No texto sobre “Solo a Genoa”, inicio tecendo comentários sobre um estudo do Instituto Max Planck, sobre as diferenças da atividade cerebral do pianista que toca música erudita e o jazz. Este último tem a facilidade de improvisar sobre um tema, ao contrário de um virtuose como Nelson Freire ou Maurizio Pollini, muito mais focados na precisão e destreza para executar partituras complexas de um Schumann ou um Beethoven.
Não existem fronteiras, no entanto, quando se trata de música. Assim, autores eruditos como Gustav Mahler e Béla Bartók, inspiraram-se em temas folclóricos para as suas composições, a música popular se alimenta de formas mais e menos sofisticadas.Nos dias hoje, músicos de bandas conhecidas, como o Radiohead, The National e Arcade Fire, Jonny Greenwood, Bryce Dressner, Richard Reed Parry e Sarah Neufeld, têm desenvolvido trabalhos considerados crossover. Antes deles, bem antes, ouvimos várias bandas, classificadas como progressive rock ou art rock, que flertaram com a música erudita.
Na arte sem fronteiras, com o jazz é a mesma coisa. O movimento mais conhecido por incorporar elementos da música clássica chamou-se “Third Stream”, idealizado por Gunter Schuller. John Lewis, líder do Modern Jazz Quartet, fez algo semelhante, em razão, principalmente, por sua devoção ao compositor Johann Sebastian Bach. Em tempos atuais, pode-se citar Cyrus Chestnut, que acaba de lançar “Kaleisdoscope”, dedicado quase que todo ao francês Erik Satie. Aliás, é um dos preferidos dos que incorporam temas dos clássicos, como seus conterrâneos Maurice Ravel e Claude Debussy. Outro pianista que tem um álbum interessante abordando o repertório clássico é Steve Kuhn, em “Pavane for a Dead Princess” (Venus, 2006). Como Chestnut, faz releituras bem livres, tendo os temas como plot, dentro de uma linguagem essencialmente jazzística em formato trio piano/contrabaixo/bateria.
Nem um pouco do universo erudito
Jamie Saft é uma caso à parte. Como muitos pianistas, passou por um aprendizado formal – estudou na New England Conservatory of Music –, mas sua música passa longe do universo erudito. Se comentei até agora dos cruzamentos do erudito com o jazz, o americano, incluído, por conveniência, neste último, percorre caminhos bem ecléticos que o aproxima mais do rock. Sua figura física, inclusive, não é a de um músico de jazz, se existe um estereótipo. A barba longa, que lembra a dos hassídicos, o faz parecer mais um rabino. É um judeu em um mundo estranho, como Matisyahu, um ortodoxo que preferiu o reggae para transmitir as mensagens de sua religião.
Saft poderia ser confundido com um rockeiro como Dusty Hill, do ZZ Top, por exemplo. Aliás, seu ecletismo musical pode ser associado a John Zorn, outro judeu que transita entre o erudito, o jazz e o rock, que, não por simples coincidência, acolheu-o em várias gravações em seu selo Tzadik.
Uma boa amostra de seu ecletismo está no álbum “Black Shabbis” (Tzadik, 2009): “Army Girl”. Saft toca baixo elétrico, guitarra e teclados, com Trevor Dunn (baixo), Bobby Previte, Mike Pride e Dmitriy Shnaydman (bateria), e Mr. Dorgon (voz).
O novaiorquino tem os teclados – piano, Fender Rhodes, Hammond, moog e sintetizadores – como instrumento principal, mas toca contrabaixo e guitarra. Em sua discografia há álbuns, como “Serenity Knolls” (2017), com Bill Brovold, com ele tocando exclusivamente dobro e pedal steel guitar, muito interessante, com ambos fazendo algo que pode ser rotulado de “ambient country”.
Saft pode ser hard rock, reggae, country ou qualquer outra coisa, mas seu nome é citado como o de um músico de jazz. E como um pianista de jazz, na gravadora RareNoise, lançou dois álbuns com Steve Swallow e Bobby Previte: “The New Standard” (2014) e “Loneliness Road” (2017), este, com participação de Iggy Pop em algumas faixas. Neste ano, saiu “Blue Dream”, com Bill Henry, Bradley Christopher Jones, Nasheet Waits.
Ouça algumas faixas com Jamie Saft nesse playlist.
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quinta-feira, 20 de setembro de 2018
sexta-feira, 24 de agosto de 2018
O piano sublime de Jamie Saft
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| Jamie Saft em êxtase ao piano |
O pianista, que procura transitar entre os dois terrenos, mais conhecido é Keith Jarrett. Além das gravações que o ser médio conhece, pelo mesmo selo ECM, tem álbuns executando Bach (principalmente), Handel, Mozart, Samuel Barber e Shostakovich. Esquece porém de sua veia jazzística e incorpora o do virtuose erudito. Provavelmente, pianistas de jazz são os que mais se aventuram em explorar temas eruditos, por seus aprendizados iniciais em conservatórios musicais. Há exceções, como Garner, que conseguia tocar até peças clássicas sem sequer sabia ler uma partitura.
