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quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Quando Diego Figuueiredo toca com Ken Peplowski



Somos, no fundo, preconceituosos, por razões frívolas. Tal cara é de direita e, por isso, não lemos. Ou, vice-versa. No fundo, é bem bobo isso. Por que alguém de direita não pode escrever algo interessante. Por conta disso, leio de tudo. Se elogio alguém de direita, como João Pereira Coutinho, recebo respostas como “não gosto e não leio”. Cabe bem no que significa “pré-conceito”. O hífen, que não existe, separa aquele que, por não concordar, recusa-se a lê-lo. Na música acontece coisa semelhante. “Não ouço Anitta, porque é brega”. Bom, já entrei nessa classificação, o que quer dizer que sou preconceituoso. Não vou ouvir Belo nem Ivete Sangalo. Desculpe, é preconceito, e admito, se não tenho em relação à João Pereira Coutinho, meu filtro não me permite gostar de Leandro e Leonardo ou Chitãozinho e Chororó.

Depois dessa quase longa digressão, terei de confessar que não dava valor aos artistas que gravavam pela Concord Jazz. Se o disco era desse selo, nem ouvia. Estavam incluídos Scott Hamilton, Warren Vaché e Ken Peplowski. Se fosse para ouvir mainstream, preferia os velhos Count Basie, Duke Ellington e Dave Brubeck.

Mas meu amigo Alberico, um dos maiores conhecedores do jazz, junto com o também amigo Carlos Conde, um dia, colocou um CD do Ken Peplowski. Que belo clarinetista! Na época, nem ligava muito para esse instrumento. Tinha ouvido Buddy De Franco, Benny Goodman, alguns da banda de Duke Ellington. Com o tempo, passei a gostar de alguns como Jimmy Giuffre, Don Byron e, mais recentemente, a genial Anat Cohen.

É aquela coisa: o Natal não mudou, mudei eu. “Mainstream” deixou de ser palavrão. Todas as pedras que tinha guardadas para lançá-las em Wynton Marsalis, por exemplo, ficaram pelo caminho. Bem, devo confessar que ainda não estamos em um “relacionamento sério”. Prefiro o irmão Branford.

Bem, devo falar de outro músico: Diego Figueiredo. Por Cyrille Aimée, conheci um belo violonista que, de quebra, era brasileiro. Tive o prazer de conversar com ele por alguns minutos em uma apresentação que fez no clube Blue Note, de São Paulo. Muito simpático, disse que iria apresentar-se com Aimée, em São Paulo, em outubro. Por enquanto, não sei onde vão tocar. Mesmo apresentando-se em vários lugares desse vasto mundo, conserva o jeito caipira de quem nasceu em Franca, interior do estado de São Paulo. Fora isso, toca violão como se estivesse em um boteco. Não tem aquela pose de violonista clássico, nem a de roqueiro. É do jeito dele, usando uma das pernas para apoiar o instrumento, mal recostado nas cadeiras.

Fora do Brasil, não é o caipira de Franca; é um músico cuja linguagem associa-se ao jazz, mesmo sendo o mais brasileiro dos brasileiros em termos de sonoridade. Pois não é nenhuma surpresa que seja um dos parceiros de Cyrille Aimée e que tenha acabado de gravar um álbum em duo com Ken Peplowski.

Mesmo que o nome de Peplowski venha em primeiro lugar na capa, o álbum é mais brasileiro que qualquer outra coisa. Vamos combinar: faz muito tempo que as composições de Tom Jobim, Baden Powell e Luiz Bonfá fazem parte do repertório dos músicos de jazz do mundo inteiro. São universais.

Um outro dado da brasilidade é o título: “Amizade”. Fora “Caravan” e “Stompin’ at the Savoy” e o medley “Quizás, Quizás / Besame Mucho”, dois clássicos latinos incorporados ao cancioneiro americano, as restantes são composições de Diego, de Diego e Ken; o resto são temas dos já citados Jobim, Baden Powell e Luiz Bonfá. Há uma perfeita combinação entre os dois, tanto Peplowski tocando clarineta ou saxofone. Não é pouco não.

Veja os dois em “Caravan”, numa apresentação em Portland.




