terça-feira, 16 de agosto de 2016

O misterioso desaparecimento de Steve Eliovson

Imagem rara de Steve Eliovson
Os raios de sol entravam timidamente pela janela do apartamento que dividia com amigos no campus da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Estava a mexer em suas coisas distraidamente, pensando nas tarefas que tinha para o dia quando a música que tocava no rádio chamou-lhe a atenção. Parou tudo, sentou-se no sofá, hipnotizado pela beleza do violão que ouvia. Anotou o nome e logo depois saiu para comprar “Dawn Dance”, de Steve Eliovson. O tempo passou e perguntava-se: “O que teria acontecido com Steve Eliovson?” Nunca mais soube de algum disco que tivesse participado. Muito tempo depois, por acaso, descobriu que “Dawn Dance” saíra em CD.

Pouco se sabe também de como Steve foi gravar um disco por uma gravadora tão prestigiada como a ECM. “Dawn Dance”, lançado em 1981, tornou-se uma “espécie de lenda nos anais da ECM”, segundo Tyran Grillo (www.ecmreviews.com). Ser um disco apenas ao violão e a a percussão do genial Collin Walcott, deve ter sido ideia de Manfred Eicher, produtor e dono da gravadora. A parceria funcionou muito bem. O violão de notas claras, melodicamente sofisticado, de belas atmosferas, merecia continuidade. E assim ficou combinado. Steve gravaria um segundo disco para a ECM. Encaixava-se perfeitamente no que ficou conhecido como “ECM sound”, “o som mais perfeito depois do silêncio”. Eicher tinha em seu plantel violonistas guitarristas que se encaixavam ao seu gosto: além de Steve, Ralph Towner, John Abercrombie e Bill Connors.

Tom Marcello foi passar uma semana e meia na África do Sul. Convidado para uma reunião na casa do pianista Robert Payne, foi apresentado a um tal “Steve”. Ao ouvir Steve dizer que gravara na Alemanha, perguntou-lhe o sobrenome: “Eliovson”. Foi uma grande surpresa para Tom. Mal sabia que aquele guitarrista que, um dia, o havia impressionado, estava vivo e era sul africano. É uma das poucas coisas que se sabe de Steve.

Eliovson tinha ido à Europa para gravar o segundo álbum para a ECM. Aproveitando o fim de semana anterior ao seu início, foi esquiar nos Alpes. Quebrou a perna. As gravações foram adiadas e voltou a Nova York. Sem poder tocar, ficou sem dinheiro. Deixou suas guitarras e equipamentos em um depósito e resolveu voltar à África do Sul e lá ficar enquanto se recuperava.  Não voltou. Vendeu os pertences que deixara em Nova York e nada se sabe do que fez depois. É um mistério. Em Nova York, estava ensaiando com o pianista Richie Beirach e o saxofonista e flautista Dave Liebman. Tinha uma carreira pela frente e um novo disco programado por uma gravadora de prestígio.

Ouça o álbum. “Song of the Master” é uma das minhas preferidas. 


 

PS: Nos comentários, Alexandre Fernandes escreveu que ele morreu em 15 de março de 2020, em Johannesburgo, África do Sul.




Um comentário:

  1. Olá Guen,
    Steve Eliovson morreu no dia 15 de março em Johannesburgo, completamente sozinho. Muito triste...
    Veja aqui:
    https://www.thundafund.com/project/steveeliovson

    Um abraço,
    Alexandre Fernandez

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