sexta-feira, 17 de junho de 2011

Eddie Vedder e a magia inesperada do ukulele

Alguém imaginaria que um instrumento rudimentar havaiano chamado ukelele se tornasse tão conhecido? É, merece até matéria de Ben Sisario (“A melodia espontânea do ukulele”), no New York Times.

A primeira vez que ouvi desse instrumento foi por conta de um belo meddleySomewhere Over the Rainbow e What a Wonderful World –, parte da trilha sonora de Meet Joe Black (1998), filme de Martin Brest, estrelado por Brad Pitt, interpretado por um enorme – digo, pelo seu peso e dimensões descomunais – Israel Kamakawiwo’le.

Vedder e seu ukulele
Segundo a matéria o ukulele é “descendente do cavaquinho (machete) levadopor trabalhadores portugueses para o Havaí no século 19.” É dito, ainda, que “não é difícil entender tamanha atração. O uke evoca inocência, sinceridade e nostalgia por uma era pré-rock. Para a publicidade, ele representa uma humanização imediata.” Frisa também que é um instrumento fácil de aprender, “que é quase impossível tocar mal.”

É. Primitivo e quase tosco. Se puxarmos pela memória e até pelas apresentações ao vivo de Paul McCartney, esse instrumento – ou um cavaquinho? – é tocado pelo ex-Beatle em Ram on (Ram, 1971). Na trilha composta por Eddie Vedder (líder da banda grunge Pearl Jam) para o filme Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007), dirigido por Sean Penn, apesar de não estarem listados os instrumentos que ele toca, em Rise (quarta música), ouve-se um instrumento que deve ser o ukulele. Sem dúvida, combina com o clima, pelo fato de o filme tratar do “encontro” do homem com a natureza.

Agora, em junho, Vedder lança um disco solo chamado Ukulele Songs. É despojado e o instrumento se presta bem ao propósito de ser uma coleção de canções melancólicas, um tanto atemporais, no sentido de que não segue nenhuma tendência ou moda. A capa deixa isso mais evidente ainda: uma figura solitária sentada em uma cadeira antiga, em frente a uma máquina de escrever, submersa no mar profundo. Imagine. Há pessoas que nunca devem ter visto um artefato desses na sua frente, e decerto imaginam vagamente, que era uma coisa em que se batucava em teclas que imprimiam letras numa folha de papel.


Ouça Satellite.



Eddie Vedder canta o clássico Dream a Little Dream.




Apesar de batido, vale ouvir o Somewhere Over the Rainbow/What a Wonderful World com Israel Kamakawiwo’le

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A surpresa de Jon Hendricks

De vez em quando somos surpreendidos por coisas esquecidas no baú dos prazeres. Fortuitas ou fugidias, canções ficaram perdidas em milhares de CDs, LPs, DVDs espalhados pela casa, ou bilhões de músicas que foram ouvidas por aí, em lojas, salas de espera, no rádio do carro.

Ouço um CD de Makoto Ozone e sou enfeitiçado pela voz de Jon Hendricks. Não lembrava mais desse dueto incomum, mais por associar o estilo do japonês a outras combinações. Mais conhecido pela longa colaboração com o vibrafonista Gary Burton e, por conseguinte, vejo seu estilo mais próximo ao de Chick Corea, por exemplo.

Lambert, Hendricks &; Ross: the hottest group in jazz
Lambert, Hendricks & Ross. O estilo vocal de Hendricks é mais identificado com o bebop. O trio Lambert, Hendricks & Ross fez história. O diferencial era Hendricks mesmo, tornando-se conhecido por colocar letras em temas aparentemente impossíveis de serem cantados em versos. Tiveram vida relativamente breve nessa formação. O trio, formado em 1957, teve sua primeira baixa em 1962 com a saída da bela Annie Ross, não apenas superlativa nesse quesito, mas como coautora de alguns temas. Segundo Will Friedwald, Ross era o “molho” necessário ao sucesso do trio por meio dos elementos classe e sexo; algo como “Katherine Hepburn em [Fred] Astaire e [Ginger] Rogers”, Em 1966, o quase sósia do comediante Louis de Funès Dave Lambert, morreu em um acidente automobilístico. Antes disso, ambos tentaram manter o trio vivo com a ceilonesa Yolande Bavan e a canadense Anne Marie Moss, mas nenhuma das duas tinha o appeal de Ross.
Capa de Treasure

Treasure. Belo disco esse do japonês Makoto Ozone. Fala-se pouco dele: é o preço de se ficar longe do mercado americano. Gravou alguns discos pela Columbia (atual Sony) e foi pianista da banda de Gary Burton. Resolveu voltar a morar no Japão. Nesse sentido, o mercado é implacável: por mais que o mercado japonês seja grande, é importante estar presente nos centros, tocando em clubes novaiorquinos, sendo “notícia”, por uma razão ou outra, mesmo que seja no nível “Caras”. Tudo foi ficando tão perverso – ou distorcido – que a qualidade foi suplantada pelo sentido de se tornar célebre, como a máxima de Andy Warhol sobre ter os seus “quinze minutos de fama”.