Bem, depois dessa explanação sobre a diferença entre pianistas eruditos e do jazz, entro no assunto de modo bem torto, pois o texto é sobre um que, apesar do aprendizado formal na New England Conservatory of Music, e ser considerado do jazz, preferiu olhar para o “andar de baixo”. Eclético, em sua música percebem-se elementos do reggae, da country music, do rock, até do heavy metal, como em seus discos com Bill Brovold e com Nick Millevoi.
Com uma extensa discografia, revela seu enorme talento em vários gêneros musicais, e em “Solo a Genoa”, seu álbum mais recente e seu primeiro solo ao piano. Nele, apresenta temas tradicionais do jazz, como “Naima”, de John Coltrane, e “Blue in Green”, de Bill Evans, mas também o repertório da música americana (Stevie Wonder, ZZ Top, Curtis Mayfield e Joni Mitchell), e até do erudito Charles Ives. Em tudo imprime sua marca, em acordes belos, harmonicamente ricos, em sonoridades ondulantes, pulsantes e de tons impressionistas. Merecidamente, John Ephland, deu quatro estrelas e meia de um máximo de cinco. Eu daria cinco. Sou fã incondicional de Jamie Saft.
Ouça “Solo a Genoa” pelo Spotify.
quinta-feira, 21 de dezembro de 2017
Jamie Saft e a cereja do bolo
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| Steve Swallow, Jamie Saft e Bobby Previte |
Ao ouvir outros títulos, fiquei feliz e, ao mesmo tempo, decepcionado. Desejava o mesmo tipo de som de “Borscht Bell Studies”. O que me atraiu foi o gosto dele construir sua música por meio de acordes, entremeados de belos floreios que, às vezes soa ao kitsch, meio Lovelace ou Pedrinho Mattar. Percebi que Saft era eclético, um pouco demais para o meu gosto. “Ticonder”, pelo line up – Joe McPhee e Joe Morris –, vi que seria meio avant garde. E era. Apesar de nem detestar o gênero, queria a face lírica, de climas de uma beleza estranha, como notas flutuando sobre a superfície de um mar calmo.
Nesse sentido, “Fight Against Babylon”, com o New Zion Trio, com Larry Grenadier e Craig Santiago, que tinham participado de “Borscht Belt Studies”, não me decepcionou. Os elementos que buscava estavam presentes nesse CD, talvez por terem sido lançados no mesmo ano.
O som é uma fusão judaico-jamaicana. É uma mistura um tanto inusitada, mas funciona. Há a batida clássica do reggae e do dub, engenhosamente mesclada à linguagem do jazz contemporâneo. Se for possível outra classificação, diria que é meio “zen-reggae”. É possível?
Ouça “Slow Down Furry Dub”
Outro destaque é “Fire Blaze”. Achei uma apresentação do trio. Se for classificar, invento outra categoria: ambient-reggae.
Ouça “Hear I Jah”, com Saft no Fender Rhodes. Brilhante.
Depois de conhecer esses álbuns, ouvi “Black Shabbis”, anterior, de 2009. É completamente outra coisa. É punk-rock-jazz. Além de tecladista, toca guitarra, contrabaixo e canta. É bom, mas foge totalmente do que queria ouvir dele, novamente.
Um trio mais jazz
Jamie Saft, Steve Swallow e Bobby Previte montaram um trio, sem um líder, colaborativo Segundo Previte, depois de um almoço, entraram no estúdio e gravaram tudo em três horas, em sistema análogo de duas pistas em fitas de meia polegada. Das dez músicas, sete foram compostas – ou esboçadas, como disse – por Saft e as restantes são de autoria dos três. “The New Standard” foi lançado em 2014 pela gravadora inglesa RareNoise.
Previte e Swallow tocaram juntos ocasionalmente por quatro décadas. Ambos são veteranos. Swallow tem 77 anos e é um dos melhores baixistas elétricos da história. Começou no acústico e tocou em bandas lendárias, como a de Jimmy Giuffre, no início, e depois passou a tocar em um baixo elétrico e cinco cordas. Diferentemente dos mais conhecidos, como Jaco Pastorius ou Stanley Clarke, é menos percussivo e mais melódico, e utiliza-o quase que como um instrumento solo, privilegiando a melodia em notas mais agudas. Previte tem cerca de dez anos a menos e é um baterista que orbitou por todos os estilos, desde o mainstream até o avant garde. Participou de gravações com John Zorn, dono da gravadora Tzadik, a mesma na qual Saft gravou a maioria de seus discos.