No medley “Quizás, Quizás / Besame Mucho”. Preste atenção no violão de Figueiredo.





Um dos destaques é “Pro Paco”, composição dos dois. Belíssima. Acho que a referência é Paco De Lucia. Ouça.






quinta-feira, 15 de junho de 2017

Três grandes violonistas na ECM

Uma qualidade positiva de Manfred Eicher é sua abertura para todos os tipos de sons e dom de descobrir talentos. Dois dos intérpretes aqui abordados, são de países da Europa Oriental, o que é bom para nós deste continente, que graças a ele, temos acesso. Zsófia Boros nasceu em Praga, é cidadã húngara e mora atualmente em Viena. Ferenc Snétberger é húngaro, filho de pais romenos. O terceiro, José Luis Montón, é e Barcelona. Todos têm formação clássica e escolheram o violão como instrumento. Há outros violonistas no selo, que se destacam, como o argentino Dominic Miller, que os fãs de Sting devem conhecer, em sua estreia na ECM, recentemente, e o iraniano Golfam Khayam, que podem ser assunto para outros posts.

Da esquerda para a direita, José Luis Montón, Zsófia Boros, Ferenc Snétberger, violonistas da ECM


Snétberger é o mais velho – 60 anos –, Montón tem 54, e Boros, 36. O primeiro acaba de lançar seu segundo disco pela ECM, assim como Boros. O espanhol, com vários pelo selo Auvidis, estreou no selo, em 2015, com “Solo Guitarra”.

Amina Alaoui participou pela primeira vez em disco da ECM, cantando em “Siwan”, de Jon Balke. Em 2011, lançou o excepcional “Arco Íris”. Nesse álbum, contou com Sofiane Negra no oud, instrumento de cordas tradicional dos países árabes, o brasileiro radicado em Portugal, Edu Miranda ao bandolim, e José Luis Montón na guitarra flamenca. Manfred Eicher deve ter se empolgado com a performance, e o catalão gravou “Solo Guitarra”. Belo álbum, que é pouco conhecido. Montón carrega a maestria da tradição flamenca, por meio da energia rítmica tão característica dos ibéricos e uma riqueza melódica emocionante.

Um dos melhores momentos de “Solo Guitarra” é “Con Permiso”. Ouça.




Ouça também a sua versão para a conhecida “Ária da Suite em ré menor”, de Johann Sebastian Bach.




Zsófia Boros, de 1994 a 1998, estudou no Conservatório Musical de Bratislava, na Eslováquia, e no Conservatório de Música Béla Bartók, em Budapeste, e posteriormente, na Universidade de Música e Teatro de Viena, concluindo-o em 2004. Pós graduou-se na Francisco Tárrega Guitar Academy, na Itália.

Com a flautista Daniela Lahner, formou o duo AgiLeo, em 2004. Apesar da formação essencialmente clássica, Boros enveredou pelo rico repertório existente para esse instrumento mundo afora. Não é à toa que seu primeiro CD na ECM tenha se chamado “En Otra Parte” (2013). Nele, o predomínio é de temas do continente americano. As exceções ficam com os espanhois Vicente Amigo e Francisco Calleja, e o austríaco Martin Reiter. No encarte, afirma: “muitas vezes eu acho que a escolha da música está em minhas mãos, mas depois me pergunto se não foi a música que me escolheu como um meio. Minha abordagem é sempre intuitiva. Quando um trecho me pega ou me toca, quero refletir isso – de me tornar um espelho e transmiti-lo.”

Fazem parte do álbum o genial cubano Leo Brouwer, os argentinos Dominic Miller, Abel Fleury e Quique Sinesi, o americano Ralph Towner, e Dilermando Reis.

Em seu último, lançado no fim do ano passado, “Local Objects”, outro solo, temos a suite “Koyunbaba”, de Carlo Domeniconi, “Nocturne”, de Mathias Duplessy, “Fantasie”, de Franghiz Ali-Zadeh, “Milonga”, do argentino Jorge Cardoso, “Gothenburg”, do austríaco Alex Pinter, “Vertigo Shadow”, de Al DiMeola, “Celebração de Núpcias”, de Egberto Gismonti, e “Inspiração”, de Garoto. A seleção é bem variada e o álbum está no mesmo nível do anterior, ou seja, é ótimo. Boros é uma das grandes violonistas da atualidade.

