quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Truman Capote, Chris Connor e o pés de banana

A capa do disco
O musical House of Flowers é uma peça que une um time de sonhos: Harold Arlen (letras e música) e Truman Capote, autor do enredo criado a partir de conto incluído no mesmo livro em que foi publicado Breakfast at Tiffany, mais conhecido pela adaptação cinematográfica de Blake Edwards e consagrou Audrey Hepburn.

A primeira montagem, em 1954, teve direção de Peter Brook e o cast incluía Pearl Bailey, Diahann Carroll, Juanita Hall. Foi um sucesso? Errado. Nem a crítica gostou. Pelo jeito, nem sempre a reunião de uma turma de primeira é sinônimo de sucesso.

Mas, por qual razão me lembraria desse musical? Nem sabia que Sleepin’ Bee, um clássico, era dessa peça. Foi mais em razão de uma música: Two Ladies in de Shade of de Banana Tree. No disco original, é interpretada por Enid Mosier & Her Trinidad Steel Band. Conheço-a apenas pelo sampler (curtíssimo) disponível no site da Amazon. Existe um álbum de KT Sullivan, chamado Sing My Heart: The Music of Harold Arlen, lançado em 1995, em que está incluída essa música. Nem assim e apesar de ter o disco, não me lembrava dela. Bastou, no entanto, estar em um álbum da cantora Chris Connor para chamar-me a atenção.

Poucos teriam coragem de ousar dizer que existem cantoras melhores que Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Carmen McRae ou Sarah Vaughan. Mas, se inventarmos uma outra categoria, a das cantoras brancas, sim, assim as excluímos e, com tranquilidade diremos que não existem mulheres iguais a Anita O’Day, June Christy e Chris Connor. As três cantaram na big band de Stan Kenton. Nota: sim, questão de preferência, vá lá, incluamos Jo Sttaford, Julie London Rosemary Clooney, Doris Day, mas assim, a lista se tornaria interminável.

Connor lançou – até onde sei – dois discos com o trumpetista Maynard Ferguson: Two’s a Company (Bethlehem, 1961), e Double Exposure (Atlantic, 1961); nesse último está gravada a música do “pé de banana”. Ferguson participou da banda de Stan Kenton; aprendeu direitinho: sua big band era excepcional e se amoldou bem ao seu estilo “quente” de tocar trumpete, privilegiando notas altas. Belo contraste: perfeito combinado com a voz mais para o registro médio, “warm”, “cool” de Connor.

A banana tem uma importância emblemática na cultura americana, principalmente, quando relacionada aos países latino-americanos. Pejorativamente, repúblicas e republiquetas da região da América Central, em especial, eram designadas como “Repúblicas das Bananas”. Parte da responsabilidade é da exportadora e produtora de frutas United Fruit Company, que mandou e desmandou nos países onde atuou através de seu poderio econômico, derrubando e colocando governantes “teleguiados” de acordo com os interesses imperialistas.

As bananas fazem parte do cenário do musical, pois a história acontece num país antilhano. São poucas as referências sobre esse musical na internet. Alguns dados aqui servem apenas como pretexto para citar a música de Harold Arlen e para disponibilizar em áudio Two Ladies in de Shade of de Banana Tree. Nossa popular bananeira deve ser considerada árvore em terras norte-americanas.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A percussão abstrata de Naná Vasconcelos

Naná Vasconcelos, autor do clássico Amazonas
No mês de agosto, foi aberta a exposição de Cildo Meireles no Itaú Cultural, em São Paulo. É um dos brasileiros mais bem posicionados no mercado de arte. Depois de participar de uma exposição em Londres e de individual no MoMA, em 1990, passou a fazer parte do circuito internacional, muito antes do “auê” que se faz em torno do trabalho de Beatriz Milhazes.

Pela matéria publicada no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo (perdi a data de quando saiu), A exposição é resultado de uma ideia de mais de 30 anos. Na matéria, Silas Martí diz que Cildo, “num LP, […] decidiu gravar de um lado o som dos maiores rios brasileiros, Amazonas, São Francisco e Paraná. Do outro, orquestrou uma composição de gargalhadas.” Nas palavras de Cildo, “acabou virando um contraponto dessa tragédia que é a morte dos rios. Fica entre essa coisa solene, grande dos rios e a distensão que os rios têm.”

