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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Elis Regina e Frank Sinatra

Ronaldo Bôscoli e Elis Regina: um casal feliz?
Preferências, na adolescência, tendem à polarização. Gostar de Caetano Veloso significava que não morria de amores por Chico Buarque. Como gostava de Gal Costa, outras cantoras pouco significavam para mim. O tempo provocou uma mudança e uma capacidade de ser menos radical e sectário. Posso ter todos os álbuns dos meus preferidos, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento, mas tenho cerca de dez de Chico. De Elis tenho poucos, mas um deles está entre os meus dez mais de música brasileira: “Elis & Tom”.

Assistir à minissérie – não vi o filme quando exibido nos cinemas – “Elis – Viver é Melhor que Sonhar” seria uma boa chance de reavaliação. Foi uma tremenda cantora, devo considerar. Continuo preferindo a Gal Costa dos primeiros anos. Questão de gosto. Agora, a atriz Andréia Horta subiu no meu conceito. Magnífica Elis. Nem dá para pensar alguém mais adequada para o papel.

Nesses filmes biográficos ficamos a ver o quão próximos são do real. Não li “Furacão Elis”, escrito pela jornalista Regina Echeverria. Muito do que eu sei da carreira de Elis é por meio de “Chega de Saudade” (Companhia das Letras, 1990) e do que li sobre ela em jornais e revistas. Acredito que os roteiristas usaram muito do que foi escrito no livro de Ruy Castro.

Uma é a de quando ela vai ao Rio de Janeiro fazer um teste para a peça “Pobre Menina Rica” e ouve palavras não muito lisonjeiras de Antônio Carlos Jobim. Pelo que consta no livro, Jobim teria afirmado: “Essa gaúcha é muito caipira. Ainda está cheirando a churrasco.” No filme não são essas palavras, mas percebe-se que a fonte pode ter sido o texto de Ruy Castro. O que ela soube, por Carlos Lyra, autor da canção, com Vinícius de Moraes, é que Jobim não a achara adequada para o papel. Mas ficou a bronca. Demorou para gravar alguma composição do autor de “Chega de Saudade”.

Elis não ficou inimiga de Tom, mas de Ronaldo Bôscoli, sim. Desde quando se conheceram, no Rio de Janeiro, a antipatia foi mútua.

O início
Em 26 de outubro de 1964, no show “O Remédio é Bossa”, no teatro Paramount, em que se reuniam Marcos Valle, Antônio Carlos Jobim, Alaíde Costa, Sylvia Telles, Carlos Lyra, Os Cariocas, Vera Brasil, Walter Santos, Vinícius de Moraes, Oscar Castro Neves, Paulinho Nogueira, Pedrinho Mattar, Zimbo Trio, Roberto Menescal e Quarteto em Cy, a participação por 30 segundos de Elis Regina, cantando um trecho de “Terra de Ninguém”, hipnotizou o público. Segundo Ruy Castro, “nascia uma estrela – grande demais para caber nos palcos para pulgas do Bottle’s e do Little Club.”

Pouco antes, com o furo da promessa feita pelo produtor Armando Pittiglani, ao vê-la cantar em Porto Alegre, de lançá-la no mercado fonográfico, obrigou-a a sair atrás de algum lugar que pudesse cantar e ganhar um dinheiro e não ter de voltar de mãos abanando à sua terra natal. Foi assim que conheceu Bôscoli, que em dupla com Luis Carlos Miele, produzia shows para as melhores boates do Rio de Janeiro.

Em pouco tempo, Elis ganharia um programa na TV Record, com Jair Rodrigues e o Jongo Trio. “O Fino da Bossa” foi um tremendo sucesso, mas começou a perder audiência. Enquanto isso, o programa dominical “Jovem Guarda”, com Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Vanderléa, explodia.

A direção da TV Record resolveu contratar a dupla Miéle-Bôscoli para salvar “O Fino da Bossa” do naufrágio. Elis odiava Ronaldo desde o dia em que se conheceram. E agora, iam trabalhar juntos.

O improvável aconteceu, no entanto. Pouco tempo depois de passarem a trabalhar juntos na Record, estavam casados. Carlinhos de Oliveira, o folclórico cronista do Jornal do Brasil, ao anunciar o casamento, escreveu: “Elis Regina terá para sempre o consolo de saber que a guerra do Vietnã é muito pior.”

Aqui, entra Frank Sinatra na história. Bôscoli dizia: “Gosto mais de Frank Sinatra do que de mulher.” E olhe quem dizia! O produtor e letrista era o que se chamava antigamente, um tremendo “rabo de saia”. Namorou Maysa e Nara Leão, para citar apenas as cantoras. Tremendo mulherengo, sentiu na carne as consequências de sua cafajestice. Depois de uma briga, ao voltar para o apartamento, viu toda a sua coleção de LPs e raríssimos discos de 10 polegadas de Frank Sinatra atirada “como discos voadores, no Oceano Atlântico. Alguns dos discos não haviam chegado ao mar e podiam ser vistos, como peixes mortos, na pista da av. Niemeyer”, escreveu Ruy Castro, em “Chega de Saudade”.

O casamento não durou muito tempo.

Ouça a música-título de Only the Lonely”, de Jimmy van Heusen e Sammy Cahn. É um dos grandes álbuns de Sinatra, de sua fase na Capitol Records. Nessa época, Frank encontrava-se no auge da dor pelo fim do casamento com Ava Garner.




Anos depois de ter sido chamada caipira por Tom, passou a raiva. Gravaram, em 1974, o antológico “Elis & Tom”. 

 Ouça o disco na íntegra.




Nota final
No filme, Elis joga uns poucos LPs. Foi por conta dessa cena que resolvi escrever esse texto. Tudo o que foi citado está em “Chega de Saudade”, de Ruy Castro.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Edu & Tom relembrados.

Em novembro de 1981, Antônio Carlos Jobim era um cinquentão de bem com a vida e o sorriso fácil de quem era reconhecido como o maior compositor brasileiro, autor não apenas de clássicos como “Garota de Ipanema”, mas músico maior, com álbuns conceituais, como “Matita Perê” (1973) e “Urubu” (1976), com arranjos orquestrais sublimes de Claus Ogerman. Jobim gostava de dizer que todo brasileiro precisava de um alemão – natural de Ratibor, hoje no território polonês – para dar uma ordem na casa.