Ouça a composição de Garoto.




Veja o clipe de “Nocturne”, faixa de abertura.




Veja também o clipe de “Celebração de Núpcias”.




O terceiro grande violonista desse post é Ferenc Snétberger. No mês passado, lançou seu segundo pela ECM, no formato trio, com o baixista Anders Jormin e o baterista Joey Barron. Aqui, vou tratar do seu álbum de estreia. Chamado apenas “In Concert”, é um registro ao vivo no Liszt Academy, e é composta de apenas uma peça “Budapest” –, dividida em oito partes. O encore, é a única de autoria alheia: “Somewhere Over the Rainbow”.

Ouça um trecho de “Budapest”.




terça-feira, 16 de agosto de 2016

O misterioso desaparecimento de Steve Eliovson

Imagem rara de Steve Eliovson
Os raios de sol entravam timidamente pela janela do apartamento que dividia com amigos no campus da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Estava a mexer em suas coisas distraidamente, pensando nas tarefas que tinha para o dia quando a música que tocava no rádio chamou-lhe a atenção. Parou tudo, sentou-se no sofá, hipnotizado pela beleza do violão que ouvia. Anotou o nome e logo depois saiu para comprar “Dawn Dance”, de Steve Eliovson. O tempo passou e perguntava-se: “O que teria acontecido com Steve Eliovson?” Nunca mais soube de algum disco que tivesse participado. Muito tempo depois, por acaso, descobriu que “Dawn Dance” saíra em CD.

Pouco se sabe também de como Steve foi gravar um disco por uma gravadora tão prestigiada como a ECM. “Dawn Dance”, lançado em 1981, tornou-se uma “espécie de lenda nos anais da ECM”, segundo Tyran Grillo (www.ecmreviews.com). Ser um disco apenas ao violão e a a percussão do genial Collin Walcott, deve ter sido ideia de Manfred Eicher, produtor e dono da gravadora. A parceria funcionou muito bem. O violão de notas claras, melodicamente sofisticado, de belas atmosferas, merecia continuidade. E assim ficou combinado. Steve gravaria um segundo disco para a ECM. Encaixava-se perfeitamente no que ficou conhecido como “ECM sound”, “o som mais perfeito depois do silêncio”. Eicher tinha em seu plantel violonistas guitarristas que se encaixavam ao seu gosto: além de Steve, Ralph Towner, John Abercrombie e Bill Connors.

Tom Marcello foi passar uma semana e meia na África do Sul. Convidado para uma reunião na casa do pianista Robert Payne, foi apresentado a um tal “Steve”. Ao ouvir Steve dizer que gravara na Alemanha, perguntou-lhe o sobrenome: “Eliovson”. Foi uma grande surpresa para Tom. Mal sabia que aquele guitarrista que, um dia, o havia impressionado, estava vivo e era sul africano. É uma das poucas coisas que se sabe de Steve.

Eliovson tinha ido à Europa para gravar o segundo álbum para a ECM. Aproveitando o fim de semana anterior ao seu início, foi esquiar nos Alpes. Quebrou a perna. As gravações foram adiadas e voltou a Nova York. Sem poder tocar, ficou sem dinheiro. Deixou suas guitarras e equipamentos em um depósito e resolveu voltar à África do Sul e lá ficar enquanto se recuperava.  Não voltou. Vendeu os pertences que deixara em Nova York e nada se sabe do que fez depois. É um mistério. Em Nova York, estava ensaiando com o pianista Richie Beirach e o saxofonista e flautista Dave Liebman. Tinha uma carreira pela frente e um novo disco programado por uma gravadora de prestígio.

Ouça o álbum. “Song of the Master” é uma das minhas preferidas. 


