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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

“All of Me”, do jeito que o capeta gosta

“All of Me” vira reggae, com Nnenna Freelon
Não sei precisar a data da canção considerada como primeiro standard do cancioneiro americano. Sei que “Alexander’s Ragtime Band”, primeiro hit de Irving Berlin, foi lançado em 1911. Nascido Israel Isidore Baline, na Rússia, quando emigrou para os Estados Unidos e foi morar em Nova York, nem tinha cinco anos, portanto, de sua terra natal não deve lembrar-se de nada. Teve apenas a herança da cultura da família de origem judaica.

Mais de um século depois, muitos dos standards que ouvimos e admiramos até hoje, são pouco mais novos que “Alexander’s Ragtime Band”. Aliás, Berlin é responsável por uma penca desses clássicos. Apenas para citar, são dele “Let’s Face the Music and Dance”, All By Myself”, “How Deep Is the Ocean”, “Puttin’ on the Ritz”, “Lazy”; “Isn’t This a Lovely Day”, Always”, “Remember”, “Change Partners” e “Cheek to Cheek”. E isso não representa nem 10% do que compôs. É um dos “great american composers”, no qual incluem-se Cole Porter, Richard Rodgers, George Gershwin e Duke Ellington. Outros, com menos clássicos no portfólio, como Burt Bacharach, Henry Mancini, Stephen Sondheim, não podem deixar de ser citados. Alguns são autores de um sucesso só e basta. Acho que é o caso de Gerald Marks e Seymour Simons, autores da belíssima “All of Me”, gravada pela primeira vez em 1939. Quem não conhece?

É tão popular que até mereceu uma versão em português, de autoria de Haroldo Barbosa, conhecida como “Disse Alguém”. Quem ouviu “Brasil” (WEA, 1981), álbum que reuniu Caetano Veloso, Gilberto Gil e João Gilberto, conhece.

Melodia simples e letra banal, foi cantada por todo mundo, incluindo Billie Holiday, Dinah Washington, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Frank Sinatra, e até por Eric Clapton e Paul McCartney. Simplesmente, não há um grande intérprete que não a tenha cantado ou tocado.

Pressupondo que o mundo a conhece, vale a pena conhecer interpretações diferentes, como a com o balanço irresistível de João Donato.




E, por que não em ritmo de reggae, com Nenna Freelon? Não é, Xico Guedes




Ouça a versão em português com João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Trio genial.



Uma versão clássica é a de Dinah Washington. Esta é de uma apresentação no Festival de Newport, em 1958.



quinta-feira, 7 de julho de 2016

O melhor dos mundos de Stan Getz e João Gilberto

No início dos anos 1960, Stan Getz era um músico com uma boa discografia e prestígio. Em 1943, estava tocando na orquestra de Jack Teagarden, portanto já era um veterano. Passou logo depois pelas bandas de Benny Goodman e Woody Herman. Nesta, ficou conhecido como um dos ‘four brothers”, com Serge Chaloff, Zoot Sims e Herbie Steward.

Como experiência de vida, em 1954, passou pela cadeia ao tentar roubar morfina em uma farmácia. Casamento desfeito, logo estava casado com a sueca Monica Silfverskiöld. Na nova vida, talvez para distanciar-se do ambiente das drogas, mudou-se com a mulher para Copenhagem. Teve dois filhos com ela e outro com a amiga Inga Torgner. Monica era compreensiva. Ela o amava. A Europa era boa com os músicos americanos expatriados. Stan sempre tinha um lugar para tocar.

No meio de tantos negros bons que tocavam em velocidades supersônicas, Getz era um judeu branco, bom também, mas não do bebop. Gostava da suavidade de Lester Young. No início dos anos 1960, não estava nem aí com a emergente bossa nova. O produtor Creed Taylor, sempre do olho nos dólares, pretendia gravar um álbum de bossa nova com o guitarrsta Charlie Byrd e precisava de alguém de renome para maior apelo comercial. Getz aceitou o convite um pouco por favor a Taylor. Jazz Samba ficou em primeiro nas paradas da Billboard e o saxofonista ganhou um Grammy pela melhor interpretação em jazz com Desafinado no ano seguinte. Fez pouco caso: mandou a mulher Monica para receber o prêmio. Uma observação: era um favor a Taylor, mas era uma oportunidade de ganhar alguns dólares. Alguns vícios são dispendiosos e ele devia impostos para o governo da Dinamarca.