Edu Lobo, com 43 anos, na época, onze anos mais novo, bem jovem, com menos de 20, lançou um compacto duplo, e em 1964, “A Música de Edu Lobo por Edu Lobo”, com arranjos de Luiz Eça, hoje, considerado um clássico. Em 1981, o foco em temas sociais se deslocara para um estudo mais específico dos fundamentos musicais. Morou nos Estados Unidos e fez cursos de orquestração com Albert Harris e Lalo Schiffrin.

Em 1981, ambos tinham suas carreiras consolidadas, Jobim, conhecido internacionalmente, e Lobo, considerado um dos destaques da segunda geração da bossa nova, depois de ser premiado em festivais de música com canções marcantes como “Ponteio” e “Arrastão”. Os novos “bossa nova” diferenciavam-se por terem mudado a temática de “um cantinho e um violão” para as causas sociais, consequência de um país convulsionado por um golpe militar. Como Jobim, não sentara na fama. Os dois foram explorar novos horizontes musicais, compondo para peças de teatro e trilhas de cinema.

Perto do que tinham feito até então, o álbum “Edu & Tom”, ideia do grande produtor Aloysio de Oliveira, parece deslocado de suas trajetórias ou momentos em que viviam. E é isso mesmo. O encontro serviu para cantarem coisas belas. Nessa simplicidade está o sublime do disco. São cinco composições de cada um, revezando-se em solos ou cantando juntos, como, por exemplo, Edu Lobo a interpretar Luiza, em vez de Tom, autor da composição.

Edu, em uma entrevista, disse que prefere as músicas tristes. Surpreende, pois á autor de “Vento Bravo”, “Arrastão” e “Ponteio”, mas nesse álbum fica claro de por que disse isso. É brilhante em canções de andamento lento. Duas delas, obras primas, estão presentes: “Pra Fizer Adeus” e “Canto Triste”, esta, sublime, apenas ao violão.

Ouça “Canto Triste”.




“Pra Dizer Adeus” é do início da carreira, e se não me engano, foi gravado pela primeira vez no LP “Edu & Bethânia” (Elenco, 1966), produzido pelo mesmo Aloysio de Oliveira.




“Pra Dizer Adeus” tem letra de Torquato Neto. Nesse álbum, há uma com título muito parecido, mas é de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes: “É Preciso Dizer Adeus”.




Um pouco mais uptempo é “Vento Bravo”, de Edu Lobo com letra de Paulo César Pinheiro. O flugelhorn é de Marcio Montarroyos. O registro é bem interessante porque mostra a discussão entre os dois para a gravação. Não sei se é uma dublagem ou não. Fiquei na dúvida.




O destaque, no entanto, é “Ligia”.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Minhas manhãs de carnaval

Luiz Bonfá e seu violão
Para se ter uma ideia do quanto 1959 foi bom, listo algumas músicas compostas neste ano: Chiclete com Banana (Gordurinha, Almira Castilho), Desafinado (A.C. Jobim, Newton Mendonça), Dindi (A.C. Jobim, Aloísio de Oliveira), Eu Sei Que Vou Te Amar (A.C. Jobim, Vinícius de Moraes), A Felicidade (A.C. Jobim, Vinícius de Moraes), Brigas Nunca Mais (A.C. Jobim, Vinícius de Moraes), Este Seu Olhar (A.C. Jobim), Ho-Ba-La-Lá (João Gilberto), Minha Saudade (João Donato, João Gilberto), Ela Disse-Me Assim (Lupicínio Rodrigues), Maria Ninguém (Carlos Lyra), Lobo Bobo (Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli), A Noite do Meu Bem (Dolores Duran), Recado (Luis Antônio, Djalma Ferreira), O Samba é Bom Assim (Norival Reis, Hélio Nascimento), Baiano Burro Nasce Morto (Gordurinha), Samba de Orfeu (Luiz Bonfá, Antônio Maria), e Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá, Antônio Maria). Para quem tem a memória lesada a ponto de mal conseguir guardar o próprio número do telefone, seria impossível ter uma lista dessas. Recorro ao mestre Jairo Severiano, autor, com Zuza Homem de Melo do livro A Canção no Tempo – 85 anos de músicas brasileiras (Editora 34).

Pelo que se percebe, o “campeão” do ano foi Tom Jobim. Antes, já havia composto Teresa da Praia, em 1954, com Billy Blanco, famosa nas vozes de Lúcio Alves e Dick Farney, Foi a Noite, com Newton Mendonça, lançada por Sílvia Telles, Se Todos Fossem Iguais a Você, primeira parceria com Vinícius, para a peça Orfeu da Conceição, em 1957, e Chega de Saudade (1958), de novo com o poetinha. Entre uma músiquinha e outra , como diria o poeta embaixador, em 1959, Jobim era autor de seis temas que tornaram-se clássicos.

Jobim compõe e arranja, Bonfá toca
A peça Orfeu da Conceição, escrita por Vinícius, foi musicada pelo então novato Jobim, estreou em 1956, e gerou um disco de 10 polegadas lançado pela Odeon. O francês Marcel Camus, em 1959, resolveu adaptá-la para o cinema. Fez tremendo sucesso, com o título modificado para Orfeu Negro, de maior apelo internacional. Ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e foi premiado com a Palma de Ouro, em Cannes. O produtor Sacha Gordine, querendo ganhar alguns trocados a mais, resolveu fazer uma nova trilha sonora. Fazem parte dela A Felicidade, Samba de Orfeu e Manhã de Carnaval. Luiz Bonfá, autor dos dois últimos temas, com letras de Antônio Maria, tinha participado do disco da peça como violonista. Manhã de Carnaval abriu as portas internacionais para ele.

Ao contrário do que alguns imaginam, Bonfá foi para os EUA antes de Jobim. Viajou para Nova York como acompanhante da cantora Mary Martin, em 1957. Esse movimento se inicia com Carmen Miranda e o Bando da Lua e teve continuidade com a ida de Laurindo de Almeida, que se fixou em Los Angeles no início da década de 1950 e também dos menos conhecidos Los Índios Tabajaras, que conseguiram sucesso relativo na América do Norte. Eram dois exímios violonistas que construíram uma carreira internacional, mas não se vinculam à onda da bossa nova. (sobre eles, leia http://bit.ly/1Fj1iwl)

O sucesso de Manhã de Carnaval levou Bonfá a resolver tentar a sorte nos EUA. Grande violonista e compositor, gravou álbuns pelo selo Verve, um dos principais do jazz, Capitol, Atlantic e Epic. Um dado interessante é de que teve uma de suas composições – Almost in Love – gravada por Elvis Presley. A outra curiosidade é a de que Manhã de Carnaval foi “traduzida” para o inglês com o ridículo título de A Day in the Life of a Fool. Ainda bem que o título original foi preservado posteriormente. A única excentricidade, mas aí devemos responsabilizar as características da língua inglesa, é a de que normalmente “manhã” é grafada como “manha”, o que em português significa outra coisa. Outra aberração nesses casos de equívocos de grafia é Você Abusou, escrita “Voceabuso” e, em vez de ter sido creditada a Antonio Carlos e Jocafi, ter ficado como uma composição de Tom Jobim, em um disco do pianista Tommy Flanagan. É uma coisa que nem a dupla deve ter tomado conhecimento.


