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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

O menos conhecido e genial de Chick Corea

A morte de Chick Corea pegou muita gente de surpresa. A mim, pegou. Tinha 79 anos, o que hoje não é idade para morrer, considerando a média, pelo menos, entre os músicos, como Sonny Rollins, que já passou dos 90 e até há pouco estava tocando.

O conceito de velhice, desculpe o termo, mudou bastante. Seria perfeitamente possível imaginar Corea vivo, com mais de 90, tocando piano em um palco, mesmo que tivesse que usar uma bengala para se locomover. Todavia, aconteceu. Morreu. Descobriram, recentemente, um câncer raro não especificado. Com tantos músicos mais mais velhos, como Lee Konitz e Elis Marsalis, que faleceram com 93 e 85, respectivamente, vítimas dessa maldita pandemia chamada Covid-19, esquecemos que podem, ou podemos, morrer vítimas de outras ocorrências, até banais, como um tombo na rua.

Na minha visão, certas pessoas não morrem, porque permanecerão vivas em nossos pensamentos, por meio de sua música ou por outras coisas. Para mim ele não morreu. Minhas lembranças de quando vi um show dele pela primeira vez continuam vívidas. Foi em um festival de jazz, em São Paulo, em 1977. O programa era calcado no LP “The Leprechaum”, que tinha lançado um ano antes. Foi o primeiro com participação da vocalista Gayle Moran, que já era sua mulher.

Não era o primeiro disco de Corea com vocais. Em “Return to Forever” (1972), Flora Purim participa de algumas faixas. Apesar dos vocais chatinhos dela, o show foi inesquecível. O ápice foi “Crystal Silence”, como no original, piano elétrico e o sax soprano de Joe Farrell. Aquele festival foi inesquecível por outros motivos. Na apresentação de Hermeto Pascoal, John McLaughlin entrou e começaram a improvisar. De repente, o inglês solava em ritmo de frevo. Foi impressionante. Já de madrugada, seis horas depois de iniciado, a festa era total, com Hermeto, McLaughlin, Chick Corea e Stan Getz juntos.

Pura coincidência, Corea e Getz estarem no mesmo palco na farra de Hermeto. No começo da carreira, o pianista foi sideman do saxofonista em “Sweet Rain” (Verve 1967), contribuindo com duas composições. Antes do primeiro LP como líder, acompanhou também Mongo Santamaria, Blue Mitchell, William Bobo e Herbie Mann. 

A estreia como líder
Mann foi seu produtor em “Tones for Joan’s Bones”, para o pequeno selo Vortex. Gravado em 1966. foi lançado em 1968. O quinteto era formado por ele, Steve Swallow no contrabaixo, Joe Chambers na bateria, Joe Farrell no sax tenor e flauta e Woody Shaw no trompete. Dos quatro números, três são composições de sua autoria e a outra “This Is New”, é de Kurt Weill. A que abre, “Litha”, é uma composição excepcional, principalmente, se considerarmos que era a sua estreia. Os solos de Farrell e Shaw são destaques. A outra que deve ser citada é “Straight Up and Down”, uptempo, com a bateria vigorosa de Joe Chambers e Swallow no contrabaixo acústico. O solo de piano é excepcional, assim como é o de Woody Shaw. É um belo trompetista. Morreu relativamente novo: 44 anos. Teve vários problemas de saúde. Era quase cego por causa de uma doença degenerativa. Teve que amputar o braço em razão de uma batida em um vagão de metrô. Morreu por falência dos rins. Era viciado em heroína. Foi uma vida de desgraceira. Vi um show dele. Tinha a cara fechada. Também… Era um grande músico.

Em 1968, lançou “Now He Sings, Now He Sobs”, por outro selo pequeno, a Solid State. É em formato trio: ele, Miroslav Vitous e Roy Haynes. Para quem o conheceu na banda Return to Forever, uma das pioneiras do fusion-jazz, com o Headhunters, de Herbie Hancock, e o Weather Report, de Joe Zawinul e Wayne Shorter, é um álbum que soa estranho. É preciso fazer uma espécie de viagem ao passado e analisá-lo como uma espécie de preparação para o que faria depois. 

O título foi tirado da seção “Now he sings, now he sobs – now he beats the drum, now he stops”, do “I Ching – o livro das mutações”. As mutações a que se refere estão ligadas à amplas transformações que ocorriam na década de 1960. Na música tinha-se a explosão do rock, e o jazz vivia um período de exploração de novas linguagens e formas, por meio da música de Ornette Coleman, Charles Mingus, John Coltrane e Miles Davis. Nesse período de novas experiências, pela formação de pianista, o jovem Chick Corea tinha em seu radar também a música de compositores eruditos do século 20, como Bela Bártok, Stravinsky e Alban Berg.

Dentro dos “limites” do mais estabelecido no jazz, o do trio piano, baixo e bateria, com o também jovem Miroslav Vitous e o mais experiente Roy Haynes (42 anos, na época), buscaram criar uma música que ia acontecendo espontaneamente. Sem ensaios. Essa foi a ideia. 

“Now He Sings…” é uma referência ao caminho que Corea pretendia trilhar. É uma representação de seus anos formativos, a influência de pianistas como Thelonious Monk e Bud Powell, deste principalmente, a linguagem do hard bop, na qual mescla com sua formação erudita e interesse pelos compositores da escola vienense do século 20 e de Bela Bártok. 

No álbum seguinte, na mesma Solid State, “Is” (1969), Corea dá mais sinais desse caminho. Incorpora o piano elétrico, timidamente. A formação não é radicalmente diferente do álbum de estreia. Na seção de sopros estão incluídos os instrumentos usuais, com Bennie Maupin no sax tenor, em vez de Joe Farrell, que voltaria a tocar com ele inúmeras vezes, o trompete com o mesmo Woody Shaw, no contrabaixo o inglês Dave Holland, que tocou no início da fase elétrica de Miles Davis, e na bateria, Jack Dejohnette, que também foi da banda, e, de diferente, Hubert Laws, um dos sopros mais perfeitos na flauta.

Ao contrário de Wayne Shorter, Joe Zawinul e Herbie Hancock, seus companheiros da banda de Miles Davis, Corea preferiu seguir pela trilha que estava desenhada desde “Now He Sings…”, o da música avant garde. Formou uma banda com Holland, Barry Altschul e Anthony Braxton. 

Ao mesmo tempo, passou a gravar discos para a recém criada ECM, optando pelo piano acústico: “Piano Improvisations vol. 1 e vol. 2”. Por essa gravadora lançou “Return to Forever” (1972), que seria viraria nome da banda elétrica dele, e “Crystal Silence” (1972), com Gary Burton.

Como Return to Forever, o primeiro foi “Light as a Feather” (1973), com Flora Purim e Airto Moreira, Stanley Clarke e Joe Farrell. O Return to Forever realmente elétrico, fusion-jazz, começa com “Where Have I Known You Before” (Polydor, 1974), nesse, com Bill Connors na guitarra, e “No Mystery” (Polydor, 1975), com Al DiMeola no lugar de Connors.  Pela mesma Polydor, lançou discos com seu nome como líder, com outro conceito.

