quinta-feira, 14 de junho de 2012

Chick Corea e a apresentação no BMW Jazz Festival



Uma coisa que não entendo é esse festival de grifes para nomear os festivais de música. O primeiro de jazz que aconteceu no Brasil se chamou Free Jazz Festival. De “free” não tinha nada, a não ser a marca de cigarros produzidos pela Souza Cruz, maior empresa nesse setor no Brasil. Inventaram um Hollywood Rock que, da meca do cinema não tinha nada: Hollywood era uma marca conhecida como o segundo “estoura peito”; o primeiro era o Continental sem filtro. Meu tio detestava cigarros com filtro, e fumava Hollywood; tirava o filtro antes de acendê-lo.

Fora o mal que fazia, o bem foi uma série de festivais de jazz que trouxeram Chick Corea, Ahmad Jamal, Larry Coryell, Philip Catherine, Astor Piazzolla, John McLaughlin, Stan Getz, Dexter Gordon e, pasmem, Peter Tosh, a quem, carinhosamente, chamávamos de “Píter Tóshico”, que, a bem da verdade, não tinha nada de jazz, e sim, com o reggae.

A apresentação de Chick Corea foi excepcional. Trouxe uma banda na qual despontavam sua mulher (naquela época; não sei se ainda estão casados), Gayle Moran, e o saxofonista Joe Farrell. O momento alto foi Crystal Silence, com Farrell sublime no saxofone soprano e um solo de piano elétrico dos mais belos de todos os tempos. Boa parte das canções era de Leprechaum, o mais recente à época do show.

Minha memória não permitirá saber o número de vezes que Corea se apresentou no Brasil, mas lembro bem de quando veio com Gary Burton. Clima intimista, sentados na segunda fila: foi especial. Creio que deve ter feito parte da mesma turnê de In Concert, Zürich, October 28, 1979, álbum duplo lançado pela ECM Records. A parceria tinha começado com Crystal Silence, em 1972; e continua (leia em http://bit.ly/L3cXmz)

Antes de lançar Tones for Joan’s Bones, em 1966, havia tocado com Mongo Santamaria, Stan Getz, Blue Mitchell e Hebie Mann. O segundo solo – ele ao piano Miroslav Vitous e Roy Haynes –, Now He Sings, Now He Sobs (1968), é um disco excepcional. Com exceção de My One and Only Love e Pannonica, as onze restantes eram suas. Revelavam-se o grande compositor e um estupendo pianista, não apenas pela técnica, mas pela criatividade.

Logo entrou para a banda de Miles Davis e foi convencido a tocar piano elétrico. Miles tinha feito o mesmo com Herbie Hancock, que resisitiu bravamente, e, mais tarde, por uma dessas ironias, iria se tornar um dos principais baluartes do jazz eletrificado. Até Keith Jarrett tocou piano elétrico quando participou da banda de Miles. Apesar de mais algumas incursões posteriores no elétrico, Keith voltou ao acústico para não mais sair de lá. Corea e Hancock formaram bandas seminais que ficaram conhecidas como representantes de um novo gênero, o jazz rock. Corea fundou o Return to Forever e Hancock os Headhunters. “Causaram” entre uma juventude que estava aprendendo a gostar de música instrumental e achava “careta” o jazz mainstream.

Antes da apresentação, pensei em fazer graça e dizer que o conheci 20 quilos a menos, mas para a minha surpresa, deixou a fase “gordão/camisa colorida”, bem larga para disfarçar a pança. Está bem magro, nem tanto como quando tinha 20 anos (essa era a brincadeira) e vestia roupas discretas: uma camiseta cor conza-rato e uma calça de sarja mais ou menos do mesmo tom. E parece bem disposto e jovial para quem completou 70 anos agora, em 12 de junho. Musicalmente, está afiadíssimo, como seus companheiros Stanley Clarke e Lenny White; e está na ativa produzindo como nunca. Apenas no último ano gravou e excursionou com seus companheiros da época do Return to Forever, registrou um duo de piano com o italiano Stefano Bollani (Orvieto. ECM, 2011), gravou outro com o vibrafonista Gary Burton (Hot House), e mais outro pela Deutsche Grammophon, mais voltado à composição erudita (Continents: Concerto for Jazz Quintet & Chamber Orchestra) e também um com Eddie Gomez e Paul Motian pela gravadora Concord (Further Explorations).

Na apresentação, em São Paulo, em formato acústico, tocou vários sucessos da época do álbum Return to Forever e da banda criada com o mesmo nome: Sometime Ago/La Fiesta, Light as a Feather, Romantic Warrior e 500 Miles High. A referência ao Brasil está em Sometime Ago/La Fiesta e 500 Miles High, originalmente gravadas com Flora Purim e Airto Moreira. Tocou standards também: My One and Only Love, All Blues, de Miles Davis, e How Deep Is the Ocean. Foi especial ouvir Corea, Clarke e White.

Veja os três tocando Romantic Warrior.



Outro clássico: No Mystery.




Veja-os em uma apresentação em Buenos Aires tocando “My One and Only Love”.

>

Nenhum comentário:

Postar um comentário