Algumas Manhãs de Carnaval
Sem dúvida, a mais bela interpretação desta canção é a de Agostinho dos Santos. Ouça.




Uma curiosidade: Agostinho canta com Johnny Mathis, em programa da antiga TV Excelsior (1964).




Bela é também na voz de João Gilberto.




Ouça com Nara Leão.




Ouça a curiosa versão do grupo cubano Los Zafiros. Essa banda é muito interessante. Segue a onda dos conjuntos vocais que, aqui no Brasil teve como um dos principais o Golden Boys. Leia mais sobre eles em http://bit.ly/1DgSHcH)




O depoimento de Luiz Bonfá contando de como nasceu Manhã de Carnaval (está cortado, mas vale como documento). De quebra, Elizete Cardoso canta a música com acompanhamento de Bonfá.




Até Frank Sinatra cantou Manhã de Carnaval, aliás, com aquele título imbecil: A Day in the Life of a Fool.






Ouça Mañana de … em espanhol, com Natalie Cole.




Susannah McCorkle canta em português.




Manhãs instrumentais
Bela interpretação do brasileiro Antonio Carlos Barbosa Lima, um de nossos maiores violonistas, que há muito mora fora. Sobre ele, leia http://bit.ly/1EENs3q




Veja Baden Powell interpretando Manhã de Carnaval.





Composta por um violonista, Manhã de Carnaval é perfeita na guitarra. Uma boa interpretação é a de John McLaughlin, com Al DiMeola. Ele começa com um trecho de Insensatez antes de entrar no tema.




Outra muito boa é a do guitarrista Jack Wilkins. É uma das minhas preferidas.




Ouça ao saxofone tenor, com Jim Tomlinson, marido de Stacey Kent.




Leia também um texto sobre a minha quarta-feira de cinzas em Nova York e em Passos, MG: http://guenyokoyama.blogspot.com.br/2011/04/manha-de-carnaval-em-plena-quaresma.html



quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Tom Jobim e as mulheres

Ao colecionador importa ter. Seu prazer reside na posse. O grupo Folha lançou uma série de CDs de Antônio Carlos Jobim. É um “complete” dele. São em formato de um livrinho, com capa dura. Saem do padrão dos “jewel box”, o que dificulta guardá-los com o restante de nossos CDs.

Marina Lima é o destaque de Tom no Feminino
Pelo fato de ter todos os álbuns originais lançados, não existiria razão de adquiri-los. Completando a coleção editada pela Folha, montaram duas coletâneas: Tom no Feminino e Tom no Masculino. Voltando à história do colecionador, basta haver alguma interpretação que ele não tenha e, lá vai ele aumentar a sua CDteca.

Em Tom no Feminino estão intérpretes ligados ao repertório bossanovista como Sylvia Telles, Dolores Duran, Joyce e Leila Pinheiro. Até aí, tudo bem: você as conhece. Outras, certamente, você não comprou aquele CD só porque tem uma música do Jobim. São essas as que interessam. Como, por exemplo, Elza Soares cantando Só Danço Samba, Teu Castigo, por Dalva de Oliveira. Alguém conhece? É uma gravação de 1955, com arranjo do próprio Jobim, antes da explosão da bossa nova. O compositor era contratado da gravadora EMI como arranjador.

Tenho Teu Castigo em uma caixa com quatro CDs com o melhor de Dalva, lançado especialmente como brinde que a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) distribuiu aos seus fornecedores. Brindes são uma coisa estranha, pois quem os recebe nem sempre se contenta. É pior do que presente. Por essa razão tenho a caixa. Quem ganhou não gostava nem um pouco de Dalva de Oliveira. O mesmo aconteceu com uma caixa especial com quatro discos essenciais de Clementina de Jesus, distribuída pela Petrobras, que o amigo e jornalista da Empresa, Carlos Grandin, na época em que fora distribuída, me arrumou.

Outra que poderia ser considerada “não bossa nova”, apesar de, ironicamente ser a intérprete de um dos primeiros álbuns “bossa nova”, o clássico Canção do Amor Demais, pelo pequeno selo Festa, com arranjos de Jobim e participação de João Gilberto, é Elizete Cardoso. No projeto inicial, o jornalista Irineu Garcia, que fundou a Festa para gravar poetas brasileiros, queria Dolores Duran, amiga de Vinícius de Moraes e de Tom. Ela não deu muita pelota porque não queria dividir parcerias alheias, já que era compositora também. Elizete era contratada do selo Copacabana, importante gravadora na época, mas depois de uma negociação, foi a escolhida. João Gilberto, que tocaria violão nas gravações, não gostou da escolha: detestava o vibrato da cantora. Terminou por topar. Canção do Amor Demais, com tiragem inicial de 2 mil exemplares, tinha tudo para virar encalhe. Aconteceu o contrário. Virou raridade disputada por colecionadores. O disco de Elizete precede ao lançamento de Chega de Saudade, em disco 78 rpm, de João Gilberto, que é considerado o marco inicial da bossa nova. Na coleção da Folha, a faixa escolhida foi Aula de Matemática, que não faz parte de Canção do Amor Demais.

Capa do LP de Norma Bengell, lançado em 1959
Além de Sylvia Telles, Elza Soares, Elizete Cardoso, Leila Pinheiro, Dolores Duran e Dalva de Oliveira, foram incluídas Nana Caymmi, com Derradeira (boa), Doris Monteiro, com Lamento do Morro (com a autoridade de quem tinha um suíngue incrível), Insensatez por Joyce (dispensável), Meditação, com Maysa (seu estilo combinava melhor com outros gêneros), e um competente, como sempre, Retrato em Branco e Preto de Alaíde Costa. Os destaques são, pela qualidade e pela peculiaridade, Eu Sei Que Vou Te Amar (Norma Bengell), Sabiá (Clara Nunes) e O Que Tinha de Ser (Marina Lima).