O propósito dessa postagem era escrever sobre o início da carreira do americano de sangue italiano, apesar de sua paixão pela música espanhola. Para concluir, o que define bem sua música é a diversidade. Gravou muitos discos e em cada um deles, explorava desde o jazz acústico, o fusion-jazz, com sua Chick Corea Electrik Band e até a música erudita.

Ouça “Now He Sings, Now He Sobs”. Nas edições posteriores foram acrescentadas várias músicas. Até a quinta é o LP original. Várias que foram acrescentadas são geniais: “Samba Yantra”, “Bossa”, “Gemini” e os standards “My One and Only Love” e “Pannonica”.

Ouça.




O primeiro dele (“Tones for Joan’s Bones”) é relativamente curto. Vale a pena ouvir. Nesses dois primeiros LPs são síntese de tudo o que ele fez posteriormente.

Ouça,

quinta-feira, 16 de julho de 2020

O solo mais bonito de Joe Farrell

Joe Farrell no saxofone soprano. Foto: Jan Perssons

Alguns músicos nunca foram considerados os melhores do planeta, geniais como Miles Davis e John Coltrane e, mesmo assim, em algum momento, deixaram suas marcas. Até o mais comum dos humanos, em algum lugar, na perfeição em que pintou uma parede, nas palavras que podem ter significado muito para alguém, em uma atitude de bondade que nunca imaginou ter, pode tê-la deixado. Qualquer um é capaz de um ato de grandeza, mesmo sendo o mais mesquinho e miserável ser da Terra, sem perceber. Sim, podemos ser geniais, sem, de fato, sermos.

Joe Farrell, sem ser genial, foi um saxofonista e tanto; e bom flautista. Morreu jovem: 49 anos. É, por isso, pouco conhecido e um estranho para aquele com menos de 50. Brasileiros que ouviram Airto Moreira e Flora Purim sabem de quem escrevo, ou, quem ouviu o álbum “Return to Forever”, de Chick Corea, lançado em 1972, com o casal brasileiro, Farrell e o baixista Stanley Clarke.

No mesmo ano, em outubro, gravaram o LP “Light As a Feather”, que acabou saindo em 1973. Os álbuns seguintes, a partir de “The Hymn of the Seventh Galaxy”, Chick Corea consolidou o que ficou conhecido como “jazz progressivo”, usando outros teclados além do piano elétrico Fender Rhodes, na esteira da eletrificação do jazz, cujo pioneiro foi Miles Davis, e intitulou o grupo com o nome do disco citado no parágrafo anterior.

Mas o assunto aqui é Joe Farrell e de sua brilhante interpretação de “Crystal Silence”, de “Return to Forever”. Ouça.




Veja Joe Farrell em uma apresentação ao vivo, na flauta transversal, com Chick Corea.




Chick Corea, além da banda elétrica, seguiu gravando sob o seu nome. Um dos álbuns é “The Leprechaum” (Polydor, 1976), e o outro foi o duplo “My Spanish Heart”. Foi, num certo sentido, uma forma de abrir espaço para a cantora Gayle Moran, com quem acabou casando. Em “The Leprechaum”, Joe Farrell participou. Apresentaram-se na época, no Free Jazz Festival, no Brasil. Eu estava lá. Foi a única vez em que vi Joe Farrell.





quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Gary Burton é famoso faz tempo

Com 75 anos hoje, Gary Burton, tornou-se conhecido entre os da minha geração ao gravar, com Chick Corea, o fabuloso “Crystal Silence” (ECM, 1972).

Com 18 anos completos,  em 1961, lançou seu primeiro álbum solo: “New Vibe in Town”, com Gene Cherico e Joe Morello. Em 1962, foi a vez de “Who Is Gary Burton?”. Quem era esse rapaz? Tendo Lionel Hampton e Milt Jackson, como os grandes nomes do vibrafone, Burton era o “new talk of the town”. Revelava-se aquele que é até hoje um dos melhores de todos os tempos nesse instrumento. Neste último, tinha as companhias de Clark Terry, Bob Brookmeyer e Phil Woods, um trio de sopros de respeito, além Tommy Flanagam ao piano.

Os títulos de seus primeiros discos eram um anúncio da grande novidade. O terceiro, o melhor deles, foi “Something’s Coming”. Neste, contou com a brilhante guitarra de Jim Hall, o talento revelado na célebre banda de Jimmy Giuffre.

Ouça “On Green Dolphin Street”, com Jim Hall na guitarra.




Praticamente um auto-didata no vibrafone e na marimba, Burton, resolveu aprender piano aos 16, estudando depois na Berklee School of Music. Excursionou com George Shearing, tocou com Stan Getz, Larry Coryell e Steve Swallow. Em 1968 foi considerado o “Jazzman of the Year”, pela Downbeat, o mais jovem a ser laureado com tal título.

Depois de “Crystal Silence”, além de alguns duos com Corea, gravou belíssimos discos pela ECM. Um deles é “Ring” (1974), com uma superbanda composta por Eberhard Weber e Steve Swallow nos contrabaixos, Pat Metheny e Mick Goodrick nas guitarras, e Bob Moses na bateria. Como Burton, que foi revelado jovem ainda, foi a oportunidade para Metheny ficar conhecido e logo depois estrear com o solar “Bright Size Life” (ECM, 1976). Como é costumeiro na ECM, os músicos participam de vários projetos com outros do cast da gravadora. Além dos álbuns com Chick Corea, com seu quinteto e quarteto, tem outros com Ralph Towner (“Matchbook” e “Slideshow”), Steve Swallow (“Hello Hotel”), e por outras gravadoras, Stéphane Grappelli, Paul Bley e Keith Jarrett.

A partir de 1988 passou a gravar pela GRP, Concord Jazz e Mack Avenue. Os destques dessa fase mais recente são “Ástor Piazzolla Reunion: A Tango Excursion” (1998), “Libertango: The Music of Ástor Piazzolla” (1990) e “For Hamp, Red, Bags, and Cal” (2009) e “Quartet Live” (2009), com Pat Metheny, Steve Swallow e Antonio Sanchez. A parceria Corea-Burton manteve-se ativa, mesmo fora da ECM, com “Native Sense - New Duets” (1997), “The New Crystal Silence” (2008), e “Hot House” (2012).

Ouça algo de Gary Burton a seguir.


quinta-feira, 16 de março de 2017

Quando dá tudo certo para Larry Coryell

O jovem Larry Coryell
Quase um mês após a morte de Larry Coryell, depois de ouvir alguns discos com mais de uma centena – imagino – de lançamentos, uma confirmação: atirou para todos os lados e nem sempre acertou. O mérito vai por alguns álbuns marcantes, e são esses que vou destacar.

Pelas notícias, matérias e obituários, Larry será lembrado como um dos pioneiros do jazz progressivo, por meio de sua música na banda Eleventh House. Confesso nunca ter gostado dele nessa fase. Comprei o primeiro – Introducing The Eleventh House (Vanguard, 1974) –, e não gostei. Não me agradou o som de sua guitarra elétrica e nem o som da banda.

O interesse foi por ter gostado bastante de Spaces, lançado em 1970. Contava com John McLaughlin, Chick Corea, Miroslav Vitous e Billy Cobham. Cada um deles eram ou seriam depois parte de bandas importantes do jazz elétrico. McLaughlin tinha gravado o espetacular Extrapolation, participara da banda de Tony Williams e de Miles Davis, e estava montando a Mahavishnu Orchestra, Corea, depois de um auspicioso início acústico, tocava com Miles e gestava a Return to Forever, Vitous era um dos fundadores do Weather Report, e Cobham foi o baterista da banda criada por McLaughlin. Era um grupo estelar, deveras.

