segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fleet Foxes, muito prazer

Corre a lenda de que o escritor Julio Cortazar dizia serem Maria Bethânia e Caetano Veloso uma só pessoa. Pus-me a imaginar se existe um ser que seja David Crosby e Graham Nash ao mesmo tempo. Para quem não sabe, os dois citados fizeram parte de uma das formações-ícones do “folk rock”: Crosby, Stills & Nash… & Young por um tempo. A entrada do canadense foi um belo acréscimo que resultou em pelo menos dois clássicos: o ao vivo 4-Way Street e Déjà vu. Mas quando eram os três apenas, eram também excepcionais.

Com a primeira dissolução da banda, dois deles formaram o Crosby & Nash. A voz de cada um é bem diferente, mas suas harmonizações vocais são tão perfeitas que (pensei numa sessão “frankenstein” ou “dr. Jekill and mr. Hyde”) poderiam criar um único ser resultante dessa fusão. Se Cortazar podia achar aquilo dos irmãos Veloso, por que não esse “ser” único?

Ouvindo as vocalizações iniciais de Sun It Rises do Fleet Foxes (2008), no CD do mesmo título, achei que, muito bem, poderia ser a banda mais recente de David Crosby. Imediatamente, lembrei-me de If I Could Only Remember My Name…, primeiro solo de DC, de 1971. É muito antigo, não? Não conheço bem o Fleet Foxes – fui apresentado há menos de seis meses – e por isso, não sei dizer se a voz principal é de Robin Pecknold. Fiquei com a impressão de que sua voz se parece mais à de Crosby, mas por alguns momentos, parece com a de Nash também. Foi por isso que imaginei os dois em um só.

Agora, em 2011, foi lançado o álbum seguinte: Helplessness Blues. É uma reafirmação da qualidade do anterior. Continuo gostando mais do outro, talvez por tê-lo ouvido mais. Além de lembrar de Crosby & Nash, lembra bastante, pela qualidade das harmonias vocais, os Beach Boys, de Brian Wilson, um pouco o irlandês Van Morrison, e também uma banda inglesa, que poucos se lembrarão – o Housemartins. Musicalmente é isso, mas lembram paisagens solitárias do filme Jeremiah Johnson, Mais Forte Que a Vingança (1972, direção de Sydney Pollack e protagonizado por Robert Redford), devido ao tom melancólico e climático, meio desolado; tem alguma coisa de “viajante” no som evocativo, mas nada intenso e “psicodélico” como o das músicas de Pink Floyd, por exemplo.

Montezuma, a primeira canção de Helplesseness Blues, reforça a ideia de que Pecknold é uma simbiose de Crosby e Nash. Sua voz parece com a do segundo. O registro das vozes de David e Graham tendem aos agudos, com a diferença de que a do primeiro é mais anasalada e a do segundo, mais “juvenil”.

As harmonias vocais de Bedouin Dress são uma mistura de Beach Boys e CS&N. Na melhor faixa do disco – Lorelai – o registro da voz lembra as interpretações de Chicago – inclusive pela batida – e Teach Your Children Well. Em The Shrine/The Argument, a voz, principalmente nos agudos, lembra os vocais de Crosby. É outro destaque pelas variações de ritmo e de climas que lembram a atmosfera devastadoramente desolada de To the Last Whale… A. A Critical Mass, B. Wind on the Water. No final, há um solo “tempestuoso” de saxofone sobre um fundo de cordas que fazem lembrar mais ainda esse clássico gravado em 1975.

Pensando bem, Helplessness Blues é tão bom quanto o disco anterior.


Ouça Lorelai, do último disco.




White Winter Hymnal




He Doesn’t Know Why


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