Norma Bengell gravou um disco – Ooooooh! Norma – em 1959, muito bom. Gravou outros, mas este é o melhor. A capa é um deslumbre. Aproveitaram a onda e Norma faz um estilo sensual de cantar, meio Julie London. Fora do Brasil, estrelas que faziam o gênero “pin-up”, como Brigitte Bardot e Marilyn Monroe também gravaram seus discos. Além de Bengell, outra atriz se aventurou pela música. Odette Lara canta uma versão matadora de Samba em Prelúdio, em Vinícius e Odette Lara, lançado em 1963 pela Elenco.

O maior destaque é Eu Sei Que Vou Te Amar, com Marina Lima. É uma intérprete maior: imprime seu estilo, como sempre. Esta canção está em Abrigo (1995). No mesmo disco, canta também, de Jobim, Samba do Avião.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Ouça – não está no CD lançado pela Folha – Garota de Ipanema. É outra grande leitura de Marina Lima.

 
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terça-feira, 3 de abril de 2012

Dá pra reinventar Garota de Ipanema?

A Garota de Ipanema virou cinquentona, digo da música, bem entendido. Quantos anos terá a garota que inspirou Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes? Bom, isso não vem ao caso. Há 50 anos, João Gilberto e Os Cariocas apresentaram a Garota em um pequeno show em Copacabana. Pery Ribeiro foi o primeiro a gravá-la em disco. Até, por isso, essa música era o tour de force do filho de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, morto há pouquíssimo tempo. Em 1967, foi a vez de Frank Sinatra gravá-la com o jovem Jobim. Muitos devem ter visto a apresentação dele no programa televisivo de Sinatra (está no DVD A Man and His Music + Ella + Jobim). “O instrumento: o violão; a batida: bossa-nova; o artista: um dos que inventou esse novo e emocionante som” : Jobim é assim anunciado.

Frank e Tom
Um espertalhão americano criou a versão em inglês e ela virou The Girl from Ipanema. Ficou riquíssimo com essa e outras canções de Jobim, em versões, às vezes sofríveis. Como Marilyn e Alan Bergman, que se tornaram quase versionistas exclusivos das melhores canções francesas, Ray Gilbert o foi das músicas brasileiras da época da bossa-nova.

Foi marcada de touca de um músico que não devia estar tão preocupado com o dinheiro; se bem que existe aquela história, contada até pelo próprio compositor, de quando foi convidado a fazer um trabalho com Vinícius.

Em Em Minas ao Vivo, CD que foi lançado postumamente, com Jobim ao piano, em clima informal, fala bastante e, inspirado pelo lugar em que está, conta um monte de “causos”. Uma delas se refere, justamente, à história do “dinheirinho”: “O Lúcio Rangel me apresentou ao Vinícius, […] que me levou ao grande mundo carioca, em casas com pianos de cauda e aquelas senhoras bonitas, bem lavadas. […] Eu andava com uma pastinha cheia de arranjos, competindo com o aluguel. Perguntei: — Escuta, tem um dinheirinho nisso? O Lúcio ficou escandalizado: — Ô, Tom, esse aí é o poeta Vinícius de Moraes. Eu digo: — Ah, bom.” Vinícius estava procurando um parceiro para Orfeu da Conceição.

Em pouquíssimo tempo, Jobim não teve mais de brigar pelo “dinheirinho” do aluguel; e como João Gilberto, foi morar nos EUA. Outros fizeram o mesmo e surfaram na onda da bossa-nova. O mundo gravou Tom. Depois de tanto tempo, é natural que esse “mundo” encolha. Segundo matéria publicada em 18 de março em O Estado de S. Paulo, assinada por Roberta Pennaforte, pelos dados da Universal Music, editora de Garota de Ipanema, são 1.571 gravações em inglês contra 430 em português. Ainda, segundo a jornalista, Corcovado, Samba de uma Nota Só e Águas de Março, atualmente, são mais solicitadas do que Garota de Ipanema.

Apesar de as composições de Jobim serem basicamente “músicas com letra”, devido à riqueza melódica e harmônica, são veículos perfeitos para serem interpretadas apenas instrumentalmente. Muitas músicas de Tom viraram standards e são tocadas à exaustão por músicos de jazz. Em um terreno em que o que vale é o improviso, os temas do brasileiro são perfeitos.

Das últimas Garotas, por ser tão heterodoxa, uma me chamou a atenção: a de Pat Metheny em What It All About (Nonesuch, 2011). É um disco-solo do americano. Não é o seu primeiro. Pat explora ao máximo as possibilidades do violão e da guitarra e é músico audacioso e desassossegado, sempre inovador. Goste-se ou não, Pat “desconstruiu” Garota.

Ouça.



Outra recente é a da cantora Lisa Lindsley. Poucos a conhecem, inclusive eu. Como a bela loura gravou Garota, vamos ouvi-la. Está em seu disco de estreia Everytime We Say Goodbye. Não se destaca em relação aos milhares de outros registros, mas o piano de George Mesterhazy é muito bom. O CD ganhou 3 estrelas pela Downbeat, o que não significa muita coisa.

Ouça.



Tom Jobim e Frank Sinatra. No medley: Change Partners, I Concentrate on You e The Girl from Ipanema.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Ah, insensato Dexter Gordon

DG pelo gênio de Herman Leonard
Começo misturando Dorival Caymmi com Antônio Carlos Jobim, dois nomes maiores da música brasileira. Uma de minhas maiores emoções musicais foi a da primeira vez em que ouvi o disco – LP, na época – Caymmi e Seu Violão. A voz gutural, que parecia vir da alma, e os acordes um tanto rudes e pontuais me marcaram. Desde então, as canções praieiras estão entre as minhas preferidas, mais do que as urbanas. Caymmi é o nosso Thelonious Monk: compôs menos de uma centena de canções e todas são clássicas.

Ao ouvir How Insensitive, lembro-me imediatamente dos versos – “Ah! insensato coração/ Por que me fizeste sofrer/ Porque de amor para entender/ É preciso amar, porque…/? Só louco”. São de Dorival. E os de Jobim, letra de Vinícius de Moraes, são: “A insensatez que você fez/ Coração mais sem cuidado/ Fez chorar de dor/ O seu amor/ Um amor tão delicado/ Ah, porque você foi fraco assim/ Assim tão desalmado/ Ah, meu coração que nunca amou/ Não merece ser amado// Vai meu coração ouve a razão/ Usa só sinceridade/ Quem semeia vento, diz a razão/ Colhe sempre tempestade/ Vai, meu coração pede perdão/ Perdão apaixonado/ Vai porque quem não/ Pede perdão/ Não é nunca perdoado.” “Quem semeia vento […]/ Colhe sempre a tempestade.”