Ouça Spaces (Infinity), a primeira faixa. Tudo é genial a partir da abertura do contrabaixo de Vitous no arco, as notas acordes esparsos de McLaughlin para os solos de Coryell.



The Eleventh House, diferentemente, ao contar com Randy Brecker, Mike Mandel, Danny Triffan e Alphonso Mouzon, sinalizava para o brilho único de Larry. Não deu muito certo. Nem chegava aos pés do Return to Forever, Weather Report e Mahavishnu Orchestra.

The Restful Mind, na minha opinião, é o melhor disco de Coryell. São possíveis duas conclusões: sua melhor sonoridade é com o violão, e não com a guitarra elétrica; a outra é a de que abre-se aqui um veio para o seu trabalho posterior, que é a releitura de compositores da música erudita. Em várias faixas, Larry toca composições de Robert De Visée. Pode-se terceira uma terceira conclusão, no entanto, está evidente em Spaces: ele brilha quando acompanhado de bons músicos. É o que acontece com o LP que saiu em 1974. Os músicos são Ralph Towner, Colin Walcott e Glen Moore. Na verdade, até por serem contratados da mesma gravadora, a Vanguard, esse disco é praticamente o Oregon, sem Paul McCandless, com Larry. O som, evidentemente, remete à banda de Towner, mas os dois violões funcionam em perfeita harmonia.

Ouça Robert de Visée’s Menuet II. A guitarra de Coryell, o violão de Ralph Towner, a tabla de Collin Walcott e a marcação do contrabaixo de Glen Moore, tudo é perfeito.




Posso estar enganado, pois sua discografia é muito grande, mas o primeiro disco que Coryell lançou tocando com outro guitarrista é Two for the Road, com Steve Khan. Se for, é uma brilhante primeira vez com outro guitarrista/violonista.

Deixando de lado a preocupação cronológica, Larry gravou vários álbuns em dupla ou em trio com outros guitarristas: Philip Catherine, Emily Remler, Joe Beck, John McLaughlin, Paco De Lucia, John Abercrombie, John Scofield, Kazuhito Yamashita, Badi Assad, dentre outros. Aparentemente, quando tem concorrência, toca melhor.

Um dos melhores shows da primeira versão do Free Jazz Festival, foi a apresentação de Larry Coryell, em dupla com o belga Philip Catherine. Acho que foi em 1978 ou 1979. O repertório era do recém lançado Twin-House. Foi uma bela surpresa para os brasileiros, um tanto por fora da cena mundial do jazz. Foi tanta que originou o surgimento do Grupo D’Alma, um trio de violonistas que fez bastante sucesso. De repente, todo violonista queria ter um Ovation, que era a marca que ambos usaram nas apresentações. Na minha escala Richter, esse álbum fica em terceiro lugar.

Ouça Home Comings, composição de Philip Catherine.



Depois de Twin-House, os dois lançaram Splendid, nem tão bom quanto o primeiro, apesar da sugestão do título. Ainda no formato duo, Larry gravou dois bons álbuns com a boa guitarrista Emily Remler que, infelizmente, morreu cedo. Sobre ela, leia: Por que pouco se falou de Emily Remler?.

Os encontros de violonistas renderam um bocado, assim como os dos tenores Luciano Pavarotti, José Carreras e Placido Domingo. Em formações que variaram, Larry tocou com o espanhol Paco Di Lucia, Al DiMeola e John McLaughlin. Prevaleceu essa formação, mas ele chegou a participar de algumas apresentações, se não me engano, no lugar de DiMeola.

Veja Coryell com McLaughlin e De Lucia em Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá.

 

Releitura de clássicos
A música erudita estava presente no repertório desde The Restful Mind, com temas de Robert De Visée e Maurice Ravel (tinha esquecido dele na primeira parte), com uma estupenda interpretação da Pavane pour une enfant défunte. Posteriormente, foram agregadas outras obras de Ravel, como o Bolero, Vivaldi, Stravinsky, Manuel De Falla, Pablo de Sarasate, George Gershwin e Rimsky Korsakov. Em The Four Seasons (1984), com o violonista clássico Kazuhito Yamashita.

Ouça Pavane pour enfant défunte.



Os outros que conheço, que seguem a vertente erudita são: Boléro (Ravel, De Falla e Sarasate), Scheherazade (Rimsky-Korsakov), L’Oiseaux de feu/Petrouchka (Stravinsky) e Visions in Blue (Ravel e Gershwin), mas nenhum é tão bom quanto As Quatro Estações.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Meu coração espanhol

Hoje mesmo, estava a ouvir uma cantora chamada Eva Fernández, espanhola. Ou melhor, catalã. Além de cantar, toca sax alto. Interessante. Ontem ouvi um álbum ótimo – vou ter de fazer um post separado dele – chamado Gasteiz, com o saxofonista Gorka Benítez, o baterista David Xingu, e o guitarrista americano Ben Monder. Faz tempo que não ouço um disco que tenha me impressionado tanto quanto este.

Sempre se fez grande música na Espanha, e com alguma influência moura, que trouxe uma marca única. Desde compositores como Manuel De Falla, Joaquín Rodrigo, Isaac Abéniz e grandes violonistas como Alberto Tárrega (este, compositor de talento também), Narciso Yepes e pianistas como Alicia de Larrocha. Sua influência é marcante na música dos impressionistas Claude Debussy e Maurice Ravel.

O que mais se conhece da Espanha é o flamenco, difundido por filmes de Carlos Saura, que serviram para que Paco de Lucia se tornasse mundialmente conhecido. Mas a presença do jazz sempre foi forte na Península, como sede de bons selos especializados no gênero, bons festivais e bons músicos como Tete Montoliu, Javier Colina, Chano Domínguez, Joan Chamorro e Gerardo Nuñez.

Por outra lado, a música espanhola influenciou o jazz. O exemplo exemplar é o de Gil Evans e seus discos com Miles Davis, inspirados pela música de Rodrigo. Al DiMeola e Chick Corea também incorporaram a batida e elementos melódicos. Em Light as a Feather encontra-se uma das evidências. O Concerto de Aranjuez serve de tema para a entrada de uma das maiores composições de Corea: Spain.

Depois de The Leprechaum, que já incorporava essas influências, lançou o álbum que escancarava seu amor por sua música: My Spanish Heart. O americano estava em sua fase “fantasia”. No anterior, na capa ilustrada, seu dedo indicador toca a de uma fada. Neste, veste-se com roupas de toureiro; no seguinte, Mad Hatter, fantasia-se de personagem de Alice, de Lewis Carroll.

A crítica e o público estavam adorando Chick; menos eu. Não tinha gostado muito de The Leprechaum. Sentia-me saudoso do som do Return to Forever. Para aumentar meus temores, em Love Castle, de My Spanish Heart, Crystal Gayle fazia uma vocalização sobre um arranjo com trompetes. Elegi The Hilltop, belíssimo duo de Chick com Stanley Clarke, e pouco ouvi este álbum desde então.

