Acompanhar cantores é uma arte. Os mestres de todos os tempos são Hank Jones e Tommy Flanagan, que acompanharam Ella Fitzgerald. Não só mestres como acompanhantes, possuem belíssimos discos como líderes. Na música erudita acontece uma coisa bem parecida. Gerald Moore e Geoffrey Parsons passaram a vida acompanhando Dietrich Fischer-Dieskau, Elisabeth Scharzkopf, e outros cantores líricos. Pouco se sabe de gravações deles como solistas; confesso desconhecer. Alguns como Radu Lupu, Edwin Fischer e Walter Gieseking transitaram nos dois modos, mas foram ou são, basicamente, virtuoses. É um pouco o caso do húngaro Georg Solti, grande maestro e ótimo pianista “acidental”. Daniel Barenboim fez o caminho inverso: de pianista, constrói uma carreira belíssima como regente. Tem Vladimir Ashkenazy. É bom parar por aqui: a lista seria interminável.
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| Hobgood, e Kurt Elling em segundo plano |
Não é fácil a vida de “segundo” do melhor cantor de jazz. Por melhor que seja, fica em plano… secundário. Mas, aproveitando o ditado de que “ao lado de um grande homem sempre há uma grande mulher” – à mercê de certo chauvinismo e um tanto de misoginia –, um bom pianista só valoriza o bom cantor; Tony Bennett que o diga. E é o caso de Hobgood.
When The Heart Dances (2009) é o terceiro disco que grava como líder. Conta com a participação de Charlie Haden e de Kurt Elling, que canta First Song, Stairway to the Stars (estupendo, cantado em “marcha lenta”), e a ellingtoniana Daydream. Haden é perfeito nos duos piano/baixo. Gravou nesse formato com Denny Zeitlin, Keith Jarrett, Egberto Gismonti, Chris Anderson e Hampton Hawes.
Que Sera Sera ficou um pouco estigmatizada pela forma como foi inserida em O Homem Que Sabia Demais (1956), filme de Alfred Hitchcock. Para quem não lembra, Doris Day e James Stewart formam um casal que tem o filho raptado no Marrocos. Com direito a muito suspense, Whatever Will Be, Will Be (Que Sera Sera) serve de gancho para encontrar o menino. Ele reconhece a voz da mãe, e assim é localizado. A canção vendeu milhões de cópias e amealhou o Oscar de Melhor Canção do Ano. A bela composição de Jay Livingstone e Ray Evans – tem um “quê” de kitsch – marcou bastante Doris que, além de boa atriz – apesar do estigma de “casal perfeito” de tantos filmes “água com açúcar” em dupla com Rock Hudson –, era ótima cantora. Não é casualidade o escritor e jornalista Ruy Castro tê-la incluído no livro Saudades do Século XX (Companhia das Letras, 1994) como uma de suas protagonistas.
Pois é com Que Sera Sera que Hobgood abre o disco. É um belíssimo solo de piano. Como líder, ele tem espaço para mostrar o quanto é bom em construir arquiteturas ricas em melodia e harmonias sofisticadas. E não é uma replicação do estilo de pianistas mais assemelhados ao seu estilo, como Keith Jarrett e Bill Evans. Suas interpretações são líricas e intensas. É o que você irá constatar em The Cost of Loving, composição de Don Grolnick.
É correta a constatação de R. J. DeLuke, colunista do All About Jazz: “O por quê de, ele não ser mais conhecido é, provavelmente, uma combinação de fatores no instável e esquizofrênico mundo do show business.”
Ouça o piano de Hobgood acompanhando Elling em My Foolish Heart.