Por razões muito particulares, o melhor Insensatez instrumental é o de Dexter Gordon, do álbum Sophisticated Giant. Num tempo em que os LPs importados eram quase que um produto de luxo, principalmente para um estudante que vivia da mesada do pai, juntei um dinheirinho em uma das idas ao Rio de Janeiro para comprar LPs. Discos de jazz eram mais comuns nas cariocas Billboard e Modern Sound, ambas na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, do que no Museu do Disco, a maior loja de importados em São Paulo. Lembro até hoje que, além desse LP do saxofonista, comprei Grazing Dreams, de Collin Walcott. É provável que seja um desconhecido para muitos, mas quem conhecia uma banda chamada Oregon, sabe que era seu percussionista. Walcott morreu em um acidente besta: o ônibus do grupo bateu e, como estava dormindo, acabou batendo a cabeça.

Meu interesse pelo jazz se deu de maneira inversa como, imagino, aconteceu com muitos da minha geração. Basicamente “roqueira”, os primeiros a me chamar a atenção foram Weather Report, Chick Corea, Miles Davis e o Soft Machine, protagonistas do que estava sendo chamado de jazz progressivo ou jazz elétrico. Éramos da turma do Bitches Brew. Tempos depois, quando fui ficando amigo de admiradores do jazz, todos mais velhos do que eu, percebi o ódio que alguns tinham do Miles Davis pós Bitches Brew.

Nesse “caminho inverso” passei depois a prestar atenção nos músicos consagrados – Duke Ellington, Count Basie e, não me pergunte por que, Art Tatum – e, em alguns que se apresentaram nos primeiros festivais de jazz que aconteceram no Teatro Anhembi, o do pudim, como costumávamos dizer, devido ao seu formato. Desse modo, eu e meus amigos da USP, tivemos a oportunidade de ver, pela primeira vez, Ahmad Jamal, Stan Getz, Zoot Sims, Frank Rosolino, Joe Pass, Dizzy Gillespie e Benny Carter, dentre outros. Claro que os elétricos – ou quase – eram os que mais nos empolgavam: John McLaughlin, Chick Corea, Larry Coryell, Philip Catherine.

Na época em que conheci Dexter Gordon, conheci também o Gustavo, um apaixonado pelo saxofone tenor. Era um dos amigos que tinha ido ao Rio conosco, daquela vez, para assistir ao único Festival de Monterrey, se não me engano, que aconteceu lá. Foi a oportunidade de conhecer o Weather Report em seu auge criativo, ver McCoy Tyner e Pat Metheny. Inesquecível. O melhor do Gustavo era o de que tinha um tenor Selmer Mark IV, sonho de qualquer saxofonista. Com muitas reservas e palhetas velhas, nos deixava soprar no seu sax. Não sei se por essa razão, o saxofone tenor virou o meu segundo instrumento preferido no jazz. Além de Dexter Gordon, Lester Young, Coleman Hawkins e Ben Webster viraram deuses, para mim. Ficávamos eu e o Gustavo, ouvindo os LPs que Hawkins e Webster tinham gravado juntos, com um terceiro tenor – Budd Jonhson – e ficávamos “reconhecendo” cada solo dos discos. Para mim, o sax tenor é o que existe de mais próximo à voz humana.

Dexter Gordon, depois da volta aos EUA (tinha emigrado, como muitos músicos, para a Europa, em razão de problemas que teve com o consumo de drogas consideradas ilícitas). Em seu retorno, foi contratado pela Columbia e foi “redescoberto” pela crítica e pelo público. Depois de um álbum ao vivo com apresentação no Carnegie Hall, lançou Sophisticated Giant. O título era apropriado: era um gigante de quase dois metros de altura e um Dodge Dart – era como designávamos os grandes bebedores, pois esse carro era enorme e “bebia” bem. Na primeira apresentação em São Paulo, cada vez que terminava um de seus longos solos, saía do palco para “molhar” a garganta. Dizem que bebeu 25 latas de cerveja durante uma única apresentação. Era uma figura! Enorme, andava a passos lentos e, quando apresentava a música, falava no mesmo ritmo, com voz de trovão. Foi memorável.

O responsável pelos arranjos de Sophisticated Giant foi o trombonista Slide Hampton. Aí reside a grande qualidade do disco. São dois trumpetes ou flugelhorn (Woody Shaw e Benny Bailey), dois trombones (Hampton e Wayne Andre), uma tuba (Howard Johnson, que toca sax barítono também), a “cozinha” (George Cables ao piano, Rufus Reid no baixo e Victor Lewis na bateria), Frank Wess na flauta e no saxofone alto, e, finalmente, Gordon no sax tenor e no soprano.

O repertório é, igualmente, excepcional: Laura, The Moontrane (Woody Shaw), The Red Top (L. Hampton e B. Kynard), Fried Bananas (DG), You’re Blasé (O. Hamilton, B. Sievier), e How Insensitive, que fecha o disco. Na canção de Jobim, Gordon estraçalha. Seus solos no sax soprano são coisa de gênio e o arranjo, também. O resto não é resto: é tudo muito bom, com destaque para Laura (superlativo), The Moontrane e You’re Blasé. Se você não conhece o disco, vá atrás.

Preste atenção nos metais em How Insensitive.



Insensatez pelo gênio de JG.



Se você está muito interessado e não conhece o disco Sophisticated Giant, tente esse link. Tem até uns bonus track.

http://turbobit.net/ombxjhya93qr.html

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A dor maior em tom menor

A Nana da época dos festivais, aqui com Gil
Se no “amor por toda a vida” o tom é menor, imagine então quão “menor” é o tom em Canção em Tom Menor, outra composição de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes. A amiga Luzete disse que falar sobre esse assunto “é matéria complicada; melhor deixar pras coxias da vida!” Verdade. Musicalmente, o juramento que faz é “sofrido” e “ser somente teu e amar-te como nunca / ninguém jamais amou, ninguém” é uma atitude radical se, em nome desse amor, aparta-se do mundo externo. Talvez essa dubiedade entre felicidade e “apartamento” tenha dado o tom que Jobim imprimiu à letra.