 

PS: Nos comentários, Alexandre Fernandes escreveu que ele morreu em 15 de março de 2020, em Johannesburgo, África do Sul.




terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Diego Figueiredo na guitarra e no violão

Diego Figueiredo, com Gilberto Gil
Menos conhecido em sua terra natal do que em certos países, Diego Figueiredo, paulista de Franca, é um cara boa praça, muito simpático. É um craque no violão, um dentre muitos que cá nasceram. O Brasil é o país do futebol e do violão. Bem tocado, é bom frisar. Desde Carlos Barbosa Lima, mais velho que Rogério Caetano, Yamandu Costa, Raphael Rabello e Marcus Pereira, apenas para lembrar de alguns, somos a terra das cordas, bem, posso estar exagerando.

Diego é inventor de uma forma de tocar o violão. Chama-se “siririca”. Tinha uns 14 anos e fazia violão clásssico. Quando estudava para toca uma música chamada “El Colibri”, descobriu que, em vez de usar o indicador e o médio, poderia usar o polegar para imprimir maior velocidade no dedilhado. Após uma apresentação, impressionada com sua técnica com o dedão, alguém perguntou-lhe se a técnica poderia ser usada só no violão ou para alguma outra coisa. Um primo de Diego, que ouviu a conversa e batizou-a de “siririca”. A história foi contada em um programa de Jô Soares. Se você quiser assistir – porque é muito boa, não só por isso, acesse pela internet https://globoplay.globo.com/v/3507956/. Nela, explica outra técnica: a “pinicada”. Um esclarecimento: parece que esta palavra caiu em desuso. É o mesmo que “beliscar”. Em um sentido semelhante, quando as blusas de lã (natural ou sintética) mais grosseiras irritavam no contato com a pele, falava-se que elas “pinicavam” ou que eram “piniquentas”.

Brincadeiras à parte, o cara é bom. A culpa de não ser tão conhecido é por viver a tocar em outros países e a música instrumental não faz tanto sucesso quanto a cantada. É um globetrotter, como o bandolinista Hamilton de Holanda.

Não é a primeira vez que Diego é citado nesse blogue. Em “Tudo é bossa nova com Cyrille Aimée e Diego Figueiredo” , conto que foi considerado por duas vezes o melhor guitarrista no Festival de Montreux e impressionou o produtor Quincy Jones. Apesar da dificuldade de se encontrar um disco dele nas lojas — está cada vez mais difícil é encontrar lojas que vendem CDs, na verdade —, acessando seu site, vemos que tem vários títulos lançados. Vários foram distribuídos pela Atração Musical e, pelo menos um foi lançado pela Biscoito Fino: “Vivência” (2009). Neste álbuum é acompanhado de Eduardo Machado no baixo e Fernando Rast, Figueiredo toca exclusivamente a guitarra elétrica. É uma boa amostragem de sua versatilidade.
Em “Vivência”, um dos destaques é “Paschoa”.




Em outro CD, lançado em 2008, toca violão acústico com Robertinho Silva na bateria e Rodolfo Stroeter no contrabaixo. Saiu pelo selo dinamarquês Stunt. Neste, abordam clássicos do cancioneiro brasileiro como “Na Baixa do Sapateiro”, “Último Desejo”, “Lamentos do Morro”, “Berimbau”, “O Morro Não Tem Vez”, “A Felicidade” e “Consolação”. É sempre um prazer ouvir um bom violão, ainda mais com a batida de Robertinho.

Veja Diego a tocar “Lamentos do Morro”.




Outro clássico: “Na Baixa do Sapateiro”.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

As transcrições na música erudita para o violão

Quando Thom Yorke canta The Headmaster Ritual, dos Smiths, ou Macy Gray canta Creep, do Radiohead, estão fazendo covers. É como são chamadas quando não são cantadas pelo compositor original. Há grandes covers e muitos, melhores que os originais, mesmo assim há uma conotação pejorativa na palavra “cover”. Não se diz que Frank Sinatra fez um cover de Cole Porter ou de George e Ira Gershwin. Sinatra interpreta. Ou canta. Parece que a expressão não se aplica em certos casos, talvez para aqueles que são considerados cantores, como Gal Costa ou Tony Bennett e centenas de outros.

Mesmo caso com Martha Argerich ou Lang Lang. Não fazem covers de Chopin ou Beethoven. Como Sinatra, interpretam. Mas será que essa diferenciação não segue apenas uma lógica elitizante? O que é erudito e o que é popular?

