quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Só Diana Krall para nos alegrar

A voz cálida e algo grave de Diana Krall faz com que seus ouvintes queiram ouví-la de joelhos. Tão boa pianista, sabe bem que seu sucesso se deve a sua belíssima voz, morna como os fluidos sexuais.

Antes, pianista, foi ficando mais cantora, um pouco como Nat King Cole. Está certo que é covardia compará-la a Nat, que era excepcional nos teclados, pioneiro no formato trio sem bateria, e cantor superlativo. Mas Nat morreu há muito tempo. E Diana faz jus ao tremendo sucesso que faz com seu estilo híbrido entre o jazz e o pop, aliás, cada vez mais pop.

Glad Rag Doll, lançado em 2012, era um álbum um tanto estranho. Produzido por T-Bone Burnett, as músicas escolhidas poderiam, grosseiramente, ser classificadas como algo meio country meio western. Pode até não ser bem isso, mas pela capa, com Krall vestida de dançarina de saloon, nos leva a essa associação. Não são clássicos como um Night and Day ou um Sophisticated Lady, mas canções dos anos 1920 e 30 que, segundo ela, faziam parte da coleção de discos 78 rpm do pai.

O álbum Wallflower estava marcado para sair no mesmo mês do anterior, no ano passado, ou seja, em outubro. Um contratempo adiou-o para 2 de fevereiro. Ela contraiu uma pneumonia que acabou por comprometer, não só o lançamento, mas uma extensa programação de shows para promovê-lo. Seus fãs mais ardorosos apenas puderam lamentar e ficarem com expectativas maiores ainda. E Wallflower não deve decepcioná-los. É muito bom, mesmo que possa frustrar aqueles que passaram a apreciá-la logo no início da carreira, como ótima pianista de jazz e boa cantora. Foi pendendo, pouco a pouco para o pop e foi amealhando um número cada vez maior de admiradores. Acabou até casando com um bom representante do gênero.

Se a inspiração de Glad Rag Dolls foram os discos 78 rpm do pai, a de Wallflower veio do que ouvia na adolescência. Assim, as canções são bem conhecidas da geração dos que se aproximam dos 50, para mais e para menos. A mais antiga do CD é de 1963, por coincidência, a que mais se aproxima do jazz, em razão de um de seus autores ser Jon Hendricks, que gravou com seus companheiros do Lambert, Hendricks and Bavan (a parte feminina mais conhecida do trio foi com Annie Ross, que resolvera partir para a carreira solo). A versão de Yeh Yeh mais conhecida, porém, não é a deles; é a de George Fame & Blue Flames, de 1965. Outras duas desse ano são as manjadas In My Life e California Dreamin’, a primeira faixa do álbum.

Ouça.




É um início de ajoelhar. Parece que a voz de Krall, depois do nascimento dos gêmeos, ganhou um tom mais aveludado e quente. Quando gravou-a não tinha em mente a versão mais conhecida, a de The Mamas & The Papas, e sim a de José Feliciano.

A maioria das canções sugeridas pelo produtor David Foster e aceitas por Krall são da década de 1970. É o caso da segunda: Desperado, da banda Eagles.





É curioso que dois dos grandes sucessos dos Carpenters sejam de autoria de Leon Russell, cuja imagem é mais associada ao Mad Dog and The Englishmen e Joe Cocker. Nesse álbum, Diana resgata a bela Superstar, em versão mais lenta e algo grandiosa com a orquestração de David Foster. A próxima – Alone Again (Naturally) –, em dueto com Michael Bublé, é outra da época (de 1972 e a anterior, de 1969). É mais agradável que a original. A estridência da voz de Gilbert O’Sullivan sempre me incomodou.

A seguinte é a música que dá título ao álbum. Diana dirigia seu carro com seus filhos enquanto ouvia um dos discos que têm sido lançados – o Bootleg Series – com gravações inéditas de Bob Dylan. Pensou que Wallflower muito bem que poderia ser uma música que todos poderiam estar cantando no carro. Ouça




If I Take You Home Tonight é outro achado de Krall. Ao participar das gravações de Kisses on the Bottom, penúltimo de Paul McCartney, conheceu a música e ficou encantada. É Paul exercitando a sua veia lírica de grande baladeiro e um dos destaques desse belo álbum.

Diana retorna aos Eagles cantando I Can’t Tell You Why, composição um pouco mais recente, mas bem antiga: é de 1980. A canção a seguir é uma das mais belas de Elton John, um dos heróis de sua adolescência. É Sorry Seems to Be the Hardest Word. Belíssima. Na edição especial tem a mesma música em apresentação ao vivo.