Um trio desses nunca poderá ser classificado como mainstream É diferente de tudo. Queira-se ou não, o piano melodioso e nuançado de Saft predomina. “The New Standard” teve boa acolhida, recebendo 4 estrelas na Downbeat e pelo site AllAboutJazz. O encontro foi tão bom que merecia uma continuação. Agora em 2017, saiu “Loneliness Road”, com uma cereja no bolo: participação especial de Iggy Pop em três faixas.
Iggy. Pop ou jazz
Ao contrário de alguns cantores e cantoras que, numa certa hora, aquela do esgotamento criativo, como Rod Stewart, resolvem gravar discos com o repertório do “great american songbook”, em versões orquestrais estilo Frank Sinatra, Iggy Pop optou por um “french songbook” mezzo muzzarela mezzo calabresa, ou melhor, mezzo camaembert mezzo pastrami. No conceito de “Après”(2012), são temas que possuem alguma relação com a França. Estão incluídas “La vie en rose”, “Syracuse”, clássico na voz de Henri Salvador, “La javanaise”, de Serge Gainsbourg, mas também “Michelle”, de Lennon e McCartney, presumo que devido ao nome, e, não me pergunte por que, “What Is This Thing Called Love”, de Cole Porter, e “Only the Lonely”, clássico de Jimmy van Heusen e Sammy Cahn, eternizado por Frank Sinatra em sua fase dor de cotovelo por ter perdido Ava Gardner.
Pop não conhecia nenhum dos três pessoalmente. Tinha ouvido falar de Swallow, por ser ele casado com Carla Bley. De Saft, nunca tinha ouvido falar. A parceria improvável aconteceu por meio do músico e produtor Bill Laswell. Os dois e mais Bootsy Collins estavam fazendo algum trabalho, e Bill comentou de uns músicos de Nova York, não se lembra direito, como disse em uma entrevista à Rolling Stone, que queriam a sua participação em um projeto. Saft enviou três músicas para Pop, em Miami. O cantor disse que as letras saíram naturalmente na primeira ouvida. E o resultado é até impressionante. A voz é aquela, um Leonard Cohen de registro menos sujo. Alguns acharão sua participação a cereja do bolo; outros poderão achar que a cereja é falsificada, feita de chuchu.
A primeira a constar no disco é “Don’t Lose Yourself”. Ouça.
Na de encerramento, Pop canta "I'm hungry for the soul that shines in your eyes/And all I want to say is/I love you/Every day/I love you.", em “Everyday”.
Jamie Saft é o pianista das cores. Veja-o, com Swallow e Previte na música que abre o CD: “Ten Nights”.
“Henbane” é mais jazz. Swallow arrasa no walking bass e Previte é só classe.
Feliz passagem de ano e, em 2018, estou de volta.
Veja também uma apresentação do trio, em 2015.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Quem é Jamie Saft?
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| O barbudo Jamie Saft |
Depois de ouvir o CD, pesquiso na internet e descubro que participou de alguns discos e apresentações do saxofonista John Zorn. Borscht Belt Studies – nome diferente, não? – foi lançado em 2011 pela Tzadik, a mesma de Zorn. Saft toca, além do piano acústico, o elétrico (Fender Rhodes). Na maioria das faixas, é acompanhado pela clarineta de Ben Goldberg. A primeira Issachar começa com o piano elétrico; entra a clarineta. Belo tema.
A clarineta é um instrumento que não é tão comum quanto o saxofone ou o trompete, mas está totalmente incorporado à linguagem do jazz. Sem falar de Buddy DeFranco, só entre os da atualidade, temos Don Byron, Gianluigi Trovesi, Anat Cohen, Marty Erlich, Eddie Daniels e Ken Peplowski, e claro, Ben Goldberg.
A segunda – Hellenville – é um solo de Saft. Em Darkest Arts, entra novamente a clarineta, e o solo remete ao klezmer, gênero intrinsecamente judaico. O piano elétrico em Pinkus, a próxima música, representa bem o espírito do disco. É climática, como um tema de alguma cena cinematográfica; é reflexiva, uma das mais belas do CD. Saft explora ao máximo a sonoridade do piano elétrico, abusando dos ecos tão típicos dos Fender Rhodes. The Pines é meio “quebrada”, como um estudo, um exercício estilístico. Darash e Solomon County têm climas semelhantes à Pinkus. Jews for Joseph (Manieri) é frenética: foge um pouco do clima geral do disco. Kutschers: belo tema no piano acústico. Nossa, é muito bonita mesmo. Emociona. Azulai é um pouco estranha: não entra na lista das preferidas. A última, New Zion, é diferente de tudo: tem bateria, um som que parece o de um baixo mas não é. Não estranhe: mesmo que lhe pareça meio parada, é a mais agitada do disco. New Zion tem uma beleza estranha. O teclado de Saft, em todo o CD é de extremo bom gosto. O cara sabe das coisas. A cada audição – ouço pela sexta vez –, acho melhor. Em cada faixa, me transporto para algum lugar desconhecido. A beleza está nesse universo desconhecido.
Ouça Pinkus.
New Zion.
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