quinta-feira, 17 de maio de 2012

A morte trágica de Bernardo Sassetti

Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais ou, simplesmente, Sidónio Pais, foi presidente da I República de Portugal no início do século XX, e era bisavô de Bernardo Sassetti.

Sidónio era bisavô, pois está morto e morto também está Bernardo e será tratado no passado, com exceção da frase seguinte. Sassetti teria caído acidentalmente de uma falésia na praia do Abano, em Cascais, quando estaria a fotografar. Aconteceu na quinta-feira passada, portanto, há uma semana, a 10 de maio. Tinha 42 anos.

Bernardo, menino, estudou piano clássico e notabilizou-se como um dos grandes nomes da cena jazzística local. Outros destaques são o saxofonista Rodrigo Amado, Maria João e Mário Laginha. Ao contrário dos dois últimos, deve ser pouco conhecido no Brasil; Rodrigo, menos ainda: faz um som bem avant-garde.

O único disco que conheço de Sassetti é Nocturno, lançado em 2002. Percebem-se grandes influências de Bill Evans. É a sina dos pianistas modais. Pode-se dizer, no entanto, que era um Bill Evans minimalista. Pelo jeito, Bernardo gostava de fazer música com o silêncio. Em afirmação à revista Blitz, de Portugal, sobre Motion, lançado neste ano, disse: “ Este disco vive muito do que eu chamo sons amnióticos, sons que aparecem e desaparecem, coisas estranhas”. Isso mesmo, os sons que tirava do piano pareciam estar em um lugar abstrato entre ser e não ser, num limiar da dissolução, algo que não é terra e não é água.

A Time for Love é a música que abre Nocturno. Ouvir esse clássico de Johnny Mandel pelas mãos de Sassetti é a minha homenagem a ele.



Quando se fala de A Time for Love, impossível não citar a gloriosa Shirley Horn. Confira.





Veja Sassetti tocando uma música composta para Alice, um filme de Marco Martins.


terça-feira, 15 de maio de 2012

Bach, dança e Dimos Goudaroulis – a segunda parte de LogosDiálogos

O que foi bom ficou melhor: essa é a melhor definição para a conclusão do espetáculo de dança com o violoncelista Dimos Goudaroulis. Como foi amplamente divulgado, por conta de um “acidente de trabalho”, o grego fraturou o pulso: durante os ensaios, caiu no fosso da orquestra. Felizmente, foi na mão direita e a previsão é de que logo poderá voltar a tocar. Na primeira parte da trilogia, no seu lugar, ficou só o violoncelo.

Para a minha surpresa, Dimos participou da segunda parte da trilogia final, que corresponde à 5ª Suíte de Cello, de Bach. Depois de visto é impossível imaginar como teria sido sem ele. Naturalmente, não toca, mas empunhando o cello, junto da gravação, percute as cordas com a mão esquerda, como se estivesse tocando. A é um solo de Ismael Ivo. A imagem inicial é impactante. Dimos se veste de preto, descalço, está sentado no meio do palco com o seu violoncelo. Ivo surge do alto, na vertical, de cabeça para baixo, e lentamente, vai descendo até o chão. Tudo se resume ao bailarino, Dimos e o violoncelo, e uma pequena banheira branca com rodinhas que contém líquido vermelho, cor de sangue.

A 4ª Suíte foi com o grupo Vórtice, com coreografia de Tíndaro Silvano. A última parte, apesar do estranhamento que causa – pelo menos para mim –, acostumado que estou executado por um violoncelo normal, quando ouço a executada por Dimos com um violoncelo piccolo de quatro cordas, acho um tanto estranho. Fora esse detalhe, perfeita a coreografia de Deborah Colker. É impactante a bailarina descendo em um tubo que parece feito em tule que, ao se revelar, está presa em duas tiras de tecido vermelho que se transformam em asas.

As fotos abaixo são de autoria de Sokratis Nikoglou.


Imagens da 4ª Suíte.











































Imagens da 5ª Suíte.











































A da 6ª Suíte.











































Veja um trecho da 6ª Suíte, com Mstislav Rostropovich, contida em DVD lançado pela EMI.