Sofridos mesmo são os versos de Canção em Tom Menor: “Porque cada manhã me traz/ O mesmo sol sem resplendor/ E o dia é só um dia a mais/ E a noite é sempre a mesma dor/ Porque o céu perdeu a cor/ E agora em cinzas se desfaz/ Porque eu já não posso mais/ Sofrer a mágoa que sofri/ Porque tudo que eu quero é paz/ E a paz só pode vir de ti/ Porque meu sonho se perdeu/ E eu sempre fui um sonhador/ Porque perdidos são meus ais/ E foste para nunca mais/ Oh, meu amor/ Porque minha canção morreu/ No apelo mais desolador/ Porque a solidão sou eu/ Ah, volta aos braços meus, amor.”

É de cortar os pulsos. Se Por Toda a Minha Vida é a jura do amor eterno, nessa é a dor da perda e a súplica pela volta do amado. Quem seria a(o) intérprete ideal para uma música tão dilacerante? Nana Caymmi? Para muita gente seria o primeiro nome lembrado.

Dinair de nome original, Nana é de uma família musical: o pai Dorival, e a mãe Stella Maris. Fora isso, tem dois irmãos, músicos excepcionais. Foi “apresentada” a um público maior na época dos festivais de música, tão populares a partir do meio da década de 1960, mas já tinha participado de Tom Canta Caymmi, em 1964, e tinha gravado o solo Nana, ambos pela gravadora Elenco. (leia mais sobre Nana em http://bit.ly/p90k1D)

Depois de um “sumiço” por conta do casamento e nascimento do filho, separada, voltou à ativa gravando discos pela gravadora CID, já em meados da década seguinte. São todos excepcionais, contando com participações especialíssimas como as do irmão Dori nos arranjos, Milton Nascimento e Tom Jobim. São músicas, no geral, densas. É uma pena que tais discos estejam fora de catálogo ou que suas músicas estejam espalhadas em coletâneas. Quando passou a gravar pela EMI, Nana não deixou de ser densa, mas ficou menos. Lançados ainda na época dos LPs, as embalagens da CID passavam uma imagem de baixa qualidade. O que estava contido, no entanto, nessas pobres capas mal plastificadas eram diamantes brutos “dramaticamente” lapidados. Nana gravou e revelou canções – algumas pouco conhecidas – como Branca Dias (Edu Lobo e Cacaso), Tens Calmaria e Mãos de Afeto (Ivan Lins), Sacramento e Boca a Boca (Milton Nascimento), e Se Queres Saber (Peterpan) em leituras, na falta de melhor palavra, viscerais. Mesmo canções mais conhecidas, como a citada Sacramento, ganham um tom autoral. É dessa época a gravação de Canção em Tom Menor. Ela canta acompanhada por ninguém menos que Antônio Carlos Jobim. É impressionante o grau de dramaticidade que Tom imprime ao piano com tão poucas notas. Confira.




Canção em Modo Menor, executada e cantada por Antônio Carlos Jobim.


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Por toda a minha vida ou o amor incondicional

Nunca haverá o “amor por toda a minha vida”, mas não custa pensar de que possa existir; ou seguir o princípio “viniciano” – um neologismo torto para a conhecida frase de Vinícius de Moraes: “o amor, que seja eterno enquanto dure”.

Qualquer ser humano, um dia, sonhou ou se iludiu que o amor nutrido por outra pessoa seria eterno, provavelmente. Imagino que existam alguns felizardos e esses devam ser invejados. Às vezes, penso se o amor que a Brisa – minha cachorra – nutre por seu dono é um amor incondicional. Mas é um animal de reino diferente ao qual pertencemos. Mesmo assim, por um átimo de tempo ou num impulso em que tudo pode parecer tão perfeito e harmônico, o “apaixonado instantâneo” poderia ter escrito versos assim: “Oh, meu bem amado/ Quero fazer de um juramento uma canção/ Eu prometo por toda a minha vida/ Ser somente teu e amar-te como nunca/ Ninguém jamais amou, ninguém// Oh, meu bem amado/ Estrela pura, aparecida/ Eu te amo e te proclamo/ O meu amor, o meu amor/ Maior que tudo quanto existe/ Oh, meu amor”. Melhor esclarecer: nunca seriam tão belos como esses, que são de Vinícius de Moraes. Outra observação: o “amor por toda a vida” é uma música em tom menor e, em vez de transmitir ideia de felicidade, passa uma sensação fatalista.

Difícil discordar do quase consenso de que o Por Toda a Minha Vida gravado por Elis Regina em Elis & Tom, acompanhada por uma orquestra de cordas arranjada por seu marido à época, Cesar Camargo Mariano, é “A” interpretação. Aliás, esse disco gravado em 1974, em pouco mais de duas semanas, é uma coleção de “melhor das melhores” das composições de Jobim.

Elis & Tom transformou alguns paradigmas da interpretação do repertório jobiniano, mas nem por isso alguém vai deixar de gravá-lo. Ouvindo a brasileira radicada em Londres (não sei se continua lá) cantando Por Toda a Minha Vida, faz-me pensar que standards de qualquer classe ou categoria podem (e até devem) ter um “quê” de transgressão, algo como um ato psicanalítico de ruptura criador/criatura.

Cibelle no encarte do segundo CD
O percurso de Cibelle, como o de alguns músicos e intérpretes brasileiros que estão na “bem falados”, passaram pelas mãos do produtor sérvio Suba, trágica e precocemente morto. Foi a principal vocalista de São Paulo Confessions, lançado pela Crammed Discs. A cantora, que foi modelo também, chamou a atenção e foi convidada a continuar a trabalhar com a gravadora. No primeiro, de 2003, já mostrava ao que veio. Fez um belo disco e desvela a candura de sua voz; e a parte bacana: resgata Johnny Alf do esquecimento (sobre ele leia: http://bit.ly/q2KkEw) em que toca teclados (Fender Rhodes) e canta Inútil Paisagem com Cibelle.

O segundo, de 2006, é um álbum de nome meio psicodélico e intrigante: The Shine of Dried Electric Leaves. É apenas o título do disco; não tem nenhuma música com esse nome. Mistura músicas compostas por Cibelle, só ou em parcerias com Apollo Nove e Mike Lindsay, conta com participações de Seu Jorge e Lany Gordin, e canta composições de Jobim, Caetano Veloso (London London, Cajuína), e Tom Waits (a belíssima Green Grass, a primeira do CD). A de Jobim é, exatamente, Por Toda a Minha Vida, que você ouve a seguir.