Ravel, autor da transcrição de Quadros de Uma Exposição
Nessa seara de conceitos um tanto dúbios, o termo “transcrição” é “propriedade” da música erudita. Obras compostas para determinado instrumento são adaptadas para orquestra. Um exemplo: Quadros de uma Exposição, de Modest Moussorgsky. É mais conhecida na versão para orquestra do que no original no piano. A transcrição – ou adaptação?, para ser menos elitista – é de outro compositor: Maurice Ravel. Quando Emerson, Lake & Palmer gravam Moussorgsky estão fazendo uma transcrição ou um cover? Boa pergunta.

Há aqueles que preferem as consagradas Gymnopédie, de Erik Satie, orquestradas. Alguns devem desconhecer que essas peças, assim como as Gnossienne, foram compostas para o piano. As transcrições são de Debussy e Poulenc, respectivamente. Em ambos os casos são peças minimalistas/impressionistas, mas os dois fizeram com que novas cores aflorassem.

Ouça a Gymnopédie 1, com transcrição de Claude Debussy. Esta é da Orchestre du Capitole de Toulouse, regência de Michel Plasson.



Transcrições para o violão Aproveitando o gancho dos comentários sobre o CD de Diogo Carvalho e Leonardo Padovani e as transcrições (ou recomposições) de Max Richter de As Quatro Estações e a releitura de Richard Galliano sobre a mesma obra, vou me resumir ao piano e, quem sabe, comento sobre outras transcrições.

Como foi dito, não são muitas as obras compostas especificamente para o violão. No Brasil temos, no campo erudito, como exemplos Villa-Lobos e Isaías Savio. Como é um instrumento com alta penetração popular, temos grandes virtuoses que transitam em um meio termo, para ser mais exato, no que a crítica gosta de chamar de “crossover”. Mais conhecidos fora do Brasil do que aqui são os irmãos Assad e Carlos Barbosa-Lima, além de virtuoses, autores de boas transcrições. Diogo Carvalho em sua tese de mestrado realizou um trabalho primoroso de transcrições de compositores impressionistas. O resultado está em Impressionism.

Ouça a mesma Gymnopédie, executada e transcrita por Diogo Carvalho.



Há pouco tempo, apresentou-se no Brasil o japonês Kazuhito Yamashita. Ele é autor de uma transcrição de Quadros de Uma Exposição para o violão. Ouça o início de Quadros aqui.



Mas o violão clássico, apesar de mais associado a intérpretes latinos como o fabuloso Andrés Segovia, Narciso Yepes, Leo Brouwer, Pepe Romero e os brasileiros, tem como grandes intépretes virtuoses de outros países, como o australiano John Williams e o inglês Julian Bream. Uma nova geração de violonistas clássicos nascidos na Europa Oriental como Zsófia Boros, que você ouviu nesse blogue, Miloš Karadaglić, natural de Montenegro, e o sueco Göran Söllscher. São músicos contratados por gravadoras de prestígio como a ECM e a Deutsche Grammophon.

Veja Göran Söllscher executando a Sarabanda da Partita BWV 997, de Johann Sebastian Bach.




Veja Miloš Karadaglić tocando Mais Que Nada, de Jorge Ben, arranjada pelo brasileiro Sergio Assad.




Ouça Canción Triste, de Francisco Calleja, com Zsófia Boros.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Diogo Carvalho e Leonardo Padovani | violão e violino

Diogo, ao violão, e Leonardo, no violino
O português é campeão como motivo de piada. Os papagaios caíram no ostracismo. Contava-se muita piada de papagaios antigamente. Em honroso segundo lugar vem a sogra. E é um motivo perene. Mas, por que não o sogro? Por que a sogra entrou no rol das pessoas mais odiadas? Alguma razão deve existir mas, convenhamos, é uma injustiça para aquela parcela de sogras amadas. Conheci alguém que gostava mais da sogra do que da namorada. Não sei no que deu depois.