Nesse disco de 2002, como o título sugere, é “treasure”, mas na forma de pequenos tesouros, pequenas peças preciosas, cada qual com especificidades de beleza; como as que o cantor Jon Hendricks participa, ou os duos de piano com Chick Corea, ou com o vibrafonista Gary Burton. São peças delicadas, em que as belezas estão em detalhes e na delicadeza em que cada um vê o outro. Se houvesse um outro título, ou um subtítulo até, poderia ter o nome de uma das mais belas composições de Chick Corea – Crystal Silence –, ou melhor, no plural, Crystal Silences. Mesmo quando sai um pouco desse clima intimista e cai num andamento mais uptempo, como Three Wishes, com a participação especial do saxofonista, precocemente falecido, Michael Brecker, ou Samba D’Rivera, deliciosamente suingada,o disco é uma coleção desses belos cristais.

A participação de Jon Hendricks pode ser inusitada no clima desse disco de Ozone; mas não é: são outras preciosidades, de outra coloração. Ouça então Rainbow’s End, grande combinação do piano e a voz do cantor e compositor.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fleet Foxes, muito prazer

Corre a lenda de que o escritor Julio Cortazar dizia serem Maria Bethânia e Caetano Veloso uma só pessoa. Pus-me a imaginar se existe um ser que seja David Crosby e Graham Nash ao mesmo tempo. Para quem não sabe, os dois citados fizeram parte de uma das formações-ícones do “folk rock”: Crosby, Stills & Nash… & Young por um tempo. A entrada do canadense foi um belo acréscimo que resultou em pelo menos dois clássicos: o ao vivo 4-Way Street e Déjà vu. Mas quando eram os três apenas, eram também excepcionais.

Com a primeira dissolução da banda, dois deles formaram o Crosby & Nash. A voz de cada um é bem diferente, mas suas harmonizações vocais são tão perfeitas que (pensei numa sessão “frankenstein” ou “dr. Jekill and mr. Hyde”) poderiam criar um único ser resultante dessa fusão. Se Cortazar podia achar aquilo dos irmãos Veloso, por que não esse “ser” único?

Ouvindo as vocalizações iniciais de Sun It Rises do Fleet Foxes (2008), no CD do mesmo título, achei que, muito bem, poderia ser a banda mais recente de David Crosby. Imediatamente, lembrei-me de If I Could Only Remember My Name…, primeiro solo de DC, de 1971. É muito antigo, não? Não conheço bem o Fleet Foxes – fui apresentado há menos de seis meses – e por isso, não sei dizer se a voz principal é de Robin Pecknold. Fiquei com a impressão de que sua voz se parece mais à de Crosby, mas por alguns momentos, parece com a de Nash também. Foi por isso que imaginei os dois em um só.

Agora, em 2011, foi lançado o álbum seguinte: Helplessness Blues. É uma reafirmação da qualidade do anterior. Continuo gostando mais do outro, talvez por tê-lo ouvido mais. Além de lembrar de Crosby & Nash, lembra bastante, pela qualidade das harmonias vocais, os Beach Boys, de Brian Wilson, um pouco o irlandês Van Morrison, e também uma banda inglesa, que poucos se lembrarão – o Housemartins. Musicalmente é isso, mas lembram paisagens solitárias do filme Jeremiah Johnson, Mais Forte Que a Vingança (1972, direção de Sydney Pollack e protagonizado por Robert Redford), devido ao tom melancólico e climático, meio desolado; tem alguma coisa de “viajante” no som evocativo, mas nada intenso e “psicodélico” como o das músicas de Pink Floyd, por exemplo.

Montezuma, a primeira canção de Helplesseness Blues, reforça a ideia de que Pecknold é uma simbiose de Crosby e Nash. Sua voz parece com a do segundo. O registro das vozes de David e Graham tendem aos agudos, com a diferença de que a do primeiro é mais anasalada e a do segundo, mais “juvenil”.

As harmonias vocais de Bedouin Dress são uma mistura de Beach Boys e CS&N. Na melhor faixa do disco – Lorelai – o registro da voz lembra as interpretações de Chicago – inclusive pela batida – e Teach Your Children Well. Em The Shrine/The Argument, a voz, principalmente nos agudos, lembra os vocais de Crosby. É outro destaque pelas variações de ritmo e de climas que lembram a atmosfera devastadoramente desolada de To the Last Whale… A. A Critical Mass, B. Wind on the Water. No final, há um solo “tempestuoso” de saxofone sobre um fundo de cordas que fazem lembrar mais ainda esse clássico gravado em 1975.

Pensando bem, Helplessness Blues é tão bom quanto o disco anterior.


Ouça Lorelai, do último disco.




White Winter Hymnal




He Doesn’t Know Why