quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O réquiem de Masabumi Kikuchi

Masabumi Kikuchi com o seu grande parceiro Paul Motian
Como Keith Jarrett, Masabumi Kikuchi, enquanto tocava “cantava” junto à melodia, ou melhor, para ser mais exato, “grunhia”. Por essa característica, minha primeira impressão ao ouví-lo em um álbum com Gary Peacock e Paul Motian, pensei: “Esse cara quer imitar Keith Jarrett.” Mas não era bem assim. Esses ruídos me incomodam até hoje, mas por atroz coincidência, alguns desses pianistas estão entre os maiores da história. Antes de Jarrett, quem tinha o costume de “cantar” junto a música, era Bud Powell. Outro gênio que fazia o mesmo era Glenn Gould. Essa é a primeira observação quanto ao japonês.

Fora algum exagero nessa observação, o japonês foi um bom pianista e tem a sua importância, apesar de alguém mais preconceituoso possa achar que o jazz não é um gênero que combine com orientais. Estão aí Toshiko Akiyoshi, Aki Takase, Tiger Okoshi, Terumasa Hino, Junko Onishi e alguns outros para quebrar a escrita.

O último álbum de Kikuchi, “Black Orpheus”, lançado pela ECM no começo deste ano, é o seu primeiro póstumo. Foi retirado de uma apresentação de 2012 no Tokyo Bunka Kaikan Recital Hall, na cidade em que nasceu, em 1939. Dependendo do ponto de vista, pode ser uma homenagem póstuma que Manfred Eicher faz a Kikuchi, morto em junho de 2015.

Quando seu ídolo era Miles Davis

Kikuchi tinha nove anos quando Tóquio foi severamente bombardeada. Depois da rendição do Japão, a família mudou-se para Fukuoka. O conhecimento e o encanto pelo jazz deu-se por meio dos discos que comprados de segunda mão trazidos pelos soldados americanos. Seus ídolos da juventude, Duke Ellington e Thelonious Monk, o levaram a escolher o piano.

Em seus primeiros anos como profissional, tocou na banda de Lionel Hampton, quando este esteve excursionando no Japão, e com Toshiko Akiyoshi e Charlie Mariano. Participou também dos discos de Sadao Watanabe, um dos primeiros japoneses a realmente tornar-se sucesso de público e de vendas no ocidente. Como sideman, tocou com Gil Evans, Mal Waldron, Sonny Rollins e um time de peso pesados.

O primeiro disco com seu nome foi “Hino-Kikuchi Quintet”, em parceria com o trompetista Terumasa Hino, em 1968, sucesso no Japão. Nesses anos formativos Kikuchi explorou um amplo espectro de estilos, desde a vanguarda erudita, participando de uma trilha sonora composta por Toru Takemitsu, o pós-bop, fusion music e a música oriental.

O primeiro álbum seu a ter distribuição internacional, foi “Poo-Sun”, em 1970. Estava bem clara a origem das influências sofridas por Masabumi. “Dancing Mist”, a primeira, tem passagens que lembram muito bem “Spanish Key”, de “Bitches Brew”. Como os dois álbuns foram lançados no mesmo ano, é difícil supor se o japonês já conhecia o disco. É mais previdente imaginar que já conhecesse as experiências eletrônicas de “In a Silent Way” e “Filles de Kilimanjaro”. A semelhança com “Bitches Brew” para por aí.

Ouça “Dancing Mist”.



Mas, certamente, pode-se dizer que Poo, como era chamado pelos amigos, guiou-se pelos mesmos caminhos de Miles Davis. Tanto é que em vários álbuns da dessa época teve entre músicos a acompanhá-lo os saxofonistas Dave Liebman e Steve Grossman, o baterista Al Foster, o percussionista M’tume e até o guitarrista Reggie Lucas, todos, que, em horas diferentes, foram membros da banda do mago negro.

Miles e os músicos que o acompanham, com Kikuchi ao fundo
Durante o período em que esteve afastado, Miles chegou a gravar com Kikuchi, mas nada foi lançado. Ficou amigo do trumpetista no início da década de 1970. Era um dos poucos, além de Pete Cosey e Jack DeJohnette que Miles recebia em seu apartamento.

Em 1977, Davis tentou montar uma banda com o japonês, Pete Cosey, Sly Stone e Jack DeJohnette. Sly nem apareceu. Um problema no joelho que obrigou Miles a ser submetido a uma cirurgia abortou de vez o projeto de retorno.