Pois Leonardo Padovani e Diogo Carvalho compuseram uma música chamada Suíte da Sogra. Detalhe: é uma suíte, não uma musiquinha de dois ou três minutos; é uma peça em quatro partes. Impossível saber se a sogra de um deles – ou de ambos – serviu de inspiração. Mas no encarte do CD estão detalhados o que constituem as partes. Após a observação inicial – “Nada contra a sogra! (nem a favor…). Imagine a visita de um parente chato: pode ser a tia, primo, cunhada, irmão, avó, enteado, etc.” – os movimentos são assim descritos:

1. A Chegada (com Heroísmo). Você acredita que suportará a sogra por alguns dias, mas os delírios do pensamento indicam o contrário.
2. Convívio. O violão representa o ilustre visitante com o cínico tema: “Oh! Que dia tranquilo!”, seguido da súbita irritação do genro/da nora, papel do violino. A mente tenta divagar para o delírio heróico da chegada, mas logo depois a realidade torna a se firmar. A tensão prevalece.
3. Ladainha. O sermão infinito, o papo irritante, a discussão bizantina.
4. A Comemoração da Partida. Dispensa comentários.

Ambos escolheram um tema inusitado para uma música. Pelo jeito, os dois gostam de piadas de sogra, e, aparentemente, não nutrem sentimentos muito favoráveis por elas. O bom é que fazem boa música com um assunto desses.

Mais inusitado que usar a sogra como motivo é um duo violão (Diogo) / violino (Leonardo). É uma combinação pouco comum na música. No Brasil então, o violino é pouco comum. Lembro só de Fafá Lemos, grande instrumentista que fez sucesso na década de 1950.

Em 2008, Diogo e Leonardo criaram o Duo Calavento, e agora, em 2014, estão lançando o primeiro CD, chamado Calavento, simplesmente, com distribuição da Tratore e disponibilizado para venda nos sites da Amazon e da loja iTunes. Das doze faixas, quatro foram compostas pelos dois (Janela do Sol, Calavento, Suíte da Sogra e Ponte das Cordas), uma é de Diogo (Concerto para Violão e Orquestra / Primeiro Movimento) e as restantes abarcam transcrições – ou adaptações, como acharem melhor – de peças eruditas (Debussy, Fauré, Satie, Tchaikovsky e Vittorio Monti), e uma é de Astor Piazzolla.

Violinos e violões. O violino é um instrumento da música erudita, por excelência, assim como o violão é da música popular. Isso não significa que o primeiro não esteja presente em outros gêneros e, da mesma forma, o violão. Para quebrarem a escrita, basta lembrar de Stephane Grappelli, Ray Nance ou Mark Feldman no jazz e o nosso Jorge Mautner na música popular. Mautner não é exatamente o que convenciona-se chamar de virtuose, talvez até Ray Nance. O mesmo não pode ser dito de Feldman.

Instrumentos de cordas não executados com arcos também possuem longa tradição. Existem desde o século V. Alaúdes, oud, bouzouk ou outro nome, todos são parentes do violão como o conhecemos atualmente. Extremamente popular nos paises ibéricos, é também no Brasil. Uma festa ou reunião nas décadas de 1960 e 1970 sem um violão não tinham graça. Todo garoto queria aprender a tocar violão, quer gostasse de João Gilberto ou os Rolling Stones. O violão era o estágio anterior para a guitarra elétrica para os futuros roqueiros.

Tão associados à música popular, não são muitas as peças eruditas compostas especificamente para o violão. Até mesmo na Espanha. Um dos responsáveis para a ampliação do repertório para o instrumento foi Francisco Tárrega. Devido a falta de músicas para o exercício de seu talento, em meados do século XIX, fez transcrições de peças de Beethoven e Chopin. Teve como contemporâneos compositores que possuem obras que fazem parte do repertório do violão atual. Isaac Albéniz é um exemplo. Outros, são Joaquin Turina e Enrique Granados.

No Brasil, Villa-Lobos é responsável por algumas peças para o violão. Várias que não foram compostas para este instrumento foram transcritas por brasileiros e estrangeiros. Há uma longa tradição aqui, como há na Espanha. Diogo é um jovem virtuose que segue essa linhagem. Suas transcrições de músicas originariamente em outras instrumentações são muito boas. Ele é autor de um álbum primoroso, lançado em 2009, com transcrições de obras de Debussy, Ravel e Satie. O nome, logicamente, é Impressionism.