Bom, com tantos belos exemplares, já bastava. Mas não. Diana quer nos matar. Resgata a bela Operator (That's Not the Way It Feels), do hoje pouco lembrado Jim Croce, e I’m Not in Love. Quem se lembra dela? É uma música do 10cc, banda australiana de relativo sucesso na década de 1970. Krall completa o álbum com dois números um pouco mais recentes: Feels Like Home (1995), em dueto com Bryan Adams, Don’t Dream It’s Over, do Crowded House (1986), In My Life, de Lennon e McCartney, e a suingada Yeh Yeh.

Ouça Yeh Yeh.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Bob Dylan ataca nos standards

Shadows in the Night, lançado em 2 de fevereiro
Devo ter contado essa história em alguma ocasião anterior, mas, vamos lá. Não lembro mais em que ano foi, presumo porém que foi há mais de 20 anos, pois era um festival de música patrocinado pela indústria do tabaco, o que hoje é proibido. Em um dos Hollywood Rock, uma das atrações era Bob Dylan. Era dia ainda quando se apresentou, porque não era a atração principal. Apesar de sua relevância, nunca encontrei fãs fanáticos pelo americano aqui.

Encontrei com o Edmar Pereira, à época, do Jornal da Tarde. Para confirmar que foi há muito tempo, o jornal deixou de existir em 2012 e Edmar morreu em 2003. Ele estava com um daqueles jalecos verdes que os fotógrafos costumam usar. Era um cara grandão e difícil de passar despercebido em qualquer lugar. Ele estava bem distante do palco e com o estádio do Morumbi relativamente vazio ainda, fiquei conversando com ele. Comentei que não conseguia reconhecer a música que Dylan cantava. O Edmar comentou: “Na hora do refrão, é possível descobrir.” Às vezes, nem pelo refrão, tal a forma que cantava até as mais conhecidas como Blowin’ the Wind. Como o Edmar estava a trabalho, tinha o setlist à mão. Foi um show estranho, como o outro a que assisti, quando abriu para os Rolling Stones, em 1998, se não me engano.

A febre de lançamentos de álbuns de figuras carimbadas do pop/rock cantando clássicos do cancioneiro americano é antiga. Temos bons discos de Carly Simon (Hurt), Willie Nelson (Stardust) e Bryan Ferry (As Time Goes By) cantando standards com muita categoria; outros, nem tanto, como o de Paul McCartney (Kisses on the Bottom; leia em http://bit.ly/1DrGX3R), mas de nenhuma forma, ruim. Esses álbuns, em sua maioria, pois até Luis Miguel já fez isso, têm cara de caça níqueis. Veja-se o exemplo de Rod Stewart, que lançou um “Great American Songbook” e depois, mais quatro. Haja saco, ou melhor, ouvidos.

Há uma certa ironia em Bob Dylan, depois de tanta gente ter feito, lançar o seu álbum de standards. A ironia é porque muitas de suas composições podem ser consideradas como tal. De chofre, sem pensar muito, é possível lembrar-se de Blowin’ in the Wind, All Along the Watchtower, Like a Rolling Stone, clássicos que merecem o rótulo de “standards”. Certo que nenhuma delas está relacionada à tradição dos musicais como as de um Cole Porter ou um Irving Berlin.

Dylan, em entrevista à AARP the Magazine, Dylan disse que pensava em gravar um álbum nesse formato desde que ouvira Stardust, de Willie Nelson, lançado nos anos 1970. Disse também que Sinatra é uma referência forte: “Quando você começa a gravar essas músicas, Frank vem à mente. Porque ele é uma montanha. Essa é a montanha que você quer subir, mesmo que você a escale apenas uma parte. E é difícil encontrar uma canção que ele não tenha gravado. Ele é o cara que você deve conferir. As pessoas falam o tempo todo de Frank. Ele tinha essa habilidade de entrar na canção como se fosse uma conversação. Frank cantava para você – não em você.”

Há uma qualidade específica em suas interpretações. Longe de ser um Frank Sinatra, com direito a algumas semitonadas, há uma beleza na forma como aborda cada uma das canções. Canta melhor do que em seus últimos álbuns. Há um certo consenso de que sua voz, que nunca foi uma maravilha, piorou com o passar dos anos. Como Willie Nelson, que em Stardust deixa evidente que suas raízes estão na country music, Dylan imprime uma ambiência folk, cantando sobre uma base bem despojada, na maioria delas, só com o violão e uma guitarra slide. Outra coisa boa é a de que, nesse álbum produzido por ele, garimpa canções não muito conhecidas. Ao contrário de um Rod Stewart, Dylan foge do óbvio.


Ouça algumas faixas além de I’m a Fool to Want You.

Stay with Me, de Jerome Moross, Carolyn Leigh.




Full Moon in Empty Arms, de Buddy Kaye, Ted Mossman.