sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Novo Arcade Fire

Tem um monte de gente esperando o dia 9 chegar. É o dia da chegada do último CD do Arcade Fire. Enquanto isso ouço Funeral, na minha opinião, melhor que Neon Bible. Tem uma música aí no tocador: Neighborhood #3 (Power out). Bom fim de semana.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Os 75 anos de Joe Zawinul

À guisa das muitas críticas ao que se convencionou chamar de jazz fusion, esse movimento representou um avanço na exploração da linguagem da música. Depois da ressaca dos “excessos eletrônicos”, voltou-se a valorizar o acústico no jazz. A verdade é que uma coisa não anula a outra. Desconfie-se sempre desses movimentos massivos em direção a “algum lugar” e, pronto. Cheira a certo fascismo do gosto. Felizmente, esse retorno ao acústico, que teve como um de seus agentes Wynton Marsalis, não vingou totalmente. Inclusive na própria família. Seu irmão Branford tocou com o “pop” Sting e, paralelamente às gravações com sua banda de jazz, montou o Buckshot LeFonque, no qual incorporava as novas linguagens da música popular.

Há algo de mercadológico nessas “imposições” que acontecem de tempos em tempos. Estrategistas de mercado valorizam uma onda quando a outra satura. No caso da música erudita, por exemplo, as gravadoras inundavam as lojas de gravações de Bach. Aí, passavam para Bach, Beethoven, Vivaldi, e assim por diante. Tinha o ano de Mahler, o ano de Bruckner etc.

Desconsiderar o jazz fusion ou o jazz-rock, como também foi chamado, é ver com um olho só. Na evolução dessa música, a onda foi ser swing, em outra bop, free ou third stream, em cada momento histórico, houve a predominância de uma tendência. O elétrico pode conviver com o acústico muito bem. Considerar que voltar-se para o som acústico é manter o jazz “puro”, ou é fascismo – esperteza de alguns –, ou burrice mesmo. Herbie Hancock é um dos bons exemplos de como a música abarca tudo: desde o erudito – parceria com a cantora Kathleen Battle –,  ao pop – em disco-tributo à folk Joni Mitchell –, ou ao eletrônico, como no projeto Future 2 Future, em que explora a música eletrônica, mesclando elementos do jazz com o rap, inclusive até no formato mais “mainstream”, tocando com seus antigos companheiros da banda de Miles Davis, o “culpado” de toda essa história ter começado.

O grande Zawinul
Gerações que cultuaram Miles Davis como um dos deuses do jazz passaram a odiá-lo quando incorporou instrumentos elétricos na música. Impressionado com Jimi Hendrix e o “funky” Sly and The Family Stone, suas experimentações eletrônicas culminaram com a gravação de Bitches Brew, em 1969. A ironia é que Herbie Hancock, membro regular de sua banda desde 1965, resistiu inicialmente em tocar piano elétrico quando Miles propôs. O “resistente”, pelo jeito, depois, gostou. A história “Caras” da parceria Miles/Hancock aconteceu em 1968. Hancock casou-se e foi passar a lua de mel no Brasil. Sob o pretexto de ter voltado tarde, foi demitido pelo líder Miles. Mesmo assim, ocasionalmente, Hancock acompanhou-o. Com a banda montada depois do “bilhete azul”, em 1974, Herbie gravaria um dos clássicos do fusion, o Headhunters. Nesse álbum, toca toda espécie de teclados eletrônicos, acompanhado de Bennie Maupin no sax, flauta, clarineta baixo e saxello, Paul Jackson no baixo elétrico, Harvey Mason na bateria e Bill Summers na percussão.