Seu último CD é puro estilo. Cibelle se traveste de Sonia Khalecallon, um trocadilho com os nomes da artista mexicana cult Frida Khalo e da artista conceitual Sophie Calle, que resulta em sonoridade que traz à memória a expressão “canecalon”. Gerações mais recentes devem não conhecer as famosas perucas femininas de canecalon, que eram feitas de material sintético imitando cabelos naturais. Apesar de todo o conceito e do nome impactante do CD – Las Vênus Resort Palace Hotel –, não é tão bom quanto o anterior.


Cibelle canta Por Toda Minha Vida.



Será a versão de Por Toda Minha Vida, de Elis & Tom, a definitiva?

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O “só tinha que ser com você” e o “tinha que ser você”

Dizer “it had to be you” é sintético e certeiro. É “você” e, pronto. Por associação, lembro-me do clássico brasileiro Só Tinha de Ser com Você. Na Wikipedia, dá que foi composta em 1974 (se não me engano, é de 1965; o dado está errado ), por Antônio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira. Será que os dois se lembraram de It Had to Be You, clássico de Isham Jones e letra de Gus Kahn, composição de 1924? Fica a pergunta.

A letra de It Had to Be You:
It had to be you, it had to be you/ I wandered around, and finally found/ The somebody who could make me be true/ Could make me be blue or even be glad/ Just to be sad just thinking of you/ Some others I've seen might never be mean/ Might never be cross or try to be boss/ But they wouldn't do/ For nobody else gave me the thrill/ With all your faults I love you still/ It had to be you/ It had to be you/ It had to be you.

A letra de Só Tinha de com Você:
É, só eu sei/ Quanto amor eu guardei/ Sem saber que era só prá você// É, só tinha de ser com você/ Havia de ser pra você/ Senão era mais uma dor/ Senão não seria o amor/ Aquele que a gente não vê/ O amor que chegou para dar/ O que ninguém deu pra você// É, você que é feita de azul/ Me deixa morar nesse azul/ Me deixa encontrar minha paz/ Você que é bonita demais/ Se ao menos pudesse saber// Que eu sempre fui só de você/ Você sempre foi só de mim.

Na letra de Gus Kahn, a “que tinha de ser você” é aquela que, como ninguém, mexeu com seus sentimentos, “apesar de todas as suas falhas”, continua a amá-la; poderia deixá-lo triste ou até se sentir feliz, apenas sentindo-se triste ao pensar nela. O “blue” de Kahn é diferente do “azul” de Jobim e Aloysio de Oliveira: “[…] você que é feita de azul, me deixa morar nesse azul”. O “blue” de Kahn é decorrência da falta que ela faz, da amada que, apesar dos “defeitos”, tinha de ser ela; o azul dos brasileiros é associada à tranquilidade, a um bem-estar.

Harry Connick, Jr: retrato do artista quando jovem
Outro dado interessante é certa semelhança na “atmosfera” (mood) da música. Ambas transmitem uma tranquilidade, uma paz, passíveis de acontecer quando a felicidade se associa ao sentimento do amor.

Centenas de intérpretes cantaram It Had to Be You. Funcionam tão bem, sonoramente, as rimas “you” / “true”, “around” / “found”, e “blue” / “you”, tornando esse clássico mais irresistível ainda. Ouça-a na interpretação de Harry Connick, Jr. Quando surgiu, rapaz de bela fachada, andaram dizendo que era o novo Frank Sinatra. É muita responsabilidade! Bom cantor e bom pianista, nascido em New Orleans, e crescido com seus companheiros musicais, os irmãos Marsalis; belo background! Mas, variou muito por conta de suas habilidades múltiplas: flertou com o trabalho como ator (é um dos tripulantes do avião “Memphis Belle”, no filme homônimo; nele, canta Danny Boy), quis deixar de ser o “garoto bonitinho” e enveredou por experimentações mais jazzísticas. Mas o hoje senhor Connick Jr. não deixou de ser o que é: quem é bom não deixa de sê-lo. Os marqueteiros da música sempre foram ávidos em lançar novos Sinatras. O exemplo mais recente é o de Michael Bublé.

Ouça “It Had to Be You”, com Harry Connick, Jr.




O Só Tinha de Ser com Você no álbum Elis & Tom é irrepreensível, com o piano elétrico de César Camargo Mariano, mas nada melhor que com o seu autor. Jobim fez de suas limitações vocais uma qualidade idiossincrática (quem não gosta de Tom cantando Na Batucada da Vida?; é só ele, especialmente ele, quando canta o verso final no limite grave de sua voz). Que encantador o seu “você que é bonita demais”. A versão que você ouve é de 1967, com Nelson Riddle, o mesmo arranjador das melhores gravações de Frank Sinatra.




“Só Tinha Que Ser com Você” com Elis e Tom.


E tem também “O Que Tinha de Ser”, maravilhosa na voz de Elis.


terça-feira, 30 de agosto de 2011

Quando Antônio Carlos & Jocafi virou Antônio Carlos Jobim

Os verdadeiros Antônio Carlos e Jocafi
A pergunta é se o Ecad está arrecadando nos conformes os dólares a que tem direito a dupla Antônio Carlos & Jocafi pelo seu maior sucesso, gravado por Tommy Flanagan.

Anos atrás, e bote anos nisso, pois são décadas, comprei um CD do pianista Tommy Flanagan. Ele e Hank Jones foram os grandes acompanhantes da cantora Ella Fitzgerald. Como nos lieder de Schubert ou Richard Strauss, para uma boa interpretação de Elisabeth Schwarzkopf, Dietrich Fischer-Dieskau ou Janet Baker, era necessário um grande pianista acompanhando-os. Pouco conhecidos, Gerald Moore e Geoffrey Parsons, eram as “escadas” para o brilho desses intérpretes.

Para a sorte da humanidade, Hank e Tommy puderam mostrar suas artes como solistas em belos discos em trio piano-baixo-bateria, em duo com Frank Wess (no caso do primeiro), e até tocando juntos (Our Delights e I’m All Smiles são dos que mais me lembro agora). Hank se manteve na ativa até ano passado, quando faleceu, prestes a completar 92 anos. Flanagan morreu há dez anos, em 2001.

