dalva de Oliveira, foram incluídas Nana Caymmi, com Derradeira (boa), Doris Monteiro, com Lamento do Morro (com a autoridade de quem tinha um suíngue incrível), Insensatez por Joyce (dispensável), Meditação, com Maysa (seu estilo combinava melhor com outros gêneros), e um competente, como sempre, Retrato em Branco e Preto de Alaíde Costa. Os destaques são, pela qualidade e pela peculiaridade, Eu Sei Que Vou Te Amar (Norma Bengell), Sabiá (Clara Nunes) e O Que Tinha de Ser (Marina Lima).

Norma Bengell gravou um disco – Ooooooh! Norma – em 1959, muito bom. Gravou outros, mas este é o melhor. A capa é um deslumbre. Aproveitaram a onda e Norma faz um estilo sensual de cantar, meio Julie London. Fora do Brasil, estrelas que faziam o gênero “pin-up”, como Brigitte Bardot e Marilyn Monroe também gravaram seus discos. Além de Bengell, outra atriz se aventurou pela música. Odette Lara canta uma versão matadora de Samba em Prelúdio, em Vinícius e Odette Lara, lançado em 1963 pela Elenco.

O maior destaque é Eu Sei Que Vou Te Amar, com Marina Lima. É uma intérprete maior: imprime seu estilo, como sempre. Esta canção está em Abrigo (1995). No mesmo disco, canta também, de Jobim, Samba do Avião.


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Ouça – não está no CD lançado pela FolhaGarota de Ipanema. É outra grande leitura de Marina Lima.

 
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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Notícia velha: Rita Reys morreu

Donald Byrd, Hank Mobley e Rita Reys
Em um espaço de 5 x 9,7 cm sai a notícia de que Rita Reys morreu. Está no caderno de variedades do Estadão do dia 30 de julho. Alguém sabe quem era ela? Típica nota para preencher um espaço. Nem dizem que morreu dois dias antes: 28. A notícia é da agência espanhola EFE. Fico tentando imaginar a importância desse fato.

Importante ou não, fato é que Rita Reys morreu, aos 88 anos. Tivera um câncer em 1985. Recuperou-se e até pouco tempo atrás estava na ativa. Bom, como eu sei desses fatos sobre Rita? Fui dar uma pesquisada. O máximo que conheço dela são dois discos: The Cool Voice of Rita Reys e Congratulations in Jazz. Se Ella Fitzgerald era a “first lady of jazz”, Rita, nascida em Roterdam, Holanda, um dia foi chamada de “primeira dama do jazz da Europa”.

Não há nada de especial em um título como “The cool voice of…”, mas foi o que despertou-me a curiosidade. Senti atração pela capa: uma moça de vestido verde tendo ao lado um prato e tambores de bateria em seus “cases”, além de um pequeno detalhe: “recorded in the united states with The Jazz Messenegers”. Bom, com os “messengers” do baterista Art Blakey. Ah, existe um por quê das peças de uma bateria “para viagem”. Não é preciso muito para que minha curiosidade se atiçe.

A Holanda, apesar de ser um país pequeno, possui certa tradição jazzística. Decerto, nem tanto quanto a Grã Bretanha, França e Dinamarca. Andou a cantar por alguns lugares da Europa. Georgs Avakian, produtor da Columbia convidou-a a conhecer os Estados Unidos. Foi. Gravou parte de The Cool Voice of Rita Reys com Blakey, Hank Mobley, Donald Byrd e Horace Silver. A outra parte foi na Holanda com a The Wes Ilcken Combo. Cantou com Zoot Sims, Jimmy Smith, Chico Hamilton, Herbie Mann, Oscar Pettiford e Clark Terry, todavia, em virtude da morte do marido em um acidente aquático, preferiu seguir carreira no continente natal para poder ficar perto do filho pequeno.
 
Rita tinha um atributo essencial a um bom intérprete de jazz: suingue. Confira.

Ouça That Old Black Magic. A gravação é de 1965, com o Trio Pin Jacobs.


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Ouça But Not for Me, de The Cool Voice of Rita Reys.

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Veja Rita cantando It Could Happen to You com a orquestra de Oliver Nelson.