Dinheiro não aceita desfeita e Getz como bom judeu, sabia disso. Percebeu que podia ganhar um bom dinheirinho, como diria Tom Jobim, e abraçou a bossa nova. No reboque do sucesso do primeiro, gravou Getz/Gilberto, com participação de Jobim, João Gilberto e Astrud Gilberto, na época mulher do cantor violonista. Disse a Astrud que faria o disco se ela fizesse uma mescla de canções cantadas em português e inglês. O sucesso foi mais estrondoso ainda e ganhou mais um Grammy, e mais dólares. Resultado: quando precisa de algum, lembrava-se logo de João Gilberto e sua turma. No total foram quatro álbuns bossa nova pelo selo Verve.

João
Histórias sobre as esquisitices de João Gilberto são abundantes e até folclóricas. Desde sua mudança para o Rio de Janeiro, nunca pagou aluguel. Baixava na casa de alguém pedindo morada por algumas semanas até arrumar um lugar em definitivo. As semanas viravam meses, até ser expulso. Daí, arrumava outro amigo que pudesse acolhê-lo. Outra conhecida é a de que, em certa ocasião, quando fazia um show, um espectador, no fim da apresentação, disse ter ficado impressionado com a sonoridade do violão. João deu-lhe de presente. Detalhe: não era seu.

Ao passar a morar em Nova York, como lá não tinha amigos, provavelmente, teve que pagar aluguel, pela primeira vez na vida. Também, dinheiro não lhe faltaria daí em diante. A fama de esquisitão e de cantor genial atravessou o oceano. Excursionou pela Europa, morou no México, apresentou-se por duas vezes em O Fino da Bossa, comandado por Elis Regina.

Depois dos álbuns iniciais lançados apenas no Brasil e os do mercado americano, não gravou mais nada nos anos 1960. Apenas em 1973, iria lançar o que ficou conhecido como o “album branco de João”, pela Polydor. Getz deve ter pensado: “João significa… dólares”. Em 1976, estavam novamente no estúdio, com uma diferença: Astrud Gilberto tinha virado “persona non grata”. Em seu lugar, entrou Miúcha, a nova mulher de João.

O título do álbum – The Best of Two Worlds – era perfeito para o reencontro. É um dos grandes discos da discografia de Getz, e de João, também. Um dos solos mais belos do saxofonista é o do início de Ligia. Miúcha está perfeita em Just One of Those Things, e João é genial na divertida Izaura, de Herivelto Martins, e em É Preciso Perdoar, de Alcivando Luz e Carlos Coqueijo Costa. Quarenta anos depois, o álbum soa tão bom quanto em sua primeira audição.

Ouça Ligia.




João ’76
Não deve ter sido fácil convencer João a sair do apartamento. Getz queria promover o álbum lançado pela Columbia. Se por necessidade ou prazer, isso pouco importa, mas fizeram algumas apresentações, que aconteceram entre 11 e 16 de maio de 1976 no Keystone Korner, em San Francisco.

George Klabin, fundador da organização sem fins lucrativos Rising Jazz Stars Foundation, resolveu criar uma gravadora com a intenção de lançar registros inéditos de nomes importantes da história do jazz. Já estão disponíveis CDs de Larry Young (In Paris: The ORTF Recordings), Thad Jones and Mel Lewis Orchestra (All My Yesterdays), Bill Evans (The Lost Tapes from the Black Forest), e Stan Getz e João Gilberto (Getz/Gilberto ’76), dentre outros.

Na introdução, Getz diz o quanto aquele encontro é especial pelo fato de João, com sua voz cálida, sem vibratos ser um cara único e também por ele ser resiliente em apresentar-se. Fim de papo. O resto é música. Acompanhados por seu quarteto da época, com Joanne Brackeen ao piano, Clint Houston no contrabaixo, e Billy Hart na bateria, o protagonismo é do brasileiro e do saxofone tenor. Quase não se ouve o piano de Jonne, por exemplo.