Outro protagonista é Joe Zawinul. Ele, um pianista de formação clássica, austríaco de nascimento, depois de ter estudado no Conservatório de Viena, ganhou uma bolsa na prestigiada Berklee College of Music, em Boston. Ficou pouco tempo. Logo caiu na estrada acompanhando Maynard Fergunson, Cannonball Adderley, Ben Webster, Dinah Washington e Ella Fitzgerald. Passa a tocar com Miles e, depois de sair, montou uma banda que faria história. Juntou-se ao saxofonista Wayne Shorter, ao baixista Miroslav Vitous, ao percussionista brasileiro Airto Moreira e ao baterista Alphonso Mouzon  e lançaram, em 1971 o primeiro álbum do Weather Report. Menos de um ano depois sairia I Sing the Body Electric – título “roubado” de um livro do escritor de ficção científica Ray Bradbury que, por sua vez, tinha se apropriado de um verso do poeta americano Walt Whitman. Nos anos seguintes, lançariam o “funky” Sweetnighter (1973) e Mysterious Traveller (1974). Com de milhões de fãs, a essa altura, viram esse contingente se ampliar com a entrada de Jaco Pastorius. Foi o auge. Depois da saída do baixista

Poucos são os privilegiados de terem sido artífices de revoluções ou reviravoltas na música. Zawinul é um deles. Depois da dissolução do Weather Report continuou radicalmente “elétrico”. Ex-tecladistas que participaram da banda de Miles, como Herbie Hancock e Chick Corea, alternam-se entre o elétrico e o acústico. Keith Jarrett, de breve passagem pela banda do trumpetista, em sua carreira solo, tocou piano elétrico em Ruta & Daitya, duo com o baterista Jack DeJohnette, e depois, nunca mais. Zawinul, pelo contrário, não só abraçou a “eletricidade”, como foi um eterno experimentador de suas possibilidades.

Aos 75 anos, morreu de câncer de pele em Viena, cidade onde nasceu. Mas, até o fim esteve no palco, inquieto e experimentador. Nos tempos do Weather Report, junto de Wayne Shorter, não apenas aventuraram-se pelas experiências elétricas, como também incoroporando influências musicais étnicas. O brasileiro Airto Moreira e sua percussão representaram essa abertura à música global, assim como Dom Um Romão, Alex Acuña e Manolo Badrena. Na última formação de seu Zawinul Syndicate, a “legião estrangeira” se compunha de dois brasileiros – o guitarrista, vocalista e percussionista catarinense Alegre Corrêa e Jorge Bezerra, “vindo diretamente da favela de Mangueira” nos vocais e percussão –, Linley Marthe, das Ilhas Mauritius, Aziz Sahmaoui, do Marrocos, o baterista Paco Sery, da Costa do Marfim, e Sabine Kabongo, do Congo. Aconteceu um tour pelo natalício de Zawinul, que ficou registrado no CD duplo 75th. Estão lá alguns clássicos dos tempos do Weather Report e composições mais recentes dos membros da banda. Uma curiosidade é Clario (imagino que seja Clariô; esqueceram do acento, coisa que costuma acontecer em discos estrangeiros quando grafam erradamente os nomes latinos), em que Corrêa canta sua composicão com direito até a um improviso à la João Bosco. Não falta também um “happy birthday to you” cantado pela congolesa.

O último disco de Zawinul serve como amostra para uma evidência: ele era o cérebro do Weather Report, apesar da coliderança com Wayne Shorter. Esse tecladista, considerado o melhor do ano por trinta vezes pela revista Downbeat, foi quem moldou essa fusão étnica/eletrônica, realmente. O álbum 75th representa a síntese da música de uma das mais importantes personalidades do jazz.

Veja e ouça a apresentação do Zawinul Syndicate tocando o meddley Badia/Boogie Woogie Waltz, duas composições representativas do Weather Report, em Lugano.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Um gigante chamado Michel Petrucciani

Quis o destino que Michel Petrucciani nascesse com algo chamado osteogenesis imperfecta (conhecida como doença de Elkman-Lobstein ou “ossos de vidro”) e, ao mesmo tempo, com imenso talento. Essa enfermidade causada pela ausência de colágeno ou insuficiência de sintetizá-la faz com que seus portadores estejam sujeitos a fraturas ósseas, causando vários problemas no crescimento, quando sobrevivem a ela, além de terem o sistema respiratório comprometido.