Isso lembra alguma coisa? Pois minha memória remota trouxe à baila um LP lançado pelo percussionista Naná Vasconcelos, em 1973 portanto, alguns anos antes da ideia ter surgido na cabeça de Meireles. Veja a coincidência: o disco se chama Amazonas, e a última faixa, chamada Um Minuto, é… um minuto de gargalhadas. E assim termina.

Por uns bons anos, antes de Naná ficar conhecido fora do Brasil, Airto Moreira reinou absoluto nos polls das revistas especializadas em jazz: ganhava disparado, anualmente, o título de melhor percussionista. Em terras locais, Moreira fez parte do Quarteto Novo, com Heraldo do Monte, Théo de Barros e Hermeto Pascoal. Lançaram um disco em 1967 pela gravadora EMI-Odeon. Depois de mudar para os EUA, o destino deu uma mão ao catarinense: foi tocar com Miles Davis. O outro que chamou atenção do americano foi Hermeto, que teve até música surrupiada. Participou das primeiras formações das bandas elétricas de Chick Corea, gravou discos pela CTI – de Creed Taylor – e tocou com outra estrela brasileira, Eumir Deodato, que ficou conhecido pelo “estrago” que fez com Also Sprach Zarathustra. O genial, cordato nazista e notório pão-duro Richard Strauss deve ter pulado do túmulo: depois que o inglês Stanley Kubrick utilizou a abertura dessa peça em 2001, Uma Odisseia no Espaço, o mundo descobriu que havia um outro Strauss além de Johann, o das valsas.

Na década de 1970, Naná excursionou com o argentino Gato Barbieri (é o autor da trilha de Último Tango em Paris), lançou Africadeus, em 1972, de volta ao Brasil, gravou Amazonas, pela Philips. Dentre as participações nos discos de Milton Nascimento, o ponto alto acontece em Milagre do Peixes (1973). Sua participação é um diferencial. Devido a alguns problemas com a censura do governo militar, a maioria das letras – algumas em parceria com o cineasta Ruy Guerra – foi proibida. Resultado: quase que inteiramente instrumental, o que sobressaem são os vocalises de Milton e os efeitos vocais de Naná. O disco começa com Os Escravos de Jó, com as vozes de Milton, Clementina de Jesus e Naná. É uma “entrada” impactante. Em Carlos, Lúcia, Chico e Tiago, novamente, destacam-se a percussão e os sons que Vasconcelos faz com a voz. A Chamada é o ponto alto: a conjunção dos vocais “desolados” de Milton e a parte percussiva é perfeita.

Quando Naná gravou A Dança das Cabeças (1976) com Egberto Gismonti era artista pronto. Além desse, ambos fizeram o Duas Vozes (1984). Participou de vários do cast da ECM; como líder, lançou Saudades, em 1979.

O ponto alto da carreira de Vasconcelos são os do Codona, lançados pela gravadora alemã. Foram três os discos e três eram os componentes, que formaram essa banda cujo nome vem das duas letras iniciais de cada um: “Co”, de Colin Walcott, “Do”, de Don Cherry, e “na”, de Naná. Walcott era percussionista e citarista; foi um dos componentes, com Ralph Towner, Glen Moore e Paul McCandless, do Oregon. Don Cherry foi um dos expoentes da avant-garde; no início da carreira, tocou com Ornette Coleman e John Coltrane.

Em 1973, época em que foi lançado Amazonas, não comprei. Como todo disco instrumental – imagino que foram prensados poucos – sumiu rapidamente das lojas. Consegui fazer uma cópia em fita-cassete. Ouvi muito, mas fitas magnéticas degradam, e chegou uma hora em que não pude mais ouvir Amazonas. Há pouco tempo, arrumei uma cópia em mp3. Semanas depois, leio a matéria sobre a exposição de Cildo Meireles. É boa ocasião para ouvirmos Naná novamente.

Ouça Um Minuto, faixa final de Amazonas.



O fantástico berimbau cósmico de Naná em seu primeiro disco, Africadeus. É de uma apresentação em Roma, em 1983.



Milton Nascimento canta San Vicente, com Naná.


Gismonti e Naná.