Por acaso My Spanish Heart estava no iPod que fica plugado no meu som Altec Lansing que fica na cabeceira da minha cama. Ao ouví-lo agora, mudei um pouco de juízo sobre ele. Continuo a não gostar daquelas faixas cheias de palmas (handclaps) e as com vocalizações de Mrs. Moran. A única exceção, talvez, que faço com as com palmas é com Armando’s Rhumba, feita em homenagem ao seu pai.

Acho ainda The Hilltop a melhor. Algumas, que puxam pelo lado mais melódico, como The Gardens e a música título, são os destaques. A suíte El Bozo, lembra um pouco Return to Forever, e a suíte final, Spanish Fantasy, tem bons momentos.

Ouça The Hilltop.



Ouça Armando’s Rhumba.



Ouça The Gardens.



Ouça o álbum na íntegra.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Chick Corea (re)ouvido

Chick Corea quando jovem
Um dos grandes álbuns no formato trio (piano, baixo, bateria) é Now He Sings, Now He Sobs, de Chick Corea com Miroslav Vitous e Roy Haynes. Dois anos antes deste, Chick estreava como líder com Tones for Joan’s Bone. De lá para cá são 49 anos, tempo bastante para o pianista ter gravado mais de 100 álbuns nas formações mais diferentes.

Logo no início da carreira já foi chamando a atenção de veteranos como Stan Getz e Miles Davis. Aliás, foi com o trompetista, tocando piano elétrico, que acontece a virada na carreira de Corea. Ele e alguns outros músicos que tocaram com Miles montam as principais bandas do que foi rotulado como jazz-rock ou jazz fusion. Corea montou o Return to Forever, Joe Zawinul e Wayne Shorter o Weather Report, e Herbie Hancock lança o revolucionário Head Hunters.

O meu primeiro contato com Chick foi com No Mystery (Polydor, 1975). Lançado no Brasil, não custava tanto quanto os importados. Nessa época, a gravadora Polygram soltava um bom número de títulos de jazz e de música erudita, além de ter sob contrato os maiores nomes da música brasileira.

E não foi o único de Corea a ser lançado aqui. Where Have I Known You Before, anterior ao No Mystery, saiu logo depois – ou foi o contrário? – não me lembro. Na mesma época, sairam alguns títulos da gravadora alemã ECM. Por este selo, outros LPs do americano foram disponibilizados: Piano Improvisations vol.1, Return to Forever (o título é de 1972 e passa ser o nome de sua banda composta por Stanley Clarke, Lenny White e Bill Connors, substituído por Al DiMeola, posteriormente), Circle (com Anthony Braxton, Dave Holland e Barry Altschull), e Crystal Silence, duo com o fabuloso vibrafonista Gary Burton. Os da ECM e os dois de sua banda elétrica eram uma boa amostra da sua versatilidade: free jazz no álbum com Anthony Braxton, virtuoso ao piano solo, lírico, tocando com Burton e “roqueiro” com a banda Return to Forever.

Em uma das primeiras edições do São Paulo-Montreux Jazz Festival – ou na primeira mesmo – Corea era uma das atrações. A sua apresentação foi calcada no repertório do disco The Leprechaum, o mais recente. O título era uma pista do que era o disco. Na sua nova fase, entrava no mundo das fadas, duendes e assemelhados. E, pelo jeito, a “fada” era Gayle Moran, a cantora de voz doce e etérea. Não por acaso, tornou-se sua mulher. Apesar de Gayle, não poderia perder a chance de ver o ídolo. Por sorte, um dos membros da banda era o flautista e saxofonista Joe Farrell. O momento maravilha do show foi justamente a dele no saxofone soprano e Corea no piano elétrico tocando Crystal Silence. Valeu por tudo.

Depois de The Leprechaum, lançou My Spanish Heart, um álbum duplo. Estava com um pé atrás. Comprei assim mesmo. Passei muito tempo sem saber se tinha gostado ou não. Mas essa história fica para a próxima.


Uma seleção pessoal dos discos de Chick Corea dessa época
• Todos os álbuns do Return to Forever são bons, ou quase. O primeiro, ainda com o nome de Chick, é Return to Forever (ECM 1972), excepcional, com uma de suas melhores composições: Crystal Silence. Conta com Airto Moreira, Flora Purim, Stanley Clarke e Joe Farrell. A curiosidade é que o primeiro álbum oficial do Return to Forever, nos EUA é Light as a Feather. O primeiro, lançado em 1972 na Europa, só saiu em 1975 no mercado americano.

Ouça o LP na íntegra. Crystal Silence é a segunda faixa (12:00)



• Light as a Feather. Segundo do RTF. Tem muito a ver com o anterior. Conta ainda com a mesma formação do anterior. É deste álbum uma das grandes composições de Corea: Spain.

Ouça. Os vocais são de Flora Purim.




• Hymn of the Seventh Galaxy (1973) é o primeiro com a pegada mais RTF. A banda é formada por Corea, Stanley Clarke, Lenny White e Bill Connors na guitarra.

Ouça na íntegra.




• Where Have I Known You Before (1974). Com a saída de Connors, que desejava seguir carreira solo, entra Al DiMeola. É uma mudança importante no RTF. Este é o melhor disco da banda, junto com o seguinte No Mystery. Excepcional.

Ouça Vulcan Words, a primeira faixa.




Ouça Song to the Pharoah Kings.




• No Mystery (1975). Obra prima do jazz fusion.

Dayride, faixa de abertura, composição de Stanley Clarke.




Jungle Waterfall tem uma batida irresistível.




Harmonia total entre Corea e Clarke em Interplay.




Puro balanço em Flight of the Newborn.




• Romantic Warrior (1976). É o primeiro na nova gravadora, Columbia. A guitarra de Al DiMeola é dominante. Apesar dele, é bom, menos que os anteriores, mas com grandes momentos. Algo em Romantic Warrior me fez ignorar Musicmagic, o posterior.

Medieval Overture é a faixa de abertura. É música para ouvir bem alta. Ouça.




A guitarra de DiMeola predomina em Majestic Dance.



O grande Corea acústico está presente em Now He Sings, Now He Sobs, como disse no começo. Steps-What Was abre o disco.




Matrix é a segunda faixa.




Ouça Windows.




Os títulos da ECM
Em sua maioria, são muito bons.
• Os solos ao piano. Todos ótimos: Piano Improvisations vol. I (1971), Piano Improvisations vol. 2 (1972), Delphi (1975)
• Tem quem não goste dos discos avant garde de Corea com Anthony Braxton, mas o pianista toca com músicos de primeira: A.R.C. (1971), Circle - Paris Concert (1971)
• Crystal Silence (1973), duo com Gary Burton, é extraordinário. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Uma relação de amor e ódio com o sax soprano

Joe Farrell no sax soprano
Qual é o seu tipo de saxofone preferido? O seu não sei, mas o meu é o tenor. Por ordem de preferência, vem o barítono, o soprano, e, por último, o alto, apesar de Charlie Parker. Acho que poucos instrumentos expressam o sentimento de quem o toca. O som de Coleman Hawkins é diferente do de Ben Webster, assim como o de Lester Young é do de Dexter Gordon. Com as exceções de Parker, Lee Konitz, Phil Woods, e mais alguns poucos, tendo a achar o som do alto um tanto chato, quem sabe, por culpa da minha aversão por músicos como Dave Sanborn e seus imitadores.