No início de 1978, Davis foi convencido por Julie Coryell a passar uma temporada em Connecticut. Miles no órgão, com o marido de Julie, Larry, Kikuchi e George Paulis nos teclados, T.M. Stevens no baixo, Al Foster na bateria, entraram no estúdio e gravaram alguma coisa. Nunca foi lançado.

No “youtube” tem de tudo. Alguém disponibilizou essas sessões que não chegaram a virar um álbum.




Do elétrico ao acústico
Em “Hollow Out” (1976), estão presentes alguns elementos da nova direção que iria tomar. Em formato trio bateria, baixo e piano, “Little Abi” é uma composição tocada em andamento menos nervoso, lembrando um pouco Bill Evans. “Bell” tem um andamento “quase parando”, característica que foi se tornando dominante em seu estilo com o passar do tempo.

Ouça “Little Abi”



O baixista Gary Peacock tinha participado de vários álbuns de Poo gravados no Japão. Com ele e Paul Motian formaram o trio Tethered Moon. A forma absolutamente pessoal de tocar a bateria de Motian encaixou-se perfeitamente aos novos rumos de Kikuchi. É possível dizer-se que, depois que passou a tocar com ele, deixou para trás as antigas influências. Ethan Iverson, pianista do trio The Bad Pjus, definiu bem o estilo nas liner notes de “Black Orpheus”: “distante, sutil, preciso, opaco”.

Entre 1990 e 2004, lançaram seis álbuns pelas gravadoras Evidence e Winter & Winter. O repertório era variado, desde composições próprias, como jazz standards de Miles Davis, Thelonioius Monk e Cole Porter, além de terem lançados álbuns mais centrados em autores, como “Tethered Moon Plays Kurt Weill” (1995), “Chansons de Edith Piaf” (1999) e “Experiencing Tosca” (2004). Há números mais agitados, mas não é o que predomina.

Ouça “September Song”.



A relação entre o pianista e o baterista foi duradoura. Kikuchi passou a morar em Nova York em 1974. Era o pianista preferido de Motian. Apresentaram-se muitas vezes juntos no Village Vanguard. Sem Paul, morto em 2011, isolou-se, segundo Iverson, “queimando pontes depois de pontes” com o resto do mundo.

O estilo
Nas sessões de “Chanson d’Edith Piaf”, Kikuchi estava insatisfeito com uma passagem. Gary Peacock perguntou-lhe: “O que é que há.” “Não é isso”. “Mas devo fazer como?” retrucou o baixista. “Não sei”, respondeu. O que buscava era impalpável, abstrato, como fica claro nessa frase de Gary: “Desde quando o conheço, ele sabia que tinha algo que não poderia realizar, e isso o guiou. Ele foi atrás disso. Ele não sabia o que era. […] Ele realmente ouve não apenas o que está sendo tocado, mas o poder atrás dele.”

Em 2009, Poo gravou seu primeiro álbum para a ECM. “Sunrise” conta com seu eterno mestre Motian e Thomas Morgan. Para o New York Times, definiu as músicas dizendo que “elas não são avant-garde. Apenas flutuando. Som e harmonia flutuante. Sem canções.” Perfeito.

Ouça “New Day”.




Desde 2005, Kikuchi passava os dias em seu apartamento no Chelsea,  registrando seus improvisos no seu Steinway e ocasionalmente com o baixista Thomas Morgan e o guitarrista Todd Neufeld. A combinação é de que poderão ser lançados futuramente pela ECM.

Antes disso, Eicher decidiu soltar “Black Orpheus”. Todas as faixas são simplesmente numeradas – Tokyo I, Tokyo II, etc. –, pois são, como disse “sons e harmonias flutuantes”. As exceções são a música título, de Luiz Bonfá, e “Little Abi”, composição antiga, que fecha o álbum.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Marvin Gaye e os outros

Capa do CD tributo a Marvin Gaye
O que é uma vida de artista, como certa vez perguntou Sueli Costa. Quando entrava na adolescência, um amigo de meu pai e de um dos empregados de sua loja de fotografia chamado David, chinês assentado, bon vivant, pelo jeito – nunca soube o que fazia –, aparentemente rico, sujeito culto, disse-me que artistas eram diferentes. Tinham de ser diferentes. Era razoavelmente culto e gostava de ler. Os primeiro Hemingway foi sugestão dele. Sei hoje que não é bem assim. Basta o exemplo de Giorgio Morandi, sujeito metódico e autor de uma obra pictórica genial. Era tão metódico que, me parece, tinha uma amante e ficou anos a fazer suas visitas, sempre no mesmo dia da semana e pegando o trem nos mesmos horários.