Filho de uma família de músicos, interessou-se pelo piano e, apesar da formação clássica, voltou-se ao jazz, seu primeiro interesse. Começou a se apresentar publicamente aos treze anos e com vinte mudou-se para os EUA e construiu uma carreira sólida ganhando, rapidamente, renome internacional. Ter menos de um metro de altura e pouco mais de 20 quilos não foram empecilhos para seu desenvolvimento como pianista. Petrucciani tocava em um piano normal com a diferença de ter os pedais adaptados para que pudesse alcançá-los.

Tocou com Dizzy Gillespie, Gerry Mulligan, Joe Lovano, o baixista Eddie Gomez, e os bateristas Roy Haynes, Al Foster e Lenny White. Contratado da Blue Note Records dois CDs se destacam: Live at The Village Vanguard (1984), em que foi acompanhado por Palle Danielsson e Eliot Zigmund, e Power of Three (1987), com o guitarrista Jim Hall e o saxofonista Wayne Shorter.

Dono de um estilo, ao mesmo tempo, lírico e “musculoso” deixou em discos e vídeos o registro de seu talento prporcionalmente inverso ao seu tamanho físico. Um deles, Live at The Village Vanguard, em que Jim Hall participa, saiu pela Unicorn e está disponível no mercado americano. O outro saiu pela sua última gravadora, a Dreyfus Jazz, em que, além de um concerto com o baixista Anthony Jackson e o baterista Steve Gadd, há um documentário protagonizado por ele, chamado Non Stop Travels. Por essa gravadora, em 1994, os destaques são um CD com o organista conterrâneo Eddy Louis e uma apresentação ao vivo no Teatro de Champs-Élysées, de 1994, ocorrido cinco anos antes de sua morte prematura, aos 36 anos, vítima de infecção pulmonar. Nesse álbum duplo há uma belíssima versão do clássico Besame Mucho. Ouça.


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O samba que vem Das Neves

De duas ou três coisas que sei de Wilson das Neves, uma é a de que, segundo Chico Buarque, é muito bom de papo; sempre tem uma história para contar. A outra é que, além de baterista, compõe e canta. Em 1997, lançou o álbum O Som Sagrado de Wilson das Neves com músicas próprias em parceria com Paulo Cesar Pinheiro e Chico Buarque. Tocou bateria e percussão com todo o primeiro time da MPB, de Elza Soares – com quem gravou Baterista: Wilson das Neves, em 1968 –, Beth Carvalho, Chico Buarque, Elizeth Cardoso, Clara Nunes, a Michel Legrand e o gaitista Toots Thielmans. Acaba de ser lançado o CD Pra Gente Fazer Mais Um Samba. Aos 73 anos, continua a toda e diz em matéria de O Estado de S. Paulo, que é fácil fazer samba.

A Livraria Cultura tem promovido lançamentos exclusivos, disponíveis apenas em suas lojas, DVDs e CDs. As escolhas musicais estão a cargo de Charles Gavin, mais conhecido por ter sido baterista dos Titãs. Mas, nos últimos anos, tem feito um trabalho muito bom de organizar relançamentos de discos há muito fora de catálogo. Fez isso com o acervo da EMI-Odeon e, agora, para a Livraria Cultura. Do primeiro pacote, faz parte o disco de Os Ipanemas (1964), conjunto em que o destaque é o trombonista Astor Silva. Pronuncia-se “Astôr”, e não “Ástor”. Belo disco.

De Os Ipanemas, ouça Consolação, clássico “afro-samba” de Baden Powell e Vinícius de Moraes. E preste atenção no trombone de Astor.






A batida inconfundível “samba-jazz” é exclusividade dos brasileiros. Não existe um baterista estrangeiro com o balanço deles. Ouça o Sr. Das Neves acompanhando Elza Soares em Deixa Isso pra Lá. Absurdo!