Meu gosto pelo barítono está quase pareado com o tenor. Acho fenomenal o som de John Surman (meu primeiro na lista), Gerry Mulligan, Pepper Adams, James Carter e Ronnie Cuber. Quanto ao soprano, que gostava tanto, com o passar do tempo, deixou de estar entre os preferidos. O Carlos Conde odiava e eu não via a razão. Mas, quem sabe, com a idade, é isso o que acontece. Uma certa estridência do soprano passa a incomodar mais. E hoje, nem tão fã de Wayne Shorter sou mais. Mas, para relembrar do tempo em que gostava muito, disponibilizo alguns números que me deram muito prazer.

Devo ter passado a gostar do saxofone soprano quando ouvi Wayne Shorter tocando no Weather Report. Como filho de uma geração que cresceu no período em que King Crimson, Yes, Van der Graaf Generator, Jethro Tull e Emerson, Lake & Palmer eram as bandas da moda, meu gosto tendia a uma música pretensamente menos “burra” que o rock’n’roll. Não que não gostasse da música dos Beatles ou dos Rolling Stones, mas na típica arrogância de adolescente, o tal do rock progressivo era mais “intelectualizado”, mais elaborado e incorporava alguma coisa da música erudita. Vendo-se hoje, fica claro que era uma ideia tremendamente idiota. As letras das canções de Keith Emerson e Greg Lake estavam no mesmo nível dos “I love you”, “I miss my babe” de tantas bandas de rock ou dos lamentos dos cantores de blues.

Dentro desse processo “evolutivo”, fui “melhorando”, um pouco graças a nova amiga, que conheci no cursinho. A Lu, melhor de grana do que eu, podia viajar para fora e trazer LPs importados, algo impensável para um rapaz da classe média bem média, talvez um pouco melhor do que a tal classe média que o Partido dos Trabalhadores tanto apregoa ter criado. Não sei se ela foi com a minha cara, mas o certo é que ela passou a emprestar-me discos do Soft Machine, uma banda inglesa que tinha dentre seus membros um sujeito chamado Robert Wyatt, cara intelectualizado, cuja família era amiga do poeta Robert Graves, e de uma banda chamada Weather Report. Esses LPs, realmente, fizeram coisas na minha cabeça. Por meio destes, passei a interessar-me pela música instrumental, rotulada então como jazz rock ou jazz progressivo.

O primeiro do Weather Report que ouvi foi Mysterious Traveller. Perdi a conta do número de vezes que ouvi esse LP, mas posso assegurar que passou de uma centena. A canção que mais me chamou a atenção foi Blackthorne Rose. Não que fosse a melhor, mas pelo saxofone soprano de Shorter.

Ouça Blackthorn Rose.




As coisas se encadeiam de um modo natural. De Wayne Shorter e Joe Zawinul a Miles Davis, de Miles a Chick Corea, de Chick a Herbie Hancock, de Miles a John Coltrane, de Coltrane a Duke Ellington – por meio do belíssimo Duke Ellington & John Coltrane (Impulse, 1963) – meu gosto pela música foi andando “para trás”, e sem que me desse conta, tinha virado fã de Ben Webster, Coleman Hawkins, Charlie Parker, Duke Ellington e Charles Mingus.

Depois de conhecer o álbum de Ellington e Coltrane, a mais bela canção do mundo, na minha opinião, passou a ser In a Sentimental Mood. Passei, obsessivamente, a comprar LPs dos dois. Em Live at the Village Vanguard (Impulse, 1963), a única faixa do lado B é Chasin’ the Trane. Coltrane toca os 16 minutos e pouco, sem interrupção, seu saxofone tenor. Fiquei fã de carteirinha. Fui comprando tudo o que encontrava de Coltrane. Descobri o sax soprano de Coltrane em My Favorite Things (Atlantic, 1961).

Ouça a música em apresentação do quarteto, na Bélgica, em 1965.




Nesse meio tempo, em minhas expedições musicais, conheci Jan Garbarek, inicialmente, por algum disco com Keith Jarrett, provavelmente, Belonging (ECM 1974). Fiquei fã do norueguês. Tocava um sax soprano curvo. Depois, enjoei. Peguei bronca. Passei a achar seu sopro um tanto estridente.

Ouça The Wind Up, do álbum Belonging.





Mas quando eu penso no solo mais bonito de sax soprano que eu conheço, acho que é o de Joe Farrell, em Crystal Silence. O mesmo acho para o piano elétrico. É um dos mais belos, com Chick Corea. Confira. Farrell sumiu, mas era bom n soprano, tenor e na flauta.



terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Diferenças entre o gosto da patuleia e o da crítica, de acordo com a lista dos melhores de 2012

Radio Music Society, de Spalding é o melhor do ano
Com certo atraso, comento sobre a lista dos melhores, segundo os leitores da revista Downbeat.

Todo ano, pouco depois de publicada a lista dos melhores eleitos por uma junta de críticos convidados, a Downbeat envia aos seus assinantes, por e-mail, um link para que seus leitores votem nos melhores do ano. Para cada categoria são sugeridos alguns nomes, mas é possível se votar em algum outro. É inevitável uma certa contaminação pelo fato de se votar depois de se saber o que os críticos escolheram.

Na edição de dezembro, que é lançada logo no início de novembro, sai o resultado do Readers Poll. É normal que os críticos especializados sejam mais sofisticados e informados que o chamado povão, mesmo em gênero tão específico como o jazz.


A lista dos melhores CDs na opinião dos leitores
1. Esperanza Spalding, Radio Music Society
2. Ahmad Jamal, Blue Moon
3. Tony Bennett, Duets II
4. Vijay Iyer, Accelerando
5. Keith Jarrett, Rio
6. Brad Mehldau Trio, Ode
7. Sonny Rollins, Road Shows, Vol. 2
8. Arturo Sandoval, Dear Diz (Everyday I Think of You)
9. Corea, Clarke & White, Forever
10. Trombone Shorty, For True

Na dos melhores pela crítica, Accelerando (ACT 2012), do pianista Vijay Iyer, ficou em primeiro lugar com quase o dobro do segundo – Road Shows, vol. 2, de Sonny Rollins. Na do povão, em primeiro ficou Radio Music Society, de Esperanza Spalding. Como foi lançado em abril do ano passado, nem consta na lista dos 30 melhores da crítica. É o caso, provavelmente, de outros álbuns como Ode, de Brad Mehldau, e de Dear Diz (Everyday I Think of You), de Arturo Sandoval, lançado em junho. Spalding é nova, belo penteado black (lembra a ex-ativista Angela Davis), canta e toca um instrumento do seu tamanho – o contrabaixo acústico – e é talentosa, mas supervalorizada, devido ao seu carisma. Meu voto foi para Rio, de Keith Jarrett. Na lista dos críticos ficou em terceiro. É um dos melhores registros do pianista nos últimos anos. Leia e ouça em http://bit.ly/MF8xTA.