Das onze músicas do álbum, descontado o bis, que é repetido, cinco são de The Best of Two Worlds. Extraídas de registros em fitas cassete, até que a qualidade sonora é razoável. Em termos de performance, o álbum em estúdio é superior, mas como Getz frisa no início, uma apresentação ao vivo de João é um acontecimento especial.

Ouça É Preciso Perdoar, de The Best of Two Worlds.




Leia mais sobre João Gilberto:
Estate, João Gilberto, USP 1977
Besame Mucho: o primeiro de um milhão de beijos.

Leia mais Stan Getz:
Nós que não gostávamos tanto de Stan Getz
Dias chuvosos e “Here’s That Rainy Day”

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Estate, João Gilberto, USP 1977

Parece – digo “parece” porque reconto algo de alguém que ouviu de outrém e, assim por diante – que a história é a seguinte: o cantor, pianista e compositor italiano Bruno Martino abrira um show de João Gilberto na Itália. Impressionado com uma das músicas que ouvira, mais tarde, procurou-o. Conversaram e passaram várias horas até João decorar a harmonia e a letra dela. Chamava-se Estate.

Depois de alguns anos sem gravar, João lançou, em 1973, o álbum Amoroso. Sucesso imediato. Eu e meus amigos corremos às lojas para comprá-lo. Tornou-se o disco de cabeceira de muitos de meus colegas da USP. Falávamos só dele. A piada que fazíamos era a de que João Gilberto era a única pessoa que tinha o direito de dizer “besame mu(n)cho”. Não estávamos loucos não, apesar da maconha que corria solta no campus da USP e no bosque da Biologia, outrora aberta e não cercada como agora. Prestem atenção: ele canta “muncho”.

A primeira música já era um choque: um ‘S Wonderful, de George e Ira Gershwin, num ritmo bossa nova “nunca dantes” ouvido, na orquestração delicada do alemão Claus Ogerman. A segunda também era uma novidade: João cantando em italiano Muito estranho. Conhecíamos, “sabidos” que éramos, como a maioria dos jovens recém-saídos da adolescência, João Gilberto en Mexico, conhecido também como Farolito, álbum em que cantava em espanhol Farolito, Bésame Mucho e Eclipse, do grande Lecuona.

Ouça Bésame Mucho, gravada no México.




Pois então, a América descobriu Estate. Existem várias gravações cantadas disponíveis nos sites de vendas de CD. Conheço a de Roseanna Vitro, a de John Pizzarelli, de Susanne McCorkle, de Carla Cook, e a melhor, a de Shirley Horn. Sua interpretação é brilhante. Lenta, quase parando, como sói cantar, cada sílaba é um pedaço de uma bela arquitetura que vai se erguendo. Ironicamente, a italiana Caterina Valente gravou-a em inglês sob o nome de Maybe This Summer. No mercado americano é conhecida pelo seu nome original ou por Summer.

Existem muitas versões instrumentais: a do pianista francês Michel Petrucciani, a da suave harmônica do belga Toots Thielmans, de duas gravações do baixista “dançarino” Ray Brown, a do baixista Richard Davis com o estupendo piano de John Hicks e a da pianista JoAnne Brackeen. Considero, no entanto, a mais bonita e poética a do vibrafonista Bobby Hutcherson numa gravação ao vivo no Village Vanguard.

Confira.




Para quem quiser ouvir o Estate em sua língua nativa, importem urgentemente o último CD de Roberta Gambarini, So in Love. Tem também um da brasileira Eliane Elias, que depois do sucesso de Diana Krall resolveu também cantar. Olhe, não estou falando mal dela, não!

Ouça Estate com Roberta Gambarini, em apresentação ao vivo, com o grande trompetista Enrico Rava.




Relaciono a seguir os álbuns citados:
João Gilberto: Amoroso
Shirley Horn: I Thought About You e Here’s to Life (é deste a melhor interpretação, fora a do nosso João Gilberto)
Roberta Gambarini: So in Love
Carla Cook: Simply Natural
Eliane Elias: Bossa Nova Stories
Roseanna Vitro: Softly
John Pizzarelli: Bossa Nova
Susannah McCorkle: Sabiá
Michel Petrucciani: Estate
Ray Brown: Live at Scullers
Richard Davis & John Hicks: Homage to Diversity
JoAnne Brackeen: Take a Chance
Bobby Hutcherson: In The Vanguard