Mas o lugar comum diz que o artista tem que ser meio maluco. Pensando melhor, a disciplina que está refletida nas geniais gravuras em metal e nas pinturas de Morandi, seu modo sistemático, pode ser considerado maluquice. Mas na visão romântica, artistas são tuberculosos, atormentados, drogados ou alcoólatras. O drama de Marvin Gaye foi o pai.

Marvin Gay, Senior era pregador de uma igreja cuja doutrina era uma mistura de judaísmo com fundamentalismo católico. A convivência, apesar de adorá-lo, sempre foi conflituosa e causou muitos ressentimentos. Por sorte e talento, libertou-se do terrível convívio familiar graças à música. Logo Gaye – acrescentou um “e” ao sobrenome – estava fazendo sucesso. Caiu nas graças de Barry Gordy, dono da gravadora Motown. E não foi só isso: casou com a filha do dono. Arrumou outro pai: Barry.

Ele era o dono da gravadora e sentia-se senhor de seus contratados, principalmente, de Marvin. O sucesso comercial deu-lhe uma certa autonomia e assim pode gravar algo mais pessoal. Gravou “What’s Going on”, em 1971. É um dos melhores discos da história da música popular. “

A relação profissional-familiar degringolou. Separou-se de Anna. Era apaixonado por ela e sabia que tinha uma grande dívida para com ela e seu pai. “Here, My Dear”, de 1978, é o retrato dessa fase conturbada.

Começou a abusar da cocaína nessa época. Resolveu isolar-se em uma ilha no Pacífico na intenção de parar com o vício. Parece que funcionou. Contratado pela CBS, lançou “Sexual Healing”. Estava de novo, como se dizia antigamente, na crista da onda. Se em “What’s Going on” buscava a salvação através da espiritualidade, o Gaye de 1982 proclamava a cura pelo sexo: Levante-se, levante-se, levante-se!/ […]/ Oh, baby, estou quente como um forno/ Eu preciso de um pouco de amor/ E, baby, não posso segurar por muito mais tempo/ Está ficando cada vez mais forte/ E quando sinto isso/ Eu quero a cura sexual/ Cura sexual, oh, baby/ Me faz sentir tão bem/ Ajuda a aliviar a minha mente.

Misturar sexo com religião, às vezes, resulta em curto circuito. Voltou com tudo para a cocaína. Foi morar com os pais. Os ressentimentos voltaram à tona. Seus problemas se resolveram de modo um tanto radical. No dia 1º de abril de 1984, um dia antes de completar 45 anos, foi morto pelo pai com um revólver 38. Morreu pela arma que tinha dado de presente.

Mais de trinta anos depois de morto, Marvin Gaye ainda é lembrado, pelo menos, por mim. Acordei ouvindo uma versão de “What’s Going On” de que não lembrava. Era com Bono Vox. Estava no iPod que eu deixo no quarto, conectado a um Altec Lansing portátil. Procurei pelo CD em casa. Chama-se “What’s Going On” mesmo e é um daqueles feitos para arrecadar fundos para as vítimas da Aids.

Além desse, outros que encontrei foram “Inner City Blues”, de 1995, com Nona Gaye, Boys II Men, Neneh Cherry, Stevie Wonder, Lisa Stansfield, dentre outros. Outro disco tributo é “Jazz Loves Marvin Gaye”. Dentre os participantes estão Gato Barbieri, Quincy Jones, Grover Washington Jr., Mongo Santamaria e Regina Carter.

Como de costume, esse tipo de coletânea é irregular, mas sempre tem boas surpresas.

Veja o clipe de “What’s Going On”, com Bono Vox e Chris Martin.



Em viagens, como não existia a facilidade de hoje, ainda na época dos LPs, passava em lojas como Tower, HMV e J&R uma vez por dia. Ficava fuçando tentando “descobrir” algo que ninguém conhecia. Provavelmente, por causa de“ Inner City Blues” e da capa, comprei um LP de uma banda chamada Working Week. Nunca tinha ouvido falar. Não decepcionou. A versão deles da música de Gaye era fenomenal. Ouça.



Veja também a de uma apresentação que descobri no YouTube.


No CD tributo “Inner City Blues”, é muito boa a da música título, com Nona Gaye. Acho que é filha de Marvin. Veja.