A divergência mais perceptível é a não classificação – entre os 30 melhores – do álbum Be Good, de Gregory Porter (ouça e leia sobre ele em http://bit.ly/TVkW98). Inexplicável. Merecidamente, Sonny Rollins e o “retorno” de Forever, de Chick Corea, Stanley Clarke e Lenny White constam nas duas listas. Faz o gosto da patuleia e da crítica. Corea é sofisticado e pop ao mesmo tempo.

Os dez discos classificados devem ser ouvidos e cada um preenche um “pedaço” de prazer do fã do jazz. Não ouvi apenas os de Arturo Sandoval (leia sobre seu Time for Love, lançado em 2010, em http://bit.ly/VvMdf5) – mas tudo o que grava é bom –, e o de Tony Bennett, apesar de considerá-lo “the best” como cantor, não tenho a mínima curiosidade de conhecer. Esses “duets”, moda iniciada com Frank Sinatra no crepúsculo de sua carreira, em 1993, dividindo os vocais com Julio Iglesias, por exemplo, são um saco de gatos; se bem que dividiu também com Bennett, Bono, do U2, e Aretha Franklin. Têm cara de caça níqueis. Em Duets II, Bennett divide vocais com k d lang, Norah Jones, Andrea Bocelli, Amy Winehouse, o que não é mal, mas também com Lady Gaga e Mariah Carey.

Veja Body and Soul, com Amy Winehouse. Amy é Amy, ou melhor, foi. Era bem talhada para interpretar standards do cancioneiro americano. Basta ouví-la a cantar (There Is) No Greater Love, em Frank (2003). Foi uma de suas gravações derradeiras.




Os melhores instrumentistas
Apenas para registro (e poucos comentários) listo os melhores de alguns instrumentos.
Piano: Brad Mehldau (leitores) e Vijay Iyer (crítica)
Sax alto: Kenny Garrett (L), Rudresh Mahanthappa (C)
Sax soprano: Wayne Shorter (L), Branford Marsalis (C)
Trumpete: Wynton Marsalis (L), Ambrose Akinmusire (C)
Flauta: Hubert Laws (L), Nicole Mitchell (C)
Guitarra: Pat Metheny (L), Bill Frisell (C)
Trombone: Trombone Shorty (L), Wycliff Gordon (C)
Vocalista feminina: Diana Krall (L), Cassandra Wilson (C)

Em alguns instrumentos concordam em quem são os melhores: baixo acústico (Christian McBride), sax tenor (Sonny Rollins), bateria (Jack DeJohnette), sax barítono (Gary Smulyan; na lista dos leitores empatou com James Carter), clarineta (Anat Cohen), entre outros.

Pelas diferenças percebe-se o óbvio: os críticos adoram Vijay Iyer e Rudresh Mahanthappa, e os leitores ainda estão se acostumando com eles mas, no básico, não existe grande diferença entre o que eles gostam e nós, membros da patuleia.

Ouça duas interpretações de Ahmad Jamal, do CD Blue Moon (Jazz Village, 2012). Leia sobre esse CD em http://bit.ly/V6khVi.

Gypsy. Nesta e na próxima, Ahmad é acompanhado por Reginald Veal no baixo, Herlin Riley na bateria, e Manolo Badrena na percussão.



Laura.



Com Chick Corea, Stanley Clarke e Lenny White, ouça No Mistery.




quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Os melhores discos do ano, segundo a revista Downbeat

O mês de agosto é quando sai, na Downbeat, a lista dos melhores segundo a crítica. Em dezembro sai o “Readers Poll”. Primeiro, vou listar os dez melhores discos:

1. Vijay Iyer Trio, Accelerando (ACT) - 115 votos
2. Sonny Rollins, Road Shows vol. 2 (Doxy/EmArcy) - 69
3. Keith Jarrett, Rio (ECM) - 68
4. Gregory Porter, Be Good (Motéma) - 56
5. Miguel Zenón, Alma Adentro: The Puerto Rican Songbook (Marsalis Music) - 54
6. Brad Mehldau, Live in Marciac (Nonesuch) - 52
7. Matt Wilson’s Arts & Crafts, An Attitude for Gratitude (Palmetto) - 40
8. Corea, Clarke White, Forever (Concord)
9. Terri Lyne Carrington, The Mosaic Project (Concord) - 38
10. Tim Berne, Snakeoil (ECM) - 33



Vijay Iyer (© ACT / Jimmy Katz)
Com tantos lançamentos, é impossível acompanhar tudo, mesmo que meus ouvidos passem os dias a ouvir música. Dos dez listados, ouvi seis, e desses, o que mais gostei mesmo foi o de Keith Jarrett (escrevi sobre esse álbum duplo em http://bit.ly/MF8xTz). Sobre o disco de Chick Corea e seus companheiros do Return to Forever, faço menção quando da apresentação deles no BMW Jazz Festival, edição 2012 (http://bit.ly/SSSvGE). De vez em quando me enjoo de Corea, mas é gênio; acho que isso acontece um pouco por sua prolixidade e por, a cada hora, gravar discos de gêneros tão diferentes. No último ano (2011-2012) foram lançados seis discos, sendo dois com os companheiros do Return to Forever (Forever e The Motherships Returns), dois duos (Hot House, com Gary Burton – veja: http://bit.ly/L3cXmz –, e Orvieto, com o pianista Stefano Bollani), outro em trio, com Eddie Gomez e Paul Motian (Further Explorations, 2012), e um último (The Continents, 2012), erudito, lançado pela Deutsche Grammophon.

Vijay Iyer é a bola da vez, assim como Jason Moran foi na votação do ano passado. Além de ter seu disco Accelerando considerado o melhor do ano, ficou em primeiro lugar nas categorias “Jazz Artist”, “Jazz Goup”, “pianista”, e foi até lembrado na categoria “Rising Star”, ficando em segundo lugar. Nessa categoria, ganhou, com 2% de votos a mais, Robert Glasper, possível candidato a ser a “bola da vez” em anos vindouros na categoria principal.

Accelerando é um bom disco. Está no nível dos anteriores. Filho de indianos, Iyer passou pela Yale University e pela Columbia, estudante de matemática e física, e o título de sua dissertação de mestrado era Microstructures of Feel, Macrostructures of Sound: Embodied Cognition in West African and African-American Musics. Alta cultura, não? Não é possível uma simples transposição do conhecimento científico para as habilidades musicais, no entanto, percebe-se uma tremenda sofisticação no que toca; e, para arrematar, seus discos são belamente ilustrados por obras de um dos melhores artistas atuais: Anish Kapoor. Quem mora em São Paulo, Brasília ou Rio de Janeiro deve ter visto a bela exposição promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em 2006.

Veja uma das obras de Anish Kapoor (Ascension), no CCBB. Kapoor é gênio. Veja também uma entrevista sobre Leviatan, exposta no Grand Palais, em Paris, no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=12Ni0c4D27Y&feature=fvwrel). É uma obra impressionante. Pena que não estava em Paris em no segundo quadrimestre de 2011.





Ouça Mmmhmm (Steve Ellison, Stephen Bruner), do álbum Accelerando. Iyer toca com Stephen Crump no baixo e Marcus Gilmore na bateria. É uma das faixas mais interessantes. Vijay imprime uma melodia meio estranha em acordes repetitivos nos graves, com predominância de acordes nos médios e agudos em tons dramáticos, enquanto a “cozinha” parece tocar outra música.




Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Basicamente, o som de Iyer é tenso. Toca sempre em um ritmo em que há poucos espaços de respiração, quase sem silêncios, em ritmos quebrados.


O segundo melhor do ano

Rollins. Até no visual, inova
Coube a Sonny Rollins, com seu Road Shows, vol. 2, com, praticamente, metade dos votos. Este e o primeiro volume são de gravações de shows no Japão e do Beacon Theatre em comemoração aos seus 80 anos ocorridos em setembro de 2010. Esse mês é emblemático na vida do saxofonista. Rollins morava a quatro quadras do World Trade Center. No dia 11, em 2001, teve de sair às pressas de seu apartamento levando apenas seu saxofone. Tinha, na agenda, uma apresentação em Boston marcada para cinco dias depois. O show virou CD. O nome? Without a Song: The 9/11 Concert. Rollins nasceu em 7 de setembro de 1930.

A voz está fraca. Percebe-se quando fala para apresentar os músicos ou anunciar os temas. Quando começa a tocar, aí, é outra história; mantêm vigor invejável. Não parecem ser a mesma pessoa. Na votação dos críticos, no sax tenor, foi considerado o melhor do ano, com 20 % de votos a mais que Joe Lovano. Justiça? Deve ser mais por aquele sentimento de reverência aos mais velhos. Rollins é o último de uma geração posterior à de Coleman Hawkins, Ben Webster e Lester Young. São seus contemporâneos, John Coltrane, Dexter Gordon, Stan Getz e Johnny Griffin. Todos estão mortos. Dos que estão vivos – Houston Person e Charles Lloyd –, ambos são mais novos que Rollins; nasceram, respectivamente, em 1934 e 1938.

O set de Road Shows vol. 2 consiste de temas conhecidos. Valorizam o disco convidados especiais como Jim Hall (In a Sentimental Mood), Ornette Coleman – com um longo solo –, e o baixista Christian McBride e o baterista Roy Haynes, em Sonnymoon for Two, e, finalmente, o trumpetista Roy Hargrove, em I Can’t Get Started e Rain Check. A música que fecha o CD é St. Thomas, o tema mais conhecido de Rollins. Dos músicos acompanhantes, o destaque mesmo é a guitarra delicada de Russell Malone.

Ouça Sonnymoon for Two.



Um gênio como o sax tenorista só deve ser reverenciado, mas é um exagero Road Shows vol. 2 ser considerado o segundo melhor do ano.

A carreira de Sonny Rollins passou por algumas oscilações, algumas provocadas por ele mesmo. Em 1950, foi detido por roubo à mão armada. Antes disso, já tinha tocado com Babs Gonzalez, Jackie McLean e Kenny Drew. Apesar de condenado a três anos de cadeia, Dez meses depois saiu e ficou em liberdade condicional. Violou-a ao ser preso por porte de heroína. No total, passou três anos detido. Conseguiu se livrar do vício por meio de tratamento à base de metadona. Foi a sua sorte.

Antes de fazer parte da legendária banda de Clifford Brown e Max Roach, havia tocado com Miles Davis e Thelonious Monk. Em 1956 lançou o disco que é considerado um dos melhores de todos os tempos, não dele, mas da discografia do jazz: Saxophone Colossus. Estava sendo considerado o melhor saxofonista tenor pela crítica, mas na mesma época John Coltrane começava a se firmar como líder. Foi eclipsado, porém não deixou de lançar discos muito bons, principalmente nos que era acompanhado apenas pela bateria e pelo baixo, sem piano.

A década de 1960 foi um tempo de grandes transformações sociais, e Rollins não iria ficar “fora” dessa”. Foi fazer ioga e ligou-se, como muitos, a certas práticas orientais. Na música, incorporou instrumentos eletrônicos como a guitarra e o baixo elétrico e também absorveu influências do R&B, do funk de Sly and The Family Stone e até do pop. Sonny não foi o único. O mesmo aconteceu com Charles Lloyd e muitos outros intérpretes do jazz.

Um solo de Rollins é reconhecível de longe. Waiting on a Friend é uma das faixas em que participa no disco Tattoo You (1981), dos Rolling Stones. As outras duas são Neighbours e Slave.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Chick Corea e a apresentação no BMW Jazz Festival



Uma coisa que não entendo é esse festival de grifes para nomear os festivais de música. O primeiro de jazz que aconteceu no Brasil se chamou Free Jazz Festival. De “free” não tinha nada, a não ser a marca de cigarros produzidos pela Souza Cruz, maior empresa nesse setor no Brasil. Inventaram um Hollywood Rock que, da meca do cinema não tinha nada: Hollywood era uma marca conhecida como o segundo “estoura peito”; o primeiro era o Continental sem filtro. Meu tio detestava cigarros com filtro, e fumava Hollywood; tirava o filtro antes de acendê-lo.

Fora o mal que fazia, o bem foi uma série de festivais de jazz que trouxeram Chick Corea, Ahmad Jamal, Larry Coryell, Philip Catherine, Astor Piazzolla, John McLaughlin, Stan Getz, Dexter Gordon e, pasmem, Peter Tosh, a quem, carinhosamente, chamávamos de “Píter Tóshico”, que, a bem da verdade, não tinha nada de jazz, e sim, com o reggae.

A apresentação de Chick Corea foi excepcional. Trouxe uma banda na qual despontavam sua mulher (naquela época; não sei se ainda estão casados), Gayle Moran, e o saxofonista Joe Farrell. O momento alto foi Crystal Silence, com Farrell sublime no saxofone soprano e um solo de piano elétrico dos mais belos de todos os tempos. Boa parte das canções era de Leprechaum, o mais recente à época do show.

Minha memória não permitirá saber o número de vezes que Corea se apresentou no Brasil, mas lembro bem de quando veio com Gary Burton. Clima intimista, sentados na segunda fila: foi especial. Creio que deve ter feito parte da mesma turnê de In Concert, Zürich, October 28, 1979, álbum duplo lançado pela ECM Records. A parceria tinha começado com Crystal Silence, em 1972; e continua (leia em http://bit.ly/L3cXmz)

Antes de lançar Tones for Joan’s Bones, em 1966, havia tocado com Mongo Santamaria, Stan Getz, Blue Mitchell e Hebie Mann. O segundo solo – ele ao piano Miroslav Vitous e Roy Haynes –, Now He Sings, Now He Sobs (1968), é um disco excepcional. Com exceção de My One and Only Love e Pannonica, as onze restantes eram suas. Revelavam-se o grande compositor e um estupendo pianista, não apenas pela técnica, mas pela criatividade.

Logo entrou para a banda de Miles Davis e foi convencido a tocar piano elétrico. Miles tinha feito o mesmo com Herbie Hancock, que resisitiu bravamente, e, mais tarde, por uma dessas ironias, iria se tornar um dos principais baluartes do jazz eletrificado. Até Keith Jarrett tocou piano elétrico quando participou da banda de Miles. Apesar de mais algumas incursões posteriores no elétrico, Keith voltou ao acústico para não mais sair de lá. Corea e Hancock formaram bandas seminais que ficaram conhecidas como representantes de um novo gênero, o jazz rock. Corea fundou o Return to Forever e Hancock os Headhunters. “Causaram” entre uma juventude que estava aprendendo a gostar de música instrumental e achava “careta” o jazz mainstream.