Pus-me a escutar o recém-adquirido Jazz Poet (1989) e, enquanto ouvia, dei uma espiada nas músicas. A décima – e última – era de Antonio Carlos Jobim e se chamava Voce Abuso; era assim que estava grafado. Despertou-me a curiosidade, pois nunca tinha ouvido falar dela, e como boa parte da humanidade sensível, conhecia bem o repertório de Jobim. Tentei puxar pela memória. Bom, esperei chegar até a faixa 10 e aí, caiu a ficha: era a música Você Abusou, grande sucesso da dupla Antônio Carlos & Jocafi. Curiosidade: fizeram até uma versão em francês – Fais comme l’oiseau –, de Michel Fugain e virou hino do Partido Socialista. A dupla brasileira teve de entrar com um processo contra o surrupiador Fuagain.

Será que o Ecad – de existência tão discutida, defendida por alguns, por outros, não, e que esteve na boca do povo na querela que aconteceu com a nossa Ministra de Estado da Cultura, Ana Buarque de Hollanda – está sabendo que os dólares que podem estar sendo depositados na conta da família Jobim, na realidade, pertencem à dupla? A propósito, estou do lado de Ana. Nem sei se está com a razão: é questão de coração e sentimento de solidariedade aos que são atacados com inclemência e de maneira tão baixa.

Ouça a beleza que é Você Abusou com Tommy Flanagan, acompanhado de George Mraz no baixo e Kenny Washington na bateria.



E para que se lembre da saudosa dupla…



Nota: vi até Você Abusou creditada a Ivan Lins. É descaso, mas acontece.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O dramaticamente belo retrato em branco e preto de Enrico Rava

Enrico Rava é um velho fornecedor de pérolas para a gravadora ECM, de Manfred Eicher (leia: http://bit.ly/pcM9QE). É uma parceria que, de tão antiga, possivelmente, ultrapassa a idade de algum incauto leitor desse blogue. No fim dos anos 1970, num momento de pura insanidade, uma gravadora brasileira lançou um pacote de LPs da ECM. Parte do povo que conhecia o Köln Concert, de Keith Jarrett, e sabia da existência dessa gravadora alegrou-se por esse auspicioso acontecimento.

Além de Jarrett, o cast era de tirar o chapéu. Tivemos a chance de conhecer um jovem que nem tinha completado 18 anos quando gravou seu primeiro disco (Pat Metheny), e também a sorte de saber que existia vida musical de grande qualidade nos países nórdicos. Conhecê-los ampliava o espectro do que tínhamos como sendo jazz.

Aqueles que estavam perto de vinte anos viram nesses lançamentos uma alternativa ao jazz mainstream e ao que era chamado de jazz fusion ou jazz-rock. A ECM representava uma preferência interessante por abrir espaços como o de Jarrett poder realizar um disco solo de improviso, coisa que, provavelmente não se viabilizaria nos EUA. Chick Corea tinha abraçado a eletrificação, mas lhe foi dada a oportunidade de realizar dois discos solo (Piano Improvisations vol. 1 e vol.2), ou entrar no terreno da experimentação, gravando com Anthony Braxton.

Mais que isso, permitiu-nos o contato com músicas europeus de quem pouco conhecíamos, como Jan Garbarek, Eberhard Weber, Barre Philips e Terje Rypdal. Enrico Rava é parte desses anos iniciais da ECM.

Rava, que teve seu primeiro disco pela ECM em 1975 – The Pilgrim and the Stars. Antes desse, lançara, como solista, um disco pela italiana Black Saint – Il Giro del Giorno in 80 Mondi – em 1972. Percebem-se influências de Miles Davis – sua primeira inspiração – e do sopro quase sem vibrato de Chet Baker, mas isso são apenas influências. Rava não é o mais rápido do oeste porque, no cerne de seu som, importa a intensidade melódica de seu trumpete, e nisso é soberano.

Em Pilgrim, Rava tocou com o guitarrista John Abercrombie, o baixista Palle Danielsson e Jon Christensen. Essa formação realçou o que era designado como “som ECM”. Com os mesmos músicos, lançou The Plot, em 1977. No ano seguinte, lançou Enrico Rava Quartet, com a participação do trobonista Roswell Rudd. O álbum a seguir foi “Ah”, gravado com o pianista Franco D’Andrea, o baixista Giovanni Tommaso, e com o “estrangeiro” Bruce Ditmas na bateria. É um dos pontos altos de sua primeira fase ECM. A maioria dos temas compostos por Rava é tocado de forma vigorosa e fogem um pouco da tendência ECM; e contrariando brevemente o que disse de seu estilo, mais para o melódico, se esmera em ágeis solos em linhas ascendentes e descendentes serpenteantes. Em 1981 gravou ainda Opening Night.

Antes e depois: bigode e cabelo iguais 
O “rittorno” de Rava à ECM acontece em 2004 com o CD Easy Living. Nessa última fase, seu parceiro mais constante tem sido o pianista Stefano Bollani. O destaque desse álbum são as belas combinações do som do trumpete com o do trambone de Gianluca Petrella. Tati (2004) é um disco com temas melancólicos em que é acompanhado apenas por Bollani e Paul Motian, o rei da bateria minimalista. Com a mesma formação de Easy Living, com Andrea Pozza substituindo Bollani, gravou The Words and the Days (2005). Lançou a seguir, em 2006, The Third Man, belíssimo duo com Bollani; dois anos depois, foi a vez de New York Days, com participação do saxofonista tenor Mark Turner.

Apesar da referência aos discos da segunda fase ECM de Rava, o motivo principal é uma música específica do duo que fez com Bollani. Um tanto em razão de natural identificação, o destaque aqui é Retrato em Branco e Preto, de Chico Buarque e Antonio Carlos Jobim. Nem vou cair na besteira de dizer qual é a de que mais gosto para não arrumar encrenca. Tampouco direi que a minha preferida é a de João Gilberto, e menos ainda a de Elis Regina e Jobim do clássico Elis & Tom. É, no entanto, nesse disco que está o que considero a mais perfeita síntese dessa música: o último acorde ao piano de Tom. Ouça:



No CD com Bollani constam duas interpretações. É a segunda que você vai ouvir. O piano é climático e dramático, e o trumpete de Rava mais ainda. Toda a dor de sublimes versos como E o que é que eu posso contra o encanto,/ Desse amor que eu nego tanto/ Evito tanto e que, no entanto,/ Volta sempre a enfeitiçar/ Com seus mesmos tristes, velhos fatos,/ Que num álbum de retratos/ Eu teimo em colecionar. estão desenhadas nas notas de Enrico Rava.

João canta Retrato em Branco e Preto.



Leia também “A beleza dramática do piano de Mal Waldron” em http://bit.ly/nE5dGg