Ouça a Pavane pour une enfant défunte, de Maurice Ravel, deste disco.



Um dos destaques em Calavento é justamente uma transcrição: Gnossienne no.3, de Erik Satie, executada por Leonardo em um tipo de violino chinês.




Veja os dois executando Janela do Sol, primeira faixa do disco.




Veja Diogo e Leonardo em Bangzália, da trilha de O Tempo e o Vento, de Antônio Carlos Jobim.




Outro destaque é Nightclub 1960, terceiro movimento de História do Tango, de Astor Piazzolla.




Show de lançamento
O Duo Calavento estará fazendo o lançamento oficial do CD Calavento no dia 22 de junho, domingo, às 11h no Museu da Casa Brasileira (Av. Faria Lima 2.705, São Paulo). Entrada gratuita.
Você está convidado.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Zsófia Boros, um talento no violão clássico

Numa pergunta de bate-pronto, o nome que está acima é de um homem? No momento seguinte, percebe-se que Zsófia é apenas a grafia de “Sofia” em alguma língua que não é o português. Outro fator que nos induziria ao erro é o fato de que são raros violonistas do sexo feminino. Mais um: com exceção de John Williams (não confunda com o compositor e maestro de trilhas sonoras) e Julian Bream, o primeiro, australiano, e o segundo, inglês, os maiores nomes do violão clássico são de origem latina, como o grande Andrés Segovia, Narciso Yepes e Pepe Romero, e boa parte do repertório, também, de compositores como Joaquim Rodrigo, Francisco Tárrega, Manuel De Falla, Albéniz e Villa-Lobos.

A húngara Zsófia Boros, com pouco mais de trinta (nasceu em 1980), tem seu primeiro disco lançado pela ECM. Nascida em um país eslavo, sem tanta tradição, é um nome a se prestar atenção, assim como a de Miloš Karadagliće, natural de Montenegro, um dos países que formava a antiga Iugoslávia e fazia limite com a Hungria. Em comum, os dois aventuram-se por um repertório menos ortodoxo, ou menos clássico.

O título é bem sugestivo: En otra parte. Tirado de um verso do poeta Roberto Jarroz (“Todo comienza en otra parte”), é boa pista para o partido de Boros na escolha das músicas. Sua referência principal é Leo Brouwer. As composições escolhidas do cubano que integram o álbum são Un dia de noviembre e An Idea. As restantes, na maioria, são de latinos, como a primeira – Canción Triste –, do espanhol Francisco Calleja (residiu parte de sua vida na Argentina e no Uruguai); Callejón de la lune, a seguinte, é de Vicente Amigo. Duas são de argentinos: Abel Fleury (Te vas milonga) e Quique Sinesi (Cielo abierto). Um terceiro é meio argentino: nasceu em Buenos Aires e cresceu na Grã-Bretanha. É Dominic Miller (Eclipse). A América do Sul está presente mais uma vez com Se Ela Perguntar, do brasileiro Dilermando Reis (sobre ele, leia em http://bit.ly/1hRhN5N).

O nome de Szófia associada à gravadora ECM traz à lembrança, talvez por alguma influência no seu estilo de tocar, o americano Ralph Towner. Aliás, é o autor de Green and Golden, a sétima faixa do CD. Ele e Martin Reiter, austríaco, são os únicos fora do eixo latino.

Sem piroctenias, Boros prefere os sons calmos, reflexivos em que cada nota é percebida com clareza. Sua área é a do intimismo. Para quem, como eu, que gosta de estar a ouvir boa música, lendo, pensando em vão e até sem fazer nada sua música é tudo, preenchendo vazios com sua técnica precisa. Quer uma prova? Se Ela Perguntar, do paulista de Guaratinguetá, Guará para os íntimos.


Ouça Un dia de noviembre, do mestre Leo Brouwer.



Ouça Te vas milonga.




Veja o vídeo promocional do CD En Otra Parte, de Abel Fleury.


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Larry Coryell e Philip Catherine: o primeiro duo de violão?