Antes da apresentação, pensei em fazer graça e dizer que o conheci 20 quilos a menos, mas para a minha surpresa, deixou a fase “gordão/camisa colorida”, bem larga para disfarçar a pança. Está bem magro, nem tanto como quando tinha 20 anos (essa era a brincadeira) e vestia roupas discretas: uma camiseta cor conza-rato e uma calça de sarja mais ou menos do mesmo tom. E parece bem disposto e jovial para quem completou 70 anos agora, em 12 de junho. Musicalmente, está afiadíssimo, como seus companheiros Stanley Clarke e Lenny White; e está na ativa produzindo como nunca. Apenas no último ano gravou e excursionou com seus companheiros da época do Return to Forever, registrou um duo de piano com o italiano Stefano Bollani (Orvieto. ECM, 2011), gravou outro com o vibrafonista Gary Burton (Hot House), e mais outro pela Deutsche Grammophon, mais voltado à composição erudita (Continents: Concerto for Jazz Quintet & Chamber Orchestra) e também um com Eddie Gomez e Paul Motian pela gravadora Concord (Further Explorations).

Na apresentação, em São Paulo, em formato acústico, tocou vários sucessos da época do álbum Return to Forever e da banda criada com o mesmo nome: Sometime Ago/La Fiesta, Light as a Feather, Romantic Warrior e 500 Miles High. A referência ao Brasil está em Sometime Ago/La Fiesta e 500 Miles High, originalmente gravadas com Flora Purim e Airto Moreira. Tocou standards também: My One and Only Love, All Blues, de Miles Davis, e How Deep Is the Ocean. Foi especial ouvir Corea, Clarke e White.

Veja os três tocando Romantic Warrior.



Outro clássico: No Mystery.




Veja-os em uma apresentação em Buenos Aires tocando “My One and Only Love”.

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terça-feira, 24 de abril de 2012

O vibrafone de Gary Burton e Hot House, com ele e Chick Corea

Burton e Corea, em 1972: início do “casamento”
Outro dia, lendo o que Érico Cordeiro escreveu de Red Norvo, lembrei-me de Gary Burton. Entrado na USP, um amigo que viajava frequentemente ao Japão (na década de 1970, viajar de avião era caríssimo, bem ao contrário do que é agora), na verdade, em todas as férias de fim de ano (a mãe traballhava na Varig, lá), sempre vinha com novidades. O Robert gostava de jazz e o “must” (ih, ninguém usa mais essa palavra) eram os discos da ECM, gravadora alemã fundada por Manfred Eicher, em 1969 (sobre ele, leia em http://bit.ly/qToxnh, e o primeiro álbum lançado – Free at Last –, leia em http://bit.ly/JDjDr5).

O diferencial era o cuidado técnico, o esmero gráfico, meio minimalista, e, principalmente, as combinações dos universos de músicos de origens diversas. Formou um elenco estelar e multifacetado: Art Ensemble of Chicago, Jack DeJohnette, Gary Burton, Julian Priester, John Abercrombie, Kenny Wheeler, John Surman, Jan Garbarek e Terje Rypdal. Muitos deles continuam a gravar pela ECM.

Apesar das reservas e sabendo que era cuidadoso, Robert sempre emprestava os LPs para que eu os gravasse em fitas cassete. Foi assim meu primeiro contato com esse selo. Alguns anos depois, a WEA (ou foi a PolyGram?) lançou alguns títulos no Brasil. Foi a festa. Foi assim que tomei o primeiro contato com Gary Burton. O primeiro lançado chamava-se Ring. Na formação da banda incluiam-se dois guitarristas (Mick Goodrick e Pat Metheny), dois baixistas (Steve Swallow e Eberhard Weber), Burton no vibrafone (vibraharp) e Bob Moses na bateria.

O vibrafone tem uma história peculiar. É um instrumento percussivo, e o som das teclas “ressoa” em tubos metálicos posicionados verticalmente. Não há um repertório específico na música clássica. No jazz floresceu, não só com Red Norvo (leia no blogue Jazz + Bossa + Baratos Outros: http://bit.ly/J9OUAK), mas com um músico genial chamado Lionel Hampton. Ambos, mais Milt Jackson, do Modern Jazz Quartet, reinaram absolutos no vibrafone. Há um quarto: Cal Tjader. Esse americano de origem sueca “latinizou” o instrumento. Não fazia o gosto de todos os jazzmaníacos.

Gary Burton é de outra geração. Lançou em 1961 o primeiro solo – New Vibe in Town (RCA 1961) –, quando tinha apenas 18 anos. Realmente, esse americano com cara de certinho era o “new vibe in town”. Ao contrário de Hampton, Milt Jackson e Red Norvo, Burton usava quatro mallets em vez de dois. Desde então, gravou muito, principalmente como solista.

É de 1972 seu primeiro disco com o pianista Chick Corea: Crystal Silence. Hot House (Decca, 2012) é o mais recente dos dois. É o coroamento de 40 anos de parceria: dura mais que muitos casamentos. Combinam muito bem e, aparentemente, não pretendem se divorciar. Entre esses dois álbuns, gravaram Duet (ECM, 1979), In Concert, Zurich, October 28, 1979, Lyric Suite for Sextet (ECM, 1982), Native Sense (Concord, 1997), Like Minds (Concord Jazz, 1998, com Pat Metheny, Dave Holland e Roy Haynes) e The New Crystal Silence (Concord Jazz, 2008).

The New Crystal Silence é impecável: além de clássicos de Corea, como La Fiesta, Duende, Crystal Silence e Señor Mouse, interpretam Bill Evans (Waltz for Debby), Gus Arnheim (Sweet and Lovely) e Gershwin (I Loves You Porgy). Sente-se, porém, um gosto de certo déjà vu. A gravação é com orquestra. Acho, para falar a verdade, que ainda não ouvi direito esse disco.

Hot House parece mais interessante. Não faltam clássicos como Can’t We Be Friends e a música título, de Tadd Dameron. Há a interpretação de Eleanor Rigby, de Lennon & McCartney, muito boa, com solos brilhantes de ambos. É um dos pontos altos, sem dúvida. Light Blue é um tema de Thelonious Monk, sempre um espaço para boas construções musicais. A próxima canção é um clássico de outro monstro do piano – Dave Brubeck. O vibrafone e o piano se entendem, como disse, é um casamento perfeito, quando são esses dois.

Há dois temas de Tom Jobim: Once I Loved e Chega de Saudade. Esta última, acostumados que estamos a cantarolar o tema, Burton e Corea fazem leitura que foge um pouco das minhas expectativas, mas nem por isso, deixa de ser bela. O início de O Amor em Paz é um tanto etéreo com linhas “caminhantes” do piano e um vibrafone meio etéreo que logo nos introduz o tema de “eu amei/ E amei, ai de mim muito mais do que devia amar/ E chorei…”.

O CD fecha com duas belas faixas: My Ship, de Kurt Weill e Ira Gershwin, e Mozart Goes Dancing, a única com cordas a acompanhá-los (Harlem String Quartet), bem no estilo composicional de Corea.

Felicidade. Temos algumas coisas de Chick e Gary tocando juntos. Veja Eleanor Rigby.


E Chega de Saudade.