Os irmãos Natalicio e Antenor Lima, 
os “índios” tabajaras
Se alguém está colocando em dúvida de que os dois foram os primeiros a gravar em duo na história, não me venham com o Los Indios Tabajaras. Para quem não sabe quem são, uma informação: apesar do nome, um pouco estranho – em espanhol? – era um duo composto por dois brasileiros, habéis no violão. Os dois irmãos, Natalicio e Antenor Lima, se vestiam de índios em suas apresentações. Nos anos 1940, eram contratados da RCA, divisão latina. Com uma música mexicana – Maria Elena – atingiram a estupenda marca de um milhão de discos vendidos e ganharam o Disco de Ouro, agraciamento máximo para qualquer artista.

O Los Indios Tabajaras são apenas um exemplo para se dizer que, certamente, o americano Coryell e o belga Philip Catherine não foram os primeiros a explorar esse formato. Mas de uma coisa não dá para duvidar: o sucesso dessa dupla ocasional inspirou muitos violonistas a montarem conjuntos de dois, ou até mais. Os dois se apresentaram nos primeiro São Paulo–Montreux Jazz Festival, 1978. Para quem não sabe do que se trata e nem assistiu às apresentações, fiquem com inveja. Além dos dois, apresentaram-se Al Jarreau, Chick Corea, John McLaughlin, Dizzy Gillespie, Stan Getz, Benny Carter, Astor Piazzolla, Ray Brown, Zoot Sims, e, entre os brasileiros, Hermeto Pascoal, Helio Delmiro, Hermeto Pascoal, Luiz Eça, Raul de Souza, Marcio Montarroyos. Ficou com inveja?

Coryell (a esq.) e Philip Catherine
Com certeza, aqueles que formariam o Grupo D’Alma – André Geraissati, Ulisses Rocha e Ruy Saleme – estavam lá. E, provavelmente, Luis Bueno, arquiteto e violonista, que, em 1977, se juntaria ao alagoano de Arapiraca, Fernando Melo, para formar uma banda de rock progressivo, inicialmente e, no ano seguinte, o que se tornaria o Duofel, em 1978, estava na plateia. Coincidência? Surgiram depois da apresentação que Larry Coryell e Philip Catherine fizeram em São Paulo. Todos os citados tinham perto de 20 anos na época quando viram essa apresentação inesquecível.

Alguns grandes violonistas conhecidos e consagrados têm se reunido e feito shows em festivais ou gravado CDs e DVs. Um dos primeiros foi o que reuniu John McLaughlin, Al DiMeola e Paco de Lucia, na Califórnia e lançado em CD como Friday Night in San Francisco (1981) . O tema de Mediterranean Sundance, de Al DiMeola, tornou-se um clássico (veja o vídeo da apresentação abaixo). DiMeola e McLaughlin eram bem conhecidos pelos fãs do fusion jazz e Paco de Lucia apenas pelos que tinham visto Carmen, filme de Carlos Saura, Após essa gravação, o mundo conheceu a arte do espanhol de cabelos longos e calva em estágio inicial, pelo menos, naqueles tempos em que ficou conhecido.

Duos, trios ou quartetos de violão ficaram comuns e fórmula certeira de sucesso. Além dos três, ressurgiu um dos criadores desse formato – Larry Coryell –, e o francês cigano Biréli Langrène, todos hábeis instrumentistas. Em todas as apresentações não faltam Mediterranean Sundance e Spain, este, um belíssimo tema de Chick Corea.

Quando Coryell e Catherine vieram ao Brasil, tinham acabado de lançar o álbum Twin House (1977). Cada um deles é ouvido em um dos canais de áudio. É interessante para se comparar as diferenças de estilo de ambos. O disco é uma coleção de originais, em que se destacam Ms. Julie (Coryell) e Home Comings (Catherine). Das alheias, Mortgage on Your Soul (Keith Jarrett) é excepcional, assim como Gloryell (Jimmy Webb), e Nuages, do pai de todos os guitarristas, Django Reinhardt. Os dois gravaram juntos uma segunda vez – Splendid Hotel –, mas é uma relativa decepção. Também, depois de um primeiro tão bom, tal possibilidade era grande.

Ouça o álbum TwinHouse.